Archive for the ‘Pisca-Piscas Pensadores’ Category

A Petrinha e o Pedrinho – Os Sonhos
Maio 1, 2019

– Petrinha! Petrinhaaa!

– Sim, Pedrinho! Conta-me! O que te aconteceu, ou viste, ou ouviste?

– Petrinha, nem uma coisa, nem outra!

– Hum! Já sei, Pedrinho! Temos cogitações, não é verdade?

– Por acaso, Petrinha, não é verdade!

– Então, Pedrinho?

– Sonhos, Petrinha! São sonhos o que te trago hoje.

– Ah! Ah! Pedrinho. Onde trazes os teus sonhos?

– Aqui, Petrinha, na minha imaginação ligada por um fio dourado ao meu coração.

– Oh! Pedrinho! Estou pasmada com o teu mundo dos sonhos. Pensava que era um simples sonhar acordado, uma viagem a dormir, ou até dares um salto a meio da noite ou de manhã, assustado.

– Petrinha, é um sonho dos que vive acordado. Percebes?

– Mais ou menos, Pedrinho. Tu sabes que os meus sonhos são à medida dos meus passos.

– Estás a pensar como aquele jogo de que os tios falam de: passinhos a bebé e passos à gigantes? Então os teus são o número que tu calças?

– Morninho, Pedrinho!

– Eu sabia! Sou mesmo espertinho, Petrinha! Tenho a quem sair, maninha!

– Tens! Tens, Pedrinho! Mas… o que eu queria citar era que…

– “Pelo sonho é que vamos” como diz o poeta, não é Petrinha?

– Muito bem, Pedrinho! Mas… o poeta também se questiona: “Chegamos? Não chegamos?”, e é por isso que insisto na medida dos meus sonhos, aqueles que eu sei que, com mais ou menos esforço, tenho ou posso criar condições para os atingir, percebes?

– Percebo tudo, Petrinha! Mas…não concordo! Então o poeta-professor não dizia no mesmo poema: “Haja ou não haja frutos”…

– Pedrinho, prefiro regar as árvores e podá-las, se for preciso, ver rebentar as folhas, despontar as flores e transformarem-se em frutos.

– Bem, Petrinha, então e porque é que incentivas a avó a acreditar que um dia ainda pode ter a sonhada janela virada para o mar em frente ao lava-louças?

– Pedrinho, achas que temos o direito de destruir os sonhos dos outros?

– Não, Petrinha! Por isso, é que: “Pelo Sonho é que vamos”…

– “Comovidos e mudos”, Pedrinho.

– Olha, Petrinha, comovido até posso ficar, mas mudo, não! E… sonho ir um dia a… Não te conto! Sonho, simplesmente

A Petrinha e o Pedrinho – A Chuvinha
Fevereiro 19, 2019

– Ó Petrinha, há bocado, quando ia na rua e abri o meu chapéu-de-chuva aquele que anda quase sempre guardado na minha mochila, ouvi uma altiva senhora já com sinais de chuva a saltar da sua fraca cabeleira, declarar, com ar de desdém, a outra, mais velha do que ela: “Chuva molha parvos!”

– Sim, Pedrinho! Chovia pouco com certeza. E depois?

– Depois, Petrinha, fui cogitando sobre o que a senhora dissera. E agora, como se fosse o tio Bem-Sabido, pergunto-te: Sabes porque é que as pessoas que vão apanhando uma chuvinha e olham para os chapéus-de-chuva ou sombrinhas alheias, dizem aquela piadinha sem gracinha?

– Pedrinho, desculpa, mas agora não tenho tempo para cogitar. Vou pôr a mesa, que o cheirinho que vem da cozinha já me faz crescer água na boca, por isso, diz-me tu, sim? Sim?

– É para já, Petrinha! Digo eu, que são os armados em “Chicos espertos”, que, por não terem pegado no dito ou dita, antes de saírem de casa, ou do automóvel, que estão a chamar parvos aos outros, em vez de a si próprios… Tchi!

– Ah! Ah! Pedrinho! Que… que…

– Petrinha, cuidado com a língua! Que… pensador, não achas?

– Claro, Pedrinho! Tu és o máximo! Talvez a chuvinha que apanhaste na cabecinha, por não teres puxado o capuz do kispo quando foste guardar a bicicleta, te tivesse refrescado as ideias, meu pensador preferido!

– Que engraçadinha, Petrinha!

– Sou, pois! Antes engraçadinha do que espertinha, não é verdade, Pedrinho-pensador?

A Petrinha e o Pedrinho – Os Provérbios
Janeiro 22, 2019

Era cedinho!
O Pedrinho estava muito caladinho, de nariz colado ao vidro embaciado da janela!

– Pedrinho, o que é que se passa? Estás à espreita de alguém?

– Eu, Petrinha? – perguntou o Pedrinho, voltando-se. Estou a… cogitar!…

– Oh! Que cogitadeiro, Pedrinho! Conta! Conta! – pediu a Petrinha.

– É para já, Petrinha, mas… não te rias – retorquiu o Pedrinho.

– Não posso prometer nada, Pedrinho! Mas… estou curiosa! 

– Está bem, Petrinha! Conheces aquele provérbio que a prima Amélia está sempre a dizer?

– Qual deles, Pedrinho? A prima é uma mestra de provérbios! O do tempo?

– Qual tempo, Petrinha? Do mau tempo, aquele da sementeira da ventania, que traz chuva todo o dia?

– Ah! Ah! Pedrinho, que troca tintas!

– Troca tintas, Petrinha?!… Não percebo! Estás a falar sobre o arco-íris? Eu cá sou muito respeitador; não troco nada!

– Desculpa, Pedrinho! Queria dizer trocar provérbios. Corrigindo… Quem semeia ventos…

– Apanha grandes friezas, com certeza!

– Ah! Ah! Só tu, Pedrinho! Referia-me àquele provérbio: “Deitar cedo, e…”

– Boa, Petrinha! Esse eu sei! Bem! Sei, porque ouvi a tia Didi a brincar aos provérbios com a  Ró. Uma começou a dizer: “Deitar cedo e…”, e a outra…

– Conta! Conta, Pedrinho! – insistia a Petrinha.

– Calma, Petrinha! Tenho de me concentrar, e a Ró continuou: “e tarde erguer só faz quem pode, se lhe apetecer! 

– Ah! Ah! Pedrinho, temos um novo provérbio, privado e familiar! “Deitar cedo e tarde erguer só faz quem pode, se lhe apetecer!” Vou contar aos avós.

– Espera, Petrinha! E se os avós não acharem graça a esta atual mexida na sabedoria popular? O que é que fazemos?

– Já sei, Pedrinho! Tiramos da manga este provérbio da prima Amélia…

– Da manga, Petrinha?!… Não é melhor irmos ao dicionário, não se lembre o vento de soprar e levar-nos o provérbio no bico?

– Ah! Ah! Pedrinho, o melhor é levarmos o provérbio debaixo da língua. 

– Já me soa melhor, Petrinha! É menos… ilusionista, e… mais popular. Sou todo ouvidos.

–  Cá vai ele, Pedrinho! ” Tempos há, tempos haverá, e muita coisa mudará!”

– Boa justificação, Petrinha! Mas… soa-me melhor: “Tempos há, tempos haverá, e a reviravolta dos provérbios já cá está!”

A Petrinha e o Pedrinho – Observadores
Novembro 21, 2018

– Petrinha! Petrinha!

– Diz, Pedrinho!

– Não digo nada, Petrinha! Tu é que me vais dizer se sabes estas super adivinhas, daquelas que não vêm nos livros.

– Ó Pedrinho, que sabichão!

– Podes dizer, Pretinha! Pedrinho sabichão-adivinhão!

– Ah! Ah! Só tu! Então qual é a tua adivinha?

– Adivinha, adivinha, Petrinha, como é que o modernismo das calças rotas, que tanto choca as pessoas de joelhos e pernas bem tapadinhos e sem buraquinhos, vai dar uma voltinha?!…

– Hum! Deixa-me pensar, Pedrinho! Talvez uma voltinha menos rotazinha, sobretudo no inverno, mas… isso é um caso…

– É um caso, sim, Petrinha, um caso sério para os estilistas. Mas… quem é que vai convencer aquelas boquinhas a abertas e as pernas com ventiladores a aceitarem tal mudança?

– Cogitando, Pedrinho…

– Cogita, Petrinha, mas responde certinho à minha adivinha.

– Já sei, Pedrinho! Com agulha, linha e dedal! E… muita imaginação! Costura criativa!

– Ah! Ah! Petrinha! Frio! Essa ideia é… muito de… menina! Vou ajudar-te com uma palavrinha…

– Ajuda-me, ajuda-me… menino-homenzinho

– Ajudo, pois, Petrinha! Para ser completo, e esta ideia da adivinha veio-me à cabeça depois de ouvir um comentário da avó sobre a modinha da calcinha rotazinha, que de lembrança dos mais pobrezinhos, pode também igualar com uns retalhinhos…

– Retalhinhos, Pedrinho?!… Já ouvi falar em mantas de retalhos, mas… pensando bem…

– Já sei a resposta da tua adivinha: remendos ou chapas.

– Que espertinha, Petrinha! Adivinhaste! Já imaginastes aqueles buraquinhos todos tapadinhos com outros tecidos, diferentes e coloridos?!…

– Muito à frente, Pedrinho! Ou melhor, um “à frente”, recuando no tempo.

– À frente, pois, Petrinha! Então a roupa remendada não surgiu depois de estar esburacada? Sou mesmo um génio! Vou fazer uns desenhos e pôr nas redes sociais!

– Ah! Ah! Pedrinho-geniozinho! Agora é a minha vez. Adivinha, adivinha, porque é mais fácil arrumar um carro num lugar apertadinho na cidade grande do que numa vila ou aldeiazinha?

– Ora, Petrinha! Essa é muito fácil! No campo e na vila a vida não é mais calma e tudo com mais largueza como diz o avô? Na cidade grande é por causa da pressa, para o pessoal ficar à frente nas filas; anda tudo atrás uns dos outros, e encolhidos ou apertadinhos, a desperdiçar a vida, coitados!

– Frio, Pedrinho! É por causa dos acidentes.

– Dos acidentes, Petrinha? Não alcancei – ” até já pareço o tio”

– Sim, Pedrinho! Como diria a tia alentejana: “Com a doidera de andarem a correr uns atrás dos outros, os carrinhos têm medo de serem levadoe e… aconchegam-se no primeiro buraquinho que encontram!”

– Ah! Ah! Que diria, Petrinha, que os carros da cidade grande eram tão medricas!

A Petrinha, o Pedrinho e… as Estrelas
Outubro 4, 2018

– Ó Petrinha, achas que eu tenho uma estrelinha na testa?

– Não vejo nada, Pedrinho! Mas… achas que tens?

– Não sei! Diz-me tu, Petrinha, se faz favor!

– Bem! Pedrinho, ver com olhos de ver, não vejo, nem dá para imaginar, mas… de facto…

– Petrinha, vais dizer que tenho ideias luminosas?!… Fixe!

– Calma, Pedrinho! Ainda não disse nada, mas…

– Ó Petrinha, mas… se eu tenho ideias luminosas, então nasci mesmo com uma estrela na testa, e pronto!

– Ah! Ah! Pedrinho, e quando a sr.ª preguiça te ataca e justificas com o teu: ” Agora não posso; não tenho ideias”?

– Ora, Petrinha! As estrelas também dormem! Vais ver que é esse o fenómeno!

– Grande fenómeno, Pedrinho! Nunca visto! Mas… olha que ouvi a avó dizer que a D. Flor não tinha nascido com uma estrela na testa!

– Coitadinha, Petrinha! E aqueles sabichões, “os crânios”? Calhando nasceram com uma constelação na testa, mas… deve dar cá um trabalho!

– Ah! Ah! Só tu, Pedrinho! E a D. Graça? Sabes que ouvi a avó dizer-lhe que tinha nascido com uma estrela na testa?

– Não sabia, Petrinha! Mas… olha que… até tem graça! E ainda bem, se não, as más línguas podiam lembrar-se de tratá-la por D. “Desgraça”, e não tinha graça nenhuma!

– Concordo, Pedrinho! Afinal, tu e a D. Graça, tão estrelados, são uns sortudos!

A Petrinha e o Pedrinho – As Pessoas Passam de Moda?
Setembro 24, 2018

– Ó Petrinha, tu achas que as pessoas passam de moda?

– Não sei, Pedrinho!

– Não sabes? Mas devias saber!

– Bem! As pessoas mais velhas costumam usar as suas roupas antigas, carregadas de memórias!

– Ah! Petrinha, não vais dizer que as velhinhas trazem os brincos de família na bainha das saias, pois não?

– Oh, Pedrinho! Só tu!

– Só eu, não, Petrinha! Então? Se falas em carregadas de memórias?!…

– Sim, Pedrinho! Roupas que guardaram por razões sentimentais e como não obedecem às linhas atuais, pode dizer-se que passaram de moda.

– Ahhh! Entendo, Petrinha!

– Pedrinho, ainda não me disseste a que se deve a tua pergunta.

– Pois, Petrinha! Ouvi a avó a contar um episódio quando foi ao Centro de Saúde. E parecia zangada! Imagina…

– Imagino… que houve confusão, Pedrinho!

– Confusão? Eu diria que foi um… Ai… tenho a palavra debaixo da língua…

– Ah! Ah! Põe a língua para fora, Pedrinho! Pode ser que a palavra saia, não é?

– Que engraçadinha, Petrinha! Não sabes que isso é má educação? Eu queria dizer aquela… coisa das diferenças de idade.

– Conflitos de geração, Pedrinho?

– Isso mesmo, Petrinha! Uma jovem disse que a avó estava fora de moda, mas mesmo assim, ela ainda achou que pior seria se afirmasse que tinha passado à história.

– A avó fora de moda, Pedrinho?!… Mas… a avó ainda nem chegou à terceira idade.

– Petrinha, a avó, não, mas… aquele lencinho de assoar bordado que lhe deu não sei quem há bué de anos, e que ela costuma trazer na mala de mão…

– Ah! Esse é só um da coleção. Talvez a jovem se estivesse a referir ao lenço da avó.

– Talvez, Petrinha! A avó até se sente “atacada”, diz ela, quando entra em certos ambientes, e fica com pingo. Mas… queres saber qual foi a sua resposta?

– Quero, pois, Pedrinho! Conta! Conta!

– Eu conto, sem acrescentar um ponto. “A menina pensa nasci uma senhora madura, que não fui jovem, e que não trabalhei com gente da minha idade?”

– Boa! Pedrinho! A avó é o máximo. E a outra, isto é, a jovem?

– Ora, Petrinha! A avó não disse, mas eu acho que ficou toda coradinha de vergonha! Olha!

– Olho, pois, Pedrinho, e escuto! Continua!

– Cá estou, Petrinha! A avó ainda acrescentou: “Deus queira que daqui a uns anos se veja ao espelho com a minha idade! Talvez nessa altura também alguém lhe diga que está fora de moda, por causa do seu telemóvel, por exemplo!…”

– Grande avó, Pedrinho! E a sua interlocutora? Respondeu-lhe?

– Ai! Ai! Eu não disse que não ia acrescentar um ponto? A avó não contou mais nada, mas… “calhando” a jovem ficou calada, de pasmo, digo eu! Ou…

– Ah! Ah! Pedrinhooo, então?

– Pronto! Petrinha, a propósito do meu: “Pronto!”, sabes que estou farto de ouvir estudantes universitários a substituí-lo por: “Prontos!”?!… Tchiii! Achas que aquela interjeição também já passou de moda? Vou perguntar à avó!

A Petrinha e o Pedrinho – As Línguas Mortas
Maio 20, 2018

– Ó Petrinha, ouviste a D. Formosa?

– Não Pedrinho! Sucedeu alguma coisa?

– Oh! Se sucedeu, Petrinha! A D. Formosa estava a dizer, meio chorosa, que agora é que ela não percebia nada.

– Nada?!… Do que se tratava, Pedrinho?

– Não sei bem, falava sobre línguas, que já não tinha idade para essas coisas, “mais a mais” línguas mortas! Até pensei que tivesse ido ao restaurante fora de hora e só houve, por exemplo, língua de vaca.

– Ah! Ah! Pedrinho, talvez a D. Formosa não estivesse a falar sobre esse tipo de língua morta, mas das não faladas, que já não se usam verbalmente.

– Ahhhh! Deixa-me cogitar, Petrinha!

– Cogita, Pedrinho, enquanto eu vou ver o significado de uma palavra no dicionário de latim, que é uma língua morta!

– Boa! Já percebi! Obrigada pela ajuda, Petrinha. Mas… o grego também é… Hummm! Aquele professor que traduziu o Homero há pouco tempo, também disse numa entrevista, apoiava a tia Lia, que o grego devia ser ensinado no ensino secundário.

– Sim Pedrinho, mas seria para efeitos de tradução de documentos antigos, um grande contributo para a cultura.

– Olha, Petrinha, eu até percebo, mas acho que não gostaria de ficar grego com tanto grego. Que grande “greguice”! E a D. Formosa? Se nem se dá bem com a língua de vaca. Coitada da D. Formosa!

– Pedrinho, talvez o seu problema seja a tradução do latim usado nos cânticos e orações de algumas celebrações religiosas.

– Ohhh! Pior ainda, Petrinha! Se a D. Formosa não percebe, como sabe o que está a repetir ou a ouvir? Coitada da D. Formosa!

– Normas, Pedrinho!

– Ó Petrinha, mas eu também ouvi a D. Formosa dizer que isso tinha acabado há muitos anos! Achas que é do tempo do véu? Daqui a pouco os véus estão na moda outra vez!

– Faltam os textos traduzidos do latim, Pedrinho!

– Latim?!… Ah! Agora entendo por que é que a D. Formosa estava tão desgostosa. “Quem não sabe latim, fica assim!” Coitada da D. Formosa! Não achas que falta um gesto no “assim”, Petrinha?

– Ah! Ah! Lá estás tu a inventar, Pedrinho!

– Não estou nada, Petrinha! “Fica assim”, como? O gesto é tudo!

A Petrinha e o Pedrinho – O Canto das Caretas
Agosto 1, 2017

– Ó Petrinha, sabes porque é que a senhora do coro faz tantas caretas quando abre a boca?

– Ora, Pedrinho! A senhora dá expressão facial ao canto, simplesmente!

– Achas, Petrinha?!… Oh! “Calhando” não se ajusta com o órgão, ou não gosta do organista!

– Ah! Ah! Pedrinho, não me parece!

– Não te parece, Petrinha, porque não a ouves, nem vês tantas vezes como eu! Quando me apercebo, já me torço todinho como ela, que faz força, e… coitadinha! Vê-se mesmo que está a sofrer, e muito! Cá para mim, puxa demais pelas cordas vocais, e depois é o que se vê! Não se aguenta! Dá-me pena! E a Clarinha, que costuma ficar ao meu lado, não se queixa, mas as mãos dela até gemem quando ela aperta a barriga! Eu é que, porque sou discreto, não digo nada, mas… até me apetecia sair dali com ela! Somos amigos!

– Ó Pedrinho, não exageres, mas… talvez até tenhas razão!

– Tenho, pois, Petrinha! E quando ela engole as sílabas?!… Aquilo é muito perigoso! Há pessoas que morrem com engasgos! Porque é que ela não aprende a tocar um instrumento de cordas, e dá sossego às suas cordas vocais, com vogais, com consoantes, com agudos, com graves e comoutros mais? E…

– E… o quê, Pedrinho?

– E… há momentos de… de… Ai!

– Momentos de dor, Pedrinho? Então? Que cara é essa? Disseste: Ai!

– Ai! Ai! Petrinha, momentos de silêncio, mas… falta-me uma palavra… mais… profunda. Ou será uma nota para este (des)arranjo coral?

– Eu ajudo-te, Pedrinho! Momentos de interiorização?

– Isso mesmo, Petrinha! Obrigado! O melhor era haver só música para ninguém se distrair, nem pecar; só interiorizar. Até há quem se sinta elevar com as notas musicais, sem coro!

– Há, pois! Mas… não podemos mudar o sistema, Pedrinho!

– É pena, Petrinha! Nós até temos boas ideias, e voz!… O pior é que ninguém nos dá licença para falar, sem fazer caretas, nem provocar dores, nem nos quer ouvir. Acho mal!

– Pedrinho, e o que pretendes fazer?

– Vou… cogitar, Pedrinha! Mas… talvez mude de hora da cerimónia ou… até de local! Logo se vê! Não vou lá para sofrer! Cantar e ouvir, ou até acompanhar, serve para nos alegrar! Não achas, Petrinha?

– Acho, pois, Pedrinho! Tenho aqui um CD de uma orquestra sinfónica. Queres ouvir?

– Agradeço-te, Petrinha, mas… nada de coros, porque… ainda apanho alguma alergia, e… posso até ficar rouco, ou pior, afonicozinho “dum todo” como diz a “ti´” Vicência! Já pensaste?

– Nem quero pensar, Pedrinho!

– Fazes bem, Petrinha! Se não… ainda te dou música com canto, caretas, e… tudo!

A Petrinha e o Pedrinho – As Asas Brancas
Junho 28, 2017

– Ó Petrinha, sabes qual é a diferença entre uma bata branca muito lavadinha e meio amarrotadinha, toda compostinha num único botão atrás, daqueles que conseguimos fazer entrar na respetiva casinha sem qualquer ajudinha, entrando firme e apressada num hospital com uma mochilinha muito bem montadinha às costas, deixando vislumbrar o xadrezinho de uma colorida camisinha, e outra bata da mesma cor, daquelas lavadas com OMO, o detergente que a avó continua a dizer que “lava mais branco”, bem engomadinha, toda aberta, esvoaçando com um seco: “Bom Dia!” em resposta a uma gentil saudação, orgulhosa e distante como se fosse a capa de um super homem muito modernaço, daqueles muito “à frentex”?!…

– Ah! Ah! Pedrinho, que discurso! Parece que estás a ensaiar-te para um exame final de Português!

– Achas, Petrinha? Mas trata-se de uma simples descrição. E… os exames não têm provas orais, com muita pena minha, que tenho tudo na ponta de língua e sofro de lentidão na minha mão. Então? Já adivinhaste?

– Hummm! Acho que sim, Pedrinho! A primeira bata vive sozinha, é prática, preocupa-se mais com o ser do que com o parecer. É gente fina, que sabe viver!

– “Gente fina”, Petrinha?!… Que a prima da lavandaria, sempre preocupada com os primores da roupa engomadinha, não te ouça! Mas… e a outra, a bata voadora?

– Bem, Pedrinho! A outra bata é muito bem tratada, certamente por uma empregada, educada. Concordas?

– Petrinha, pois eu diria que: a primeira bata é de pés assentes no chão; aposto que até sorria para qualquer doente e talvez lhe apertasse a mão, mesmo naquela confusão!

– Muito bem, Pedrinho! E a bata voadora?

– A bata voadora, Petrinha, era ambiciosa e abria as asas pelo correr, pronta para outros voos, por isso não via os demais, mas se o vento a despisse, talvez pedisse ajuda no meio dos seus ais!

– Ah! Ah! Boa Pedrinho! É uma bata que eu não gostaria de ter como amiga.

– Nem eu! Gira, gira, Petrinha, era a farda branca de calça e casaco com cara feminina, olho grande, pintadinho e cabelinho matizado penteado para cima, calhando para afugentar os vírus, atenciosa e eficiente, tratando de uma doente com precisão, mas falando um alto, prestando-lhe muita instrução. Porquê? Porquê? Adivinha!

– Ora, Pedrinho! A farda gira, feminina, falava alto, porque a doente talvez fosse um surdazinha!

– Não era nada, Petrinha! A farda é que estava toda contentinha com o estado da sua doentinha!

– Boa, Pedrinho! Estive bem?

– Estiveste morninha, Petrinha!

– Só, Pedrinho?!…

– Sim, Petrinha! Eu é que estive quentinho, porque observei tudo de pertinho e… até me arrepio, só de pensar que posso ficar doentinho! Vou portar-me bem, podes crer! Queres fazer uma caminhada? Mas… no regresso, doces? Nada! Senão ainda levanto voo com aquela bata engomada e não me dou bem com as alturas…

– Nem eu, Pedrinho, pois fico enjoada! Bora!

A Petrinha e o Pedrinho – As Cogitações do Pedrinho
Junho 5, 2017

– Ó Petrinha!

– Sim, Pedrinho! Já reparaste que estás sempre a chamar por mim?

– Eu, Petrinha?!… É a minha cogitação que anda sempre atrás de ti com o seu: “Ó Petrinha!”, à procura de respostas ou porque quer partilhar qualquer coisinha contigo, e eu não sei como controlá-la! Posso continuar?

– Podes, Pedrinho! O que foi desta vez? Algum convite para o primeiro encontro para as autárquicas, que te contrariou ou fez pensar?

– Nada disso, Petrinha! Tenho tudo muito bem pensado e arrumado no sítio!

– Muito bem, Pedrinho! Então a má-educação política de que o avô falava no outro dia voltou a incomodar-te?

– Também não, Petrinha! Não tenho ouvido sopros dessa natureza – ou serão arrotos?!… Olha, acho que são mesmo! O que eu ouvi a avó comentar foi que…

– Conta, Pedrinho, conta, sobretudo se for uma nova receita de culinária; nada de mezinhas.

– Estás com sorte, Petrinha, porque também trago uma receita na manga, ou melhor na ponta da língua, sem tê-la provado, felizmente!
Mas…

– Mas… Estás engasgado, Pedrinho? Foi da receita?

– Não, Petrinha! Essa… meteu-me espécie, porque nunca comi camarões cozidos com cebola e alho como a tia estava a dizer que fizera, para obsequiar uns amigos, com uma receita da avó, dizia, deixando a nossa grande cozinheira apreensiva, rindo-se, em vez de contestá-la!

– Nunca ouvi falar em tal, Pedrinho! Nem provei!

– Nem eu, Petrinha, mas a tia salientou que estavam muito bons! Ainda bem que não fui convidado para o repasto.
Mas… dizia eu que também ouvi a avô comentar que desde que vira na televisão uma daquelas criaturas que ofendem a Nação com a malcriação, no Santuário, ficara cheia de esperança que passasse a dobrar a língua!

– E o avô acreditou, Pedrinho?

– Achas, Petrinha? Nem pensar! Disse-lhe: “Espera para veres, ou melhor, para ouvires! Esta gente não tem emenda! Nem se lembra das crianças que tem lá em casa, quanto mais nas do resto do país?”

– Pedrinho, o avô já cá anda há muito tempo; deve saber o que está a dizer! E… antes do mas… não tinhas mais nenhuma cogitação a apresentar?

– Tinha, pois, Petrinha! E tenho! Imagina que dei por mim a olhar para as mãos de certos senhores, e pasmei-me!

– Também já me aconteceu, Pedrinho! Faz-me muita impressão ver as mãos de alguns trabalhadores deformadas e queimadas do sol; algumas parecem gemer de dor. Há pessoas que sofrem muito!

– Pois! Mas, Petrinha, o que me surpreende é a diferença entre essas mãos e outras, tão delicadas e com pele que se adivinha ser de seda, que até parecem de menina! Sabes o que pensei?

– Não, Pedrinho! Mas… sou toda ouvidos!

– Então, ouve: “Estes, os que também têm responsabilidades sem ser “no duro” devem trabalhar mais com a cabeça.”
Achas, Petrinha, que a massa cinzenta também está deformada e mudou de cor com o calor das preocupações? Coitadinha! E nem pode usar creme hidrante!
Cá para mim, é por causa deste desgaste que eles, e principalmente elas, que também são donas de casa e mães, queixam-se de tantas dores de cabeça, que… como diz a D. Despachada: “É uma coisa por demais!”

– Ah! Ah, Pedrinho! Que relação! Vamos largar os livros e dar uso às mãos; são horas de pormos a mesa.

– E hoje é o teu dia de limpares a cozinha, Petrinha! Lembras-te?

– Não me importo, Pedrinho! Gosto desta divisão de tarefas.

– Está bem! E… Olha, Petrinha! Põe as luvas para protegeres as tuas mãos de menina.