Archive for Novembro, 2017

Estórias de Meninos – A História do Sant´Iago
Novembro 29, 2017

Conheci o Sant´Iago na cómoda sala de espera de um hospital privado. Entrou sentado na sua cadeira, que enchia, mercê dos seus bem desenvolvidos quatro anos, harmonizados com o rosto de traços muito perfeitos, cabelo loiro liso e comprido, uma franja bem cortada, tapando-lhe a testa.

O irmão, cinco anos mais velho, o simpático e afável Gundisalvo, alto, muito bonito, com o cabelo acastanhado e ligeiramente encaracolado, também comprido, mas com a testa descoberta, destacando bem o seu olhar vivo e doce, comunicando muitas vezes comigo por sinais e com o seu grande e sedutor sorriso…

Os pais, ainda jovens, interessantes no trato com os descendentes, e socialmente, preocuparam-se em dar-lhe um lanche saudável; depois, cada um ocupar-se-ia de um dos meninos.

Durante o longo período em que aguardávamos para ser atendidos, curiosamente pelo mesmo especialista, o Gundisalvo era o mais preocupado, pois teria teste de Inglês no dia seguinte, e ainda precisava de fazer uma ficha de Matemática.

A mãe pediu ao Sant´Iago que se distanciasse do irmão e que falasse baixinho, porque iam estudar. A Sr.ª dominava muito bem a língua estrangeira, e o menino acompanhava e respondia às suas perguntas com rapidez e correção, se bem que não resistisse a deitar o olho para o irmão que viera sentar-se bem coladinho a mim com o telemóvel da progenitora na mão – e… o Gundisalvo e eu aproveitávamos estes momentos relâmpago para a nossa comunicação discreta e cúmplice…

O pequenino ainda aproveitou um instante de pausa para declarar que sabia mais coisas do que o irmão, e perante a minha questão relacionada com a idade e o ano de estudo que aquele frequentava, foi o Gundisalvo que adiantou orgulhosa e amorosamente:

“- Ele sabe fazer muitas continhas!”

“- Pois sei! A minha mãe ensina-me tudo!” – confirmou o Sant´Iago orgulhosamente.

Mas…

Ele queria mesmo era fazer jogos, puzles, saltar barreiras, arriscar nas contas, tentar conduzir um automóvel, se bem que inseguro com a faixa, mas revelando-se hábil e experiente naquele mundo de cor e movimento que pareciam intermináveis – cheguei a cogitar que, se a tia “Zabela” assistisse àquele espetáculo, diria tratar-se de: “uma feira de diversões animadas, coisas das máquinas para entreter a gaitagem…”

Num momento de mudança de jogo, o Sant´Iago fez-me esta confidência em alta voz:

“- Eu adoro bastante o meu pai! Ele ensina-me tudo e é muito meu amigo!”

Ainda lhe perguntei se ele era daquela cidade, mas, por desconhecimento ou por prudente e sºabio ensinamento paternal, respondeu-me:

“- Eu sou deste mundo!”

Mudámos de cadeiras, à medida que a sala ia ficando vazia, mas algumas rangiam e riamo-nos, enquanto procurávamos outras.

Ainda consegui motivar verbalmente o Gundisalvo relativamente à prova agendada e à exigência dos programas, facto que merecia a concordância paternal, mas era visível a recíproca pena de não estarmos juntinhos a desfrutar daquela espera aprazivelmente…

Entrei para o consultório antes deles, o que desagradou particularmente ao Sant´Iago, pois, com o fim da bateria do telemóvel da mãe, ia começar a contar-lhe uma história…

Quando saí, despedi-me da linda família, mas o Sant´Iago mostrou-se visivelmente contrariado, reclamando:

” – Ainda não podes ir-te embora. Não te contei a minha história!”

Sentou-se no chão encostado ao balcão, de pernas esticadas. Acocorei-me junto dele e começou a sua engasgada narrativa…

” – A minha história é… Não gosto nada da ir a casa do meu avô. No outro dia tive de ir; a minha mãe levou-me, mas… eu não gosto de lá estar, nem daquela casa, nem dos brinquedos; não são nada fixes…

Ainda consegui perguntar-lhe se não gostava do avô e acrescentar que a visita era por pouco tempo…

“- Mas eu gosto é de estar na minha casa com a minha mãe…”

Fomos interrompidos pelas boas intenções da zelosa mãe, que não queria que ele me prendesse mais tempo ali, que pediu para ele se levantar e…

E…

Despedimo-nos todos, simpática e reciprocamente, mas à distância…

E…

Não tive oportunidade de dizer ao Sant´Iago quanto era bonita a sua história de amor à família, ao pai que adorava, à companhia da mãe, que privilegiava, ao irmão que apreciava as continhas que fazia, aos jogos que conhecia, que sabia fazer e ganhava… e como seria bom aprender o que lhe ensinara: não precisar de bater no joelho quando perdia…

A “Combinação” Não Descombinada
Novembro 29, 2017

O corte abrupto e arrogante da “combinação”, sem prévia informação, nem haver qualquer razão, é a mera revelação da inequívoca desconsideração e desrespeito pelos laços da amizade, uma idiotice reveladora de imaturidade, falsamente mascarada de traços de mocidade!

O Elogio e o Plágio
Novembro 29, 2017

O imerecido e excessivo elogio envaidece, e o desrespeitador e indigno plágio enfurece.

Gente Boa da Minha Aldeia – Chuva de Lágrimas
Novembro 29, 2017

Chovem lágrimas de mãe, molhando a silenciosa estrada sem lavar a dor da partida inesperada, tez de luz embaciada, alma despedaçada!

Chovem lágrimas de irmão, estendendo a mão à sua irmã emprestada com a esperança de vida nela guardada, abraça a sua mãe e dá passos para não faltar nada!

Chovem lágrimas de esposa, acariciando o fruto do amor sempre vivo que traz consigo, que um dia pegará ao colo sem ter ao seu lado o marido!

Chovem lágrimas de família, sentindo a profunda mágoa partilhada, lamentando a despedida de tão precioso tesouro e não poder fazer nada!

Chovem lágrimas de amizade, vindo daqui e dali, de todos os meios e de arte, prantos de anos verdes já saudosos, e o caudal de dor do amigo solitário e distante perdido na ventania do pranto, que não pôde estar aqui!…

E…

Entre a chuva de lágrimas há escaldantes dores de amor de quem não quer chorar para que também o seu menino-tesouro-alado não chore, acariciando-o com a grandiosidade do seu ser como quando o aninhava docemente na conchinha do seu peito, o embalava na secreta sinfonia do coração envolta de inefáveis perfumes, e lhe sussurrava, tranquilizando-o: “Pronto! Pronto! Já passou!”

E…

Entre a chuva de lágrimas há um caminho de luz habitado por meninos cara de anjo, que o são, de facto, como este muito amado e sábio a soletrar as sílabas e a cantar a conjugação do verbo amar com sorrisos… – estes anjos choram?!… Sozinhos?!… Connosco?!… Por nós?!…

 

Sorriso do Dia – A Caminhada
Novembro 29, 2017

Faz de cada dia uma dourada madrugada, caminhando com um sorriso ao peito, plantando flores nos buracos da estrada com mãos de criança e carícias salteadas de gargalhadas, deixando pegadas na varrida areia molhada!

A Esvoaçante Hera
Novembro 29, 2017

Cantam as folhas entrelaçadas da hera com a brisa da cidade grande espreguiçando-se no Tejo, e dançam para adormecer as rendas calejadas da janela, guardando sonhos descobertos pelos repicar dos sinos da Estrela, sua grandiosa vizinha, mirando-se na arte dos polidos espelhos, aconchegada a memória das paredes revestidas pelo tempo fora pelo trinar dos pássaros renascidos nas manhãs vestidas de esperança!

A Busca da Perfeição
Novembro 29, 2017

A perfeição é a obsessiva perseguição da superioridade, navegando à deriva na carcaça da inferioridade, ignorando a orientação da bússola da realidade!

Ser Diferente
Novembro 29, 2017

Ser diferente é traço inteligente de quem reconhece a beleza da inodora flor do chorão com pétalas de finos fios de princesa e “queijinhos” no coração, que outrora deleitavam as crianças de bolsos rotos, mendigando um duro naco de pão, contrastando com a aveludada e perfumada rosa, símbolo de amor, com caules afiados, prontos para impiedosamente entrar em ação como o gigantesco bico rochoso, atirando-se à brincalhona ondulação.

A Desmedida Ambição
Novembro 29, 2017

A desmedida ambição causa cegueira aos olhos do coração!

O Aniversário da Pagizinha
Novembro 29, 2017

A nossa muito amada Pagizinha fez anos!

Os nossos corações irradiavam felicidade, tal como sucede no nosso dia-a-dia, pela dádiva do tesouro da sua existência e por fazer parte das nossas vidas, mas há dias em que o seu sorriso abre todas as porta do Céu e há estrelas saltando incessantemente dentro de nós, enlaçando-nos e estreitando-nos na infinita graça do inefável amor.

Liguei-lhe e apressou-se a anunciar-me a sua data festiva, que alegre, empolgada e gratamente pululava dentro de mim há dias, formulando docemente o convite que a sua mãe já se antecipara – estar presente quando apagasse as velas -, acrescentando que seria um lanche muito simples, e aguardando, insistentemente a minha confirmação.

Mas…

A Ninita estava comigo e, sem ter-lhe revelado a identidade de uma das suas companheiras dos nossos encontro anuais de: culinária, almoço, lanche, jantar e entretenimento, perguntei-lhe se poderia levar uma menina, o que a Pagizinha aplaudiu.

À nossa chegada, o seu surpreendido olhar foi o primeiro a abraçar-nos, irradiando alegria!

A festa, com o delicioso sabor familiar nas iguarias confecionadas pelos pais e pela avó, foi fantástica e docemente envolta na unidade dos sorridentes afetos.

A escola também foi convidada para o saudável convívio verbal, distinguindo-se o apreço da Pagizinha, pela professora que diz coisas giras e diferentes, utilizando provérbios que a fascinam e divertem.

A vela, brilhando sobre o lindo e amoroso bolo tecido com os dedos maternais, e os parabéns, ecoando com a intensidade dos sentimentos de cada um pelo prédio constituíram o ponto alto da celebração, para a qual o pai expressou um desejo, que todos ansiamos concretizar: estamos juntos novamente no próximo ano!