As Cartas de Amor para o Faroleiro

Setembro 6, 2017 - Leave a Response

O casal Mirita e Alção zangara-se, e o marido, de profissão faroleiro, se bem que aposentado, retirou-se para a sua antiga habitação no recinto do farol que, naquela época, era, de facto, um condomínio fechado – dir-se-ia que as casinhas térreas reforçavam os muros caiados de branco, tal como as suas paredes.

Ele andava muito triste, mas ia ajudando os colegas, sobretudo a polir os amarelos e nos arranjos do jardim, atividade que também desenvolvia no seu doce lar – havia crianças do bairro, situado num terraço de mar, que até o identificavam pelo seu incansável regador.

Saudosa do marido, e arrependida com o seu incorreto comportamento, a Mirita não sabia o que fazer, pois já se deslocara várias vezes ao farol, e o seu amado recusara-se a recebê-la.

Um dia, quando entrou no lugar para comprar fruta, viu a Didi, a linda filha da tia Lina e, de repente, teve uma ideia.

Esperou pela oportunidade, e quando a tia Lina saiu com o saco das compras, dirigiu-se à menina.

” – Didi, tu é que podias fazer um grande favor à Mirita. Ouvi dizer que sabes escrever muito bem. Preciso de mandar uma carta ao meu Alcão, para me explicar, pedir-lhe desculpa, dizer-te quanto gosto dele e que volte para casa. Fazes-me este favor?”- suplicava, aflita.

A menina pensou e repensou, e achou aquela ideia muito interessante; depois respondeu-lhe:

” – Se for uma carta de amor, pode contar comigo. Trouxe o papel e o sobrescrito?”

A Mirita, visivelmente feliz, jogou a mão ao bolso do avental e estendeu-lhe o que lhe pedira.

Então, a desgostosa esposa começou a ditar a carta de amor cuja intensidade das palavras do coração regadas com lágrimas iam impressionando a Didi.

Esta fora a primeira de algumas cartas de amor da Mirita para o seu “farolão”, como ela o tratava no meio de outros termos mais doces, que a menina nunca ouvira, mas que lhe pareciam bem, por serem de amor.

Decorrido algum tempo, a água da bica entoava no regador de zinco do marido da Mirita, e lá ia ele cumprimentado alegremente as crianças, que faziam uma festa com o seu regresso e continuavam a admirar as suas calças de ganga com peitilho e as camisas de xadrez de mangas arregaçadas.

A escrivã das cartas de amor ficou muito contente por ter contribuído para a reconciliação do casal, aceitou o comovido agradecimento da Mirita, e as flores que o seu marido colheu no seu jardim e lhe ofereceu.

Anúncios

A Liberdade

Setembro 6, 2017 - Leave a Response

O poema da liberdade é a arte da paixão bordada com fios de seda coloridos no coração!

Enganar-se e Mentir

Setembro 6, 2017 - Leave a Response

Quem se gaba dos seus fracassos como factos heróicos, está a enganar-se jocosamente, enquanto mente a si próprio, e mente a toda a gente!

Julgador-Julgado

Setembro 6, 2017 - Leave a Response

Julgar o outro é espelhar-se na luz dourada da madrugada ou perder-se na escuridão da encruzilhada.

Estórias de Meninas – A 1.ª Comunhão da Didi

Setembro 5, 2017 - Leave a Response

No ano em que nasceu a primeira sobrinha da Didi, quando esta tinha nove anos, a sua felicidade foi marcada por mais um grande acontecimento: o dia da sua 1.ª Comunhão Solene.

A Didi, como recordou, embevecida, “estava vestida de Anjo, muito bonita, de branco”, e as outras meninas também, excepto uma, a mais alta de todas elas, com uma túnica da mesma cor, mas com o Sagrado Coração de Jesus no peito, a qual se encontrava junto ao altar, chamava-as com as mãos, cantando:

“- Vinde, vinde criancinhas
Sois riqueza, força e luz.
Vós sois minhas e só minhas.
Comungai, eu sou Jesus.”

A voz das meninas-anjos ecoava, em coro:

“Ao subir àquele monte
Temos sede e temos fome.
Vós sois a água da fonte,
Vós sois o pão que se come.”

Tudo era perfeito! Até a mãe da Didi conseguira sair do trabalho para vê-la!

E… o jejum, imposto desde a hora do jantar do dia anterior até às 12:30, suportável, pois no final da cerimónia esperava-os uns bolinhos na sacristia…

Também fiquei a saber que havia meninos, noutra ala, a fazer a 1.ª Comunhão, porque um, ora homem maduro, claro, o mencionou, mas… o repetido cântico da Didi não deu espaço para… a capa que ele vestia distintamente naquela dia entrasse na narração da celebração… – talvez na próxima revisitação às memórias da infância!…

Levedar as Más Lembranças

Setembro 5, 2017 - Leave a Response

Alimentar a vida com: “- Eu só me lembro das coisas más!” é cortar as espigas da primavera do dia-a-dia e pôr a levedar a amargura num alguidar quebrado de alegria!

A Patinha-Ceifeira e o Pão da Meia-Noite

Setembro 4, 2017 - Leave a Response

A patinha-ceifeira nasceu e vive no saquinho de pão da cor do solo alentejano, que foi o seu berço.

No verão, a patinha-ceifeira sai à noite na sua casinha, aconchegada dentro da bolsinha da sua senhora.

Dá uma volta pela praça, para ora aqui, ora ali a cumprimentar os amigos e os conhecidos, desce a rua principal, espreita pelo fecho, que fica um pouco aberto, à espera de vislumbrar uma luzinha na Ilha, e, por volta das vinte e três horas, aproxima-se da padaria onde já encontra uma fila de gente de toda a idade, e magotes de adolescentes faladores e engraçadinhos – uns sim, outros não – à espera de devorarem o pão com chouriço, as bolas de Berlim, as pupias, as trouxinhas bem recheadas, os esses e vários bolos fofinhos, tenrinhos, quentinhos, empadinhas e outros acabados de sair do forno!…

Quando a padaria abre, lá está o distinto e simpático siniense, que escolhe esta noturna diversão de verão, com o seu alvo chapéu-de-pasteleiro, a sua blusa verde alface legendada nas costas, para apaziguar os ânimos da impaciente clientela, onde se pode ler com letras gordas:

Com calma que estamos no Alentejo

Há quem peça licença e lhe tire fotografias, e até algumas poses, todos cheios de alegria.

À sua conterrânea, que desfruta da sua casa de férias naquela aprazível localidade, com uma praia considerada uma das dez mais belas do mundo (2015), pergunta, quando ela lhe pede um pão, que já sabe destinar-se à tibórnia* da ceia:

” – “Atão” e o “talêgo?”

” – Está aqui!” – responde a cliente expedita e muito sorridente, tirando-o da bolsinha, e entregando-lho.

Burburinho à volta, perante o termo desconhecido.

“O que disse?” – pergunta o “fotógrafo”.

O distinto e simpático siniense, enquanto fazia as contas à sua conterrânea, à mão, com prova e tudo, apontou para um exemplar que estava pendurado, a que eu designaria um “legítimo talêgo”, um saco de pão tradicional, não com uma patinha-ceifeira, nem com uma seara, nem um moinho, nem um forno bordados, mas feito de retalhos de tecido variado.

E…

Saí, sorrindo e cogitando se o Sr. não conhecia o nome, ou se a falta do [i] no taleigo tornaria o vocábulo numa variante da língua, tornando-o numa riqueza do falar alentejano.

* Tibórnia ou tiborna – pão quente embebido em azeite com alhos picados e sal.

O Perdão e o Refrão

Setembro 4, 2017 - Leave a Response

Não há amor sem perdão, nem canção sem refrão!

Sorriso do Dia – A Pagizinha e os Nossos Presentes

Setembro 4, 2017 - Leave a Response

O sorriso da Pagizinha vestia o meu pensamento de luz, que se intensificava ao aproximar-se, e ia pulando no meu coração!

O seu olhar envolveu-me de doce alegria e o seu abraço foi a explosão de carinho que só ela sabe expressar com a grandeza do seu ser!

Nas suas delicadas e determinadas mãozinhas, trazia um alguidarinho com peixe fresco.

Dirigiu-se à cozinha e estreitou nos seus braços a sua companheira de viagem no autocarro urbano sem barreiras de idade, de equilíbrio, de traços de seda no seu rosto de menina, contrastando com os sulcos talhados pelos anos da sua amiguinha!

A minha afilhada-amiga não se manifestou, talvez por não estarmos sozinhas, mas percebi como, com a sua sensibilidade, inspirou o aroma dos bolinhos acabados de sair do forno, alguns dos quais, como havia pensado, coloquei num pratinho seu que aguardava na dispensa para ser devolvido com docinhos, que desta vez incluíam fatias de salame, nas respetivas caixinhas, saídas das mãos da sua amiguinha.

Quando a Pagizinha saiu, olhei para um saco de pano cru que tinha sobre as costas de uma cadeira, propositadamente para ela, e chamei-a, tendo-lho oferecido, já com desenhos, numa face de mar, na outra de campo, não da minha autoria, frisei, que ela poderia pintar ou bordar, podendo contar comigo para esta possibilidade – a arte do pincel é da sua mãe e sua.

A Pagizinha ficou eufórica, agradeceu e desceu com o saquinho na mão e asas no coração!

A Mentira Mascarada

Setembro 4, 2017 - Leave a Response

Não se ajuda a si próprio, nem ninguém a crescer quem esconde a verdade, e mente para bem parecer!