Archive for Fevereiro, 2015

O Barco de Papel – 13.ª Página
Fevereiro 26, 2015

O Barco de Papel

Quando se aproximaram do Cabo Bojador, o gigante Adamastor, que estava adormecido há muitos, muitos anos, começou a esfregar os olhos, que eram do tamanho do Mosteiro dos Jerónimos.

Estava encadeado pelo Sol Lusitano, o nome do Barco de Papel, que refletia muita luz da terra dos Lusos!

Não via nada!

Começou a resmungar como aquelas pessoas que acordam sempre mal-humoradas, mas com voz de trovão, que faz estremecer tudo!

E… enfureceu-se quando ouviu falar a mesma língua dos homens que o tinham desafiado quando era jovem: o Português!

Levantou-se!

Soprou uma ventania pelas narinas!

Pôs-se aos pulos, formando ondas assustadoramente altas, que abanavam o Barco de Papel, entontecendo, e derrubando os seus tripulantes!

Abriu a boca para devorá-los!

Mas, os corações do Sr. Príncipe, do Cão-Inspetor, do Ursinho e do mestre João batiam com tanta força, que fazia eco, e o monstro assustou-se, e fechou-a!

Então, a menina Ervilhinha pegou no búzio-mascote, e entregou-o ao Ursinho Pimpão!

O Marinheiro-Corajoso soprou-o com toda a força!

E…, de repente, as sereias surgiram à velocidade da luz, vindas do fundo de todos os mares e oceanos!

O Adamastor, cheio de medo perante tanta, mas tanta beleza, foi-se encolhendo, e escondendo nas águas, até que os seus braços de algas roxas e pretas, fortes e grossos como três comboios juntos, desapareceram e as suas mãos assustadoras com unhas de patas de caranguejos-torres já não se viam.

O Cão-Inspetor, o Gil, que salvara o Livro-Sabichão da fúria do mar, segurava-o entre os dentes!

Entregou-o ao Sr. Príncipe, que o limpou e abriu cuidadosamente!

Os tripulantes do Sol Lusitano abraçaram-se!

(continua)

Os Adultos-Heróis
Fevereiro 26, 2015

Árvore do Renascimento, 2014

As crianças e os adolescentes que provaram a rudeza da vida, que tiveram de percorrer caminhos pedregosos, que atravessaram a agrura das tempestades, aprenderam a vencer as dificuldades, descobriram a arte de plantar uma flor em cada lágrima, treinaram-se desde cedo para se transformarem em adultos-heróis com danças de sorrisos nos rostos de manhãs claras vestidas de alegria.

As Brincadeiras da Nita e do Nito – Quando Eu For Grande…
Fevereiro 24, 2015

A Janela da Muralha

A neblina encobria o mar, as casas, a povoação.

O castelo parecia assombrado!

A Nita e o Nito sentiam-se fantasmas!

Ela disse que brincar naquele dia não  tinha graça.

Ele insistiu para que ela ficasse.

– Vamos fazer um jogo, Nita! Só um bocadinho! Poder ser “quando eu for grande”? – propôs-lhe o amigo.

– Pode ser, Nito! Mas, olha lá! Já tenho o cabelo molhado – concordou a amiga, com reticências.

– Boa, Nita! Vou começar! Um dia, regresso para esta nossa terra, para junto do nosso mar. Não sei é se ele vai gostar de me ver fumar, porque vai andar tão cansado de tanto fumo industrial, que ainda pode confundir-me com alguma chaminé – afirmou o Nito, fazendo caretas ao fumo que ainda estava longe de si.

– Ó Nito, que conversa é essa de vires a fumar?!.. O tabaco faz mal. Devias pensar no que queres ser quando fores grande!

– Ó pitinha, todos os homens fumam; eu não posso ser diferente!

– Conversas de miúdos, espertinho! O meu pai é um grande homem, e não fuma. Ele diz que fumou quando era novo, mas um decidiu deixar e nunca mais! Mas, eu nem me lembro de vê-lo com um cigarro na boca. E que conversa é essa do fumo industrial? A nossa terra é piscatória e de turistas, no verão.

– Está bem! Tu não percebes, pitinha. Mas, sobre o fumo industrial, ouvi uma conversa lá em casa, que já se fala em tornar esta terra numa zona industrial com um grande porto.

– Nito, mas não é um porto de abrigo para os barcos de pesca, o que vão construir?!…

– Não! Isso é o que dizem, mas estão a pensar noutra coisa. Vou continuar. Mas as saudades do nosso mar vão superar a tal confusão visual, porque, coitado, ele já terá alguma idade! E ainda havemos de ter conversas de homem para homem, de homens e recordar os tempos de miúdos, os sonhos, as voltas que a vida dá! Mas vamos estar lá, isto é, cá! – afirmava o Nito otimista, esboçando sorrisos malandrecos!

É a tua vez, Nita.

– Hum! Um dia,  regresso à Madeira, ao bailinho, só para dar um pezinho de dança, comer um pedaço de bolo de mel, revisitar as caves e, claro, reencontrar-me com as “irmãs” e saborear o que há no caco do Curral – que nome, para iludir os turistas e dispersar a sua atenção –  projectava, a Nita com um olhar sonhador e viajado!

– Ah! Ah! Queres ir à Madeira e voltar lá?  Pois eu, um dia, regresso à Miróbriga! Hum! Aquele cheiro a romanas, apesar de estar em ruínas, mas elas ainda andam por lá! Só é pena serem de Santiago! Realmente, têm uma carita diferente das caramujitas, mais tipo Maria Campaniça, mas sempre me proporcionam um encontro com a cultura e a história. E é tudo boa gente!

Será que consigo comprar nas redondezas alguma língua de sogra, aqueles bolos caseiros, fabrico de padeiros, parecidos com uma papo-seco crescido, mas mais elegante, que têm recheio de chila? E almoçarei um prato de “jantarinho” ou migas de ovas com linguado frito nalgum restaurante? Será que sabem fazer leite creme? – sonhava o Nito na sua viagem pelo tempo.

A Nita ria do que o Nito dizia!

Ele estava a ficar corado. E antes que se zangasse, e se fosse embora “mudinho de um todo” como diziam na terra do Manuel da Fonseca, a amiga adiantou:

– Nito, não sabia que gostavas tanto do cheiro a romanas, nem que preferias as caramujitas, e muito menos que apreciavas a comida da terra do tal escritor, mas tu não gostas mais de carne de porco à alentejana?

– É para que saibas, pitinha! Então o jogo não é”quando for grande”?!… E gosto mais de carne de porco à alentejana, pois! E de leite creme! E de panito alentejano. Daqui a uns anos, tenho de ter cuidado para não partir nenhum dente, porque dizem que com o tempo, as nossas dentaduras ficam gastas.

– Grande espertinho, Nito! – declarou a amiga, dando uma gargalhadinha.

– Podes dizer, Nita! Obrigado! – agradeceu o amigo.

A Nita olhou para o céu! O tempo estava pior! Caia uma espécie de chuvinha miudinha. A menina retorquiu:

– Nito, está na hora de pormo-nos  a caminho e regressarmos a casa! Eu moro mais longe!

– Tens razão, Nita! Mas, anda ali a casa, e levas um boné na cabeça – respondeu o amigo.

– Obrigada, Nito! Eu vou a correr! Lembra-te de que sou rápida! Olha… – afirmou a amiga.

– Estou olhando… – gracejou o Nito.

– Engraçadinho! Achas que no “quando eu for grande”, nos vamos encontrar? – questionou a Nita com um ar apreensivo.

– Não sei, Nita! Mas, espero que sim! Havemos de ter muitas coisas para contar um ao outro. Vai ser giro! – opinou o Nito.

– Eu também espero que sim! O pior é se o fumo te sobe à cabeça, e… ainda te esqueces de mim! Vou… – concluiu, receosa, a menina.

– Não me esqueço nada! Bora! – disse o Nito, convicto.

– Espera! Partida! Largada! Fugida! – desafiou a menina, tomando a dianteira.

E os amiguinhos correram juntos até à porta do castelo.

Ela continuou sozinha, sem olhar para trás, no seu pezinho ligeiro.

Ele parara a olhar para ela, sorrindo, e cogitando:

“- A danadinha da pitinha corre bem! Mas, se eu quisesse, apanhava-a!”

O Néctar do Amor
Fevereiro 24, 2015

Os Patos do Parque, 2010

Quem ama verdadeiramente, derrete a dor de leão com as palavras prometidas na casa do ser, e cristaliza o néctar do coração, saciando a sede da alegria com poemas de seda, rimando com danças de sorrisos!

Sorriso do Dia – Era uma vez….
Fevereiro 24, 2015

Flor da Aldeia, 2015

Era uma vez uma folha de papel em branco!

E um menino a desenhar o mar!

E mar a pintar o céu de azul!

E o céu azul a plantar estrelas!

E as estrelas a brilhar no caminho!

E o caminho a marcar passos!

E os passos a percorrer mundo!

E o mundo a olhar para o homem!

E o homem a plantar árvores!

E as árvores a recontar histórias!

E as histórias a brincar com a escrita!

E a escrita a brindar com a alegria!

Era uma vez a alegria a chamar o sorriso do dia!…

A Conchinha de Carícias
Fevereiro 24, 2015

Flores do Jardim Santo, 2010

Toda a doçura é caminho atapetado de flores na palma da tua mão, conchinha de carícias aberta com os sorrisos do teu coração.

O Sonho de Tule – O Sorriso Cor-de-Rosa da Aira
Fevereiro 24, 2015

O Sonho de Tule

A Aira surgiu na minha frente com o sorriso cor-de-rosa estampado nas suas bochechas redondas, lisas e luzidias.

Não! Não estivera a ajudar a mãe na doçaria, nem o pai com algum prato, nem que fosse para pôr a mesa! Ela nem trazia o seu avental! Nem o lenço na cabeça!

A Aira também não pegara na esfregona para dar um jeito muito seu na cozinha! Nem usara a vassoura! Nem pensar nisso!

E…

Não participara em nenhuma simulação com o irmão, futuro-grande-bombeiro, ora infante-cadete!

Ela nem estava na sua casa!

Mas, também não tinha os seus lindos óculos cor-de-rosa, que lhe dão aquele ar de menina grande e bem comportada, de mestra, até! Mestra expedita e muito sorridente!

A Aira trazia um lindo vestido de tule cor-de-rosa com pontas, uma que lhe tapava um joelho, e a outra, que destapava a perna!

E o decote? Deviam ver! Claro que a menina, que ainda não se aconchega no sossego desassossegado das cadeiras do ensino básico, nem sobressai como espero que honre o pai, a quem tive o privilégio de ensinar a nossa língua, não trazia o peito nem as costas nuas, mas, decoradas com umas finas alcinhas. O que a destacava era a sua postura de distinta infanta, simultaneamente simples e descontraída – um encanto!

Os seus cabelinhos louros, com umas ondinhas de fina brisa marinha, herança da mãe, destacavam-lhe a testa com uma fina fita, prendendo-os.

Ah! E a Aira tinha calçadas umas delicadas sapatilhas cor-de-rosa pálido, de balé, nas quais o seu sonho de tule deseja ficar um dia em biquinhos de pé!

E…

Na delicadeza determinada do seu sorridente passo cor-de-rosa, a Aira aproximou-se de mim e beijou-me com a sua doce melodia, tocada de alegria, que a sua mãe tão bem acompanhava!

A Memória do Coração
Fevereiro 24, 2015

Flores de Braço dadao, 2010

A memória do coração é uma galeria de paredes brancas com raios de sol em cada rosto amado, passeando connosco de braço dado.

Histórias de Fantoches – As Recordações do Sr. José – 2.ª Página
Fevereiro 24, 2015

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– Bom dia, Sr. José! Como está? – saudou a Benvinda Alegre, a empregada de mesa, muito loura e muito sorridente, sobressaindo as suas bochechas cor de maçã muito rosada.

– Bom dia, menina Benvinda! Está tudo bem, obrigado! E consigo? – respondeu o Sr. José.

– Estou ótima como pode “ber”, Sr. José! Então o que “bai” hoje? Um garotinho e a sandes de queijo do costume? – perguntou a simpática e desembaraçada rapariga.

– Pode ser, mas traga-me primeiro um sumo de laranja, e a sandes, por “fabor”! – pediu o cliente.

Enquanto esperava, o Sr. José ajeitou melhor os óculos, e pôs-se a olhar para os desenhos animados que estavam a ser transmitidos na televisão.

– Aqui tem o seu pequeno “almocho”! – interrompeu a empregada, que começou a servi-lo.

– Muito obrigada, menina Benvinda! “Estaba” entretido a “ber” aquele programa para os miúdos, que os graúdos também “aprechiam”. A menina já reparou nas cores e nos “mobimentos” dos desenhos animados? São um espectáculo “marabilhoso”. E o futebol? O “relbado” e as camisolas coloridas dos jogadores misturadas umas com as outras a brilharem – é lindo! E quando os azuis estão no campo, é uma “perdichão”, não acha?

– Eu acho normal, Sr. José – afirmou a jovem, enquanto já retirava uns copos da mesa do lado.

– Isso diz a menina, e tem razão, porque nunca “biu” “telebisão” a preto e branco como eu e as pessoas do meu tempo. E antes de os homens terem “inbentado” a “telebisão”, só se “oubia” rádio. E em “bez” de assistir às “telenobelas”, o “pobo” “escutaba” os folhetins – era tão bonito! “Debia” ter “oubido”.

– “Debia, debia”, se fosse da idade da minha tia! Desculpe, Sr. José, mas tenho de ir atender outro cliente. Eu já aqui “bolto”. Até já e bom apetite! – retorquiu a Benvida Alegre.

O Sr. José ficou tranquilamente a saborear o seu pequeno almoço, mas, de repente, sentiu uma forte palmada nas costas.

(continua)

A Baça Sombra da Imitação
Fevereiro 24, 2015

A Palmeira Imitada, 2010

A imitação, por mais perfeita que se afigure, será sempre uma baça sombra da fresca folhagem despida da frescura da nascente, percorrendo o seu leito com sussurros de manhã clara, despertando a natureza adormecida sem fantasmas da noite fria e só.