Archive for Março, 2009

Dedicatória e Dedicação – 2.ª Página
Março 31, 2009

Um dia, o barulho de uma mota interrompeu o sono do mar e das crianças do bairro e silenciou-se à nossa porta.

Alguém chamou pela minha mãe e no seu rosto avivou-se a alegria do reconhecimento de uma saudosa voz masculina.

– “Parece-me a voz do M(…), mas não pode ser!” – retorquiu como quem se cruza com um sonho.
Pousou a sua gigantesca e inseparável caneca de café sobre a mesa da cozinha e correu para a porta.

Lá fora, junto ao portão, dois rostos sorridentes esperavam-na. Um abraço uniu dois amigos-irmãos – decorridos anos, ele escolhera-a para o seu reencontro com o perfume marinho da sua terra e a força inalterável das suas raízes.

A esposa, de calça justa – peça de vestuário adequada ao meio de transporte que os trouxera até ao litoral alentejano, mas ainda invulgar na província – e de capacete na mão, sorria como uma criança num dia de festa.

Eu, pequena e magricela, olhava-os timidamente surpreendida – recordo-me do M(…) ter-me pegado ao colo e da ternura das mãos da B(…) sobre a minha cabeça.

Este dia marcaria um ciclo renovado de viagens, de crescimento de afectos, de encontros e de partilha, que os anos foram desenvolvendo e fortalecendo.

(continua)

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Dedicatória e Dedicação – 1.ª Página
Março 30, 2009

No verso desta fotografia pode ler-se:

“Para a menina Antónia e seu esposo com sincera amizade e consideração de E (…) e M (…) no dia do seu casamento realizado em 17/4/1960.”

Estes jovens, uma lisboeta – “alfacinha de gema”, nascida na Pampulha, entre Alcântara e Madragoa – e um siniense – “caramujo” – corajoso e determinado, que deixou a sua terra no alvorecer da sua juventude à procura de uma vida melhor, que a perspectiva do maravilhoso cabo que fora seu berço não lhe oferecia, celebraram o
seu casamento na igreja de Santos-o-Velho, em Lisboa, onde a menina fora baptizada, dando seguimento a uma tradição familiar.

O namoro, regado de um amor romântico, decorreu na casa da noiva, na Penha de França, depois de um pedido formal do noivo ao que viria ser o seu sogro – homem do fado, viola e canto -, que determinou as regras como um general.

A avó Chica, uma velhinha encantadora, incumbida da vigilância do jovem casal, acompanhava o namoro todas as noites em que o “rapaz”, perdido de amores, se apresentava lá em casa, lavadinho, penteadinho e perfumado, e, entre o cabecear da idade e do cansaço do fim do dia, chamava a atenção para a perna que ele encostava à da neta e “via-o” de jornal aberto a tocar-lhe…

Todas as noites, quando ele regressava ao quarto que alugara, expandia os seus sentimentos reprimidos pelo “regime”, escrevendo cartas à sua amada, que as recebia no dia seguinte.

Os Santos Mártires de Lisboa, os irmãos Veríssimo, Máxima e Júlia, presentes no altar do casamento, acompanhariam esta união abençoada por Deus ao longo das suas vidas, enchendo-as de alegria, até ao momento em que Ele o chamou – ontem completaria setenta anos.

(continua)

O Verdadeiro Homem
Março 27, 2009

Idosos

O verdadeiro homem não troça, não difama, nem descrimina o Outro, exibindo os seus próprios complexos, fracassos, medos e preconceitos, cantando para si próprio, completamente depenado e só, num poleiro de areia movediça.

O Verdadeiro Homem conhece-se, compreende, reconhece e aceita as diferenças, partilha experiências e saberes, tem consciência que é um ser da humanidade, diferente e simultaneamente igual aos outros, e caminha pelo mundo com um sorriso no peito e com a mão estendida com inteligência, pronta para dar e receber.

O Avô Contador de Histórias – 18.ª Página
Março 24, 2009

O decorrer dos anos foi enfraquecendo a vitalidade do meu avô contador de histórias e limitando a sua mobilidade: a ribeira e a costa do norte deixaram de estar ao alcance das suas pernas; apoiava-se numa tosca bengala nas pequenas deslocações que efectuava; passava a maior parte do dia à porta da sua casa ou perto de uma das janelas, sentado num banquinho de madeira, inalterável na sua comunicação com o mundo, saudando e entabulando conversa com quem passava, desfrutando da companhia da família, dos amigos, vizinhos, que se sentavam ao seu lado, e dos conhecidos que faziam uma pausa no seu percurso.

Pai de quinze filhos, com uma braçada de netos e o regaço cheio de bisnetos, a quem continuava a fazer recomendações e a narrar histórias mais breves do que aquelas com que me embalara e despertara a minha imaginação, preservava a sua alegre e terna lucidez, acolhendo todos com uma espontânea alegria.

Recordo a felicidade estampada no seu rosto quando se encontrava de cama – a mesma onde me deitara a seu lado, berço de inesquecíveis viagens pelo mundo encantado das suas histórias – e, de braços estendidos, pegou e ergueu o meu primeiro filho como um troféu, conversou com ele – “meu passarinho, venha cá ao avô …! – e fê-lo sorrir e palrar … – a derradeira e magnífica imagem que me legou.

O meu avô contador de histórias marca o meu primeiro contacto com a partida de um ente querido. Não me despedi dele, acompanhando-o nas cerimónias fúnebres. Não consegui dizer-lhe adeus! Chorei-o profundamente na minha solidão!

Desde aquele dia de Março, depois do meu aniversário e antes do da minha mãe – neguei memorizar a data, enaltecendo, como sempre fizera, a do seu nascimento, 6 de Janeiro, Dia de Reis, digno de si – que o descubro em todo o que é belo e novo, e imagino com alegria vibrante do meu coração unido ao seu, esboçando sorrisos discretos, as histórias que ele criaria perante as mutações do mundo.

E no meu caminhar vou acreditando, entre o sol que brilha, a nuvem que passa, a brisa que sopra, o mar que se agita, a luz do dia que desponta, que o meu amado avozinho contador de histórias me deixou de herança, entre muitas riquezas, o seu “dedo que adivinha”.

Conversa Interurbana
Março 20, 2009

Sorriso

Lisboa, 09/03/11

No autocarro, a atravessar a cidade aos soluços, ao entardecer, dois intelectuais, sentados de frente um para o outro, em amena conversa: um rosto conhecido marcado pelo maduro e sereno saber recolhido ao longo dos tempos, de peito aconchegado por um colete original com um fecho até ao pescoço; outro, desconhecido e com o entusiasmo dos anos verdes, desencostado.

Debruçados sobre a literatura nacional, que consideravam injustamente esquecida/desconhecida, citavam: Antero, Eça e outros, e respectivas obras e papéis sócio-culturais.

E o autocarro seguia suavemente pela curiosa Lisboa, à escuta…

Ao Paizinho
Março 19, 2009

Sigo no silêncio saudoso da escura estrada de mão dada com o seu amor, luz nesta madrugada – Muito, muito Obrigada!

O Avô Contador de Histórias – 17.ª Página
Março 18, 2009

À medida que eu ia crescendo, o meu avô revelava-se um sábio:

– as histórias continuavam a soltarem-se da sua imaginação pintadas de todas as cores, atravessando todas as partes e mistérios do mundo, misturando o real com a ficção;

– os truques dos jogos de cartas, passatempo familiar marcado pela alegria, tantas vezes aquecido pela braseira decorada com prata aproveitada de algum chocolate saído esporadicamente num furo, enchiam de magia as figuras dos reis e das damas, e os ensinamentos e as oportunidades para me transformar numa mestra no “burro-em-pé”, treinando a concentração e a destreza manual, eram fantásticos – quando perdia, não batíamos palmas, mas sorríamos e recomeçávamos;

– os brinquedos que ensinava os meus tios e primos mais velhos a construírem: cortar as canas, preparar a cola, dissolvendo a farinha na água e utilizar o cordel na confecção das estrelas – papagaios de papel -, bem como a arte de manuseá-las; os carrinhos onde eles se montavam, apesar de considerá-los perigosos, as bolas feitas de bexigas de porco secas, e tantos outros, fascinavam-me;

– as altas caniçadas que erguia para delimitar a área da habitação, situada no meio de um soberba espaço e, em particular, a mais baixinha que cercava o jardim da minha avó – local misterioso, magicamente colorido e perfumado, onde só me era permitido entrar com autorização prévia – e os respectivos portões de madeira, que dispunha com precisão antes de colocar os pregos com marteladas vigorosas, teciam à sua volta a força protectora;

– as lições que dava a todos sobre: as “maneiras de estar à mesa”; as regras sociais – “falar às pessoas, dizer obrigado e pedir (com) licença”; tirar o chapéu/boina -; as relações interpessoais – darem-se bem e não esconderem nada uns dos outros -; a disciplina da casa – rigorosa e autoritária;

– as receitas que recebera dos antepassados e que passava às outras gerações: aguardente com mel para curar as constipações; cerveja com gema de ovo para tornar os “moços” mais vigorosos; um copinho de vinho à refeição para dar força;

– os presentes que as suas mãos grandes, fortes e docemente acolhedoras me estendiam: as cascas das lapas, que guardava para eu poder fazer colheres com cabos de cana, que um golpinho habilmente saído do seu canivete permitia prender à “concha”, com as quais dava comida às minhas bonecas; o passarinho que caíra do ninho, que eu acariciava e que ele restituía ao seu lar; os primeiros pintainhos a saírem das cascas, amarelinhos e fofos, que eu aquecia nas minhas mãos; as amoras colhidas nos silvados ou a melhor maçã que havia na fruteira…

– os diálogos em francês, que apreendera na guerra, de frases curtas, enfatizando a pronúncia correcta de algumas palavras – “oeuf”, “boeuf” e tantas mais…

(continua)

Analogias
Março 16, 2009

Mocho Sábio

Dívidas, roupa para lavar e engomar é tudo igual: não se pode acumular.

Os Biquinhos dos Sapatos
Março 16, 2009

Menina ao Vento

09/03/10

Quando eu era criança, os sapatos de bicos longos caracterizavam as personagens opostas às fadas.

Actualmente, podemos vê-los à distância apontados para todos nós como símbolo de destacada elegância, parecendo, nos passos ameaçadores, preparados para ferir-nos, à medida que se vão aproximando.

Curiosos e inofensivos, afiguraram-se-me os que espreitavam por baixo da toalha de veludo vermelho que cobria uma das mesas da sala de um distinto hotel lisboeta onde decorria um evento social, em movimentos estonteantes denunciadores de pernas abertas espreguiçando-se…

O Elevador
Março 14, 2009

Sol

09/03/09

O elevador daquele prédio de construção ancestral com portas de castelo para gigantes, situado numa rua movimentada da capital, panorâmico no rendilhado do ferro forjado e acolhedor no conforto oferecido pelo banco estofado de veludo vermelho, é uma pequena maravilha cultural desta linda Lisboa!