Archive for the ‘Quando Eu For Grande’ Category

Quando Eu For Grande – Septuagésimo Segundo Desejo
Janeiro 30, 2020

Quando eu for grande, quero ser todo o tipo de calçado pálido, a condizer com todo rosto “mal-encarado”!

Quando eu for grande, quero ser as sandálias douradas nos pés da titi que imitava os cães fazendo chichi aos troncos das árvores encostados, pintando o recreio do liceu de risos corados!

Quando eu for grande, quero ser os sapatos pretos discretos e mudos, de que só as flores dos valados se apercebem, e com os quais as crianças brincam ao faz-de-conta, dos de professor que não acordam os alunos e tudo ensinam, ao contrário dos do Sr. Diretor, que rangiam pelo corredor com ecos de ditador!

Quando eu for grande, quero ser as botas duras do trabalhador com biqueira larga e sola grossa para girar todo o dia em qualquer dureza do piso em longas e repetidas caminhadas, sem que lhes façam mossa!

Quando eu for grande, quero ser os sapatinhos de gala com bico afiadinho, salto altinho para mais fácil dar algum coceguento segredinho, e fininho para o passo miudinho, com tons a condizer com a delicada mala!

Quando eu for grande, quero ser os chinelos de enfiar no dedo com tiras a abraçar os pés delicados e também os largos, de gente grande, e os cansados, e a entrelaçar as pernas como graciosos brocados!

Quando eu for grande, quero ser os ténis brancos com tintas e pincéis ao lado para pintá-los de uma só cor como um relvado, um telhado, um mar calmo, turquesa ou azulado, ou como o jardim todo salpicado, com uns patins, com uma bola, com um carrinho de bonecas, e /ou um cão de língua de fora, muito bem sentado!

Quando eu for grande, quero ser qualquer tipo de calçado confecionado de sonhos com pospontos alados, que me permitam: andar, correr, voar para qualquer lado, e percorrer o mundo no dorso do vento nas delícias dos tules de noivado!

Quando Eu For Grande – Septuagésimo Primeiro Desejo
Julho 11, 2019

Quando eu for grande, quero ser uma linda menina de grandes olhos como os da minha avó, e muito azuis, iguais aos seus, para percorrer o céu, desvendar os seus mistérios, e ser confundida com a cor do seu imenso véu!

Quando eu for grande, quero ser uma sebenta de verbos a voar nas asas de um enorme girassol, brincar com as crianças ao jogo de conjugar, bater palmas no ar, e ensinar o homem a rimar o verbo amar com cantar, e reciclar com salvar, para um novo mundo criar!

Quando eu for grande, quero ser uma gota de chuva com mel a deslizar nos lábios dos pais que estão sempre a desconsiderar, a desmotivar e a envergonhar as crianças, que não param de enervar, atirando-lhes a sua ansiedade, insucesso e desejos que não chegaram a realizar!

Quando eu for grande, quero ser uma alegre canção, percorrer mundo, andar de boca em boca com a desafinação da primeira dentição, a voz límpida da flor da juventude, e o enrugado tremor do tempo, mas sempre com a vibração e os sorrisos do coração!

Quando eu for grande, quero ser uma gramática com fogo de artifício na ponta da língua: passear-me nos jardins e nos parques infantis, e saltar com muitas interjeições; percorrer as estradas, e parar nos estacionamentos com muitos e prudentes imperativos; andar nas feiras e nos mercados, e noutros sítios, que não deixo aqui indicados, com advérbios terminadas em -mente – cuidado! -; iluminar os  jardins: dos hospitais, dos presídios e dos sem-abrigo com muitos adjetivos, e sorrisos em que todos lessem e percebessem: “Não estás só; estou aqui contigo!”

Quando Eu For Grande – Septuagésimo Desejo
Junho 17, 2019

Quando eu for grande, quero ser o olhar de esperança no rosto triste de cada criança!

Quando eu for grande, quero ser o colar de camarinhas abraçando de doce maresia os delicados pescoços de meninas!

Quando eu for grande, quero ser o pião a rodar na pequena mão com a vibração do pueril coração!

Quando eu for grande, quero ser o sonho acordado ao teu peito encostado a contemplar o céu da palpitação do teu coração!

Quando eu for grande, quero ser o silêncio amadurecido beijando palavras contigo à sombra do canto de um pinheiro amigo!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Nono Desejo
Janeiro 3, 2019

Quando eu for grande, quero ser um pirilampo-escritor, dançar à tua frente, fazer- te sorrir, e aliviar a tua dor!

Quando eu for grande, quero ser a luz da madrugada, ajudar-te a abrir a porta ao dia, e abraçar-te com alegria!

Quando eu for grande, quero ser uma estrela, mostrar-te as pedras do caminho, e oferecer-te flores de rosmaninho!

Quando eu for grande, quero ser um espelho no teu olhar, ler-te versos, contar-te estórias, afugentar a tristeza, e e ensinar-te a cantar! 

Quando eu for grande, quero ser a chama do amor, pulsar no teu coração, saltitar na tua mão, e beijar o mundo com a doçura do perdão! 

Quando eu For Grande – Sexagésimo Oitavo Desejo
Novembro 16, 2018

Quando eu for grande, quero ser as pétalas de poesia deitadas ao luar a adivinhar a roda da justiça a brilhar!

Quando eu for grande, quero ser um ramo de alecrim para o teu nariz beijar e estares sempre ao pé de mim!

Quando eu for grande, quero ser uma árvores ressequida para me puderes regar e te encantar com os olhos da folhagem a rebentar!

Quando eu for grande, quero ser o silêncio, impedindo o ruído de te incomodar para escutares devagar a voz do mar dentro de ti a cantar!

Quando eu for grande, quero ser o mapa do tempo para te mostrar que um dia vais mudar de lugar e o jardim da memória vais abraçar!

Quando eu for grande, quero ser o arco-íris do sonho para te acordar e a cítara da alegria começares a tocar!

Quando eu for grande, quero ser o farol para dos perigosos rochedos te afastar, e da transparente beleza da pura verdade te aproximar!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Sétimo Desejo
Agosto 22, 2018

Quando eu for grande, quero ser uma constelação, pegar na tua mão fria e aquecê-la no meu coração!

Quando eu for grande, quero ser um pássaro-azul, grande sabichão, e ensinar-te uma lição com uma linda canção!

Quando eu for grande, quero ser um dedo do silêncio, dizendo-te: “Não! Não!” quando abrires a boca para magoares o teu irmão!

Quando eu for grande, quero ser um Caderno de Significados de frases e palavras proibidas para consultares e não ferires as pessoas amigas – nem as outras!

Quando eu for grande, quero ser um Decreto e cobrar taxas a quem repele o outro com: “- Eu já sabia! Bem feita, não me deste ouvidos! Eu já tinha dito!”, porque nada disto é bom, nem bonito, sobretudo quando alguém está aflito!

Quando eu for grande, quero ser um lindo amanhecer, acordar as flores e a vida com bailados dos jardins e os cantos bordados de ondas, escutar o silêncio, espreguiçando-se com os galos-despertadores e o festival dos pássaros nos quintais, beijar o céu e em redor com olhos de sol, entrar nas casas com abraços, sorrir para a dança das sombras nos telhados!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Sexto Desejo
Abril 16, 2018

Quando eu for grande, quero ser a doce luz da aurora, beijando os olhos tristes das crianças a toda a hora!

Quando eu for grande, quero ser a sinfonia da alegria, acordando a esperança com o chilreio da criança, correndo pela casa quando esta ainda dormia!

Quando eu for grande, quero ser a fonte cantante, saciando a sede do caminhante, refrescando o rosto rosado da aguardente, batendo inocentes e contentes palmas de criança a toda a gente!

Quando eu for grande, quero ser a roda na festa da escola, acariciando as bochechas caídas, apertando com o coração do dia a boca lambuzada e a criança rejeitada, guardando, apressada, a aprendizagem, as brincadeiras e todas as memórias numa secreta sacola!

Quando eu for grande, quero ser a magia do papagaio de papel, abraçando a criatividade nas sílabas do poema da criança pintado com sorrisos de bondade, fazendo da triste folha dourada um anel com colorida e coceguenta magia de um carrossel!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Quinto Desejo
Fevereiro 6, 2018

Quando eu for grande, quero ser uma mala mágica com fita cola para calar: as ofensas, as humilhações, as maldições, as discriminações, e as palavras injustas e amargas das bocas dos rezingões.

Quando eu for grande, quero ser uma árvore florida de balões brincalhões, dançando presos aos braços sonhadores das crianças, correndo na praia da verdade sem andar aos empurrões.

Quando eu for grande, quero ser uma sacola com blocos de notas e lápis de cor, escrever poemas, fazer desenhos de animação e pintar palpitantes corações onde se esconde a dor e brilham olhos chorões!

Quando eu for grande, quero ser uma mão-cheia de piões com cordéis entrelaçados nos dedos atrevidos e vigorosos da criançada, rodopiando e saltando com cócegas e gargalhadas.

Quando eu for grande, quero ser uma estrela de papel, iluminar os caminhos indefinidos do areal, ensinar a distinguir o bem do mal, fazer um barco de alegria com as letras cinzentas do jornal, beijar as mãos-bebés e as enrugadas com olhos de mel!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Quarto Desejo
Dezembro 1, 2017

Quando eu for grande, quero ser o dicionário do amor e ensinar: a cantar hinos de beijos, a escrever cartas bordadas de desejos, a desenhar sorrisos e jogos conciliadores em bilhetinhos, e nos espelhos escondidos dos vizinhos e dos quintais, para que os casais não se aborreçam mais!

Quando eu for grande, quero ser o caderno de significados de conselhos amigos para os que tudo perguntam, tudo querem saber, tudo sugam sem perceber, apoderando-se de verdades e menosprezando as ajudas, buscando insistente e diversificadamente a sua confirmação, evidenciando ausência de memória de vivências, resvalando continuamente na ingratidão, sem aprendizagem, nem correção!

Quando eu for grande, quero ser o bloco de notas mágico, que se transforma em chapéu e cestinho saltitão, voando de mão em mão de cada petiz, apanhando flores aqui e ali para oferecer à mães, aos avós e a todos nós sem correrias, nem arranhões, nem partir o nariz no chafariz!

Quando eu for grande, quero ser a sílaba dos sentidos: rápida na visão, apurada na audição, com faro de canzarão, sensível à dor e ao vazio de cada mão, gosto farto de amor para repartir a fruta madura, o pão e todo o alimento e riqueza do coração.

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Terceiro Desejo
Outubro 22, 2017

Quando eu for grande, quero ser a doce brisa e limpar as dores e a saudade das lágrimas dos corações tristes!

Quando eu for grande, quero ser a carícia da manhã, despertando os olhos nublados para o dourado veludo do dia!

Quando eu for grande, quero ser a mão da esperança, renascendo os sentidos dos enrugados rostos, pintando-os de luz!

Quando eu for grande, quero ser a letra miudinha do caderno de significados das palavras de cristal escondidas no delicado dedal e sob a pedra preta do predileto anel ancestral!

Quando eu for grande, quero ser o florido traço de união entre a vida social e a solidão, dando a mão à cansada desilusão de quem se perdeu no caminho e já não sente o perfume do mar, nem a intensidade da terra molhada, nem pisa o chão a escaldar!

Quando eu for grande, quero ser a menina morena da distinta etnia, que se aproxima à porta do mini-mercado e já não pergunta, na sua justa inocência, pelo marido, filho ou filha, que não está ali para ajudar a levar as compras, mas que, generosa e expedida, pede licença e pega nos sacos!

Quando eu for grande, quero ser o cantante passarinho que poisa no teu ombro, brinca com a tua mão, vai à tua frente e roda à tua volta, como alado e entontecido pião, chamando a tua atenção para a primavera que ainda sopra e pulsa discreta e rica de memórias no teu cansado coração!