Sorriso do Dia – O Acenar do Mar

Outubro 23, 2017 - Leave a Response

O mar acena à luz da madrugadora janela com o sulcar do pequeno barco à vela, viajante do mundo, quase um marujo pisando airoso a terra, admirando-a e sorrindo para ela, seguindo o ondular da sereia-bela, namorando o céu estrelado e o luar encantado, quadro pintado com as aguarelas da poesia, salpicando o dia turquesa de alegria com carícias coceguentas e aveludadas de melodioso:

” Bom Dia! Bom Dia! Bom Dia!”

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Estórias de Meninas – A Miragem da Avó

Outubro 23, 2017 - Leave a Response

Um dia, a Mizé entrou ma cozinha para beber água e aproximou-se da janela.

O silêncio matinal quebrou-se naquela casa, pois a menina começou aos gritos:

” – A avó! A avó! A avó!” – repetia, aflita, apontando para o exterior.

Os pais e o irmão, mais novo do que ela, acorreram, estupefactos.

” – Qual avó? Estás parva? A avó já morreu!” – observou o pai.

” – A avó! A avó! A avó!” -insistia a Mizé em pânico.

A mãe aproximou-se serenamente da janela seguida pelo curioso filho.

A Didi esboçou um tranquilizador sorriso, se bem que tivesse estremecido com a imagem que avistara.

” – Ó Mizé, não vês que é a vizinha, a quem a mãe deu a roupa da avó, que resolveu usá-la?!… Mas, filha, a mãe reconhece que tivesses ficado chocada e confusa, até! Vamos preparar o pequeno almoço?”

” – Mãe mais bonita do que o céu estrelado, podes fazer fatias de ovos?” – perguntou o menino.

E a angustiante miragem da menina foi-se dissipando com a primeira calorosa e apetitosa refeição tomada harmoniosamente em família.

A Fraqueza do Convencido

Outubro 23, 2017 - Leave a Response

A fraqueza do convencido é a auto-confusão da falta de (re)conhecimento da sua limitação, com fundindo-se na pobreza do usufruto ora subtil, ora descarado da riqueza e da fortaleza alheia.

O convencido não convence ninguém, além de si próprio; falta-lhe a franqueza! – Enfim! É uma fraqueza.

Lágrimas de Cinza

Outubro 23, 2017 - Leave a Response

São lágrimas de cinza as que secam os olhos da “ocidental praia Lusitana”, queimam os corações de dor, vestem de luto a nudez das montanhas, mascarram as mãos vazias e calejadas, revoltam os mares de navegantes e pescadores, chamando a chuva na noite chorosa e desabrigada…

São lágrimas de cinza as que entristecem a clara luz da madrugada, limpando-as com pétalas orvalhadas de solidariedade reconstruída com esperança repartida, plantando pão nas espigas que trazem ao peito, sussurrando no parco e frio leito uma canção que se chama: vida!

São lágrimas de cinza as que regam a terra quente e ressequida, fazendo renascer os corcéis de força vencedora, erguendo os braços na destemida fúria de quem acredita e faz anunciar uma nova primavera em que todos são guardas-florestais, guardas-rios, guardadores de gado, vigias, pedreiros, calceteiros, agricultores, poetas, médicos e enfermeiros das suas e de outras dores, crentes e descrentes, pobres, sonhadores e senhores desta Pequena-Grande-Nação!

Abraço, Portugal! – não há terramoto que te aniquile, nem tempestade sem porto que te abrigue, nem fado que te cale!

A Sombra do Sorriso

Outubro 22, 2017 - Leave a Response

Esconder o sorriso é roubar a luz ao dia, é adormecer o siso à mocidade do tempo, é olhar para a tempestade sem içar as velas, é desenhar a sombra do arco-íris com palavras sem melodia, é esquecer o sorriso que, com e para o teu sorriso sorria, em sintonia festejava a vida, erguendo a inefável e transbordante taça da alegria, lambuzando os lábios de doce maresia!

O Popular Poder da Aguardente

Outubro 22, 2017 - Leave a Response

Dizia, entre si, a sabedoria popular…

“- Viva a aguardente, que salva a gente!” – gritou o andrajoso a quem as crianças chamavam: “Valente!”

“- Diz que salva, pois!” – aplaudia a ti´Rufina! Ao mata-bicho, aquece tudo por aí abaixo, que é uma beleza! Ainda está p`ra nascer quem não faça caretas com aquela pólvora!

” – É remédio santo quando a magana da constipação engraça com uma pessoa! É só prantar-lhe um colher de mel, que a mezinha está pronta!” – retorquiu o ti´ Miquelino. Há quem diga que tira a azia “condo” as mulheres estão prenhas, e que os gaiatos até nascem com mais cabelo!

Presenciando a prosa, eis que uma dúvida se levanta…

“- Ó mãe, “atão” se a aguardente é uma coisa tão boa, porque é que o avô compra na venda do ti´ Chico em vez de ir à farmácia da Dr.ª Sãozinha, se, ainda por cima, aquilo tem álcool?” – perguntou, intrigado, o Toninho.

” – Olha, filho, na botica, que a mãe se lembre de ouvir falar, só se vendia, além do álcool normal, um mais forte, mas era para as mulheres fazerem licores em casa e levaram à mesa nos dias de festa, e não para mata-bicho nenhum. E também havia a cerveja preta, para fortalecer logo ao pequeno almoço com gema de ovo, mais para dar vigor aos moços, mas devia ser um remédio, pois claro!” – respondeu a Dália, a moça mais jeitosa da aldeia.

A Negação da Paternidade

Outubro 22, 2017 - Leave a Response

A expressão máxima da negação da paternidade não está na legitimidade, mas na crueldade da perene rejeição do coração!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Terceiro Desejo

Outubro 22, 2017 - Leave a Response

Quando eu for grande, quero ser a doce brisa e limpar as dores e a saudade das lágrimas dos corações tristes!

Quando eu for grande, quero ser a carícia da manhã, despertando os olhos nublados para o dourado veludo do dia!

Quando eu for grande, quero ser a mão da esperança, renascendo os sentidos dos enrugados rostos, pintando-os de luz!

Quando eu for grande, quero ser a letra miudinha do caderno de significados das palavras de cristal escondidas no delicado dedal e sob a pedra preta do predileto anel ancestral!

Quando eu for grande, quero ser o florido traço de união entre a vida social e a solidão, dando a mão à cansada desilusão de quem se perdeu no caminho e já não sente o perfume do mar, nem a intensidade da terra molhada, nem pisa o chão a escaldar!

Quando eu for grande, quero ser a menina morena da distinta etnia, que se aproxima à porta do mini-mercado e já não pergunta, na sua justa inocência, pelo marido, filho ou filha, que não está ali para ajudar a levar as compras, mas que, generosa e expedida, pede licença e pega nos sacos!

Quando eu for grande, quero ser o cantante passarinho que poisa no teu ombro, brinca com a tua mão, vai à tua frente e roda à tua volta, como alado e entontecido pião, chamando a tua atenção para a primavera que ainda sopra e pulsa discreta e rica de memórias no teu cansado coração!

Sorriso do Dia – A Magia do Dia

Outubro 22, 2017 - Leave a Response

A magia do dia é o transbordante sorriso que abraça o amor e vai ali ajudar o vizinho, que está sozinho, “coitadinho”, dar levar-lhe um miminho: um caldinho quente, um peixinho fresquinho, um pedaço de bolinho, ou perguntar-lhe serena e sem pressa como se sente, ficando com ele um “bocadinho”…

Estórias de Meninos – O Feliz Petiz

Outubro 22, 2017 - Leave a Response

Corria no brilhante alcatrão de envergonhadas gotas de chuva envernizado o feliz petiz de ralo cabelo alourado com um ténis encarnado no pé esquerdo e o direito desnudado, olhando para trás, dando repetidas e trémulas gargalhadas, veloz, sem ser apanhado pelo moreno e jovem pai, empurrando o carrinho donde o aventureiro se escapara, e perseguindo o seu menino, que algum atento e devoto hábito diria atraído pela celebração que ocorria em língua francesa lá bem do outro lado…

O feliz petiz corria, corria, corria, e saltava, ziguezagueando entre os lentos peregrinos, sem ser visto, nem agarrado, convidando, atrevido na sua liberdade, o pai que sorria, e também já corria, sem largar a sua carga com rodas, que lhe prendia as mãos e pesava nos pés, distanciando-o da sua amada, animada e divertida meta…