Archive for the ‘Pisca-Piscas Pensadores’ Category

A Petrinha e o Pedrinho – O Canto das Caretas
Agosto 1, 2017

– Ó Petrinha, sabes porque é que a senhora do coro faz tantas caretas quando abre a boca?

– Ora, Pedrinho! A senhora dá expressão facial ao canto, simplesmente!

– Achas, Petrinha?!… Oh! “Calhando” não se ajusta com o órgão, ou não gosta do organista!

– Ah! Ah! Pedrinho, não me parece!

– Não te parece, Petrinha, porque não a ouves, nem vês tantas vezes como eu! Quando me apercebo, já me torço todinho como ela, que faz força, e… coitadinha! Vê-se mesmo que está a sofrer, e muito! Cá para mim, puxa demais pelas cordas vocais, e depois é o que se vê! Não se aguenta! Dá-me pena! E a Clarinha, que costuma ficar ao meu lado, não se queixa, mas as mãos dela até gemem quando ela aperta a barriga! Eu é que, porque sou discreto, não digo nada, mas… até me apetecia sair dali com ela! Somos amigos!

– Ó Pedrinho, não exageres, mas… talvez até tenhas razão!

– Tenho, pois, Petrinha! E quando ela engole as sílabas?!… Aquilo é muito perigoso! Há pessoas que morrem com engasgos! Porque é que ela não aprende a tocar um instrumento de cordas, e dá sossego às suas cordas vocais, com vogais, com consoantes, com agudos, com graves e comoutros mais? E…

– E… o quê, Pedrinho?

– E… há momentos de… de… Ai!

– Momentos de dor, Pedrinho? Então? Que cara é essa? Disseste: Ai!

– Ai! Ai! Petrinha, momentos de silêncio, mas… falta-me uma palavra… mais… profunda. Ou será uma nota para este (des)arranjo coral?

– Eu ajudo-te, Pedrinho! Momentos de interiorização?

– Isso mesmo, Petrinha! Obrigado! O melhor era haver só música para ninguém se distrair, nem pecar; só interiorizar. Até há quem se sinta elevar com as notas musicais, sem coro!

– Há, pois! Mas… não podemos mudar o sistema, Pedrinho!

– É pena, Petrinha! Nós até temos boas ideias, e voz!… O pior é que ninguém nos dá licença para falar, sem fazer caretas, nem provocar dores, nem nos quer ouvir. Acho mal!

– Pedrinho, e o que pretendes fazer?

– Vou… cogitar, Pedrinha! Mas… talvez mude de hora da cerimónia ou… até de local! Logo se vê! Não vou lá para sofrer! Cantar e ouvir, ou até acompanhar, serve para nos alegrar! Não achas, Petrinha?

– Acho, pois, Pedrinho! Tenho aqui um CD de uma orquestra sinfónica. Queres ouvir?

– Agradeço-te, Petrinha, mas… nada de coros, porque… ainda apanho alguma alergia, e… posso até ficar rouco, ou pior, afonicozinho “dum todo” como diz a “ti´” Vicência! Já pensaste?

– Nem quero pensar, Pedrinho!

– Fazes bem, Petrinha! Se não… ainda te dou música com canto, caretas, e… tudo!

A Petrinha e o Pedrinho – As Asas Brancas
Junho 28, 2017

– Ó Petrinha, sabes qual é a diferença entre uma bata branca muito lavadinha e meio amarrotadinha, toda compostinha num único botão atrás, daqueles que conseguimos fazer entrar na respetiva casinha sem qualquer ajudinha, entrando firme e apressada num hospital com uma mochilinha muito bem montadinha às costas, deixando vislumbrar o xadrezinho de uma colorida camisinha, e outra bata da mesma cor, daquelas lavadas com OMO, o detergente que a avó continua a dizer que “lava mais branco”, bem engomadinha, toda aberta, esvoaçando com um seco: “Bom Dia!” em resposta a uma gentil saudação, orgulhosa e distante como se fosse a capa de um super homem muito modernaço, daqueles muito “à frentex”?!…

– Ah! Ah! Pedrinho, que discurso! Parece que estás a ensaiar-te para um exame final de Português!

– Achas, Petrinha? Mas trata-se de uma simples descrição. E… os exames não têm provas orais, com muita pena minha, que tenho tudo na ponta de língua e sofro de lentidão na minha mão. Então? Já adivinhaste?

– Hummm! Acho que sim, Pedrinho! A primeira bata vive sozinha, é prática, preocupa-se mais com o ser do que com o parecer. É gente fina, que sabe viver!

– “Gente fina”, Petrinha?!… Que a prima da lavandaria, sempre preocupada com os primores da roupa engomadinha, não te ouça! Mas… e a outra, a bata voadora?

– Bem, Pedrinho! A outra bata é muito bem tratada, certamente por uma empregada, educada. Concordas?

– Petrinha, pois eu diria que: a primeira bata é de pés assentes no chão; aposto que até sorria para qualquer doente e talvez lhe apertasse a mão, mesmo naquela confusão!

– Muito bem, Pedrinho! E a bata voadora?

– A bata voadora, Petrinha, era ambiciosa e abria as asas pelo correr, pronta para outros voos, por isso não via os demais, mas se o vento a despisse, talvez pedisse ajuda no meio dos seus ais!

– Ah! Ah! Boa Pedrinho! É uma bata que eu não gostaria de ter como amiga.

– Nem eu! Gira, gira, Petrinha, era a farda branca de calça e casaco com cara feminina, olho grande, pintadinho e cabelinho matizado penteado para cima, calhando para afugentar os vírus, atenciosa e eficiente, tratando de uma doente com precisão, mas falando um alto, prestando-lhe muita instrução. Porquê? Porquê? Adivinha!

– Ora, Pedrinho! A farda gira, feminina, falava alto, porque a doente talvez fosse um surdazinha!

– Não era nada, Petrinha! A farda é que estava toda contentinha com o estado da sua doentinha!

– Boa, Pedrinho! Estive bem?

– Estiveste morninha, Petrinha!

– Só, Pedrinho?!…

– Sim, Petrinha! Eu é que estive quentinho, porque observei tudo de pertinho e… até me arrepio, só de pensar que posso ficar doentinho! Vou portar-me bem, podes crer! Queres fazer uma caminhada? Mas… no regresso, doces? Nada! Senão ainda levanto voo com aquela bata engomada e não me dou bem com as alturas…

– Nem eu, Pedrinho, pois fico enjoada! Bora!

A Petrinha e o Pedrinho – As Cogitações do Pedrinho
Junho 5, 2017

– Ó Petrinha!

– Sim, Pedrinho! Já reparaste que estás sempre a chamar por mim?

– Eu, Petrinha?!… É a minha cogitação que anda sempre atrás de ti com o seu: “Ó Petrinha!”, à procura de respostas ou porque quer partilhar qualquer coisinha contigo, e eu não sei como controlá-la! Posso continuar?

– Podes, Pedrinho! O que foi desta vez? Algum convite para o primeiro encontro para as autárquicas, que te contrariou ou fez pensar?

– Nada disso, Petrinha! Tenho tudo muito bem pensado e arrumado no sítio!

– Muito bem, Pedrinho! Então a má-educação política de que o avô falava no outro dia voltou a incomodar-te?

– Também não, Petrinha! Não tenho ouvido sopros dessa natureza – ou serão arrotos?!… Olha, acho que são mesmo! O que eu ouvi a avó comentar foi que…

– Conta, Pedrinho, conta, sobretudo se for uma nova receita de culinária; nada de mezinhas.

– Estás com sorte, Petrinha, porque também trago uma receita na manga, ou melhor na ponta da língua, sem tê-la provado, felizmente!
Mas…

– Mas… Estás engasgado, Pedrinho? Foi da receita?

– Não, Petrinha! Essa… meteu-me espécie, porque nunca comi camarões cozidos com cebola e alho como a tia estava a dizer que fizera, para obsequiar uns amigos, com uma receita da avó, dizia, deixando a nossa grande cozinheira apreensiva, rindo-se, em vez de contestá-la!

– Nunca ouvi falar em tal, Pedrinho! Nem provei!

– Nem eu, Petrinha, mas a tia salientou que estavam muito bons! Ainda bem que não fui convidado para o repasto.
Mas… dizia eu que também ouvi a avô comentar que desde que vira na televisão uma daquelas criaturas que ofendem a Nação com a malcriação, no Santuário, ficara cheia de esperança que passasse a dobrar a língua!

– E o avô acreditou, Pedrinho?

– Achas, Petrinha? Nem pensar! Disse-lhe: “Espera para veres, ou melhor, para ouvires! Esta gente não tem emenda! Nem se lembra das crianças que tem lá em casa, quanto mais nas do resto do país?”

– Pedrinho, o avô já cá anda há muito tempo; deve saber o que está a dizer! E… antes do mas… não tinhas mais nenhuma cogitação a apresentar?

– Tinha, pois, Petrinha! E tenho! Imagina que dei por mim a olhar para as mãos de certos senhores, e pasmei-me!

– Também já me aconteceu, Pedrinho! Faz-me muita impressão ver as mãos de alguns trabalhadores deformadas e queimadas do sol; algumas parecem gemer de dor. Há pessoas que sofrem muito!

– Pois! Mas, Petrinha, o que me surpreende é a diferença entre essas mãos e outras, tão delicadas e com pele que se adivinha ser de seda, que até parecem de menina! Sabes o que pensei?

– Não, Pedrinho! Mas… sou toda ouvidos!

– Então, ouve: “Estes, os que também têm responsabilidades sem ser “no duro” devem trabalhar mais com a cabeça.”
Achas, Petrinha, que a massa cinzenta também está deformada e mudou de cor com o calor das preocupações? Coitadinha! E nem pode usar creme hidrante!
Cá para mim, é por causa deste desgaste que eles, e principalmente elas, que também são donas de casa e mães, queixam-se de tantas dores de cabeça, que… como diz a D. Despachada: “É uma coisa por demais!”

– Ah! Ah, Pedrinho! Que relação! Vamos largar os livros e dar uso às mãos; são horas de pormos a mesa.

– E hoje é o teu dia de limpares a cozinha, Petrinha! Lembras-te?

– Não me importo, Pedrinho! Gosto desta divisão de tarefas.

– Está bem! E… Olha, Petrinha! Põe as luvas para protegeres as tuas mãos de menina.

A Petrinha e o Pedrinho – “Arranjos” no Elevador e no Automóvel
Maio 19, 2017

– Ó Pedrinho, o que é que aconteceu para te sentares no sofá a rir à gargalhada?!…

– Desculpa, Petrinha! Apanhei a vizinha do quinto andar a fazer caretas ao espelho do elevador e a ajeitar o cabelo.

– Ia à pressa, Pedrinho, e aproveitou para acabar de se arranjar.

– Isso foi o que ela me quis dizer, Petrinha, enquanto enfiava bem os pés nas sandálias de salto alto, e a sua minissaia subia quando se baixou para abotoar as fivelas com o seu aflito suspiro: “Estou atrasada!”, fazendo uma festinha na cabeça do Quinzinho, ao sair, sem olhar para mim.

– Ah! Ah! Que cena, Pedrinho! Mas a vizinha até se justificou.

– Ficou atrapalhada, coitada! Ainda bem que o elevador não tem secador, nem relógio, se não… nem sei o que aconteceria! Até me lembrei…

– Lembraste-te de quê, Pedrinho malandreco?

– Malandreco, eu, Petrinha? Até olhei para cima quando a minissaia subia!… Acho que fiquei corado, mas felizmente, o elevador parou, e… ela nem reparou.

– É o respeitinho tão badalado pelos avós, Pedrinho. Aprendes bem!

– Aprendo tudo, Petrinha. E também tenho boa memória. Lembrei-me de um dia, na fila da ponte, ter visto num carro vermelho uma senhora toda debruçada no espelho da pala para o sol, a tirar uns pêlos das sobrancelhas e depois a pintar as pálpebras, a pincelar as pestanas e a pôr batom nos lábios…

– Também deve ter-se atrasado, Pedrinho, e aproveitou a paragem do trânsito para maquilhar-se.

– Paragem, Petrinha?!… A marcha era muito lenta, aquilo que as pessoas chamam: “Para, arranca.”, e ia um Sr. a conduzir, com cara de enjoado, mas não tinha farda de motorista. Que sortuda!
É por isso que não quero tirar a carta de condução, para ninguém fazer estas coisas pessoais em público e à minha custa.

– Ah! Ah! Só tu Pedrinho! Mas vê lá se nalgum dia também estás à pressa e pões o gel quando entrares no elevador!

– Que engraçadinha, Petrinha! Antes ir para uma festa sem popinha!

A Petrinha e o Pedrinho – Opções e Acordos
Abril 22, 2017

– Pedrinho, estás tão pensativo! O que é que se passa?

– Estou cogitando, Petrinha!

– Cogitando sobre o quê? Queres partilhar, Pedrinho?

– Petrinha, ouvi o avô a pensar em voz alta, acerca da votação em França por parte dos luso-franceses.

– E então, Pedrinho? Estava irritado?

– Olha, Petrinha, o avô estava no… “Mete-me espécie”; foi o que ele disse, depois de um discurso com culinária e tudo.

– Conta, conta, Pedrinho!

– O avô dizia: “Olha-me para estes! Então não sabem que a candidata querer acabar com os emigrantes?!… E ainda querem votar nela?!… Venham para casa sem serem despejados!
Os lusodescendentes não admira! Esta malta nova sabe lá o que é o sabor de: um bom naco de pão alentejano, de uma broa de milho, de uns bons enchidos, de uma bela caldeirada, de um ensopado, de uma sardinha assada, a melhor da Europa, de um bom vinho das nossas castas?!…
E os pais?!… Já se esqueceram?
Isto… mete-me espécie!”

– Pedrinho, que narrativa! Conseguiste ouvir tudo, aposto!

– Acho que ouvi, sim, Petrinha! Mas… o mais giro foi a avó, que apareceu e disse-lhe:
” – Ó homem, não te rales com essas coisas! A vida não está para isso! Tomara que a nossa geringonça se aguente!”

– Boa, Pedrinho! A avó pondo sempre água na fervura.

– “Água na fervura”?!… Não percebo, Petrinha! Nem me cheirava a bacalhau cozido para a avó fazer uma açorda com a sua água a ferver. É caso para dizer: “Isto… mete-me espécie!”

– Ah! Ah! Ah! Pedrinho, “Pôr água na fervura” é um provérbio que quer dizer acalmar os ânimos; foi o que a avó fez!

– Ah! Não sabia, mas já aprendi, professora Petrinha! E se fôssemos ver o que se passa lá na cozinha, porque… já tenho a barriga a dar horas?

– Vamos, Pedrinho, antes que nos chamem para pôr a mesa! E… ao almoço, não abuses dos molhos [môlhos]!

– Descansa, Petrinha, que não abuso dos molhos [môlhos], mas vi dois molhos [mólhos] de coentros na bancada; só espero que um seja para a sopa de abóbora, e o outro para pôr nas saladas, uma de polvo, de preferência para entrada!

– Muito bem, Petrinho! Mas… cuidado com a linha!

– Linha do metro ou do elétrico? Ou ambas? Sou cuidadoso, Petrinha! Quando às outras: na linha do comportamento, às vezes ponho o pé fora; é só um, digo eu, e a linha da elegância, só cumpro à letra se, quer dizer, quando vier no Diário da República! Cá o Petrinho é um cidadão.

– Grande Pedrinho! Até podias ir para a televisão, porque certamente pronunciarias clara e corretamente, em bom Português: acordos [acôrdos] e não [acórdos].

– Obrigado, Petrinha! Manteria fechado “o” do plural de acordo, sim! Mas… o princípio da minha comunicação aos destinatários seria: “acordo-os!”

A Petrinha e o Pedrinho – Os “Verdes” e o “Génios”
Março 10, 2017

– Ó Petrinha!

– Diz, Pedrinho!

– Petrinha, não percebi bem por que é que o Zezé, que acabou o curso de Educação Física, e a Naná, a namorada, que já é enfermeira, dizem que são uns “verdes”, se são uns fixes! Os fixes cor?

– Ó Pedrinho, são fixes, sim! E têm a cor da alegria, mas são uns “verdes”, porque, como recém licenciados, ainda…

– Ainda não estão maduros, não é, Petrinha?

– Ainda… não são experientes, Pedrinho! Maduros diz-se em relação à idade, entendes?

– Hummm! Mas… são “verdes” como? Comeram alguma coisa que lhes fez mal? Não me digas que bebem uns copitos e têm os fígados a estragarem-se? Ou é por causa da crise do desemprego?

– Nada disso, Pedrinho! O Zezé e a Naná até já foram a umas entrevistas de emprego, mas vieram de lá “verdes”, de facto!

– Continuo a não perceber, Petrinha!

– Senta-te aqui, Pedrinho, e escuta-me! O Zezé foi tirar o curso para concretizar o sonho de ser professor numa escola, e a Naná queria ser enfermeira num hospital, mas não têm perspetivas nestes contextos.

– Coitadinhos! E as entrevistas foram para quê, se até os puseram verdes, Petrinha? Não deviam vir rosados, de contentes? Não percebo!

– Pedrinho, fecha a boca! Daqui a pouco estás a ficar… ver…de!

– Petrinha, não tem graça! E os “verdes”?

– Ora, Pedrinho! Verdes são os rostos do Zezé e da Naná perante a sua situação profissional: ele vai dar aulas de ginástica a seniores, no Município, a recibo verde; ela vai exercer enfermagem no lar da terceira idade, a recibo verde, o que quer dizer numa situação precária! Não achas que têm razão para serem uns “verdes”?

– Oh! Se têm, Pedrinha! E… se o seu clube for o verde, então, estão a jogar em casa, e ainda mais desanimados!

– Boa, Pedrinho! Mas o Zezé e a Naná são “uns verdes” muito otimistas; até estão satisfeitos por poderem trabalhar nas suas áreas, e até conseguem fazer da vida um arco-íris a acordar a esperança de novas perspectivas!

– Olha, Petrinha! Agora, além de gostar do Zezé e da Naná, até os admiro! Eles deviam era de mudar de nome: ele para Eugénio e ela para Eugénia, porque além de serem “bem-nascidos”, ainda ouviam a “ti” “Jaquina” e o “ti” “Gervaso” tratarem-nos por: “Ó Génio!” “Ó Génia!”, pois eles são uns génios, e nem têm mau génio!

– Pedrinho, surpreendes-me, grande génio!

– Não sou nada, Petrinha, mas… ouço umas coisas aqui, outras ali e… vou fazendo as minhas cogitações!

– Fazes bem, Pedrinho espertinho! Mas tem cuidado para não ficares…

– Verde! Já sei!

A Petrinha e o Pedrinho – Cogitações
Janeiro 28, 2017

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– Obrigado, Petrinha, por teres feito este desvio na tua caminhada, mas… preciso de falar contigo!

– Não tens de quê, Pedrinho. Já começava a sentir-me cansada, e ainda vou terminar um trabalho com umas colegas.

– E eu vou ao treino daqui a pouco. Petrinha, tenho andado a cogitar sobre… aquela cara de zangado do avô quando desligou a televisão, dizendo que não suportava tanto desrespeito, má educação e falta de civismo dos políticos.

– Indignação, Pedrinho! Chama-se indignação.

– Oh! Petrinha, cogitei que era revolta, por me parecer uma palavra mais indicada para política; até fiquei preocupado.

– Não te preocupes, Pedrinho. “Modernices da democracia” como diz o Sr. Dr. Sabe Muito-Bem-Calado, também ele indignado!

– Preocupo-me, pois, Petrinha! Cogitei que… se respondermos mal aos pais, aos mais idosos, aos professores e a montes de gente conhecida ou desconhecida, e até aos agentes, podemos ser castigados, nalguns casos até ir à presença do juiz…

– Muito bem, Pedrinho! Temos responsabilidades pessoais, familiares, sociais.

– E aquelas pessoas não podem ser castigadas? Até cogitei numas palavras que ouvi há dias na televisão, depois de ter consultado o dicionário.

– Que espertinho, Pedrinho! E…cogitaste o quê?

– Olha, Petrinha, cogitei sobre: “imunidade democrática”. Calhando é por isto que eles podem dizer aquelas… coisas da indignação, não achas?

– Ah! Ah! Ah! Boa associação, Pedrinho! Mas…acho melhor não dizeres nada ao avô, por enquanto, por causa…

– … da irritação, Petrinha?!… Ai! Enganei-me! Indignação, não é?

– É, pois, Petrinho! Vamos aos nossos compromissos?

– Só mais uma coisinha, Petrinha, se faz favor.

– Diz, Pedrinho, mas sê rápido, por favor.

– Também andei a cogitar se não terias frio no pescoço, depois de a tesoura da tua cabeleireira ter andado a passear à vontadinha no teu cabelo. É… que ouvi a tua amiga a queixar-se do corte do seu cabeleireiro alfacinha por aquele motivo.

– Ah! Ah! Ah! Que grande cogitadeiro, Pedrinho! Não tenho frio, não! Mas… sinto a cabeça despida, principalmente quando ando à beira-mar; falta-me o cabelo a ser massajado pelas mãos do vento.

– Cogitação de menina, Petrinha, com todo o respeitando do Pedrinho!

A Petrinha e o Pedrinho – Vinho no Rosto e Uvas nos Pés
Janeiro 13, 2017

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– Ó Petrinha, tu ouviste aquela conversa na perfumaria, daquelas senhoras que queriam cremes à base de uvas e vinho?

– Ó Pedrinho, era creme, simplesmente, ou base?

– Petrinha, não me atrapalhes, se faz favor. Agora falaste em base e lembrei-me da avó quando está a fazer aquelas deliciosas sopas, em que diz já ter preparado a base, e que só falta misturar os legumes! Hum! E o creme, leite creme?!… Até me faz crescer água na boca.
Mas… voltando à perfumaria, daquela senhora muito simpática e gira…
Sabias que os cremes para as senhoras eram feitos com vinho e uvas?

– Ah! Ah! Seu guloso! Também não sabia, Pedrinho! Achei graça. Fiquei curiosa!

– Olha, Petrinha, eu fiquei pasmo, “dum todo”, como diz a “tia” Miquelina! Sabes que aquilo do vinho, que até desconfiei seu tinto, meteu-me espécie?

– Então, Pedrinho? Conta, conta!

– Fiquei a cogitar que… calhando, o álcool sobe-lhes à cabeça e ainda as atrapalha na condução! Depois, os maledicentes, só lhes chamam “aselhas”, coitadinhas! O melhor seria optarem por ser ases do volante e deixarem as uvas e o vinho longe das bochechas; podiam beber um copinho às refeições. O tio Zé da Pipa diz que faz bem ao coração.

– Ah! Ah! Pedrinho, tu és o máximo! Eu pensei no padrinho da “bisa” e nos amigos, que pisavam uvas, em Santo André, numa espécie de tanque gigante, para obterem vinho! A avó conta que, em criança, gostava muito de assistir, que era muito giro, apesar do cheiro forte.

– Cheiro a quê, Petrinha? Não lavavam os pés?

– Pedrinho, achas?!… Lavavam, pois! Com sabão azul e branco, mais do que uma vez, e arregaçavam as calças; alguns até cantavam “à alentejana”!

– Aquilo era uma festa, já percebi, Petrinha! Calhando, aqueles senhores ficavam com as solas dos pés lisinhos, sem rugas!

– Calhando, Pedrinho! Quem sabe se era por isso que eles andavam tão rápidos pelos campos, sem se queixarem dos pés?!…

– Olha, Petrinha, quando o tio Quinito quiser pôr os pés de molho com água quente e sal, depois das caminhadas, vou dizer-lhe para pô-los no vinho, mas antes.

– Boa, Pedrinho!

A Petrinha e o Pedrinho – Os Papéis Trocados e a Vista
Dezembro 30, 2016

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– Ó Petrinha, achas que alguém é capaz de ensinar o Pai-Nosso ao Vigário?

– Claro que não, Pedrinho!

– Foi o que pensei, Petrinha! E… Olha lá!

– Estou a olhar, Pedrinho, mas… não vejo nada, nem ouço!

– Que engraçadinha, Petrinha! Então e tu achas que ensinar aquilo, feito “Chico Esperto”, como diz tio Davide, ao Sr. Prior é o mesmo que armar-se em doutor e querer dar lições ao professor sobre o que ele se cansou de repetir àquele seu fraquinho aluno, que tanto custou a aprender?

– Boa, Pedrinho! Claro que sim!

– Ahhh! E…

– E?!… Diz, Pedrinho, se faz favor!

– E… achas que um retrovisor e uns óculos de ver ao perto são presentes de… mestre?

– Ah! Ah, Pedrinho! Presentes de mestre?!… Não me parece! Um vê o que se passa atrás, portanto muito bom para quem tem problemas de coluna e não consegue virar-se; o outro não alcança bem o que tem mais à frente. Hum! Isto é um caso…

– De polícia, Petrinha, por causa da segurança rodoviária?

– Boa, Pedrinho! Mas… para mim, é mais um caso do SNS.

– Do Serviço Nacional de Saúde, Petrinha? Não entendo!

– Sim Pedrinho! É um problema da vista; é preciso ir ao oftalmologista!

A Petrinha e o Pedrinho – O Dia do Chinelo Azul
Dezembro 10, 2016

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– Ó Petrinha, sabes que dia era ontem?

– Dia 9, deste mês de Natal, sexta-feira, Pedrinho!

– Certo, Petrinha, mas também era o Dia do Chinelo.

– O Dia do Chinelo, Pedrinho? Nunca ouvi falar! Chinelo artesanal, certamente. Parece-me interessante! O chinelo dá uma sensação de liberdade a quem o calça, e suponho que gosto a quem o faz pelas suas próprias mãos.

– Muito bem, Petrinha! Eu também achei interessante ver nos dois supermercados em que entrei com a tia senhoras de meia idade com chinelos na mão. E todas se dirigiam à senhora mais idosa, que também andava às compras, mostrando-lhos, recomendando-lhos: “Olhe lá, que jeitosos! Vou levar para a bisavó, a velhota, mas parece que ela anda sempre com os pés inchados. Em vez de levar-lhe o 37, porque ela calça o 36, levo-lhe o 38, mas… talvez o 39 ou o 40 seja melhor. Olhe lá, que jeitosos, azulinhos, com pintinhas brancas e com estes lacinhos cor-de-rosa. Devia levar uns para sim.” – proferia a senhora risonha.

– Ah! Ah! Ah, Pedrinho! Que senhora amiga. Tens a certeza que não era funcionária do supermercado, incentivando as vendas?

– Não era nada, Petrinha!Eu já conhecia a senhora risonha; dá massagens à família com um unto qualquer e, na sua falta, diz ela, que a pasta de dentes de sabor e menta faz muito bom efeito!

– Ah! Ah! Ah, Pedrinho! Não imaginava! E depois?

– Depois, a senhora idosa, apoiada na sua canadiana, sorria e ia sempre andando; nem dava resposta. A neta, é que, para ser simpática ainda disse que os chinelos azulinhos, com pintinhas brancas e com estes lacinhos cor-de-rosa eram giros.
No supermercado vizinho, foi outra senhora, chamando-a pelo nome, mostrando-lhe uns chinelos também eles azuis, mas de plástico no exterior e cheios de pelo no interior, exibindo-os por dentro e por fora, dizendo que eram muito bons e por apenas dois euros e tal, número 39, um bocadinho grande, mas não fazia mal. “Ainda estão lá outros, só uns, número 38. Vai buscar para ti, que não te arrependes. Vai lá, não sejas parva!” – insistia.

– Ó Pedrinho, não era preciso chamar parva à senhora, coitada! O melhor seria ter-lhe oferecido os chinelos, já que eram tão bons e tão baratos, não achas?

– Acho, pois, Petrinha! Mas… também aquela parecia querer fazer negócio.

– Não digas essas coisas, Pedrinho. E a senhora idosa?

– Ora, Petrinha, a senhora idosa, empurrava o carrinho, parecendo entretida com os seus pensamentos, como diz o tio Francisco, e desta vez, nem sorriu. Mas, olha! Ainda disse à neta: “Não faço caso desta gente! Quem é que lhes disse que eu precisava de chinelos azuis?!… Não lhe passo cartão!”

– Que senhora independente, Pedrinho! E depois?

– Depois das compras, Petrinha, a tia estacionou perto da sapataria do cadeirão amarelo-laranja e perguntou à simpática senhora: “Tem chinelos de quarto azuis, para homem, e para criança?”
Vê lá se eu não tenho razão, Petrinha? Ontem era o Dia do Chinelo; Dia do Chinelo Azul!