Archive for Junho, 2017

Estórias de Meninas – O Amargo de Boca
Junho 30, 2017

Era uma grande inundação de palavras, certamente fluindo dos espinhos do coração, que fizeram apertar os lábios e expulsar sons urrados de tempestade de emoção da menina dos joelhos a espreitar do calção.

Era uma grande dose de raiva, de rejeição, e de negação de quem jamais daria o perdão, repetia o pezinho, batendo no chão, ameaçador, desembainhando com as unhas de vermelho pintadas e as mãos calejadas um furioso: “Que danação!”

Era uma grande tempestade em que faltava a verdade de quem, pela dura, injusta e imposta mudança havia sido muito bem acolhida, tratada, reconhecia e homenageada na sua despedida, na qualidade de aposentada, uma menina tão simpática e bem apresentada!

Era uma grande agressão, jorrando dos gestos dos braços em grande movimentação, salpicando tudo e todos com vestígios de longa duração!

Era uma grande desilusão assistir a algo tão inconveniente na frente de toda a gente, sem decoro, nem respeito por quem era velado e de quem se despedia a dor da vida perdida!

Calceteiros do Tempo
Junho 30, 2017

Somos calceteiros do tempo, fantasmas sem rosto, orvalhando o caminho com suor na intensa dignidade do seu labor, construtores da calçada, invisíveis alicerces da história perdidos entre os cintilantes cristais que só as estrelas do mar e os cavalos-marinhos sentem o perfume, e para quem o sol do meio-dia e as noites de luar sorriem com a magia das suas secretas danças vestidas de alegria!

Na Hora da Verdade
Junho 30, 2017

Na hora da verdade, do amigo reconheces a identidade!

A Igualdade e o Contexto
Junho 28, 2017

A igualdade no trato e na condição parece não ter alteração quando o pé está descalço, a prancha debaixo do braço e o mar ressoa na simplicidade sem traço fingido de diferenciação!

A Petrinha e o Pedrinho – As Asas Brancas
Junho 28, 2017

– Ó Petrinha, sabes qual é a diferença entre uma bata branca muito lavadinha e meio amarrotadinha, toda compostinha num único botão atrás, daqueles que conseguimos fazer entrar na respetiva casinha sem qualquer ajudinha, entrando firme e apressada num hospital com uma mochilinha muito bem montadinha às costas, deixando vislumbrar o xadrezinho de uma colorida camisinha, e outra bata da mesma cor, daquelas lavadas com OMO, o detergente que a avó continua a dizer que “lava mais branco”, bem engomadinha, toda aberta, esvoaçando com um seco: “Bom Dia!” em resposta a uma gentil saudação, orgulhosa e distante como se fosse a capa de um super homem muito modernaço, daqueles muito “à frentex”?!…

– Ah! Ah! Pedrinho, que discurso! Parece que estás a ensaiar-te para um exame final de Português!

– Achas, Petrinha? Mas trata-se de uma simples descrição. E… os exames não têm provas orais, com muita pena minha, que tenho tudo na ponta de língua e sofro de lentidão na minha mão. Então? Já adivinhaste?

– Hummm! Acho que sim, Pedrinho! A primeira bata vive sozinha, é prática, preocupa-se mais com o ser do que com o parecer. É gente fina, que sabe viver!

– “Gente fina”, Petrinha?!… Que a prima da lavandaria, sempre preocupada com os primores da roupa engomadinha, não te ouça! Mas… e a outra, a bata voadora?

– Bem, Pedrinho! A outra bata é muito bem tratada, certamente por uma empregada, educada. Concordas?

– Petrinha, pois eu diria que: a primeira bata é de pés assentes no chão; aposto que até sorria para qualquer doente e talvez lhe apertasse a mão, mesmo naquela confusão!

– Muito bem, Pedrinho! E a bata voadora?

– A bata voadora, Petrinha, era ambiciosa e abria as asas pelo correr, pronta para outros voos, por isso não via os demais, mas se o vento a despisse, talvez pedisse ajuda no meio dos seus ais!

– Ah! Ah! Boa Pedrinho! É uma bata que eu não gostaria de ter como amiga.

– Nem eu! Gira, gira, Petrinha, era a farda branca de calça e casaco com cara feminina, olho grande, pintadinho e cabelinho matizado penteado para cima, calhando para afugentar os vírus, atenciosa e eficiente, tratando de uma doente com precisão, mas falando um alto, prestando-lhe muita instrução. Porquê? Porquê? Adivinha!

– Ora, Pedrinho! A farda gira, feminina, falava alto, porque a doente talvez fosse um surdazinha!

– Não era nada, Petrinha! A farda é que estava toda contentinha com o estado da sua doentinha!

– Boa, Pedrinho! Estive bem?

– Estiveste morninha, Petrinha!

– Só, Pedrinho?!…

– Sim, Petrinha! Eu é que estive quentinho, porque observei tudo de pertinho e… até me arrepio, só de pensar que posso ficar doentinho! Vou portar-me bem, podes crer! Queres fazer uma caminhada? Mas… no regresso, doces? Nada! Senão ainda levanto voo com aquela bata engomada e não me dou bem com as alturas…

– Nem eu, Pedrinho, pois fico enjoada! Bora!

A Dimensão da Discrição
Junho 28, 2017

A discrição é um vulcão de transparência a olhar o mundo com a sintonia do coração!

A Mãe Natureza
Junho 28, 2017

A mãe natureza é a rainha da beleza, e o sorriso da criança o reflexo da sua grandeza!

O A-mi-go
Junho 27, 2017

O A-mi-go…

O [a] é como o de amanhã – poderá sê-lo? Talvez! E hoje?

O [-mi] é muito pessoal, diz a regra gramatical, mas é preciso concordar comigo, claro!

O [-go] à portuguesa, falta-lhe o -lo para entrar na baliza da amizade – ou será um “go” à inglesa?

Amigo “de verdade” é riqueza, não um tratamento de oportunidade!

Sorriso do Dia… À Noite!…
Junho 27, 2017

Sorriso do dia… à noite é a (des)ilusão de quem traz o sol a cintilar no olhar, os lábios rubros para te beijar, uma flor a palpitar no peito para te abraçar e… olhar à volta, mas não te encontrar.

E…

Caminhar!

Caminhar na secreta saudade à beira-mar!

Cortes no Tempo e Aumentos nas Lancheiras
Junho 24, 2017

Corria, apressada, olhando para o relógio, achando-se atrasada para a que ainda poderia ser uma demorada visita à amiga.

Ia carregada de lancheira, puxando pelo marido, também ele carregado, em direção ao elevador, ansiosa por chegar ao quarto de hospital, que, pela sua jovialidade, mais parece um hotel, e onde refastelada, a amiga já negara uma couve mal encarada e meia posta de peixe sem estar temperada!

Amigo de verdade é árvore florida dando fruta toda a vida!