Archive for Novembro, 2009

Frio Agreste na Sé
Novembro 24, 2009

A Sé de Lisboa – e quantas outras?!… – tirita ao som da trombeta da solidão desprotegida de homens e de mulheres perdidos no seio de uma sociedade discriminatória, egoísta e materialista, invisíveis para os poderosos, mas com rostos e histórias para os generosos, abrigando-os no tecto do mundo, sob o manto de Santa Maria Maior, misturados com os estilos que avoengos – seus ou anfitriões – edificaram pedra a pedra, também famintos, sofredores, vítimas, e com Santo António cujos sermões ouvidos moucos de outros, ainda mais pobres, não escutam, nem percebem.

Toca o Telefone
Novembro 24, 2009

Toca o telefone no seu trim travesso e troveja no silêncio, e tremelica o coração, e trina a inteligência:

– Que transtorno!

O transmissor traumatizado tagarela a mensagem tostada de obrigado.

Toa a tolerância teimosa, ao ouvir a telefonia, tão triste e tardia!…

A Menina Azul – O Jovem Lavrador
Novembro 24, 2009

09/11/23

Entrou um jovem no meu gabinete, depois de pedir licença, e começou a limpar os vidros das amplas janelas amarelas, advertindo-me de que não necessitaria de levantar-me, porque poderíamos estar ambos a trabalhar ao mesmo tempo.

Absorta na minha actividade, nem reparara no seu rosto, mas a sua rapidez e eficiência não me passaram despercebidas e dirigi-lhe um justo elogio.

Observadora e graciosa, uma jovem esbelta, de rosto cândido e luminoso, olhos claros e cabelo solto com muitos caracóis, que ia a sair em serviço, perguntou-lhe:

– Não quer ir para a minha casa?

– Para trabalhar? Oh! – respondeu-lhe o rapaz serena, respeitosa e indiferentemente.

– Claro, para trabalhar! – respondeu-lhe a sua interlocutora com um lindo sorriso!

– Para trabalhar, tenho a minha casa onde faço tudo sozinho: limpo, lavo, passo, trato do campo à volta; é uma vivenda, tenho muito que fazer.

– E não tem ninguém com quem partilhar as tarefas? – insistiu a jovem.

– Não, mas às vezes é melhor estar só do que mal acompanhado.

Quando deixou os vidros a brilhar, colocou-se na minha frente e, colado ao chão, narrou a sua actividade semanal de lavrador:

– Cuido da vinha, das laranjeiras, tenho umas batatas semeadas, alfaces e coisas assim! Devia ver, nem deixo crescer uma erva. Pego num tractorzinho que lá tenho e lavro tudo, mas quando comprei aquilo, havia ervas do meu tamanho.

E vende alguma coisinha? – perguntei-lhe.

– Não vendo nada, dou. As minhas laranjas são mel, nem sei onde arranjei aquilo, e as minhas vizinhas, que também têm laranjeiras, vêm apanhar das minhas, mas eu não me importo, até gosto de repartir.

– Não é frequente encontrar um jovem assim! – salientou a Teté, precioso elemento da minha equipa.

– Olhe, no caminho um colega perguntou-me como é que eu juntava dinheiro para ter tudo isto, e eu respondi-lhe que, enquanto ele andava a divertir-se todas as noites e a gastar dinheiro, eu ficava na minha sala, sentado no sofá a ver televisão. Mas eu preciso é de trabalho, esse é que não pode faltar e, quando chegar, largo este e pego noutro – prosseguiu o jovem, que não tinha tempo para barbear-se.

– E um docinho de laranja? Seria bom ter alguém que o fizesse com gosto e apreciasse essa sua actividades de lavrador – insisti.

O jovem sorriu e continuou:

– Eu sou mais do campo, eu gosto do campo, e a minha mãe, que é do Alentejo e o meu pai de Paredes de Coura, também gostam! Estiveram lá no fim-de-semana! Mas o pior são as contribuições, porque eu comprei aquilo barato – continuou o jovem, referindo o contexto e o valor da compra, a qual o mediador da imobiliária propôs duplicar, caso lha quisesse vender.

– Mas morar numa vivenda tem vantagens, porque não se incomoda, nem se é incomodado! – adiantei.

– É verdade, e não se paga condomínio, e aquilo tinha uma adega e tudo. Mas está-se sempre a gastar dinheiro, porque isto ou aquilo não está bem, arranja-se. Olhe, acabei a cozinha, ficou rústica, procurei juntar os dois estilos das zonas dos meus pais, está bonita, eu gosto!

– Mas investe e vê frutos do seu trabalho! Parabéns! – incentivei-o.

À despedida, que o jovem parecia não desejar, felicitei-o por ser grande, não me referindo à sua enorme estatura e desejei-lhe as maiores felicidades, as quais me retribuiu.

Injustiça Humana
Novembro 22, 2009

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Alguns com tanto milhão e muitos sem ganha pão!
A que se deve tanta diferenciação?!…
Ao homem que, em vez de amar e pensar, tem no coração uma máquina de calcular e olha para o mundo de barriga cheia e de papo para o ar, sem se incomodar.
Quem sabe se é por isto que passa a vida de crista levantada a bater as asas, mas sem cantar nada?!…

O Caçador sem Pontaria
Novembro 22, 2009

De olho vivo, mas sem ver nada, o traiçoeiro caçador, perdido na coutada, com cartuchos de prepotência na espingarda apontada, cai na armadilha e não caça nada.

A Caranguejola Mal Comportada
Novembro 19, 2009

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Uma caranguejola velha e mal-encarada não queria andar, mas foi passear, lanchou, pernoitou em hotel de cinco estrelas, sem pagar nada, mas rabugenta e zangada, não quis levantar-se de madrugada, obrigando uma amiga a andar à boleia e o dono do estabelecimento a ficar deitado sob as estrelas, amanhecendo molhado e constipado, mas hoje vai ser desmontada, coração fora, para ser tratada!

Não Ofendam as Palavras!
Novembro 19, 2009

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As palavras não se querem ofendidas, por isso elas próprias provocam engasgos a quem “vã-mente” as insulta na pronúncia e as mascara no entrudo relacional e fazem sinais a quem as ouve e caretas a quem as lê, na tentativa de preservarem a sua identidade, expressando-se como são, alegres ou tristes, mas verdadeiras e dignas.

Mulher-Mãe
Novembro 18, 2009

Mulher, navegante louca na solidão desenfreada da tua frustração amorosa, perdida no vendaval da tua desordenada emotividade e instabilidade, pára na praia deserta do teu ser e acolhe como a fresca brisa marinha e com ondas de amor paciente e compreensivo o teu menino que cresceu, reconhecendo-lhe o direito à sua liberdade de pensamento e poder de decisão, porque os teus ressentimentos não podem ser os dele.

Deixa-o prosseguir o seu voo magoado na viagem da vida que lhe deste, mas que não te pertence – ama-o, simplesmente, sê mãe!

Aerograma N.º 1 – Passagem
Novembro 17, 2009

Amigalhaça,

No esplendor da tua pessoa sobressaia a grandeza da tua África, que te chama e para a qual estendes a tua mão. Caminhas na sua direcção, prestes a deixares-te prender por ela, para festejares a tua Páscoa – boa “passagem”!

Um beijinho, minha irmã,
Maria

Um Bem Chamado Chuva
Novembro 16, 2009

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Não olhes para a chuva com tristeza, porque ela alimenta a Terra e sacia as fontes e, na Primavera, os campos vão sorrir-te com alegria pintada de todas as cores e muitos sabores.