O Medo do Desconhecido

Agosto 28, 2016 - Leave a Response

Baía de Luz, 2016

Tem-se medo do que se desconhece como quem acorda, esfrega os olhos e não vislumbra o dia que amanhece, nem se ergue, nem solta as amarras, nem se faz ao largo, sulcando destemidamente a venturosa aventura da vida que acontece!

Estórias de Meninas – As Manas e as Senhas de Saída

Agosto 28, 2016 - Leave a Response

As Asas da Maré Vasa, 2016

As quatro manas, umas já sem tranças, e outras ainda com elas, gostavam muito de ir aos bailaricos da aldeia, quer fossem nos salões das sociedades, quer fossem na distinta Esplanada, que organizava bailes temáticos com atribuição de prémios, quer fossem nos famosos mastros dos Santos Populares!

O pai, severo nas saídas, tal como na preservação das tranças das suas princesas, evitava e/ou desviava as conversas “bailarinas”, mas… astutas e persistentes, as manas aproveitavam-se dos momentos em que algum compadre ou amigo era recebido lá em casa para o presentearem: três delas com garrafinhas de vinho, que eram muito bem acolhidas, e com as quais obtinham de imediato a permissão para a saída, mas a rebelde e inteligente Tó, mais velha do que as irmãs, optava por um maço de tabaco, o que contrariava o seu progenitor, que punha reticências à autorização, facto que nunca a impediu de satisfazer o seu desejo, se bem que, sem a “senha de saída”, se arriscasse a alguma penalização posteriormente, à qual respondia com um vitorioso sorriso, senhora da sua igualdade de direitos, que defendia!

O Desamor

Agosto 27, 2016 - Leave a Response

Dança de Véus com Coroa Turquesa, 2016

O desamor é um repuxo de lágrimas, cantarolando desafinadas canções de amor rimando com dor, que abafam e apagam o calor dos afetos num deserto sem vida!

A Tempestade da Avareza

Agosto 27, 2016 - Leave a Response

Escorrega de Ondas, 2016

A tempestade da avareza é a noite fria de tristeza, despedaçando-se nos rochedos da cega soberba mal trajada de pacíficos desejos e com o coração rasgado de pobreza!

Gente Boa da Minha Aldeia – As Resistentes Manas-Amigas

Agosto 21, 2016 - Leave a Response

Beijos de Ondas, 2016

Bonitas, sorridentes, distintas, as manas-amigas foram sempre a admiração da gente da nossa aldeia!

Presentearam-na durante décadas com a sua educação, simpatia e qualidade no desempenho profissional, abraçando indiscriminadamente todos os clientes do comércio local, e os turistas, no atendimento da área comercial, mas em âmbitos diferentes!

Orgulho dos seus pais, familiares e amigos, viveram a radiosa felicidade do nascimento de uma fantástica criança que durante anos iluminou a vida e encheu de alegria os seus corações e dos amigos, bem como as casas dos pais e dos avós, até… ao dia da sua terrível e precoce despedida, acolhida no Céu pelo seu progenitor, a qual orvalhou de profunda e perene dor e saudade o seu dia-a-dia, e turvou para sempre de incompreensível e inaceitável tristeza os seus amiguinhos!…

Os anos foram passando e um dia, as manas-amigas, saíram ambas do berço perfumado do Menino de Ouro das suas vidas, para apoiar os idosos pais.

Um dia, o pai, homem rijo, sociável, corajoso pela água salgada que transpirava dos seus poros, sempre muito carinho com a Menina Azul, filha de um grande amigo, que o tratava por: “Sr. Pastilha”, pois desde tenra idade que, sempre que se encontravam, a presenteava com uma pastilha Rennie, indicada para a azia, cujo sabor a deleitava, e que festejava o seu aniversário no mesmo dia que ela, alguma vezes juntos, com a sua esposa, deixou para sempre os seus óculos de lentes grossas, que tornavam os seus olhos mais pequeninos do que realmente eram, mas as suas memórias e o eco da sua voz máscula, pausada e um pouco rouca ainda voam na brisa marinha…

A mãe das manas-amigas, uma senhora com porte de rainha, sempre cuidada no vestir e no penteado, num estilo simples e simultaneamente distinto, adoeceu há anos, acabando por ficar acamada.

Carinhosas, dedicadas e zelosas, de uma unicidade rara, as filhas passaram a dedicar a sua vida exclusivamente aos cuidados da mãe que vive pelas suas mãos e pelos seus corações, dirigindo-lhes sempre palavras de ternura sem um suspiro de desalento ou qualquer laivo de queixa, mesmo quando as forças lhes faltam, vencendo as suas próprias dores, o cansaço e as limitações físicas que os anos também lhes trouxeram com o um verdadeiro e exemplar amor!

Neste manto de amor paira uma certeza nas manas-filhas-amigas: se a mãe tivesse consciência, choraria de por elas, e quereria partir imediatamente, libertando as suas meninas de “trabalhos”, beijando-as e abraçando-as com a grata imensidão do seu grande amor de mãe!

As pessoas boas nunca estão sós, por isso, as manas-amigas vivem abraçadas por muitos corações pulsando com os seus!

Bem-Hajam!

A Negação da Idade

Agosto 21, 2016 - Leave a Response

Beleza Perene, 2014

Não é a idade que torna velho quem continua a crescer na sabedoria do dia-a-dia, mas a mentalidade empobrecendo pessoal e socialmente quem nega a realidade da bela riqueza da seara que amadurece, e se mascara exasperada e levianamente de inadequada e inoportuna jovialidade não vivida, mirando-se num espelho partido de Bela Adormecida, perdido nas marés da vida!

Sorriso do Dia – Abraços-Marés

Agosto 20, 2016 - Leave a Response

Mar Nosso, 2016

Infantes risonhos e robustos, ela e ele, abraçam-me repetida e interminavelmente com a inefável ternura que brota da fonte das suas essências, fazendo renascer espontâneos, recíprocos e cintilantes sorrisos repassados de renovadas e incessantes marés de alegria!

Estórias de Meninas – A Menina das Tranças e o “Rolo” para o Cabelo

Agosto 20, 2016 - Leave a Response

Menina

Um dia, o pai, muito zangado porque a filha das grossas e negras tranças se apresentara em casa sem elas, voltou-se para a menina mais nova, e disse-lhe:

– A sua irmã cortou as suas lindas tranças sem a minha autorização. Agora a menina vai cortar as suas, porque quem manda sou eu!

A menina das trancinhas castanhinhas fitinhas deu um pulo de contentamento, abraçou o pai, correu a comunicar a boa nova à mãe, que estava na cozinha, um espaço independente da “casa de família”, e apressou-se a ir ao popular e famoso cabeleireiro da sua aldeia.

Mas… a sua alegria encurtou-se como o seu cabelo, pois, não obstante tapar-lhe todo o pescoço, sentiu-se um tanto ao quanto despida.

Resoluta, pois não queria que os seus cabelinhos andassem espetados, e conhecedora dos truques das senhoras para andarem sempre penteadas e com a extremidade dos cabelos enrolados para dentro, agiu rapidamente.

Arranjou um pedaço de tecido velho, talhou um “chouriço” e coseu-o, exceto numa extremidade. Depois pediu licença à mãe para ir buscar areia branquinha a um medo (duna) próximo, e encheu-o, fechando-o com fortes pontos. Pôs nastros nas pontas e todas as noites agia como uma cabeleira especialista, prendendo o cabelinho no rolo, e atando-o no cimo da cabecinha para não cair.

De manhã, sem queixas de dores no pescoço, que nem os anos fizeram sentir, tirava-o, penteava-se e, com o cabelinho enrolado nas pontas, olhava-se para o pequeno espelho, sorria e deixava escapar um alegre e orgulhoso:

” – Linda!”

Passaram-se décadas e décadas, e ainda hoje a menina das trancinhas castanhinhas fitinhas mantém o nível do corte de cabelo e, mesmo pedindo à cabeleireira para o escadear ligeiramente atrás, preserva o seu estilo enroladinho para dentro, se bem que mais discreto!

O Julgador-Julgado

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Contrastes de Cores e Forças, 2014

Quem julga, pensando não ser julgado, está a julgar-se, condenando e condenando-se, cego e adormecido, coitado!

A Pobreza da Linguagem

Agosto 15, 2016 - Leave a Response

Bruma do Tempo, 2014

A pobreza da linguagem não reside na supressão das letras, nem na sua junção, nem no aumento de vogais, nem na troca das consoantes, nem na conjugação regular dos verbos irregulares.

A pobreza da linguagem reside na expressão do coração, arrotando fétida maledicência, afirmando difamação, negando uma palavra, um gesto ou um ensinamento de mestre de escola, enchendo, na comum limitação humana, a sacola do mau aluno de aprendizagem de trazer sempre à mão com retalhos de saber, que fugiram à razão!

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