Archive for Dezembro, 2010

A Árvore de Natal do Colchão de Papelão
Dezembro 20, 2010

Esta é a original árvore de Natal do colchão de papelão do Sr. Ninguém.

Os ramos secaram nestes últimos dezasseis anos, desde que lhe levaram a sua mãe de casa e, destroçado com a sua ausência, procurou a grande cidade, desconhecendo que ia ao encontro da solidão, uma companheira triste, fria e muda.
Só restaram as luzes que lhe avivam a memória da época festiva e aumentam a saudade dos Natais quentes de amor e alegria festejados com a família, modesta de bens materiais, mas abastada de valores e vivências.

O Sr. Ninguém sorri para a sua árvore de Natal e de tantos irmãos espalhados pela cidade, que como todas as árvores, não chega ao céu, o tecto que os abriga no desabrigo da sua existência e que eles pagam com o preço da sua mendicidade, aterrorizados com o cruel poder da autarquia, que insensível ao pagamento elevado dos seus impostos morais e discriminação social, persegue-os e despeja-os sem piedade, nem alternativa, despojando-os de bens pessoais: a foto da mãe, o lenço que o pai oferecera, o pente, que comprara na feira quando ainda era miúdo, o canivete do avô, uma página do livro de leitura da 1.ª classe!….

O Sr. Ninguém e todos os seus irmãos acreditam que a sua árvore de Natal é enfeitada todos os anos pelos seus progenitores, familiares e amigos, que lhes acenam do céu, enganando os responsáveis com outras ideias de gente que não tem dores na alma, nem o estômago colado às costas doridas do colchão de papelão, assente sobre as frias pedras da calçada, nem transporta guarda-roupas de plástico ao enfraquecido ombro, nem sonha com o Pai Natal, nem espera receber um presente, além de uma escassa esmola quente para aguentar o corpo de pé e enganar o frio!…

No alto do castelo, as BOAS FESTAS abraçam a cidade, mas são o Sr. Ninguém e todos os seus irmãos de rua que lhes sorriem no meio da sua tristeza.

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Outono da Vida
Dezembro 19, 2010

Colhe as folhas outonais da vida que vogam em teu redor ou ficam submersas nas tuas lágrimas e transforma-as em flores, em sementes, em punhados de esperança e continua a crescer como uma árvore renovada na Primavera!

A Essência do Encontro
Dezembro 18, 2010

Gaivotas na Praia, 2010jpg

A essência do encontro reside no reencontro, na redescoberta e na alegria da partilha!

Luzes e Lágrimas na Cidade Grande
Dezembro 18, 2010

Lisboa, 2010

Na cidade grande…

Há luzes debruçadas às janelas, desfilando nas montras, desafiando a lua e as estrelas.

Há lágrimas douradas suspensas nas ruas decoradas deambulando na época festiva.

Há luzes débeis dançando saudosas nos corações desbotados dos homens e das mulheres do dormitório do céu.

Há lágrimas dolorosas, desnutridas de afectos nos soluços do desterro da pobreza e da exclusão.

Há luzes e lágrimas de deleite e de desventura, de devoção e de devaneio, de despertar e de despedida no domicílio de cada Homem.

A Menina Azul – Nesta Rua…
Dezembro 1, 2010

Nesta rua, dei os primeiros passos para o mundo.

Nesta rua, caminhei pé ante pé no primeiro dia de aulas.

Nesta rua, regressei a casa a correr para anunciar que iria fazer a primeira prova.

Nesta rua, saltei de alegria no dia do meu aniversário, porque a professora me oferecera o livro da segunda classe.

Nesta rua, chorei, porque uma colega tirou-me os laços que prendiam o meu cabelo.

Nesta rua, senti-me embalar pela serenidade do mar e parei quando, zangado, me chamava.

Nesta rua, andei sozinha, ouvi o silêncio e desabafei comigo.

Nesta rua, fui ao encontro de novos horizontes, professores, colegas.

Nesta rua, posei, inocentemente para fotos com a praia e a baía ao fundo.

Nesta rua, que será sempre a minha rua, estabeleci a ligação com o mundo real de mão dada com os meus sonhos.

Nesta rua, descobri o prazer da alegria e a força da coragem para vencer.

Nesta rua, vi mulheres vestidas de preto com lenços e xailes na cabeça, mudas de medo, à espera que o mar lhes devolvesse os seus homens.

Nesta rua, que sempre teve estrelas a brilhar nas crianças, nos jovens, nos homens e nas mulheres de todas as idades, a todas as horas, em todos os dias e circunstâncias, reencontro o meu mundo em mim mesma sempre que a revisito.

E nesta rua também caminhou na direcção do sol, quando nascia e se despedia, como eu, mas noutro tempo, e já um homem feito, o poeta do Mar-de-Leva.