Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

Estórias de Meninas – O Perfume a “Leite de Colónia” e as Memórias
Outubro 15, 2017

Paira no ar o saudoso perfume a “Leite de Colónia” que aquela menina sentada ao meio lado nos bancos de escola fazia publicidade, chamando a atenção para a pele lisa e pálida do seu rosto, que se mantém, apesar dos atuais traços mais emagrecidos e sisudos.

É curioso partilhar o mesmo espaço de atividade desportiva com ela, que parece desconhecer-me, certamente esquecida dos dias em que, devido ao seu aproveitamento, temia alguma repreensão física, agarrando discretamente a minha mão e apertando-a como quem pede ajuda e proteção…

Comunicando constantemente com o saudoso perfume a “Leite de Colónia” encontra-se a sua antiga colega profissional, e visualizo no claro espelho do tempo um desfraldado toldo numa praia de ingénuos sonhos, escuto a melodia de distantes confidências, revisito vivências de primaveras que se evidenciam em si no momento presente num outono de árvores sem vida despidas de folhagem de memórias…

E…

Cogito…

Negar a vida envelhece? Ou já se envelheceu?!…

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Histórias de Fantoches – Folhinha de Hortelã, 2.ª Página
Outubro 15, 2017

– Está bem, mãezinha, mas primeiro tenho de ir buscar a vassoura para apanhar a terra – respondeu a Dulce, olhando para as sandálias e para o chão.

– E eu vou pôr a mesa e chamar os manos: o David, a Diana, o Dino e a Dina – adiantou o pai, o Sr. Daniel, saindo da cozinha.

– Paizinho, eles precisam de lavar bem as mãos, antes de virem lanchar – recomendou a Dulce.

– Eles sabem, Folhinha de Hortelã, mas posso lembrá-los – respondeu-lhe o pai do fundo do corredor.

– Mãezinha, e se nós fizéssemos um jogo, enquanto comemos? Cada um podia dizer o que gostaria de ser: um animal, uma planta ou um objecto – propôs a Dulce entusiasmada.

– Vai ser divertido, filhinha! Eu gostaria de ser uma melancia para os meninos olharem para as minhas talhadas e imaginarem barcos, gaitas e outras coisas, e besuntar-lhes as faces enquanto me dessem umas dentadinhas. E iria surpreendê-los quando acabassem de comer e eu renascesse rosada e docinha e lhes sorrisse com os meus dentes escuros, as minhas pevides – acrescentou a mãe, a D. Dulcineia!

– Que giro, mãezinha! Se fosses uma melancia mágica, os meninos poderiam dar-te a outros meninos para também eles saborearem a tua doçura fresca e sentirem as tuas festas nas suas bochechas – aplaudiu a Dulce.

E o paizinho gostaria de ser o quê? Eu acho que ele é um barco muito grande, porque navega por muitos mares: da alegria, da valentia, da calma das tempestades, conhece o mundo, o tempo, a vida dos pescadores e dos marinheiros, as ribeiras e os portos, as histórias das sereias. Sabe tudo! E… é melhor bússola que eu conheço! – continuou a Folhinha de Hortelã.

– Ai, ai, minha Folhinha de Hortelã! A fada-madrinha ainda vai transformar-te na árvore da imaginação, porque em tudo pintas uma constelação, constróis castelos, inventas brincadeiras; até fazes barcos grandes com histórias – respondeu-lhe a mãe a sorrir.

[E tu, que estás a ouvir ou a ler esta história, o que gostarias de ser e porquê? Já pensaste nisto? Queres contar-me?
Vamos continuar esta história em conjunto? Já deste os nomes aos irmãos da Folhinha de Hortelã, não é verdade? E também podes viajar até à sua cozinha e imaginares o que cada um dos seus familiares gostaria de ser ou então fazes de conta que és um deles e o teu amigo, ou irmão, ou quem estiver perto de ti, o(s) outro(s) – experimenta e diverte-te!]

(continua)

Estórias de Meninas – As Festinhas da Didi
Outubro 15, 2017

Quando era criança, a Didi gostava muito de visitar a tia – “do meu pai”, dizia orgulhosa, mitigando a sua saudade do seu progenitor -, uma velhinha que também deixara há muito o seu Algarve, e se fixara na terra do Gama, encontrando-se acamada na pequena casa da sua filha onde cabia, apertadinha, a sua numerosa família.

A menina entrava e perguntava se podia ver a tia. Depois, sentava-se na beirinha da cama e ficava horas a fazer-lhe festinhas na sedosa pele das suas mãos.

Atualmente, se bem que a Didi não tenha atingido a terceira idade, e se destaque pela sua dinâmica com fortes traços de jovialidade, sobretudo ao nível das capacidades intelectuais e físicas manifestas na sua mentalidade e modernidade, a pele dos seus braços tornou-se mais macia e fina, atraindo a atenção e, particularmente, o tato de uma das netas, que, seguindo-lhe o rasto, e avivando–lhe as memórias, a acaricia sem cessar, dizendo-se:

” – Avó, gosto tanto!”

Estórias de Meninos – “As Rendas de Casa”
Outubro 12, 2017

O Ruguel, um menino inteligente e perspicaz, tinha sempre respostas prontas na ponta da língua para tudo!

Apreciava a serenidade do pai, mas identificava-se mais com a dinâmica da mãe, por isso, quando se apercebia de que a progenitora estava mais cansada, temendo perdê-la, deliberava:

” – Se a mãe morrer, não quero nenhuma mulher cá em casa! Mas se o pai trouxer alguma, eu vou-me embora e levo tudo para a casa da tia: as coisas da mãe, as que ela fez, as que ela gosta mais e as “rendas de casa”!”

As “rendas de casa” era a expressão que o menino, desconhecedor do termo enxoval e das intenções maternais neste contexto, atribuía às toalhas, colchas e outras peça de renda que a mãe fazia, em dobro, referindo que uma peça seria para ele e a outra para o irmão: “quando o meu filho casar”.

A Avó Belina e os Rebuçados Peitorais
Outubro 12, 2017

A avó Belina, quando a cansada idade avançava e ela mais vezes se sentava, vivia na casa da Didi onde recebia a visita dos outros três filhos: o Esu, a Dith e o Nelo.

Quando o Nelo vendia algum peixe que apanhara, gostava de comprar rebuçados peitorais a vulso, sempre da mesma marca, daqueles com nome de doutor, porque eram os melhores, assegurava.

Nas suas visitas à mãe, tirava orgulhosamente uma mão-cheia de rebuçados e oferecia-lhos.

A saudável avó Belina sorria, agradecia-lhe e guardava-os no bolso da bata, e lá ia juntando mais rebuçados peitorais num fraquinho, porque a tosse não era mal que a apoquentasses, nem à família com quem coabitava, e as crianças preferiam outros doces.

Todas as tardes, a avó Belina fazia a sua pausa nas rendas que artisticamente saiam das suas enrugadas e laboriosas mãos, apoiava os braços no parapeito da janela, ficava a contemplar a baía entregue às suas memórias, cumprimentava quem passava…

Mas…

O que a avó Belina mais apreciava àquela hora era observar a criançada a brincar no largo! Ela sorria para dentro e para fora, comentava com a sua Didi as saídas dos mocinhos, lamentava quando algum tropeçava na bola e caía…

Quando o cansaço ou o anoitecer ordenavam o contrariado regresso da pequenas às suas casas vizinhas, a avó Belina já tinha a mão no bolso da bata, aguardando impacientemente por um menino moreno e sorridente, que se posicionava sob a janela de bicos de pé e de mãos estendidas, à espera da chuva de rebuçados peitorais, que agradecia emocionado e vitorioso.

Encontro com frequência aquele menino, que se tornou um valente homem, nos circuitos da sua atividade profissional e pergunto-me, graciosamente, se a sua agilidade não terá algo a ver com os tais rebuçados…

Um dia, quando ele fizer uma entrega na minha casa, ainda o surpreendo, oferecendo-lhe um rebuçado peitoral daqueles com o nome do tal doutor, igual aos da avó Belina – será que ele ainda se lembra dela e da sua algibeira cheia?!…

A Doçura da Pagizinha
Outubro 8, 2017

A Pagizinha está muito crescida, não só na esguia estatura, mas também no seu discurso e comportamento.

Observadora como lhe é peculiar, admirava o meu espaço como se fosse novo para si e tecia elogios que a tudo o que a circundava, particularmente aos objetos que habilmente fizera e carinhosamente me oferecera, dizendo:

” – Isto fica muito bem aqui! Tiveste uma boa ideia.”

Mas…

A sua atenção para comigo era imensurável: abraçava-se e beijava-me amiudadamente, retorquindo:

” – Coisinha mais fofinha!”

A dado momento, interrompeu o deleite da cadeira de baloiço, aproximou-se de mim e acariciou-me com estas doces palavras:

” – Sabes uma coisa?”

E…

Sem dar-me tempo de responder-lhe, acrescentou:

” – Eu amo-te!”

Quando ela saiu acompanhada do pai, que generosamente efetuara um conserto no meu domicílio, quase dispensando a ajuda das duas gentis ajudantes, a Pagizinha ainda manifestou o desejo de ficar comigo, mas era fim de semana e a família deve ficar junta, além de que já tinha tarefas agendadas, uma no exterior, pelo que a deixei voar.

No ar ficou a esperança do seu regresso para o nosso adiado lanche, e a doçura do seu maravilhoso ser, perfumando-me de pétalas de suave veludo cor-de-rosa, tom predominante da roupa que trazia, e o eco das palavras do seu coração, que tanto gostaria que ela pudesse partilhar com as crianças que não tiveram a felicidade de escutar e sentir o calor do seu grande coração.

Estórias de Meninas – A Ginasta do País das Maravilhas e o Castelo
Outubro 3, 2017

Encontrámo-nos circunstancialmente, depois de ter despejado o lixo e deixar-me levar pelo desejo de esticar um pouco as pernas, num entardecer dourado à beira-mar quando as gaivotas eram estátuas poisadas na praia de ondinhas mudas, ensurdecidas pelas músicas festivaleiras, atraindo espectadores de todas as idades, nacionalidades, gostos…

Foi o teu pai, meu conterrâneo, do qual herdaste traços do rosto, Linda Ginasta do País das Maravilhas, que me indicou por onde caminhavas à frente da tua mãe.

Observava-te à medida que me aproximava, contendo um imenso desejo de correr para ti e abraçar-te.

O teu vestidinho estampado, de cintura descaída, animava as pregas bailarinas com a tua rápida determinação, aproximando-te do muro debruçado sobre os baloiços da colorida baía, numa incessante descoberta, que te encantava.

Reconheceste-me! Vi a tua alegria estampado na imensidão do teu maravilhoso olhar, beijando-me.

Tinhas um penteado original, “muito giro” como to referi.

” – Foi na escola. As minhas colegas pentearam-me e eu a elas. Fizeram-me estas tranças.” – contaste-me, mostrando-me os teus pequeninos dentinhos, oferecendo-me um imenso sorriso.

Eram quatro ou cinco “trancinhas” tecidas por crianças, e inéditas, pois sobressaiam os teus caracóis, muito à vontade e parcamente entrelaçados, mas todas elas presas nas pontas por uns alaranjados elásticos – imagino que lhes chamas algo diferente.

E também imagino quanto seria bom lavarem-te a cabeça, preservando as tuas preciosas tranças até ao início do novo ano letivo!

A brisa marinha também não te resistiu, Linda Ginasta do País das Maravilhas, e ia abraçando-te suavemente, pedindo-te para vestires o casaquinho de ganga que o amor da tua mãe aquecia junto ao peito.

Deste-me a mão espontaneamente, cingindo a minha numa elevação de cândido carinho, que inundava o meu radiante coração.

Fomos conversando, mais eu do que tu, que te mostrava a antiga fonte da ribeira, ora seca, te contava que naquela estrada, nos longos e dolorosos invernos se encalhavam os barcos pequenos encostadinhos ao muro, para que as zangadas ondas e o vento não os atirar para a praia, que a avenida em que nos encontráramos também era o reino do mar, que havia um salva-vidas logo ali…

Fazias-me perguntas, a tua mãe, intervinha, de vez em quando, mas… tinhas um objetivo, e insistias nele.

“- Quero ir ao castelo!” – dizias à medida que a praia ficava para trás e as casas se aproximavam.

Encontrámos o teu pai, que fora buscar o carro, no cruzamento, já perto da rua do Gama.

Apertaste a minha mão com mais força como se temesses perder-me, puxaste-me discreta, mas firme no passo apressado, e perguntaste-me, olhando-me:

” – É por aqui que vamos para o castelo?”

E…
Lá continuámos o nosso percurso as três. Encontrámos amigos, ora meus, ora da tua mãe, mas não podíamos parar…

Chegámos ao largo do castelo. Estavam a colocar umas cancelas à porta, pois a entrada estaria interdita a partir daquele momento, antes do começo do espetáculo.

Ficaste calada.

Apertaste a minha mão com mais força.

Aproximámo-nos da segurança, uma robusta e simpática jovem, que acolheu o meu pedido de levar-te lá dentro, só para veres, e lá foste, curiosa e feliz.

A tua mãe e eu ficámos a olhar-te, vimos-te desaparecer de mão dada com a segurança, na breve visita guiada, e esperámos o teu regresso.

Vinhas eufórica!

Tinhas fome! – a longa caminhada despertara-te o apetite.

Havia tarde de pera na tua casa, disse-te a tua mãe, mas entrámos na pastelaria.

Decidida e conhecedora do espaço, anunciaste que ias à casa de banho. Estavas a demora-te e a tua mãe foi ao teu encontro.

Acenaram-me de uma mesa, à qual me dirigi, mas rapidamente estavas ao pé de mim, davas-me a mão e determinada e delicadamente condizias-me ao nosso lugar, puxavas uma cadeira e dizias-me:

“- Senta-te aqui!”

Colocaste-te ao meu lado, enquanto aguardavas a tua mãe, que fazia o teu pedido ao balcão.

Deleitaste-te com o teu pastel de nata, levando o recheio à boca com uma colher, limpando a boca, cuidadosa, educadamente! – dava gosto assistir!

Quando saímos, continuámos a caminhar de mão dada até à casa da tua avó, com a qual ficara o teu irmão, o teu rosto, mas mais grado, de menino, tal como a estrutura física, apesar de ser mais novo.

Despedimo-nos à porta; a tua mãe ainda me convidou para subir e dar um beijinho à tua avó, mas era tarde.

Beijámo-nos e eu ergui-te num caloroso abraço.

” – Amanhã vamos outra vez ao castelo, mais cedo!” – despediste-te com o teu olhar de luz e aquele sorrisinho doce e sábio!

” – Adorei tê-la conhecido, e esta noite! Muito Obrigada!” – retorquiu a tua mãe.

Retribui a gentil e calorosa despedida.

E…

Regressei a casa perfumada de felicidade, que a memória do coração preserva, sorrindo!

As Cartas de Amor para o Faroleiro
Setembro 6, 2017

O casal Mirita e Alção zangara-se, e o marido, de profissão faroleiro, se bem que aposentado, retirou-se para a sua antiga habitação no recinto do farol que, naquela época, era, de facto, um condomínio fechado – dir-se-ia que as casinhas térreas reforçavam os muros caiados de branco, tal como as suas paredes.

Ele andava muito triste, mas ia ajudando os colegas, sobretudo a polir os amarelos e nos arranjos do jardim, atividade que também desenvolvia no seu doce lar – havia crianças do bairro, situado num terraço de mar, que até o identificavam pelo seu incansável regador.

Saudosa do marido, e arrependida com o seu incorreto comportamento, a Mirita não sabia o que fazer, pois já se deslocara várias vezes ao farol, e o seu amado recusara-se a recebê-la.

Um dia, quando entrou no lugar para comprar fruta, viu a Didi, a linda filha da tia Lina e, de repente, teve uma ideia.

Esperou pela oportunidade, e quando a tia Lina saiu com o saco das compras, dirigiu-se à menina.

” – Didi, tu é que podias fazer um grande favor à Mirita. Ouvi dizer que sabes escrever muito bem. Preciso de mandar uma carta ao meu Alcão, para me explicar, pedir-lhe desculpa, dizer-te quanto gosto dele e que volte para casa. Fazes-me este favor?”- suplicava, aflita.

A menina pensou e repensou, e achou aquela ideia muito interessante; depois respondeu-lhe:

” – Se for uma carta de amor, pode contar comigo. Trouxe o papel e o sobrescrito?”

A Mirita, visivelmente feliz, jogou a mão ao bolso do avental e estendeu-lhe o que lhe pedira.

Então, a desgostosa esposa começou a ditar a carta de amor cuja intensidade das palavras do coração regadas com lágrimas iam impressionando a Didi.

Esta fora a primeira de algumas cartas de amor da Mirita para o seu “farolão”, como ela o tratava no meio de outros termos mais doces, que a menina nunca ouvira, mas que lhe pareciam bem, por serem de amor.

Decorrido algum tempo, a água da bica entoava no regador de zinco do marido da Mirita, e lá ia ele cumprimentado alegremente as crianças, que faziam uma festa com o seu regresso e continuavam a admirar as suas calças de ganga com peitilho e as camisas de xadrez de mangas arregaçadas.

A escrivã das cartas de amor ficou muito contente por ter contribuído para a reconciliação do casal, aceitou o comovido agradecimento da Mirita, e as flores que o seu marido colheu no seu jardim e lhe ofereceu.

Estórias de Meninas – A 1.ª Comunhão da Didi
Setembro 5, 2017

No ano em que nasceu a primeira sobrinha da Didi, quando esta tinha nove anos, a sua felicidade foi marcada por mais um grande acontecimento: o dia da sua 1.ª Comunhão Solene.

A Didi, como recordou, embevecida, “estava vestida de Anjo, muito bonita, de branco”, e as outras meninas também, excepto uma, a mais alta de todas elas, com uma túnica da mesma cor, mas com o Sagrado Coração de Jesus no peito, a qual se encontrava junto ao altar, chamava-as com as mãos, cantando:

“- Vinde, vinde criancinhas
Sois riqueza, força e luz.
Vós sois minhas e só minhas.
Comungai, eu sou Jesus.”

A voz das meninas-anjos ecoava, em coro:

“Ao subir àquele monte
Temos sede e temos fome.
Vós sois a água da fonte,
Vós sois o pão que se come.”

Tudo era perfeito! Até a mãe da Didi conseguira sair do trabalho para vê-la!

E… o jejum, imposto desde a hora do jantar do dia anterior até às 12:30, suportável, pois no final da cerimónia esperava-os uns bolinhos na sacristia…

Também fiquei a saber que havia meninos, noutra ala, a fazer a 1.ª Comunhão, porque um, ora homem maduro, claro, o mencionou, mas… o repetido cântico da Didi não deu espaço para… a capa que ele vestia distintamente naquela dia entrasse na narração da celebração… – talvez na próxima revisitação às memórias da infância!…

A Patinha-Ceifeira e o Pão da Meia-Noite
Setembro 4, 2017

A patinha-ceifeira nasceu e vive no saquinho de pão da cor do solo alentejano, que foi o seu berço.

No verão, a patinha-ceifeira sai à noite na sua casinha, aconchegada dentro da bolsinha da sua senhora.

Dá uma volta pela praça, para ora aqui, ora ali a cumprimentar os amigos e os conhecidos, desce a rua principal, espreita pelo fecho, que fica um pouco aberto, à espera de vislumbrar uma luzinha na Ilha, e, por volta das vinte e três horas, aproxima-se da padaria onde já encontra uma fila de gente de toda a idade, e magotes de adolescentes faladores e engraçadinhos – uns sim, outros não – à espera de devorarem o pão com chouriço, as bolas de Berlim, as pupias, as trouxinhas bem recheadas, os esses e vários bolos fofinhos, tenrinhos, quentinhos, empadinhas e outros acabados de sair do forno!…

Quando a padaria abre, lá está o distinto e simpático siniense, que escolhe esta noturna diversão de verão, com o seu alvo chapéu-de-pasteleiro, a sua blusa verde alface legendada nas costas, para apaziguar os ânimos da impaciente clientela, onde se pode ler com letras gordas:

Com calma que estamos no Alentejo

Há quem peça licença e lhe tire fotografias, e até algumas poses, todos cheios de alegria.

À sua conterrânea, que desfruta da sua casa de férias naquela aprazível localidade, com uma praia considerada uma das dez mais belas do mundo (2015), pergunta, quando ela lhe pede um pão, que já sabe destinar-se à tibórnia* da ceia:

” – “Atão” e o “talêgo?”

” – Está aqui!” – responde a cliente expedita e muito sorridente, tirando-o da bolsinha, e entregando-lho.

Burburinho à volta, perante o termo desconhecido.

“O que disse?” – pergunta o “fotógrafo”.

O distinto e simpático siniense, enquanto fazia as contas à sua conterrânea, à mão, com prova e tudo, apontou para um exemplar que estava pendurado, a que eu designaria um “legítimo talêgo”, um saco de pão tradicional, não com uma patinha-ceifeira, nem com uma seara, nem um moinho, nem um forno bordados, mas feito de retalhos de tecido variado.

E…

Saí, sorrindo e cogitando se o Sr. não conhecia o nome, ou se a falta do [i] no taleigo tornaria o vocábulo numa variante da língua, tornando-o numa riqueza do falar alentejano.

* Tibórnia ou tiborna – pão quente embebido em azeite com alhos picados e sal.