Archive for the ‘Coisas e Loisas’ Category

O Vestido Vermelho
Outubro 15, 2017

O vestido vermelho não era feio, nem bonito, nem curto, nem comprido.

O vestido vermelho era um retalho bem cortado e cintado passeando muito bem engomado.

O vestido vermelho não era atrevido, nem arrendado, nem decotado, nem plissado.

O vestido vermelho era um molde bem marcado, fazendo corar quem o olhava, pasmado!

O vestido vermelho não era um peitilho, mas uma rosa vermelha, falando pelos cotovelos!

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Lágrimas de Saudade
Outubro 14, 2017

Choram as recordações abandonadas, sem rostos risonhos, nem bochechas molhadas, sem braçadeiras nas ondas deitadas, nem gargalhadas da criançada, sem aventuras e descobertas, nem caminhadas a cantar, e nas curvas muito bem caladas!

A Graça
Outubro 14, 2017

Tem graça a grandiosidade e a iluminada alegria que nos faz sorrir, descontrair e ficar à vontade, chegando a deixar os tímidos e os surpreendidos corados, emocionados, engasgados… “sem graça”!

A Memória das Coisas
Outubro 14, 2017

A memória das coisas é, para os construtores da festa da vida, o canteiro habitado na casa do ser cujo jardineiro rega as flores a crescer nas janelas abertas à luz, e para os derrotados a tristeza das vidraças embaciadas na aridez da existência de hastes sem vida entregues ao vento!

O Teu Choro
Outubro 12, 2017

O luar por mim chamou, porque o teu perdido olhar chorou!

Chorou pela ausência da tua memória que o tempo apagou!

Chorou por um fantasma vestido de ti que o sorriso eliminou!

Chorou pela partilha do sonho que divertiu e só um abraçou!

O luar por mim chamou, porque o nosso triste mar por ti chorou!

A Melhor Comparação
Outubro 3, 2017

Conversa de sala de espera num serviço hospitalar público:

– A melhor coisa que aquilo deixou foi isto: termo-nos conhecido e a outras pessoas – afirmou o jovem, sorrindo.

– Naquele tempo, só havia a sede, bem organizada, boa qualidade de serviços, primazia da satisfação interna e externa aliada à fomentação das boas relações interpessoais, mas, com a abertura de novos espaços, muito se perdeu – opinou a serenamente a senhora.

– Olhe! Aquilo é como um lavrador que tem dez cabeças de gado. Trata todas bem, uma a uma. Quando tem mil, tudo muda; só pensa em subsídios para obter lucros.
Agora trabalho por conta própria, com pessoas, dando-lhes a conhecer o nosso Alentejo; todos ganham com isso e a satisfação é geral.

Aprender a Crescer
Setembro 29, 2017

A vida ensina, mas ela própria se aborrece de tanto falar, de tanto demonstrar, de tanto caminho apontar, e de assistir à triste teimosa modelada de rostos sem forma e de passos sem sentido na noite escura, de gente com sede, recusando-se a beber da bilha do saber, a aceitar a mudança e a crescer, a ler as lições, a meditar e a aprender, a viver!

O Amor à Criança
Setembro 29, 2017

O amor à criança é o jardim do mais alto pico dos afetos, o rumor das águas que embalam, a carícia da brisa que adormece, a canção das flores que dançam, a brincadeira da chuva que se lambe, o sonho que acorda e adormece, a festa que tudo aplaude, emudece e enriquece e… com beijos e abraços, com risos e gargalhadas, com corridas e brincadeiras a jogar à apanhada entontece!…

A Minha Aldeia Igual às Outras
Setembro 29, 2017

A minha aldeia, bem como as demais: as pequeninas, as maiores e as capitais andam numa grande agitação na confusão de quem sabe, de quem acha que pode e de quem quer mais, na mira da vitória das eleições, empurrando daqui, subindo ali, esquecendo-se de pedir licença e de dar passagem, convencendo-se de que as persuasivas legendas são palavras e não lengalengas de senhores, de sábios e de calculadores…

A minha aldeia, bem como as demais: as pequeninas, as maiores e as capitais andam numa confusão sem razão, perdendo a energia, que deveria ser aproveitada com fusão!

A Angústia do Lar
Setembro 4, 2017

A angústia do lar é o objetivo que triste, rápida e inevitavelmente condena os desajustados e lúcidos, convivendo com a morte ao seu lado, com o limite deplorável da velhice, com a depressão silenciosa da inércia, expresso nesta frase comum a tantos lábios secos de sede, de sílabas, de sorrisos:

” – Cá estou à espera que ela chegue!”