Archive for Março, 2007

Reivindicação
Março 29, 2007

O Vento

– Ó, “Stôra”, deixe-me lá “´tar” aqui encostado um bocadinho, vá lá!

– “Atão” “nã “foi a “Stora “que pôs ali aquele papel do Drummond de Andrade a dizer que o professor não acorda o aluno?

– A “Stôra” “nã” “sabi”, mas a “magana” da tosse andou toda “marada” atrás de mim esta noite e eu nem “pregui” olho!

-Quando “comeci” a “passari” pelas brasas, a minha “mãei” chamou-me e disse-me:
– Toca a levantar, que se faz tarde!

– E pronto! Dali a um “poucachinho” estávamos prontos! – “Ê” cá “sêi” quando se diz pronto e prontos! Vá lá, “Stôra”!

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D. Pimpona – 4.ª página
Março 28, 2007

Coração Florido do Poeta, 2009

O mancebo cambaleou entontecido e encostou-se à parece a arfar. Estendeu a mão e pediu-lhe as chaves, ao que a D. Pimpona respondeu:
– Vem aqui buscá-las! Estão no leito, debaixo do colchão. Achas que és capaz de as encontrar?
– Seria, se a “madama” se afastasse – retorquiu o jovem.
– “Madama”?!… Com quem pensas que estás a falar, reles mancebo?
– Eu sou Condessa. Condessa, ouviste? – respondeu a D. Pimpona de dedo no ar.
– Sim senhora, D. Condensa – corrigiu o jovem.
– O quê? Condensa? Estás a gozar comigo? – gritou a D. Pimpona toda vermelha.
– Perdão, perdão, minha senhora D. “Madama”… – replicou, aflito.
– Senhora D. Condessa de Bem-Falante e Sabe Tudo, assim é que tens de tratar-me – ordenou a D. Pimpona.

– D. Sr.ª Condensa de Altifalante e Entrudo – adiantou o jovem, confuso.
– Bem, bem, vai-te embora, porque já vi que não serves para nada! Chama a criadagem para me ajudar.

Decorrido algum tempo, chegaram: uma elegante jovem, sardenta e sorridente e uma senhora obesa, rosada e desconfiada.

Doutores, Senhores e Sonhadores
Março 26, 2007

Mocho Sábio

Doutores, senhores e sonhadores têm algo em comum: são humanos. Mas, na realidade…

– uns são doutos e não ocos, independentemente de possuíremou ou não título honorífico; de usarem fato e gravata ou uns trapinhos da “Boutique Alcofa”; de cheirarem a um(a) criadora de essências, de preferência estrangeiro(a), a campo ou a mar; de usarem cabelos curtos ou compridos; de comerem num restaurente fino ou darem uma trincadela num naco de pão às secas; de empregarem palavras de casquinha de ovo sem nada lá dentro ou uma linguagem simples, que todos entendem, recheada de bom-senso e verdade;

– outros são uns senhores, os bem-educados, bem-formados, quiça bem-dispostos, sempre bem-vindos – bem entendido!-, opostos aos bem-parecidos, bem-intencionados e bem-trajados, com fatos que até lhe assentam bem, mas que não são a sua medida…

– os que sonham, traçam projectos, alimentam-se de esperança e perseguem caminhos; os que vão à lua, mas ficam sentados, vêem-se actores e fazem filmes, mas são meros espectadores.

E há ainda os que fazem birra por tudo e por nada, dão pontapés no mundo, deitam a língua de fora à vida, riem de si, mas pensam que é dos outros, empurram quem passa, porque querem um lugar ao sol, apesar de estarem bronzeados!…

D. Pimpona – 3.ª página
Março 26, 2007

Coração Florido do Poeta, 2009
A D. Pimpona deambulava pelos longos, escuros e inóspitos corredores, rindo-se de todos.

A brigada transpirava por todos os poros, impregnando os espaços de uma fragrância que se propagava e causava espirros às donas – se ali houvesse crianças, o cenário seria ilustrado com caretas jocosas e salpicado com piadas risonhas.

Um jovem garboso aproximou-se da D. Pimpona e pedindo-lhe permissão para penetrar no seu aposento.

A D. Pimpona mediu-o de alto a baixo, despiu-o com o olhar, ficou com o pêlo no ar como uma gata assanhada e esboçou-lhe um sorriso maliciosamente sedutor. Piscou-lhe o olho, chamou-o com o polegar e penetrou à sua frente no comportamento.
Agarrou-o, puxou-o contra o peito e quase o asfixiou com um beijo quente e arrebatador.
Afastou-o de si num ímpeto, apontou para um conjunto de arcas e disse-lhe autoritariamente:
– Abre-as! Tira os haveres que encontrares no seu interior e coloca-os nas prateleiras de alvenaria e nas gavetas da cómoda gigante!

D. Pimpona – 2.ª página
Março 25, 2007

Coração Florido do Poeta, 2009

Um dia, apresentou-se na Alcáçova Assombrada uma brigada de desratização, que um ilustre fidalgo propusera ao rei, para acabar de vez com os gritinhos arrepiantes das damas.

Os servos, que antes do nascer do sol subiam para a Alcáçova Assombrada e à noite regressavam à Aldeia da Alegria, onde tudo era rico em folguedo e simpatia, começaram a desencantar: móveis, livros, pergaminhos, iluminuras, tachões, jarrões e muitos –ões pelos uso e idade, embora, nalguns casos, não aparentassem…

Os hóspedes da Alcáçova Assombrada, que ali se haviam recolhido pelas mais diversas razões, mas todos esperando encontrar alguma paz e recolher alguns proveitos para voltarem às suas terras, apressaram-lhe a ordenar os espaços de empréstimo, excepto a D. Pimpona.

A porta da ala principal, que separava as alcovas da ralé das da gente fina esbracejava num ranger aflitivo, produzindo estrondos assustadores que não paravam de ecoar, pondo os cabelos em pé às pessoas mais sensíveis, que gritavam quando olhavam para algum espelho.

Pérolas dos Olhos
Março 24, 2007

Dedo no Ar

As pérolas que se soltam dos nossos olhos quando abrimos a porta para o mundo metamorfoseam-se ao longo da nossa vida em:

– pétalas perfumadas de alegria;

– nuvens de tristeza;

– estradas de esperança;

– asas de amor;

– laços de solidariedade;

– armas de heróis;

– pedras falsas de vencidos.

D. Pimpona – 1.ª página
Março 24, 2007

Coração Florido do Poeta, 2009
A D. Pimpona andava sempre atrás dos outros hóspedes da Alcáçova Assombrada – medieval, situada num ermo de difícil acesso – com sorrisos falsos e falinhas mansas, despidas de qualquer interesse, pretendendo agradar, à espreita das conversas alheias, batendo inoportunamente às portas dos aposentos quando percebia ou desconfiava que alguém tomava um chá ou discutia algum assunto do reino, entrando sem que lhe dessem permissão, com uma desculpa esfarrapada na boca ou uma insignificância na mão – quase sempre raízes secas -, inspeccionando tudo com os seus olhos de lince e com as orelhas de radar arrebitadas, metendo o nariz em tudo como o João Ratão com o caldeirão.

Não conquistava simpatias, nem ganhava confianças, nem entre a nobreza, nem a plebe – apenas um elemento do clero a ouvia e o rei se iludia -, apesar dos seus risinhos de coelho ao saltos, dos seus esforços infrutíferos para causar boa impressão, das tentativas para ser ouvida, gritando como uma vendedora ambulante que quer atrair clientela, espalhando gafanhotos pelos cantos da boca, gesticulando como quem se prepara para medir forças corpo a corpo – uma (des)graça!…

Ser Livre
Março 23, 2007

Mocho Sábio

Ser livre é:

– não gritar, porque o outro responde com o silêncio;

– não ser escravo dos pensamentos dos outros;

– caminhar pelos seus próprios passos;

– saber dizer não e resistir à dor;

– aceitar um sonho desfeito;

– acenar com amor a uma partida;

– descobrir uma flor no meio dos destroços;

– ser estrela sem ser o sol;

– perdoar e desejar o bem;

– sorrir com o coração;

– chorar e limpar as lágrimas;

– abraçar uma multidão que se desconhece;

– assumir os seus valores;

– encontrar-se e abrir-se sábia e corajosamente ao milagre da vida!

Hoje…
Março 19, 2007

… é dia do pai vivo no meu coração, do companheiro que não vejo, do amigo de todos os momentos, do conselheiro no silêncio, do vencedor de todas as intempéries, do abraço de amor e gratidão até ao infinito!

É dia de amor, de verdade e de alegria, porque o homem e o pai é hoje o que sempre foi e será – único!

Aceitar e Decidir
Março 18, 2007

Coração de Amor-Perfeito

A amargura da decisão inadiável sublima-se no confronto com a realidade e na aceitação dos factos.