Archive for Fevereiro, 2010

A Palmeira-Menina
Fevereiro 16, 2010

O silêncio contemplativo do sereno mar foi interrompido por um insistente:

– Psit, psit!

O vento brincava com as crescidas palmas que espreitavam para o pequeno largo onde o velho e solitário banco, vestido de vermelho esfarrapado, recordava saudoso os rostos risonhos de juventude que o esquecera, soletrando em sussurro os sonhos que lhe tinham confiado, as promessas de amor que partilhara, olhando para as nuvens, que acenavam ao amigo sol, para lhe limpar as lágrimas, e o chamamento persistia como um assobio:

– Psit, psit! Estou aqui! Sou a palmeira-menina! Psit, psit!

Surpreendentemente original e esplendorosa, a palmeira-menina saudava a natureza da varanda da sua casa amarela, outrora esconderijo de andorinhas, desfrutando a paisagem: a praia deserta e preguiçosa, a baía pintada de barcos baloiçantes, o pontal abandonado e triste, o longínquo Porto-Cóvo azul e branco, ondulando os braços com carícias vitoriosas.

A Fada Traquina – 9.ª Página
Fevereiro 15, 2010


Caros Visitantes,
Esta história é interactiva, por isso, podem – e devem – partilhá-la, completando-a com as vossas crianças. Espero que se divirtam!

“(…) E lá foram ao Jardim das Alegrias. Aproximaram-se do lago, a Fada Traquina passou com a mão sobre a água, tirou um manto azul celestial, sacudiu-o, e a Mica tinha um lindo vestido, à sua medida; depois aproximaram-se do trono de uma árvore e com uma simples carícia da Fada, aparecera uns …; de seguida, escavou na terra e viram uma raiz, donde saiu um cofrezinho, que tinha lá dentro…

A Mica disse logo que não queria mais nada; só o pedido especial, o sorriso!

– Aceita tudo isto, Mica! Tu não precisas do sorriso, porque é um tesouro que já tens; não o escondas de mim, do mundo e principalmente de ti.

– Obrigada, Fada Traquina! – agradeceu a Mica com um lindo sorriso!

– Mica, não sabes onde mora o Menino dos Olhos de Mar, pois não?

– Só sei que é perto de uma praia, que tem o nome de um santo – foi o que ele me disse.

– Já sei, o Menino dos Olhos de Mar vive com o avô junto à Praia de …, mas parece-me que ele tem um segredo, que não te contou.

– Um segredo?!… Que segredo? Diz-me, Fada Traquina! (…)”

(continua)

As Flores de São Valentim
Fevereiro 14, 2010

As flores que os jovens atiravam a São Valentim, enquanto estava preso, por tê-los casado contrariando a vontade do imperador, eram acompanhados de bilhetes em que afirmavam que acreditavam no amor.

As mesmas flores continuam a exalar o seu perfume de amor, envolvendo, fortalecendo e renovando os sentimentos dos enamorados “Valentins” e “Valentinas” dos nossos tempos, e as folhas que as adornam crescem e amorosa, cautelosa e milagrosamente vão aquecendo os corações que têm frio e permanecem dormentes na sua própria solidão.

As flores de São Valentim são:

– Para ti, que gostas de mim.

– Para ti que sorris para mim.

– Para ti que não te lembras de mim.

– Para ti que passas sem mim.

– Para ti que pensas em mim

– Para ti que nem olhas para mim!

– Para ti que abraças o Amor e lhe dizes SIM!

A Minha Aldeia – O Carnaval
Fevereiro 14, 2010

O carnaval nacional das (para) as crianças alimentarem as suas fantasias perdura accionado pelos jardins de infância e pelas escolas, mas, no geral despiu-se – e de que maneira! – da tradição nacional, esquecido da estação do ano que decorre na “ocidental praia lusitana”, enfeitando-se com plumas, exibindo o corpo descorado do longínquo bronzeado, ou mascarando-o com artificial “spray”, alegre nos enfeites, mas triste na pobreza da sua expressão, colorida, mas cada vez menos artística e representativa da identidade cultural de um povo.

Os eufóricos foliões da terra de Vasco da Gama circulam no desfile, apagados pelos “artistas” convidados, substituindo-se a activa participação dos três dias pela apatia da assistência despromovida do papel de actor, passando a mero espectador.

Nas brilhantes noites sobressaía a criatividade da maioria da população da vila fazendo jus à tradição, participando no encontro festivo em que ora o anonimato, ora a denúncia de um sorriso, de uma palavra graciosa vinda de uma voz conhecida, a particularidade na forma de andar, o “pezinho sempre no ar”, umas botas desabotoadas a espreitarem sob uma alva colcha de cetim, contrastando com verdadeiras obras de arte talhadas e confeccionadas antecipadamente por grupos, entre risadas, divertidas provas e lanches substanciais e interminavelmente gostosos.

O Vladimir há muito que não emprestava a sua juventude ao carnaval, o Al Berto deixara precocemente de dançar no apertado Casão, mas o Liberal ia orgulhosamente encostado aos seus carros, a Helena divertia-se de braço dado com a sua amiga, os “jovens” amadurecidos continuavam a disfarçarem-se de mulheres fatais e o Sr. Gomes lamentava que o carnaval fosse só três dias, mas ele continua com um novo rosto, um novo corpo, um novo ritmo e com os cabeçudos da nova geração.

O Sr. Tudo e o Sr. Óptimo!
Fevereiro 13, 2010

Palmeira no Recanto, 2010

O Sr. Óptimo anda quase sempre de mãos dadas com o Sr. Tudo; são um só: TUDO ÓPTIMO!

Mas, na verdade, o Sr. Tudo tem a capacidade de estar ausentar nas situações dúbias ou por resolver, para não deitar tudo a perder, e o Sr. Óptimo acompanha-o, claro, e continua TUDO ÓPTIMO, mas noutra esfera, porque da dupla vãmente apregoada só o som paira no ar!

E eis que o TUDO ÓPTIMO, escudo do engana-me (te) que eu deixo, cai por terra e vê o Sr. Pronto ocupar o seu lugar, quando a questão está solucionada, momento em que deveria ser verdadeira, determinada e finalmente içada a totalidade do magnífico: TUDO ÓPTIMO!

É Aqui!
Fevereiro 13, 2010

É aqui que nos encontramos.

É aqui que nos renovamos.

É aqui que nos encorajamos.

É aqui que nos erguemos.

É aqui que caminhamos, caminhamos!

Aerograma N.º 4 – O Mar que te Chama
Fevereiro 13, 2010

Vem, minha amiga e minha irmã lamber o mar de S. Torpes com os teus olhos famintos e deixa esvoaçar os teus sonhos nas ondas à velocidade dos passos apressados das gaivotas bebés, enquanto os teus pés refrescam a tua alma na suavidade da areia fresca e húmida, e canta, e grita à tua liberdade e ao esplendor da vida, que de tão curta, às vezes parece comprida!

O Saltinho da Bota
Fevereiro 11, 2010

Sorriso

A D. Bota Castanha, de bico empinado e aguçado, enfiou o seu fino e longo saltinho num pequeno orifício do terraço flutuante, enquanto piscava o olho ao brilhante sapato preto do Sr. Dr. e este se desfazia em sorrisos para a sua fascinante dona, entre umas fumaças que provocavam tosse ao cabelo arrepiado.

Presa ao chão, a Sr.ª D. pediu ajuda para soltar o saltinho da prisão, onde este acabaria por ficar, desmembrando-se da sola da D. Bota.

– Parti o salto, parti o salto – retorquia a Sr.ª D. exibindo-o na mão.

– Arranque o outro, para não cair. – sugeriu uma Sr.ª

Mas a Sr.ª D. preferiu andar de bico-de-pé, enquanto decorria o evento.

Ao terminar, um médico quis ser sapateiro, e uma técnica sua ajudante e tentavam encaixar o saltinho na D. Bota Castanha, encontrando-se a Sr.ª D. muito bem refastelada numa cadeira rodeada de aios curiosos e divertidos.

– Tragam um martelo! – pediu alguém!

– É melhor super cola três, porque com os pregos, fica seguro! – afirmou a ajudante.

E o médico, que queria ser sapateiro, de rabo para o ar, começou a operação, dando umas marteladas no saltinho, que se encolhia assustado!

– Preciso de um alicate! – pediu o médico!

E um Sr. simpático trouxe as ferramentas.

– Mas o que é isto?- perguntou o Sr. Dr. cheiroso a tabaco. O colega está a pôr alguma ferradura?! A Sr.ª D. desculpe, mas é o que parece!

Esta gracinha caiu no silêncio humano, e a D. Bota Castanha, ofendida, corou de raiva e de desejo de dar-lhe uma biqueirada, mas o médico amigo estava na sua frente, por isso só pôde deitar o bico de fora ao sapato preto e fazer caretas ao Sr. Dr.

Terminada com sucesso a intervenção da gentileza e da boa vontade, a D. Bota airosamente “saltada” saiu satisfeita e agradecida, mas determinou que era melhor utilizar o elevador.

Quando chegou à rua, a Sr.ª D., observadora e escolhendo o piso para que o saltinho não caisse novamente na tentação de meter-se nalgum buraquinho, exclamou vivamente surpreendida:

– Oh! É o brinco da…!

Debruçou-se e pegou num enorme brinco dourado e verde. Satisfeita com o achado, riu-se, dizendo que o iria entregar à triste dama que o perdera.

Uns metros mais à frente, exibiu com entusiasmo a “jóia”, mostrando-a ao Sr. Dr. e à amiga, esquecendo-se do seu saltinho enfermo e, num desequilíbrio, retorquiu aflita:

– Já perdi o meu salto outra vez!

Olhou para trás e foi resgatá-lo do alcatrão, coxeando.

E a companheira de viagem consolou-a, dizendo-lhe divertida:

– Deixe lá, perdeu o salto, mas achou o brinco!

O Vento Solitário
Fevereiro 11, 2010

O vento, lobo solitário à procura de um amigo, uivou toda a noite, batendo às portas, empurrando as janelas, arrefecendo os sem-abrigo, assustando as crianças, abanado os barcos, sacudindo os carros, soltando as telhas das casas dos pobres, equilibrando os bêbedos, defendendo os velhinhos da ira da chuva e continuou perdido quando o Sol acordou e lhe disse:
” – Bom dia!”
E fugiu assustado quando reparou no seu brilhante sorriso e o ouviu chamar-lhe:
” – Amigo, amigo!”

A Fada Traquina – 8.ª Página
Fevereiro 8, 2010


Caros Visitantes,
Esta história é interactiva, por isso, podem – e devem – partilhá-la, completando-a com as vossas crianças. Espero que se divirtam!

” (…) Na rua, viram um ladrão que tentava arrancar a mala da mão trémula de uma idosa, mas a Fada Traquina, com o seu olhar mágico, tirou duas folhas da laranjeira, transformou-as em sapos e eles saltaram para os braços do malfeitor, que começou a … e a … para muito longe.

– Mica, preciso de voltar para o Reino das Fadas, porque perdi a folha das Normas de Fazer-Bem-sem-Olhar-a-Quem, mas antes diz-me como te posso ajudar, sim?

– Eu só gostava de ir para as Danças de Salão e de ter um computador, mas não tenho dinheiro… Não faz mal, porque o mais importante é um sorriso; dá-me um grande sorriso para eu poder oferecer ao mundo inteiro.

– Deixa-me adivinhar: precisas de um vestido para dançar, de uns sapatos para calçar e de dinheiro para a inscrição e para as mensalidades, não é? E de uma caixa com um écran e de um teclado?

– Sim. Como é que sabes?

– É muito simples, leio no teu coração.

– Vamos conseguir tudo isso. Leva-me a um jardim que tenha um lago. (…)”

(continua)