Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

Gente Boa da Minha Aldeia – O “Balho”
Agosto 6, 2017

Era o encerramento anual da atividade, que trazia consigo um grande almoço de confraternização.

Eram as senhoras, a maioria, muito bem vestidas, maquilhadas, com alegria nas faces espelhadas!

Eram os sorrisos bailando entre si cheios de simpatia, e o entusiasmo de quem há muito não se via!

Eram as comadres, as colegas e as primas e afilhadas celebrando o encontro, algumas saudosas, todas
animadas.

Eram os discursos executivos e os agradecimentos técnicos com simbólicos presentes regados de lágrimas emocionadas!

Eram as carnes, as batatas, as saladas e as sobremesas para uns muito boas, para outros pouco apuradas e nada apaladadas!

Era a fila para os cafés cheios e curtos como algumas saias de pé, outras sentadas, sem haver chá nem garotos, deixando gente decepcionada!

Era o animador musical que acompanhara a refeição, preparando o repertório para o ansiado baile, para muitos o ponto alto da ocasião.

Era a agitação, um pé no ar, outro no chão, um ou outro casal, comboios a apitar com tanto rir e falar, mulheres a dançar com mulheres, algumas sozinhas a abanar a anca e a saltitar, todas admiradas com quem não se levantava por o “balho” não apreciar ou faltar-lhe o “seu” homem para na dança com ele se deleitar!

A Fúria do “Ovinho” Estrelado…
Agosto 6, 2017

A fúria do “ovinho” estrelado é um incontrolável momento em que nos apetece, instigados por instintos primários, atirar-mo-nos ao inimigo à dentada!

Ouvi, um dia, uma divertida adolescente, reagindo à iminência de recrutamento para o serviço militar, por recear o peso e o manejo das armas, declarando que atacaria o inimigo à dentada.

No mundo dos adultos, alguns, movidos pelo: dever, pelo respeito, pelo civismo, quer pela sua natureza e formação e/ou associados ao conhecimento de procedimentos disciplinares, combatem o cansaço, a intransponível injustiça, o que já não conseguem aturar, também com o recurso à dentada!

Tantas dentadas que a minha “hermanita” dava nos dois “ovinhos” estrelados e nas belas fatias de “panito” alentejanito frito e estaladiço, depois de prolongado jejum e longas horas mal pagas – quase, quase dadas – a trabalhar, prevenindo e curando doenças aos outros, como tão bem fazia e tanto gostava, sem se queixar, garantindo com as suas viciantes fartadelas, o mal-estar físico que lhe era inerente, bem como a envergonhada e meio sorridente expressão com que o seu comportamento me relatava, o qual muitas vezes “adivinhava”…

E…

Sem mezinhas para as suas maleitas, podia sempre oferecer-me para preparar-lhe um chá!…

Mas… cogitava…

Porque é que ela não cozinhava prazenteiramente pratos como tão bem sabia?!…

Ou…

Não dava à agulha e ao dedal e não confeccionava mais num lindo vestido de noite?!…

Hum! Fácil de perceber! Estas criativas atividades não se executam com… fúria de dentadas, com papilas gustativas regaladas, quase babadas, com dentes pintados de chocolate, nem com fatias de marmelada caseira e pouco dourada, porque o açúcar amarelo deixa-a… mais “bem-encarada”!

O pior é que… já ouvi dizer que a fúria do “ovinho” estrelado é contagiosa e ataca, surpreendentemente, qualquer boa pessoa, em qualquer momento e em qualquer lado!…

Estórias de Meninas – As Mal-Educadas Madeixas
Agosto 1, 2017

Resmungava a menina com fartos movimentos, contrastando com a sua idade e fraca constituição, reclamando as prometidas madeixas autorizadas pela mãe.

Questionava-a a interlocutora sobre os gritos e má educação, tentando que a menina de ouvidos moucos percebesses que não tivera uma negação, mas que aguardava, da progenitora, a pormenorizada autorização.

– Mas eu quero fazer as madeixas agora! E ela disse-me que não! – protestava a franzina menina, de ameaçador dedo espetado.

– Ela quem?!… – perguntava, educadamente, a indignada senhora.

– A avó! Tu disseste que logo se via, e eu já sei que quando dizes isso é não! – insistia a desesperada menina, gritando, gritando e quase choramingando.

E…

Entre a explicação da senhora-avó, bastante nova, por sinal, com quem a mãe da menina obcecada com as urgentes madeixas falaria mais tarde para dar-lhes todas as instruções, choviam à esquina da rua picaretas de inadmissível falta de respeito e má educação…

O Procópio e o Pirolito – Portugesmente…
Julho 26, 2017

Pirolito – Ó Procopiozito, sabs porque é que o português mente?

Procópio – Ora, amigo Pirolitozito! O português mente como qualquer gente!

Pirolito – Achas?

Procópio – Acho, sim! Até há quem diga que se mente por amor.

Pirolito – Semente de amor?!… Oh! Eu pensava que se mente por ter grande fartura de sementes de imaginação, que saem pela língua como um furacão.

Procópio – Ah! Ah! Que engraçadinho, Pirolitozito!

Pirolito – Não sou nada, Procopiozito! Eu acho, portuguesmente falando, que português mente, porque apesar do ditado, não tem medo que lhe caia um dente, mas é pena, porque haveria por aí muito desdentado bem identificado, e bués de envergonhado – bem feita!

Procópio – As coisas que tu dizes, papagaio pensador! Tem tino na língua.

Pirolito – Papagaio pensador cheio de humor como os filmes portugueses a preto e branco. Aquilo era um pagode, ouvi o Zé Povinho, já velhino, a suspirar.

Procópio – Aonde ouviste tal, Pirolitozito?

Pirolito – No Jardim da Estrela, ao pé do homem do balões, quando fui lá passear. Mas isso agora não interessa. Estou a dizer a verdade. Reparaste como falei portuguesmente? Disse: “a verdade”, e não verdade.

Procópio – Muito bem, Pirolitozito! A propósito do teu portuguesmente, sabes é a diferença entre: a mulher nova e a nova mulher?

Pirolito – Sei, pois, Mestre Procópio! A mulher nova é aquela jovem que as senhoras enrugadas gostariam de imitar, e a nova mulher é a recente esposa do Dr. Branco, que deixou de chorar a sua viuvez, coitadinho!

Procópio – Muito bem, brilhante papagaio!

Pirolito – Obrigado, Procopiozito-amiguito! Já confortaste a tua amiga Celeste? Estava a chorar. O “Chico esperto” do Possidónio acabou com o namoro. Ela vinha acompanhada do guarda, porque ia sendo atropelada. Deu-me pena! Mas não me caiu nenhuma, e ainda bem, senão com tanta pena que sinto, já estaria depenadinho “dum todo”, alentejanemente falando, e… todo arrepiadinho.

Procópio – Ah! Ah! Pirolitozito-Amiguito, és o máximo! Mas… agora é a minha vez, porque, aqui entre nós, porque português, homem ou papagaio não mente, vamos ao portuguesmente…

Pirolito – Muito bem, Procopiozito-amiguito! Vamos, pois! Sou todo ouvidos, e de mente atenta ao portuguesmente, pois claro!

Procópio – Portuguesmente falando, Pirolitozito, o Possidónio acabou o namoro, e ela vinha acompanhada pelo guarda.

Pirolito – Muito obrigado, Procoipizito! Vou ter mais tino… neste bonito e bem-falante bico! Olha!

Procópio – Estou a olhar…

Pirolito – Que engraçadinho! Até as minhas asas batem palmas! Olha! Achas que quando voltar ao Jardim da Estrela posso ir logo ali… para certificar-me de que depois de ouvir as línguas nacionais de várias cores e ideais, não terei de abrir o bico e deixar o portuguesmente sair debaixo da língua?

Procópio – Ah! Ah! Muito bem! Gosto da ideia e aprovo-a, Pirolitozito!

Pirolito – Nada para dizer! Nada que dizer, portuguesmente falando, Procopiozito! Vamos?

Procópio – Então? Não íamos ao FMM?… À tardinha, já temos música, e eu quero assistir pela noite fora. Espero não ficar mouco!

A Menina Azul – O Colar
Julho 26, 2017

Era uma tarde amena acarinhada pela brisa marinha.

Uma família passeava à beira-mar: os pais, a filha e a neta.

No sentido contrário, caminhavam a Menina Azul e uma amiga.

Esvoaçaram sorrisos entre os dois pequenos grupos ao avistarem-se.

Cumprimentaram-se!

A Menina Azul, reportando-se aos anos em que o senhor chegara à sua terra e vivia impressionado pelos temporais, principalmente pelo mar enfurecido que desconhecia, dirigiu-se-lhe:

– Faltam os nossos invernos!

– É verdade! Grandes e impressionantes tempestades! – respondeu-lhe, sorridente e saudoso.

A esposa e a filha acompanhavam o diálogo, surpreendentemente sorridentes!

Mas… foi com a jovem mãe que a conversa se estreitou, noutros âmbitos. Olhando para a filha, apresentou-a, orgulhosa, à Menina Azul!

– Já nos conhecemos, mas eras um bebé! Já estás tão crescida, e linda! – retorquiu a Menina Azul, acocorando-se para ficar do seu tamanho.

As bochechas desafiadoras de beijos aproximaram-se curiosas da sua interlocutora. Os olhos morenos observaram-na. Depois, fascinada, a menina estendeu as suas delicadas mãozinhas para o pescoço da Menina Azul, pegou docemente no pequeno e fino fio que ela trazia ao pescoço, segurou contemplativa e demoradamente na medalha e, perante o silêncio geral, declarou:

– Tens um lindo colar! Que lindo colar! Gosto muito!

– O teu também é muito bonito! – respondeu a Menina Azul, olhando para o seu comprido colar colorido.

A menina continuava na mesma posição, ignorando o que trazia ao seu pescoço, com o olhar preso no ” lindo colar”, que admirava.

– Também podes ter um igual ao meu – prosseguiu a Menina Azul, beijando-a.

Os adultos despediram-se com sorrisos, porém, a menina do comprido colar colorido não parecia convencida com a realização do sonho que a Menina Azul plantara no seu coração.

E…

À medida que se afastavam, o comprido colar colorido e o “lindo colar” encontravam-se, olhando várias vezes um para o outro, e acenando…

As Brincadeiras da Nita e do Nito – O Segredo da Nita
Julho 7, 2017

– Olá, Nita! Por andaste, miúda?

– Estive doente, Nito!

– Coitadinha! Estás abatida, mas até pareces mais crescida!

– Pois! Dizem todos a mesma coisa lá em casa e também na dos meus avós: que estou uma mulherzinha.

– E têm razão! Estás gira, Nita!

– Nito, que conversa é essa?

– Não sou a tua menina bonita da sala, aquela de que gostas muito. Pensas que eu não sei? Sou a tua amiga, Nito!

– Claro que és, a minha amiga, Nita! E… aquela menina… Tu sabes! É pena ela não gostar de jogar à bola, nem de estar aqui nas muralhas a ver as traineiras a chegar…

– É verdade, Nito! Nem no muro da ribeira! Ou ir ao “rebolim” com o coração aos pulos à espera dos barcos a chegar com a tripulação salva, e nem sentir o frio do vento forte a soprar nos dias de temporal!
Mas, mesmo assim, o teu coração está sempre por ela a palpitar.

– Está, sim, amiga Nita! Não to posso negar! Mas… o mar! Ai! O mar! Um dia quero andar nele a navegar, mas não é a pescar.

– Já sei, Nito! A navegar, talvez no navio escola, o Sagres, e tu muito bem fardado a pescar em seco, nos portos; é o que dizem desses navegantes.

– Pronto, Nita! Já chega! A doença deixou-te mais espertinha! Olha! Lá vem a traineira. E traz peixe, dizem as gaivotas à volta dela.

– Olho, sim, Nito! E mais logo, lá vais tu levar um peixinho ao Sr. Padre para ele e a irmã comerem. Devem gostar muito! Lá na terra deles, no norte interior, não há mar; só montanhas a tapar a paisagem do outro lado. O mar é melhor, olha-se até se perder de vista, sem segredos.

– Boa, Nita! Podias escrever um texto e inventar os segredos para além das montanhas, para entregar à nossa professora

– Pois, podia, Nito! Mas… prefiro contar-te um segredo. Queres ouvir?

– Claro, Nita! Sou todo ouvidos.

– Nito, o segredo foi um sonho que tive quando estava doente, com febre.

– Então é um delírio, Nita, mas não faz mal! Conta! Conta!

– Nito, mas tu achas que as pessoas delirantes lembram-se de tudo? Eu achava que tudo se apagava quando a febre passava.

– E pode ser, Nita, digo eu, mas conta lá!

– Está bem, Nito! Sonhei que estavam a fazer o nosso castelo! Eram muitos homens! Estavam mal vestidos, cansados e com muita sede. Uns começaram a cantar como os pescadores quando puxam os barcos muito pesados para os encalhar na ribeira.

– Uf! Já estou quase a suar, Nita! Coitados!

– Nito, eu também suava quando estava com febre! Até me lembro de me limparem a testa! Continuando… Depois apareceu no nosso castelo uma menina com um chapeuzinho de palha de fita azul, filha de um guarda que os vigiava, e deu água a muitos homens, que ia buscar a uma nascente.

– Oh! E depois, Nita?!… Depois?

– Depois um senhor de idade com umas barbas brancas disse obrigado à menina, e que ainda haveria muita alegria neste castelo, meninos a brincar, e um dia, muita gente a cantar.

– Acertou, Nita, relativamente aos meninos a brincar. Quanto a muita gente a cantar… talvez daqui a uns anos quando formos crescidos, haja algum festival. Quem sabe?!…

– Quem sabe, Nito?!… Mas as crianças também podem cantar, nas rodas, por exemplo, a apresentar uma peça de teatro daquelas da escola, e os adultos nas festas, por exemplo, nos mastros dos Santos Populares…

– Muito bem, Nita! Mas… eu ainda acho que poderá ser algum festival de música.

– Ora, Nito! Festival só o da Eurovisão! Até já apareceu uma vencedora cantar descalça.

– Ah! Ah! Ah! Nita, já estás a fazer um filme!

– Filme, Nito?!… Estás a ficar com febre; a delirar. Afinal não era um festival?!…

– Espertinha, a menina Nitinha. Bora jogar?

– Bora, Nito! Ou preferes ensaiar e começar a cantar?

– Engraçadinha, a Nitinha! Eu não sei cantar, nem dançar. Apanha a bola!…

– Atira-a, Nito! Vai começar o nosso festival! Vamos ver quem vai ganhar; eu vou marcar. Podes contar!

A Pagizinha-Estudante
Julho 7, 2017

Naquele dia em que atravessava o jardim e fui surpreendentemente abraçada pela mais bela e sorridente flor, a Pagizinha afastara-se da mãe ao avistar-me, mas não se encontrava ali de passagem, nem a desfrutar exclusivamente das descobertas da natureza que aquele agradável e cuidado espaço oferece, apesar da falta das canções do seu lago e da dança gorda dos peixinhos que nele se deleitavam, felizes na sua casa…

No banco donde a minha amada amiguinha-afilhadinha se levantara permanecia a sua sorridente mãe.

Fomos ao seu encontro e, no pequeno percurso, fiquei alegremente a saber que o nosso jardim era a sua sala de estudo, onde se efetuavam revisões, pois no dia seguinte teria de prestar provas do seu primeiro ano escolar.

Lá estavam os livros no banco-secretária, um com as páginas à mostra, talvez pensativo sem saber por que teria ficado de boca aberta sem ser lido!…

Há dias, recebi um sms escrito pela Pagizinha, sem ajuda nem correções da mãe, em que me dava esta notícia:

” – (…) tive os teste muito bem pasei para o 2 ano (nome)”

O meu coração explodiu de alegria! A notícia da transição de ano era sobejamente garantida pela sua inteligência, empenhamento e distinto aproveitamento!

Mas…

A partilha supera qualquer tipo de avaliação, pois são flores vivazes entrelaçando-me naqueles seus perfumados e fortes abraços, luz e força de mar brotando do seu coração!

Como é que te agradeço, Pagizinha, se és detentora dos mais ricos bens, que não carecem de testes para passares sempre nas constantes e espontâneas provas de amor?!…

Um simples Obrigada é pouco!

Talvez dois, três ou mais…

E…

Um enorme e especial agradecimento para que continues a repetir: “Eu sou de Jesus!” e não te canses de Lho agradecer em todos os momentos da tua vida desde o simples respirar à euforia, passando pelas vicissitudes, e que Ele te continue a abençoar! – Obrigada!

Abracinhoooo dos nossos!

Tua Amiguinha-madrinha do coração, Pagizinha!

Gente Boa da Minha Aldeia – A Circulação da Carta
Julho 1, 2017

Muito feliz estava a octogenária, escondendo, espontaneamente muito menos idade, pela natural preservação da sua beleza e ligeireza no pensar, no falar e até no andar, apesar de se queixar de um joelho malandro, que custa a dobrar, apesar de surpreender o médico por de uma bengala fazer-se acompanhar – “Por que é que usa bengala se não precisa dela?!…”, ter-lhe-á perguntado o clínico muito pasmado!

Tê-lo-á esclarecido, mas não convencido!

Sorridente por só voltar à consulta de rotina daqui a um ano, saía feliz, por ter obtido a vitoriosa renovação da carta de condução, e do seu filho, companheiro de uma curta viagem, prestado a sua alegre aprovação!

Mas…

Se a linda senhora insistir em permanecer na sua casa, desfrutando do seu conforto, a maior parte do tempo no seu sofá muito bem refastelada, como entrará no seu carro e carregará nos pedais, se não se exercitar a andar a pé, para preservar a mobilidade, conseguir instalar-se no quatro rodas com a renovada carta pronta para orgulhosamente na estrada circular?!…

Estórias de Meninas – O Amargo de Boca
Junho 30, 2017

Era uma grande inundação de palavras, certamente fluindo dos espinhos do coração, que fizeram apertar os lábios e expulsar sons urrados de tempestade de emoção da menina dos joelhos a espreitar do calção.

Era uma grande dose de raiva, de rejeição, e de negação de quem jamais daria o perdão, repetia o pezinho, batendo no chão, ameaçador, desembainhando com as unhas de vermelho pintadas e as mãos calejadas um furioso: “Que danação!”

Era uma grande tempestade em que faltava a verdade de quem, pela dura, injusta e imposta mudança havia sido muito bem acolhida, tratada, reconhecia e homenageada na sua despedida, na qualidade de aposentada, uma menina tão simpática e bem apresentada!

Era uma grande agressão, jorrando dos gestos dos braços em grande movimentação, salpicando tudo e todos com vestígios de longa duração!

Era uma grande desilusão assistir a algo tão inconveniente na frente de toda a gente, sem decoro, nem respeito por quem era velado e de quem se despedia a dor da vida perdida!

Estórias de Meninos – Um Abraço ao Linho!
Junho 24, 2017

Este ano tem-se manifestado profícuo em despedidas e, com elas, em lágrimas, encolhendo cada vez mais os tecidos oculares!…

Primeiro, o Linho tão inteligente quanta a imensidade de caracóis que enchiam a sua farta cabeleira, soltando-se nas suas respostas rápidas e corretas, encontrando soluções para tudo, emprestando ideias, chegando a desorientar a professora como se a sua perspicácia a desafiasse!

Grande amigo, escondendo a sua sensibilidade sob o seu imenso e lindo sorriso, e gracejos, chegou a sentir-se mal num evento de colegas da sua e de outras turmas, em que se apresentou distinta e elegantemente vestido, “de senhor”, chamando as atenções pela substituição do axadrezado das suas camisas do dia-a-dia, em que não comeu, e chorou, não conseguindo controlar a sua emoção!

Viajava muito, descobrindo o mundo com a sua amada esposa, aquela que, quando viu pela primeira vez, percebeu que “era ela”! E… foi, de facto, fruto de destemida conquista, união que me encheu de alegria, daquelas que palpitam no nosso coração como se estivéssemos em sintonia com os laços que os une, e em que se aposta!

Abracei a Leo, minha colega de ginásio de longa data, depois da dolorosa partida do Linho, num recinto em que decorria um festival relacionado com o mar, que ela, acompanhada pela mãe, percorria chorosa e saudosa, mas prestando uma homenagem ao amado marido, porque, como repetia: “Ele adorava isto! Faz aqui falta! Estou aqui por ele!”

O meu amigo Linho partiu cedo, e triste, revoltado, até, com as injustiças profissionais que lhe foram infligidas, mas… certamente os seus olhos do coração emocionaram-se com as dores e as lágrimas da sua família e amigos, e sorriram, sentindo-se infinitamente abraçado!