Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

Histórias de Fantoches – Conversa com a Bia, 7.ª Página
Julho 27, 2020

– Ai! As fartura, Pasquito! O meu padrinho Esu, que sempre me tratou com o carinho e a alegria de um pai, gostava muito de comprar uma roda de farturas na feira de agosto, e toda a gente se lambia depois da procissão.

– Quentinhas, é que são boas, Bia! De comer e chorar por mais como dizem os idosos, mas eu acho que são de comer e comprar mais!

– Ah! Ah! És tão engraçado, Pasquito! Olha, eu hoje ainda gosto de: bonecas, de andar de baloiço e de carrossel – adivinha com quem me divirto!

– Ora, Bia! Divertes-te com os teus irmãos e primos, não é?

– É, pois, Pasquito! Mas tenho outros passatempos. Queres saber quais são?

– Hum! Estou curioso, Bia!

– Presta atenção, Pasquito! Gosto muito de: 1.º Fazer compotas. Para isso, é preciso que haja boa fruta nos pomares.

– Fruta, Bia! Fruta boa! E alguém que a apanhe, e quem a transporte nas caixas ou nos cestos.

– Muito bem, Pasquito! Até podíamos fazer isso os dois.

– Boa ideia, Bia! E tens dinheiro para comprar o açúcar?

– Não, Pasquito, mas, se não houver açúcar suficiente lá em casa, posso pedir à minha mãe para me dar dinheiro, ou tirar do meu mealheiro.

– Estou entusiasmado, Bia! Água para lavar a fruta deve haver.

– Claro, Pasquito, a menos que aconteça algum problema na rede pública!

– Bia, já só nos falta uma faca para descascá-la e cortá-la, não é?

– Sim, Pasquito!

– E agora, Bia, já podes explicar-me / ensinar-me como se prepara a compota, se faz favor?

– Com todo o gosto, Pasquito, para ires ficando com água a crescer na boca. Colocamos a fruta cortada numa panela, juntamos o açúcar, metade do peso daquela, ou menos, a canela em pau, coloca-se ao lume, que a mãe ou a mana mais velha acende e põe baixinho, deixa-se ferver até…

– Até o quê, Bia?!…

– Pasquito, até atingir o ponto de…

– O quê, Bia?!… Os pontos não são coisas de costuras e bordados?

– São, sim, Pasquito! E ainda há os pontos das costuras dos doentes.

– Ah! Ah! Bia, pontos de sutura, de sutura. Mas diz lá qual é o ponto da compota.

– Obrigada, Pasquito! É por seres tão querido, que te trato por Pasquito, em vez de Pasquinho! Então… O ponto da compota é o ponto estrada.

– Que giro, Bia. E como é que encontras a estrada?

– Ah! Ah! Pasquito, quando a compacta começa a ficar mais grossinha, tira-se um pouquinho para um pratinho. e faz-se uma estrada com o dedo; se ela continuar aberta significa que está no ponto, pronta, melhor dizendo.

– Muito bem, Bia! Se a estrada se fechar, teremos muito que esperar.

(continua)

A Menina Azul e o Sr. Vento
Julho 21, 2020

Sr. Vento,

Sabes que gosto muito de ti, sobretudo de ver-te a dançar com tudo o que apanhas, pões a assobiar e a saltar! 

Sabes que me rio por seres tão atrevido e levantares-me as saias, imaginando que me verás o umbigo, e despenteares-me, à espera que me zangue contigo!

Sabes que te deito a língua de fora, às escondidas, quando roubas os balões às criancinhas e chutas as bolas até voarem para além das ondinhas! 

Sabes que me encanto com o içar das velas, sabendo que abres caminhos seguros com elas, como se fossem vidraças de firmes janelas.

Sabes também, Sr.  Vento, que gosto tanto, mas tanto de ti quando tiras o chapéu a alguém que o devia ter feito por educação, ou pões um menino ou uma menina a correr atrás do seu quando caiu ou o atirou ao chão! 

Mas…

Sabes que não gosto quando sopras para para as minhas costas muito quentes sob a roupa transpirada, e no dia seguinte acordo rouca e contigo zangada?!…

A Menina Azul – O Monte das Oliveiras e a Riqueza para além Dele
Junho 19, 2020

Todos os dias, a Menina Azul atravessava, com a sua pasta cheia de decisões, visando justos e urgentes benefícios de direitos da imensidão de carenciados destinatários, atadas com diversificados laços de corajosa motivação para os empreendedores, um espaço campestre de uma pequena elevação povoado de oliveiras – “O Monte das Oliveiras”, designou-o, por si próprio, e por tudo o que envolvia – onde se detinha a fazer uma breve e cogitadeira pausa, a escutar a fina voz do vento, tão diferente daquela de gente grande que sopra na sua vizinha aldeia perfumada de mar, ou a respirar a esparsa sombra da “torrêra”, entre a poeira, ora com os pés empapados pela lama, pasta da autoria da chuva, quando o frio arrepiava e enrolava as folhas das árvores, suspirando sempre pela areia das suas praias, pelos escorregadios limos das rochas, pela doce e salgada ventania de lamber os lábios, fechar os olhos, e pedir mais!

Este desvio pedestre estava na origem de obras no ex-hospital.

Ao fundo, esperava-a um edifício de um só piso, a que chamava silenciosamente “automotora-prisioneira”, pelas linhas arquitetónicas e também por que as janelas tinham grades fixas, “segurança” para evitar os invasões externas, dado o isolamento da localização, e punha – põe -, simultaneamente em perigo os profissionais e todos os utilizadores em caso de emergência.

A Menina Azul avistava, quase ao chegar à porta de serviço, o sensor, ali colocado pro sua iniciativa, cuja “prodigiosa” luz a saudava, e que era completada nas noites frias e escuras por uma lanterna que alguém, geralmente uma grande amiga, gentilmente direcionava no “Monte das Oliveiras”, que ela atravessava a correr, agradecendo, até chegar à estrada.

Nas traseiras da “automotora-prisioneira” havia uma monte, “de verdade”, de arregalar os olhos, mesmo aos “quadradinhos”, expandindo-se à esquerda, um Alentejo verdejante rendilhado de uma réstia de mar, que se vislumbrava ao fundo…

Próximo de um parque de estacionamento improvisado e diminuto, ostentava-se um majestoso e encantador pinheiro, que embalava as palavras de amor que o vento lhe sussurrava, sorrindo para as dançantes papoilas do outro lado da estrada, acenando às tentadoras amoras…

No interior da “automotora-prisioneira”, e nos seus veios espalhados pelo enorme concelho, destacava-se uma ampla e inesquecível riqueza: a fina flor da equipa dos preciosos colaboradores da Menina do Mar dotados de sábia humildade, insaciável desejo de aprender, de melhorar, de criar, de partilhar iniciativas que com a sua permanente disponibilidade contribuíram para a construção de uma grande obra coletiva, incansável e constantemente ao serviço e para bem dos outros – bem-hajam, canteiros de flores multiplicadas das que me ofereceram em datas festivas e encheram a minha casa, fazendo transbordar o meu coração de ternura e infinita gratidão!

Estórias de Meninas – A Infanta Sabedoria
Março 25, 2020

A Infanta Sabedoria, que diz não gostar da tia, mas que, certamente apercebendo-se e suspeitando do silêncio da avó, acrescenta: “um dia vou gostar!”, que justifica deixar a porta da casa de banho aberta para quem for entrar, e a luz acesa, para a outra pessoa possa ver, mas volta atrás para fechar e apagar, respetivamente, que sabe empregar muito bem, e não se cansa de proferir: “Desculpa!” e “Obrigada!” também gosta de fazer-lhe perguntas com respostas, pegando nas palavras daquela ascendente.

“- Avó, sabes o que é “fofinha”? É do amor!”

As conversas fluem e a Infanta Sabedoria, ontem, quando chegou a sua vez de falar ao telefone com a avó deu-lhe uma preocupante notícia:

” – Avó, o coroa vidros vai matar a gente todos!”

“- Não vai nada, porque a gente não deixa!” – respondeu-lhe a avó.

Confiante, a perspicaz Infanta, não obstante usufruir a tempo inteiro da riqueza do seu delicioso ambiente familiar, a bem da saúde, perguntou-lhe:

” – Depois vais buscar-me à escolinha para iremos à pastelaria comer um salame, e eu poder andar a brincar naquela rua sem carros?”

Esta é a esperança, ecoando do coração de uma criança!

O Regresso da Pagizinha
Março 25, 2020

Decorria o mês de Fevereiro. Era o dia da semana em que a Pagizinha e eu nos encontrávamos regularmente.

Tocou o meu telefone. Do outro lado da linha, vibrava uma voz doce e entusiasta, levando-me até ao esvoaçar dos seus sorrisos.

A Pagizinha perguntava-me se podia subir naquela altura, em vez de há hora habitual, para a qual ainda faltava muito.

Surpreendida e feliz, pedi-lhe que me desse quinze minutos, os quais correram velozmente.

Quando abri a porta que me soara ao som delicado dos nós dos seus dedinhos, fui abraçada por uma intensa onda de alegria, deixando-me inundar por ela, reciprocamente.

Percorremos memórias das férias no parque me campismo, parámos nos divertidos e saudosos encontros com peripécias nos Tempos Livres, não ouvimos as cordas da viola, mas sentámo-nos nas cadeiras da escola, onde não nos encontrávamos desde o seu aniversário, com os colegas à nossa volta e a professora à frente, ensinando, chamando a atenção, agindo com boa disposição, denotando, por vezes, cansaço, perante o desapontamento que lhe causava o comportamento de alguns alunos, facto que desgosta bastante a minha afilhada, habituada a regras e às suas aplicações práticas no quotidiano.

Naquele dia, não realizámos as nossas atividades didáticas, nem as lúdicas, pois resolvi acolher a Pagizinha dando-lhe toda a liberdade para desfrutar livremente do nosso saudoso reencontro.

Dotada para muitas tarefas, a Pagizinha pediu-me para pentear-me, achando graça e utilidade a tudo o que se encontrava no estojo, pedindo-mr para fotografar as suas habilidades, gosto que lhe ofereci de bom grado!

Saltitando com a ligeireza e graça de uma acrobata, quando decidiu parar, considerou que talvez fosse bom fazer-me uma massagem às costas, a qual foi precedida por um procedimento análogo à sua pessoa, com destaque para os membros, que se deliciaram com os seus apreciados movimentos da bola de picos agilizados por mim.

Atenta como é, a Pagizinha começou a aperceber-se de algum movimento externo, que lhe sugeria e muito bem, a entrada e a saída no prédio dos explicando da sua mãe.

Pediu-me para ir à janela!

Que euforia poder contactá-los, do andar acima do seu, surpreendendo-os, partilhando amendoins que a maioria não conseguia apanhar, levando-os a perguntar o que fazia ali!

” – Estou a fazer uma massagem à minha madrinha! É verdade! Acredita!” – respondia-lhes sucessiva e alegremente.

Mas…

A massagem daria origem a um enorme penso nas costas habilmente conseguido com guardanapos e fixado com fita cola, acompanhado de uma recomendação, um pouco mais acima:

” – Isto aqui precisa de gelo!”

A bengalinha com tripé da senhora minha mãe, que a Pagizinha considera da sua irmã, chamando-se, neste contexto, Antónia Maria e àquela, que quando a encontra beija e abraça intensa e sucessivamente, Maria Antónia, também serviu para demonstrar como deve ser usada devidamente, manifestando a sua indignação quando vê alguém na rua não o fazer, o que “acaba por não ajudar aqueles que precisam”, disse.

A esta nossa divertida e fantástica tarde não poderia faltar o nosso lanchezinho, e a prova, porque já eram poucos, de uns bolinhos que a Pagizinha acha sempre bons, à medida que se vai deleitando, e descobrindo os seus condimentos!

E…

A hora do jantar e do regresso a casa aproximava-se, e com ela um longo abraço, daquele que desejamos infinito, e é, porque fica gravado para sempre nos nossos corações!

Estórias de Meninas – Os Totós da Viola de Arco
Março 8, 2020

Era uma viola de arco escondida numa caixinha, a um delicado ombro encostadinha, chegando à sala de audições muito encolhida e envergonhadinha, certamente por estar atrasada, coitadinha!

“Talvez tenha vindo do concelho maior de Portugal”, disse para mim, tentando justificar os totós redondinhos, olhando para o ar sem os seus óculos de aros rosa-forte os ajudar!

Era um passo miudinho sem saber para onde andar, procurando a cabeça do professor para se localizar, e tranquilizar.

E que bem que a viola de arco com os totós redondinhos foi acolhida, e arranjou logo onde se sentar, esboçando um doce sorriso, de encantar!

Era uma sinfonia que ia tocar, e esbelta, contrastando com os totós de menina, enroladinhos, as cordas da viola começaram a vibrar com voos sonoros, de arrepiar!

E os aplausos efusivos não queriam parar, impedindo os totós de se sentar, baixando a cabeça repetidas vezes com suspiros agradecidos, a todos saudar, desejosos dos elásticos e dos ganchos se libertar, e poder saltar! Saltar! Saltar!

Acariciar a Terceira Idade
Fevereiro 12, 2020

Olhares serenos entrecruzando-se na apinhada sala de espera salpicadas de cabelos brancos, os das senhoras bem cuidados, e os dos homens mais ralos e um pouco apagadas, muitos de ambos os géneros com canadianas, bengalas e andarilhos ao seu lado encostados.

Olhares meigos e preocupados de descendentes com sorrisos de trigo dourado sobre os ascendentes debruçados, molhando alguns lábios secos da espera em atmosfera aquecida como passarinhos cuidando dos filhinhos no seu ninho, e um deles, levando à boca da mãe bocadinhos de pãozinho – “panito” no seu falar regional de alentejanito – retirados de um branco e bordado saquinho – “taleguinho” – talvez pelas mãos ora gastas e enrugadas, ora sob o assento da cadeira de rodas guardadinho.

Olhares esperançosos e parados, observando a sua vida presente com o peso dos anos, orvalhando as quebradas pálpebras dos saudosos olhos com distantes memórias do vigoroso passado!

Contrastando com esta geração, uma jovem mãe transportava de um lado para o outro um menino de idade escolar, entrelaçado ao seu pescoço com o firme cachecol dos seus braços, lambendo-lhe as orelhas com perguntas, ajeitando as pernas abertas presas às ancas onde antes de abrir os olhos ao mundo se aconchegara!…

Gente Boa da Minha Aldeia – Memórias de Gratidão 
Fevereiro 1, 2020

Ajudamos/salvamos os outros, ajudando-nos/ salvando-nos a nós próprios sem sabermos porquê, ou do quê, se de conflitos, se de medos ou se de danos adormecidos, reconhcendo-nos pelo bem-estar, pela energia, pela capacidade de ação, e estratégias, soltando-nos com a sensação de um dever cumprido, ainda meio estonteados.

E…

Os acontecimentos/ salvamentos vão-se sucedendo, e caindo no esquecimento dos genuínos generosos.

Mas…

Dita a experiência da vida que um dia… podemos ser surpreendidos por um encontro com o passado, regando-nos de imensa gratidão, estranheza visível no nosso rosto, trazendo-nos descritivas memórias, ou simplesmente um renovado e repetido obrigado, acrescido de ” nunca me esqueço do que fez por mim!

Acresce que…

As memórias de gratidão da gente da minha aldeia são bagos de areia nas imensuráveis praias do mundo plantadas de pegadas diversificadas, umas para trás e outras para a frente viradas, que o tempo tenta apagar, mas as marés renovam, afugentando as nuvens, puxando as fitas douradas do sol acordadas, acariciando a humanidade de boca escancarada!

A Menina Azul e O Menino da sua Amiga
Janeiro 30, 2020

Nascera o segundo filho de uma das suas amigas, hoje um jovem inteligente, generoso e sábio, e fora a embevecida mãe, residente noutra localidade, que a surpreendera, e aos colegas de trabalho com uma inesperada visita, à qual estava subjacente a viligância clínica.

Naquele feliz dia, a Menina Azul, estranhando o momentâneo e cúmplice silêncio, olhou à volta e o seu coração pulou de alegria com o colorido quadro do bebé ao colo da radiosa mãe. Aproximou-se com o ímpeto de uma onda do Norte quando abraça a praia, e exclamou, eufórica:

“- Parece meu filho!”

A amiga-mãe com sorriso de sóis e respiração de mar florido de graças, revivendo o milagre da vida na sua unicidade, contemplou a serenidade adormecida do seu bebé no aconchegante berço do seu colo, olhou para a Menina Azul, depois para o cabelo de um e de outro, escancarou mais a porta do seu coração, e retorqui, festejando a felicidade:

“- Pois parece!”

E…

Estendendo-lhe os braços repassados de amor, colocou o seu menino na doce conchinha do peito da Menina Azul.

Desta memória de luz atravessando estações, a Menina Azul saboreia ainda o canto do eco das suas palavras nas paredes de cristal da vida, sorri para o auge da felicidade da sua amiga com o seu tesouro ao colo, não obstante a que ela já festejara, também como mãe, bem como em muitos momentos que também celebraria pessoal, familiar e profissionalmente.

O Menino de Ouro ia crescendo, e a Menina Azul escutando e partilhando alegremente as essências sorridentes dos lábios da sua grande amiga, fazendo analogias em diversos âmbitos, repetindo orgulhosamente:

“- Pareces mesmo o meu (…)!”

Estórias de Meninas – Os Livros e o Rádio Portátil da Dudu
Janeiro 29, 2020

A Dudu, rosto delicado de menina, que trazia marcas do frio do seu Norte de Portugal, dizia orgulhosamente quando já respirava o ar do Alentejo Litoral onde se fixaria para sempre.

Contava que, quando terminou sua licenciatura, e iniciara a sua sonhada e brilhante carreira de professora, adquirira, de imediato, ávida de saber, os seus primeiros livros, todos os que os seus proveitos lhe permitiram, deixando para trás o mundo das fotocópias…

Mas…

O deleite dos seus investimentos não terminara com aquela inédita e fantástica compra. Faltava-lhe algo: um rádio portátil, pois a música acompanhara-a desde criancinha, adormecendo ao seu sabor, e não incomodando ninguém quando estava acordada, até que desse os primeiros passos e acompanhasse as notas com a graciosidade do seu corpinho.

A paixão pelos livros, mesmo os redigidos noutras línguas, permanece, e quando liga o rádio, é a netinha que lhe estende os bracinhos, sorrindo, sabendo que lhe pegará e que dançarão…

E…

Em breve, a menina começará a saber ler as gravuras dos livros embalada pela doce melodia da avó-mestra, fazendo vozes: de animais, do vento, da chuva, de pessoas de todas as idades…