Archive for the ‘Coisas e Loisas’ Category

A Orfandade dos Pais
Junho 28, 2019

Sofre de orfandade, quem, na dissolução de uma relação, fica privado do convívio diário com o(s) descendente(s), árvore nua, de pernadas cortadas, exposta à aridez em que nem o sol, nem a chuva lhe restituirão a primavera florida!

O Berço dos Sonhos 
Maio 17, 2019

Adormece descansado o sonho na doce suavidade dos verdes anos de olhos acordados, dançando com o azul das estrelas pelas frestas do telhado, gatenhando no fofo novelo de nuvens, tateando o encontro encantado!

As Mães
Maio 5, 2019

Choram as saudosas mães nos parapeitos da noite, limpando as lágrimas nas carícias das douradas madrugadas, deixando-se ambalar nas memórias acordadas, sentindo-se ainda nos sonhos do berço abençoadas!

E…

Sorriem!…

E…

Correm!…

E….

Brincam!…

E…

Ensinam!…

E…

Bendizem a natureza que as bafejou de luz, enchendo-lhes os regaços de pedaços de Céu com lábios de romã, lambuzando-as da mais pura poesia com repetidas sílabas de alegria: “Mamã!”, “Mamã!”, florindo de esperança cada manhã!

O Amor de Mãe 
Maio 5, 2019

O amor de mãe cintila nas pedras da dor, e inclina-se à cabeceira do que entende e desconhece com a infinita luz de criança, escrevendo a mais bela história com profundos segredos, trepando a árvore da vida com o vigor da mão de aveludo dos primeiros passos, e nos rebentos de estrelas, pintando com palavras de quentes beijos os teus lábios nos dias de sol e nos orvalhados, de olhos abertos e cansados, mas sempre acordados!

O Crescimento
Abril 17, 2019

O crescimento é um secreto frufru de seda, amarrotando os passos incertos, rasgando caminhos com gotas de suor e lágrimas de amor, brilhando nas pedras preciosas do sábio labor, emergindo das pálpebras orvalhadas de dor no fervor dos beijos brincalhões do vento, varrendo as nuvens com leques marinhos musicados de alento!

Projetos e Realidade
Março 29, 2019

As cordas e os sopros dos instrumentos da separação e da aposentação são distintos, mas têm o mesmo ritmo nas notas da ilusão, pois tecem sonhos, e fazem projetos de mudança e até de animação, que as rasteiras do dia-a-dia transformam e transportam para praias de surpreendente ondulação!

A Cidade Grande – O Centro das Atenções
Março 27, 2019

Era um cãozinho muito, muito pequenino, branquinho e sarapintado de castanhozinho com um focinho levantado e uma fininha alça de metal de um balde minúsculo nos seus dentinhos pendurada, mendigando numa rua da Baixa Alfacinha uma moedazinha para o ritmado acordeão do seu dono a seu lado no chão muito bem sentado!

E…

Toda a gente olhava, parava e sorria, e ao pedinte cãozinho ninguém resistia.

O Gemido Rouco das Cinco da Madrugada
Março 27, 2019

O mar das imagens que acariciam os meus olhos despertam-me os sentidos interrompidos por um gemido rouco, mas incapaz de assustar as crianças adormecidas, sem sinal de voz humana, e fico atenta: trata-se de um carro pesado recolhendo o lixo.

Olho para o relógio, e curvo-me mais uma vez perante: a farda, as luvas e a dignidade dos respetivos e imprescindíveis trabalhadores, que como madrugadores pescadores saltam cedo da cama para “governar a vida”, iluminando a noite com o brilho dos seus olhos que só as estrelas, a lua, a maresia, o farol e o alvorecer de um e outro coração vislumbram na solidão de quem aos outros estende a invisível mão!

A Rica Diversidade da Cidade Grande
Março 22, 2019

Na cidade grande há casas de todas as cores e tamanhos, paredes brancas, outras pálidas, muitas garridas: lilases, amarelas bem tingidas; azuis de crianças já crescidas, alaranjadas torradas, avermelhadas atrevidas, esticando os lábios para os azulejos contadores de estórias, beijando as coradas tradições, namoriscando as inovações com antigos pregões, fados e alegres canções.

Abrem-se e fecham-se portas com saídas apressadas, e entradas cansadas, e espreitam às janelas: crianças maravilhosamente pasmados; pálpebras pesadas de saudade da juventude perdida, e poucos olhares admirando a beleza da vida nas esquinas e nas copas das árvores escondidas.

Debruçam-se verdes pálidos nas modernas varandas, tentando fugir da poluição, e brilham vasos floridos, espreitando entre o ferro forjado muito bem talhado e de arte antiga admiravelmente bordado. 

Nas ruas douradas de turistas apinhadas, oferecem-se ementas com vénias de empregados bem-educados,  e há bocas abertas para os pastéis de nata pálidos ou mais tostados, chamando a atenção dos gulosos paladares para com espirros, tosse ou simplesmente o deleite da canela sobre a nata polvilhada.

Há homens-estátuas aqui e ali espalhados, dos quais se sobressaem: um perfeito Santo António com o Menino ao seu colo muito bem aconchegado, e um autêntico pirata dourado com ar muito determinado, de costas para o rio voltado, donde certamente terá desembarcado, e noivas de neve e longo toucado, uma triste e a outra com rosto envergonhado, talvez esperando um noivo atrasado ou algum cavaleiro pouco nobre que a tenha abandonado.

Rodopiam alegre, mas isoladamente três jovens de olhar fixo no telemóvel, uma com poses ousadas, sorrisos grandes e desassossegadas madeixas do longo cabelo despenteado, outra com passinhos de bailarina é a personagem da tela paisagística, enquanto uma delas diverte-se, mais ao centro, fazendo vénias a el-rei montado no seu cavalo, em vez de deitar um respeitoso olhinho ao jovial e vigilante corpo de segurança muito bem fardado, disperso aqui, ali, acolá, quase ao seu lado, de rigor bem preparado e equipado.

Desfrutam do diversificado cenário, incluindo os desalentados óculos de sol nas mãos dos vendedores pendurados,  as faustas ementas sentadas do outro lado onde ninguém parece engasgado.

Isolado da multidão, encostado a um canto, um volumoso livro poisado numa original secretária de pernas esguias escondidas numas calças coçadas, em posição de “cabanita”, lê discretamente em voz alta, seguindo as frases com um dedo, sobre as quais se aproximam os cabelos compridos mal cuidados.

Ao fundo da praça há música africana ao vivo, cheia de cor, de ritmo e calor enriquecida com uma  voz feminina que apetece seguir, animando as ancas e os tímidos passos de quem passa, e até as Tágides na sua oculta dança sacodem as águas com brisa e graça.

Dores no Coração 
Março 11, 2019

A guerra no mundo chama a si contigentes em missão, levando consigo, e deixando atrás de si muitos amores com dores no coração!