Archive for Fevereiro, 2009

Doce Surpresa
Fevereiro 28, 2009

Sorriso

Dia 20/2/2009

Decorre uma reunião de trabalho com a serenidade e a seriedade que emana de profissionais coroados de dignidade e responsabilidade, edificadores deste país com extensa oferta de trabalho gratuito, sem rosto, escudos de um sistema que não satisfaz as necessidades dos cidadãos, vencedores no espírito de equipa consolidada e nos resultados obtidos.

Aproxima-se a hora marcada para o intervalo.

Ecoa o bater insistente de dedos na porta de madeira e, a um “sim”, entram em fila:

– um colega com uma touca branca improvisada na cabeça, contrastando com a cor do seu bigode e os óculos de sol, um avental de plástico branco – meio transparente -, com um tabuleiro na mão, coberto por um alvo pano bordado, exibindo um porte profissional;

– segue-o  uma colega,  com os longos cabelos presos e um laçarote igual no cima da cabeça, cujo avental teve de ser adaptado à sua pequena estatura, segurando uma travessa na mão direita, igualmente protegida;

– atrás duas colegas incorporam, discretamente o desfile, com uniforme de serviço, bastante divertidas.

Aplausos, sorrisos, gargalhadas e agradecimentos carinhosos pelos presenteados – que linda iniciativa!

Muito, muito obrigada, colegas, por este momento diferente, revigorante, único!

Bem-Hajam!

O Avô Contador de Histórias – 14.ª Página
Fevereiro 27, 2009

O mar usurpador também fora e continuaria a ser fonte de sustento para a família, gerador de sentimentos contraditórios.

O avozinho contador de histórias, detentor de Cédula de Inscrição Marítima, emitida pelo Departamento Marítimo do Centro, Delegação Marítima da vila, com o n.º 975, encontrou-se inscrito na classe de auxiliar, desde 9-6-42 a 10/1/1958.

No campo dos “Sinais Característicos” onde consta: a “Cor natural” da “Barba – castanha”, dos “Cabelos – pretos” e dos “Olhos – pardos”, apresenta a sua fotografia, sob a qual se pode ler “(Assinatura do Marítimo)” e ver-se a “Impressão digital do polegar direito” a vermelho.

Nas páginas seguintes, com o título “Data da conferência da cédula e pagamento de capitação de socorros a náufragos” , existem colunas identificadas com: “Data, sêlo e rubrica”, devidamente validadas com aposição dos selos de 2$50, ilustrados “Socorros a Náufragos”, a laranja, com imagem de uma embarcação azul com homens a remar, longa – a náloga às “armações”- a navegar num mar tenebroso, datados e carimbados.
(continua)

O Avô Contador de Histórias – 13.ª Página
Fevereiro 23, 2009

Naquele dia, o meu primo Raul foi à pesca com o pai – o saudoso e bondoso tio Francisco, que todos revêem neste filho.

Estava bom tempo e o mar calmo, mas o bote embateu numa pedra e voltou-se.

O meu primo usou os seus conhecimentos de nadador e conseguiu alcançar uma pedra donde pedia socorro quando avistava um barco.

O meu tio Francisco ficou enrolado nos aparelhos e não conseguiu soltar-se.

O Patrocínio, barco da pesca dos robalos, apercebeu-se do aflitivo pedido daquele menino e salvou-o, levando-o para terra.

Nunca esta família tinha sido atingida por tão grande golpe e jamais conhecera tamanha perda!
Durante onze dias, o meu avô contador de histórias esteve de atalaia, mudo, a olhar para o mar, à espera que ele lhe restituísse o filho querido que lhe roubara.

Ele conhecia a guerra: a morte, os feridos, a fome, a sede, o frio, o cansaço e a dor, vividos na solidão da sua família, dos seus amigos, da sua casa, do seu país; tinha-se despedido para sempre de entes queridos, mas o desaparecimento brutal e inesperado do seu menino-homem corroía-lhe todo o seu ser, profunda e silenciosamente – novo combate, mas sem sono, sem fome, sem sede.

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 12.ª Página
Fevereiro 18, 2009

A avó Maria Claudina era a mãe do meu avô contador de histórias.

Morava numa casa pequena e baixinha, que eu achava triste, e que era igual às da “correnteza”, na companhia de uma filha afável, mas que não me recordo de ter visto sorrir, vestida de preto como a mãe.

No outro lado da rua, existia o campo de futebol cercado por uns esparsos pilares de alvenaria branca, à altura do peito de um adulto de pequena estatura, unidos por um arame, barreira entre os jogadores e os seus amantes, com marcas na terra batida, que uns homens caiavam cuidadosa e meticulosamente antes dos jogos – espaço recordado pelo Marinho ao longo da sua vida, mais pelo leite de burra que vendiam a vulso do que pelo futebol, no qual também se destacavam as pevides e os tremoços da “Ti´” Carlota e as alcagóitas do Zé das Torradinhas.

A avó Maria Claudina e a tia Carminha podiam assistir a este espectáculo sentadas à sua porta onde descansavam ao entardecer.

A minha (bi)avó era lavadeira; o seu rio, um pouco afastado do da nora, a sul, debruçava-se sobre uma piscina natural, ao lado da praia dos Búzios, local preferido pelas crianças, jovens e adultos que ali acorriam para tomarem os seus deliciosos banhos – a minha tia mais velha, sua neta, ainda usufrui deste prazer -, a qual passou a designar-se “Poça da Maria Claudina”- .

Foi neste lugar privilegiado que o meu tio mais alto e magro, lindo como o meu avô, que se atirava atleticamente de umas rochas junto ao Pontal e mergulhava nas águas transparentes da praia da vila, perante a surpresa e o aplauso dos conterrâneos e banhistas – e o tremor das minhas perninhas – aprendeu e ensinou o sobrinho Raul a nadar.

Os conhecimentos neste âmbito garantiriam a sobrevivência do meu primo, num dia que enlutou para sempre a vida da família, particularmente a do avô contador de histórias.

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 11.ª Página
Fevereiro 16, 2009

Esta fotografia reporta-se ao início da vida conjugal dos meus avós. Adivinho, por de trás do ar firme e vencedor do meu avô – viúvo e pai de cinco filhos; perdera também uma das gémeas -, um certo nervosismo pela conquista de tão bela, delicada e reservada princesa, que acolheria no seu regaço os filhos do marido – e descendentes – e tratá-los-ias com o reconhecimento de irmãos dos nove filhos que deu à luz.

Anos mais tarde, recordo-me, no dia de carnaval, em Fevereiro de 1964, os meus avós casavam-se religiosamente.

Este acontecimento causou grande euforia em toda a família, de um modo particular na minha mãe, incentivadora de legalizações matrimoniais – nada de “ajuntamentos” -, costureira de fatos de noiva e convidados, organizadora de copos-de-água e incansável cozinheira, mas principalmente de uma menina, a neta mais velha de ambos, que o avô já levara a tantos casamentos de príncipes e princesas, de gatas-borralheiras e príncipes, de mouras encantadas, de pedras e sapos, que se transformaram magicamente em seres lindos e bons.

Não consigo precisar o dia do mês, mas sei que havia desfile carnavalesco e foliões no circuito apertado da vila, e que os guarda-portões, ignorando os nossos fatos de festa, não queriam deixar-nos passar, sugerindo que fôssemos dar a volta pelos Penedos – um pequeno largo debruçado sobre o mar, sobranceiro à praia -, mas, depois de insistência da minha mãe, lá atravessámos o recinto, escoltados por um “importante” senhor.

A cerimónia, sustentada por sentimentos consolidados ao longo dos anos, decorreu marcada pela alegria, o culminar de um momento de partilha único e inesquecível, à qual se seguiu um banquete familiar.

O meu coração saltava de emoção, o meu rosto brilhava de sorrisos em sintonia com os dos noivos e da comitiva, apetecia-me dar daqueles saltos, que, por vezes, me eram proibidos – é fantástica a vibrante comoção que sinto ao reviver este conto de fadas!

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 10.ª Página
Fevereiro 14, 2009

Lembro-me de que decorei facilmente o “refrão” da história da “Cabacinha” – “não vi velha nem velhão, corre, corre cabacinha, corre, corre cabação” – e que a imaginava a rebolar a grande velocidade pela descida da ribeira como os meus tios deslizavam nuns carrinhos que entusiasticamente construíam, nos quais me era proibido entrar – e eu a sonhar sentir cócegas na barriga!

Participei poucas vezes nas suas brincadeiras, ao contrário da minha mãe, que, desobedecendo ao pai, divertira-se com os irmãos e ganhara-lhes muitos jogos de: pião, bilharda, berlinde – escusando-se aos carolos, quando estava em vias de perder, chamando pelo pai, alegando que os manos queriam que ela jogasse com eles -, mas deixavam-me ajudá-los a fazer as “estrelas” – papagaios de papel – e, por vezes, a segurar no cordel, quase sempre conjuntamente, sentindo-me, nesses breves momentos, embalada nas danças do vento.

O meu avô contador de histórias também me encantava quando calma e sabiamente preparava os seus cigarros, retirando o tabaco da onça, com as pontas dos dedos, dispondo-o tecnicamente sobre as tiras de papel-de-seda – mortalhas -, enrolando-as, colando-as com a língua, para depois se deliciar, mas não fumava ao pé de mim.
Não sei onde aprendeu, talvez na guerra onde combateu.

Eu acreditava que o tio Jorge, irmão do meu avô, um homem de grande porte, moreno, que usava um barrete preto como os pescadores da Nazaré, não sabia fazer cigarros, porque ele saboreava o tabaco no seu cachimbo – o primeiro que tenho memória de ter visto.

O meu avozinho recebia muitos amigos na sua casa, mas à mesa, no seu colo aconchegante, eu tinha sempre o meu lugar reservado.

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 9.ª Página
Fevereiro 11, 2009

O regresso a casa era marcado pela alegria, particularmente por mim, porque sabia que o galo grande e soberbo como um cão de guarda e feroz como um leão – “malino” -, não iria atirar-se à minha pessoa, como fazia com todas as crianças e alguns adultos, pois ia escoltada por todo o exército.

Recordo-me de que no dia em que o meu tio mais novo me disse, divertido, que o tinham morto, não acreditei, porque ele já me pregara partidas, referindo-me que a fera estava presa, tornando-me um alvo fácil para a sua agressividade, permitindo-lhe que me infligisse ferimentos, cujas cicatrizes perdi de vista das minha mãos com o decorrer dos anos. Naqueles momentos, recusava-me a transpor o portão, chamava pelos meus avós e ficava a chorar até que alguém de confiança viesse buscar-me, o meu avô – experimentaria sensações análogas, anos mais tarde, quando a Marília se divertia açulando-me o cão, impedindo-me de continuar o meu caminho para a escola.

As minhas tias mais novas esperavam-nos, sorridentes, deixando sobressair a sua beleza nas roupas simples e coloridas – anos mais tarde, seriam confeccionadas pala minha mãe. Ambas tinham tranças, iguais às das princesas que o meu avô descrevia nas suas intermináveis histórias, com as quais sonhava, mas que a minha mãezinha nunca me fez, receando que o meu paizinho se deixasse encantar por elas como o meu avô e não me permitisse cortar o cabelo – ela fora e continuaria a ser a mentora de inteligentes estratégias, para que as meninas da casa se livrassem das célebres tranças.

Depois de ter-se lavado e mudado de roupa, o meu avô sentava-me ao colo, inclinava o seu rosto e começava a contar-me histórias com entoações, ritmos e pausas próprias de um grande actor, enquanto a casa não era invadida pelo perfume dos deliciosos pratos da avó.

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 8.ª Página
Fevereiro 9, 2009

Quando terminava a pescaria, o meu avô contador de histórias regressava vitorioso, abria a alcofa para eu poder ver o pescado: as salemas das Amarelas, da Terra Firme e das Lajes, os sargos e as douradas das Pedras de Sal, cuja grandeza e brilho dilatavam os meus olhos surpreendidos! Mas eu tinha medo de tocar-lhes e assustava-me quando algum peixe ainda se mexia, e sugeria ao meu avô que os deitasse ao mar para eles continuarem a nadar com as mães.

Ele sorria-me ternamente e explicava-me que os peixinhos gostavam de alimentar os homens, que iria vender alguns para comprar pão e outras coisas, e que a avó iria preparar outros para comermos.

A minha avó observava-nos e ia entregando as alcofas de roupa lavada, seca e dobrada aos “moços”, para as transportarem.

Regressávamos pelo caminho do farol, condomínio fechado cheio de magia, torre de contos de fadas pintados pelo avô. Que lindo que ele era por dentro com as escadinhas em caracol, com os corrimões de corda grossa de navios, com os cromados espelhados e, sobretudo, com as brilhantes e gigantescas lentes reflectoras de luz para toda a costa, indicadores da sua aproximação para os pescadores no meio dos ciclones.

O farol estava associado ao marido da D. Palmira, vizinha muito querida, o Sr. Falcão, faroleiro, homem baixo, distinto, educado, sorridente, que tinha um regador verde, grande, lindo, que ele enchia de água cantante da fonte, para depois alimentar as maravilhosas flores do seu jardim! E que também sabia arranjar relógios!

No caminho, havia camarinheiras, arbustos rasteiros com frutinhos brancos, quase transparentes, redondinhos, agridoces, deliciosos! – havia quem preferissem as camarinhas maduras, acastanhadas, por serem mais doces, mas eu achava-as moles. E eu ia parando, colhendo-os, provando-os, sob o olhar compreensivo e doce do avô, que não me deixava ficar para trás, e que sobre tudo o que via, sentia, descobria, tinha algo para me contar.

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 7.ª Página
Fevereiro 6, 2009

A minha avó não me deixava ajudá-la a lavar a roupa – que tristeza! Quanto eu gostaria de chapinhar naquela água toda branquinha de sabão, debruçar-me sobre as pedras, esfregar a roupa, imitando-a.

Enquanto namoriscava uma duna enorme, que só me permitiam subir na companhia do meu tio mais novo e/ou do meu primo António, ou ainda sob o olhar zeloso de um adulto, donde eu avistava a imensidão do mar, e produzia melodias de ahhhhhhhhhhhhh tocando suave e repetidamente na boca com a mão, e pela qual, muitas vezes, me rebolava, pedia-lhe para visitar a “Ti´” Laurinda, a lavadeira do rio mais próximo, maior do que o seu, a norte, onde havia muitas rãs e pairava um cheiro fresco de vegetação rasteira mergulhada nas nascentes – ainda o sinto quando percorro a costa a pé!

A “Ti” Laurinda era uma senhora alta, forte, de rosto risonho e óculos grandes, com os cabelos presos numa peta, mágica curandeira aos meus olhos de criança, farmacêutica de uma famosa pomada para as dores de barriga, – “enterite” – preparada com azeite, e de outras mezinhas, que um dia me provocara involuntariamente um copioso choro, que nem o olhar terno das múltiplas e coloridas flores do seu quintal, pelas quais me apaixonara, o pararam.

Eu ia ao colo de alguém para ela me tratar de um pé que torcera e que inocentemente imaginava que seria com uma massagem das suas poções. Mas a “Ti´” Laurinda dirigiu-se a mim com um novelo de lã e uma agulha, que eu deduzi que seriam para coser o meu pezinho, e foi difícil convencerem-me de que os “pontos” não eram nada mais, nada menos do que passar a agulha pelo novelo, enquanto recitava uma oração!

Quem me diria que esta estimada senhora, mãe do tio Jacinto – parentesco de coração desde tenra idade, alargado aos seus descendentes, primos -, amigo dos meus outros tios, tratar-me-ia por comadre, anos mais tarde, pelo facto de eu ser madrinha do seu primeiro bisneto, e que continuaria a ser vizinha dos meus avós, habitando no mesmo lado da rua, com apenas três casas a separá-los?!…

As Amarelas e a Terra Firme continuam a ser pesqueiros, os avós e a “ti´” Laurinda cumpriram as suas missões na terra, os rios foram soterrados e os seus túmulos floridos com chorões pelas mãos da Natureza, local panorâmico de terra batida onde os seus amantes desfrutam a paisagem orgulhosamente inalterável.

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 6.ª Página
Fevereiro 4, 2009

O rio da minha avó ficava num morro de frente para as Amarelas e a Terra Firme e tinha uma pequena caniçada que a protegia da ventania e dos espirros do mar quando estava alvoraçado, barreira tentadora para a minha curiosidade de espectadora dos pescadores, principalmente do meu avô e dos meus tios, que exibiam, satisfeitos, os peixes que iam apanhando, ao que eu assistia aplaudindo, de pé, encostada às canas, sabendo que não podia dar um “passo à gigante” em frente.

O meu avô contador de histórias despedia-se de mim, recomendava-me que ficasse sossegadinha, que ele já vinha, e afastava-se com as canas às costas – ele próprio as apanhara, limpara-as e preparara-as -, e uma alcofa na mão com umas ervas verde-escuras – marinhas, “erva da salema” -, que tinham uma “bolinhas”, que eu gostava de fazer estalar com os dedos num esforço atlético, e que os meus sábios pescadores punham no anzol como isco – primeiro pisavam as restantes farripas com pedras e atiravam-nas ao mar para engodarem as salemas, que gulosamente se atiravam às “bolinhas”.

(continua)