Archive for Setembro, 2013

Canta, Galo Português!
Setembro 30, 2013

Alentejanos, 2013

Que o cantar do galo português acorde a democracia!

Que o povo se espreguice!

Que homens e mulheres se levantem da posição de gatas!

Que os cidadãos olhem para si e para os grandes feitos da História!

Que cada um defina metas!

Que todos comecem a caminhar!

Que o país plante pinhais de dignidade na ocidental praia lusitana!

Gente Boa da Minha Aldeia – O Livreiro
Setembro 30, 2013

Maré Vaza, Pedras, 2013

Um dia, no meio de uma conversa, um casal amigo convidou-me para acompanhá-los à inauguração de uma livraria – estava quase na hora!

A porta encontrava-se entreaberta e lá dentro, perto da montra, um casal: ela, uma menina de porte delicado com algo vermelho escuro vestido, o mesmo tem que usaria no último dia em que a vi; ele um homem frontal, sorridente!

– Conheço-o! – disse para mim, reconhecendo-o sem saber donde!

Os preparativos para a abertura estavam em curso, e o evento ficara adiado, informou-nos o livreiro, sugerindo-nos gentilmente:

“- Mas, se quiserem, podem ir vendo o que já está exposto!”

Agradecemos, e admirámos as obras entre sussurros para não acordarmos os escritores, nem perturbar os donos do museu dos livros, que a minha aldeia, já a entrar na idade adulta merecia.

Despedimo-nos com simpatia, e agradecimento recíprocos!

E… o livreiro seguiu-nos com o olhar, elevando um livro na mão, que parecia querer dizer-nos: Voltem sempre! Estou à vossa espera!

Mas… perdida num emaranhar de compromissos e de tarefas não voltei no dia da inauguração!

Os dias e meses foram passando, e  comecei a  frequentar a livraria no anonimato onde era muito bem acolhida, tal como todos os clientes.

A delicada ternura da esposa do livreiro estava expressa não só no trato como em todos os embrulhos com pequenas mostras da riqueza da flora do litoral, ou um rebuçadinho, se  o destinatário do livro era uma criança.

Um dia, soube que a esposa adoecera, encontrando-se hospitalizada!

O livreiro denotava uma dor profunda misturada com um estado de hibernação em relação ao mundo que o cercava, esperando que o sol da esperança raiasse!

Todos os amigos, clientes e conhecidos se curvavam perante o seu sofrimento, estremecendo no doloroso e insistente silêncio da vida, que não a chamava!

A notícia da partida da senhora-menina tocou todos! Mas, a ninguém como ao destroçado esposo, um farrapo humano, que apenas conseguia arrastar-se amparado num gemido profundo que se perdia no mar da sua infinita dor!

Os tempos seguintes foram de permanente mergulho nas vagas da tristeza: o livreiro falava mudo, parecia ouvir mal, deambulava de cabeça baixa e olhos apagados, visitava a praia, pedindo para as ondas o levarem!

Mas, um dia, o livreiro olhou para outra menina e… descobriu que ela era um conto de encantar! Daqueles contos que se lêem e tornam a ler, e… que apetece continuar a andar com as folhas para trás e para a frente sem parar, porque  tem sempre algo de novo para nos dar, e… deixar perfumados de essências!

E… quanto mais lia, mais o livreiro sorria!…

E… erguia a cabeça!…

E… falava!

E… ouvia, às vezes, quando o pensamento estava perto de nós!

E… descobria novamente insetos poisados nas folhas e nas flores, e nuvens nos telhados, e… tirava fotografias!

Um dia, a menina que, afinal, era uma princesa, que o livreiro tornou rainha, colocou nas suas mãos uma linda princesinha lourinha!

Então, o livreiro, de mão dada com a sua menina-mulher-rainha, recomeçou a olhar o mundo pelos olhos da sua princesa!

Dez anos depois da inauguração da livraria,  este ano, dias antes de o verão chegar, aceitei o convite do livreiro, e ouvi-o recitar poemas e excertos de estórias, dos seus autores preferidos, e  ler  publicamente, pela primeira vez as suas escritas, bem bonitas e sentidas, algumas que já conhecia, mas… que pareciam em folha como um bom livro!

Ah! Como o meu coração saltou de alegria!

O livreiro era um homem novo!

De peito aberto!

De voz firme e pausada como a música do seu coração!

De olhos falantes!

De sorrisos de arco-íris!

De passos felizes como nunca o vira!

E… entrecruzava olhares discretos e profundos com a sua terna, atenciosa e emocionada rainha!

E… deixava-se encantar pela sua princesinha de colar de alguém, enorme, ao pescoço, seduzindo-o de encantos!

Está tudo bem nesta linda família de um homem renascido como uma árvore na primavera!

E… com os livros também,  já que a sua relação é de amigos, se bem que o livreiro, um legítimo alentejano, que convida escritores, trazendo a cultura até à nossa aldeia, padeça de uma certa  “ralação”, porque  grande parte das obras são do tipo lapa, e não largam… a rocha – será loja?!…

Mas… uma livraria não é uma loja, porque esta palavra sugere, de imediato, roupa!

E… os amantes da escrita, núcleo em que o livreiro se inclui, são mais… um pronto a despir a alma e a imaginação!

Pronto! A livraria é mais… uma ourivesaria – está explicado!

Ah! Querem saber como descobri que conhecia o livreiro?!… Eu conto-vos!

Um dia, uma antiga colega  e amiga perguntou-me telefonicamente se ele, que fora seu colega de curso, e nosso companheiro de bar nos escassos momentos disponíveis, tinha uma livraria na minha terra, avivando-me a memória!

Demorei anos a apresentar-me ao colega livreiro, se bem que fosse tratada com toda a gentileza como os demais clientes!

E tive o prazer de receber igual tratamento da sua parte em relação à sua princesa encantada, que o desencantou e restitui-o ao amor e à felicidade!

A Verdadeira Inteligência
Setembro 30, 2013

Caminho para o Mar, 2013

A verdadeira inteligência é a luz que capta a astúcia alheia, convencida de que está a ludibriar os outros, e que prossegue o seu caminho, agindo no seu sábio silêncio, deixando os espertalhões correndo e tropeçando em si próprios, enganando-se!

A Gota de Chuva
Setembro 27, 2013

Gotas de Chuva, 2013

Colhe uma gota de chuva na tua mão, sopra-a com o doce calor do teu coração, e  voa num colorido e leve balão com a tua imaginação!

Degraus Rendilhados de História(s)
Setembro 27, 2013

Degraus de Lisboa, 2013

Nos degraus carcomidos pelo tempo, escorregam lágrimas suadas de homens laboriosos, transparecem olhos tristes de mulheres cansadas com crianças silenciosas pela mão, deslizam sombras de penas de poetas com histórias de encantar, e rimas de enamorar e de chorar, saltitam brincadeiras de meninos de rua, fazendo recados, vendendo jornais, contando tostões, e cintilam sorrisos de namorados, construindo sonhos com doces beijos apadrinhados pelo voo das gaivotas galhardas, e pelo arrulhar dos pombos pensadores!

E… no cais entram e saem barcos vestidos de esperança com corvos na proa e varinas nas velas, rasgando o Tejo através dos tempos, trazendo auréolas dos descobrimentos com espirros de pimenta, e lábios perfumados  de canela, apregoando lendas com sombras bordadas, e rendas nas pontas crivadas de História e de rostos sem ela!

Os Sapatos de Cristal
Setembro 27, 2013

Pedras à Beira do Caminho, 2013

Não são as pedras do caminho que magoam os pés descalços, mas os sapatos de cristal que se partem ou se afundam no areal!

A Capa do Super-Homem
Setembro 27, 2013

O Chapéu da Fantasia, 2013

A fantasia da frágil  fêmea seduz o sábio mancho, que voa na ilusão da capa do super-homem com inchaço!

Estórias de Meninas – A Tina e as Bolas de Cisco da Mãe
Setembro 23, 2013

Crianças by lusografias

A Tina olhava para as tímidas línguas do carvão, cintilando no seu vestido preto, e estendia as mãos, aquecendo-as com movimentos fugidios, recordando-se da braseira da sua infância.

Revia os irmãos a transportar o barro, e a mãe a misturá-lo cuidadosamente com o cisco, juntando água, moldando bolas ou queijos, que depois expunha ao calor do sol para secar, voltando-os!

Posteriormente, os “moços” levavam-nos para a arca onde ficavam guardados, para mais tarde irem ateando o fogareiro, que cozinharia os alimentos nos tachos areados, e aqueceriam os corpos mal agasalhados e a casa arrefecida pelas agudeza do inverno, crepitando na braseira.

E… sentindo o frio da saudade, arrastando-se pelos anos, a Tina mexia as brasas, desenhando sonhos desvendados de amores perdidos,  pintando manhãs de primavera com voos de papagaios de papel , saboreando os perfumes de roupa lavada no rio, esvoaçando no dorso outonal do vento,  saboreando os doces sabores de maresia nos lábios lavados de sal, escorrendo nos seus longos cabelos!

O Balão da Arrogância
Setembro 23, 2013

Bonecos Insuflados, 2013

A arrogância é um balão auto-insuflável, que sobe, sobe, sobe!

E… de tão pesado inchaço, cai!

E… rebola, rebola, rebola à toa, à procura de espelhos!

E… murcha  à beira da estrada sem ter avistado o sol da manhã nas paredes brancas da humildade com telhados floridos de doces sorrisos, e janelas abertas para o jardins da alegria com pássaros nas árvores do saber!

Os Deuses da Imaginação
Setembro 23, 2013

Estruturas da fantasia, 2013

Os deuses da imaginação criam mitos à sua volta, trepando por colunas de papel amarrotado pelo tempo, derretendo-se à chuva da realidade!