Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

Gente Boa da Minha Aldeia nas Pedras da Calçada 
Setembro 17, 2019

Gente boa da minha aldeia voa com a imaginação pulsando no coração de olhos poisados nas perigosas irregularidades do chão, temendo as matreiras rasteiras do traiçoeiro trambolhão!

Estórias de Meninos – O Primeiro Amor
Setembro 16, 2019

Padece o inexperiente adolescente por estar tão enamorado, sem se cansar de correr atrás de quem não está consigo, nem partilha a vida a seu lado, deixando-o triste e estonteado, ele, um jogador-vencedor, parecendo um entediado perdedor, que precisa de desatar os cordões dos ténis do ingénuo coração para trilhar novos caminhos, olhar para as flores e para as árvores de outro jardim encantado onde respire os perfumes do encontro, sinta a sintonia da alegria, seja reconhecido e valorizado, corra de mão dada até de madrugada, beba água doce e salgada na boca da namorada, conte segredos ao ouvido… que a deixe corada!…

Estórias de Meninos – A Grandeza do FP
Setembro 7, 2019

Internado na ala pediátrica de num hospital da capital, o FP, que conviveu com este ambiente quando era pequenino, ganhando o prémio da sua vida, é considerado pelos profissionais de saúde por “herói”, e é, de facto!

Amorosamente preocupado com a corajosa mãe, sempre à sua cabeceira, disse:

“- Mãe, tu não mereces isto, veres-me sofrer e sofreres tanto! Desculpa!”

Sensibilizada, a progenitora serenou-o, refletiu com ele, recusou as desculpas num inefável abraço de infinito amor!

Estórias de Meninas – As Memórias da BB
Setembro 7, 2019

“- Lembro-me de tudo: da mesa azul e da espeteira da mesma cor onde havia um passe-vitr, daquela janelinha da cozinha, das cortinas floridas de amarelo, daquele roupeiro verde, de três blocos, o do meio maior, da cadeira de madeira, tipo sofá, de lancharmos na pequena salinha, das cortinas cor de vinho, de tecido grosso, presas de lado, durante o dia, dos cheiros!… “- recordava a BB muito entusiasmada!…

A idosa madrinha olhava-a, sorrindo como quem viaja num sonho!…

E a BB prosseguia:

“- Ah! Os cheiros, madrinha! A maresia, batendo nas rochas quase debaixo dos nossos pés, a peixe fresco, da comida que a madrinha fazia, e dos licores, da roupa lavada com sabão, das flores do jardim! Lembro-me de tudo, na certeza de que tive uma infância muito feliz, e que sou daqui! Esta é a minha terra, aliás, disse sempre a toda a gente que era de cá.”

A Bá recordou um dia de tempestade muito violenta, quando a BB era bebé, em que a madrinha decidiu, como habitualmente, que tinham de ir ao “rebolim” para ver se o seu marido, o Esu, e os seus irmãos estavam em segurança na baía, ou se haviam entrado para a ribeira! 

Grande aflição a da Bá, com dez anos, por tirarem a menina da cama! Mas, a rapidez da mãe, nem a deixou falar. Tirou o cobertor dos quadrados cor-de-rosa e branco, que comprara para a filha na D. Fernandinha com o dinheirinho das suas economias guardadas mo mealheiro há muito, e enrolou a criança, tapando- lhe a cabeça e apertando-a contra o peito!

“- A menina vai morrer!”- choramingava a Bá, puxando, em vão, pela saia da mãe.

Só quando se sentaram num dos bancos dos “rebolim”, e a luta dos pescadores para chegarem à terra arrepiava,  é que a BB mostrou por instantes o seu rosado rosto, continuando ” encobertada”.

E… a BB ainda lançava no berço da saudade mais memórias:

“- Ah! Como ainda vivencio os sons: dos barcos a sulcar o mar, deste zanzado, do vento a assobiar, da água a cair do balde de esmalte branco para a enorme bacia do mesmo material, da fonte a encher as bilhas de barro, de tudo! Que felicidade a minha! Obrigada!

As Estórias do Esu – O Tremor de Terra
Agosto 22, 2019

Era Maio, o mês em que, diziam os antigos, não se podia comer raia, por trazer consigo mau presságio.

A noite ia solta, embalando os pescadores no silêncio adormecido das ondas.

O Esu, sintonizado desde criança com a respiração marítima e com o ensurdecido ronco dos motores das embarcações, fazendo-se ao largo para a faina, ou aproximando-se dos desconhecidos penedos quando as rajadas de vento arrastavam os seus cascos, foi o primeiro a sentir o tremor de terra, assobiando no tilintar dos copos da cristaleira.

Acordou a esposa e gritou pela sua menina, adormecida no quarto do lado com as vigilantes bonecas sentadas aos pés da sua cama de ferro forjado, esverdeado como o mar transparente que a encantava e com quem falava, apressando-as para saírem de casa, receando que as ondas crescessem e galgassem os rochedos…

A Tó pegou num casaco grosso e correu para o quarto da menina, levantando-a assustadoramente, enrolando-a num cobertor, mas foi o pai quem, aproximando-se, lhe pegou ao colo, a apertou contra o peito e a trouxe para a rua, fixando o olhar no amedrontado mar, pedindo-lhe que se aquietasse.

Apareceram outros vizinhos assustados e mudos, arrastando consigo crianças ensonadas.

E…

Só quando a terra deixou de tremer, o Esu e a esposa reparam que, com a pressa, ele vestira a saia da esposa, em vez das suas calças!…

Nada disseram! Abraçaram-se com a menina entre ambos e riram-se, tremendo de alegria pela única e divertida partida que o tremor de terra lhes tinha pregado.

As Estórias da Tó – Os Recados da Avó Francisca
Agosto 21, 2019

Quando ainda não tinha atingido a maioridade, a Tó ia a pé com o pai e os irmãos desde a sua aldeia à beira-mar plantada até Santo André onde permanecia uns dias em casa da avó Francisca, desfrutando também do convívio com os seus tios: Delfina e Silvestre, de quem gostava muito, e dos primos.

A avó esperava-a com ansiedade, e recebia-a com muita alegria, contando sempre com a sua boa vontade e ligeireza para lhe fazer recados.

Pedia-lhe alegre e confiante:

“- Ai, filha, ainda bem que vieste para ires buscar água à avó à Fonte da Senhora da Graça.”

“- Avó, mas eu não sei bem onde é. Tem de me explicar.” – respondia a Tó

“- Sabes, sim! Fica lá para as bandas da Ermida da Senhora da Graça. Vais sempre pelo pinhal até encontrares, andando, andando!”

E… a Tó, lá ia seguindo as indicações da avó, sempre sozinha, percorrendo uma zona isolada até chegar à Fonte e trazer a desejada água que a avó devia acreditar que tinha poderes milagrosos, pensava!

No seu regresso, toda a caminhada era recompensada pela satisfação da avó, que abraçava a Tó, apertando-a contra o peito, agradecendo-lhe emocionada.

Mas…

Ir comprar coisas ao Azinhal, cujo caminho era melhor e ficava mais perto, não dava tanto gosto à Tó, por causa do jovem sapateiro que estava sempre a olhar para ela e a fazer-lhe perguntas, um “bom mocinho”, diziam, a quem ela não achava graça nenhuma, tendo confidenciado à avó que preferia trazer água da Fonte da Senhora.

Estórias de Meninas – A Noiva de Sonho, 5.ª Página
Agosto 21, 2019

Naquela noite, o Léu, sempre muito penteadinho com o seu brilhante cabelo preto fazendo uma discreta poupinha para trás, evidenciando a beleza do seu rosto, aproximou-se da Didia com o semblante triste, roubando-lhe a alegria do sorriso que ela amorosamente lhe oferecia sempre à sua chegada!

“- Isto está mau, Didia! Não há pescas nenhumas, nem dinheiro para apalavrar o quartinho. Não sei como vamos fazer para nos casarmos! E eu só quero viver contigo ao meu lado.” – desabafou o Léu.

“- Também eu desejo estar sempre contigo, Léu!” – respondeu, corada, a Didia. “Alguma coisa de há-de arranjar!” – adiantou com esperança a sonhadora noiva.

No dia seguinte, a Nanda procurou o irmão e entregou-lhe o seu presente de casamento: o dinheiro para as alianças, o que ele, comovidamente agradeceu.

Mas… antes de guardá-lo, olhou para a irmã e disse-lhe:

“- Mana, não te pareça mal, mas eu precisava tanto deste dinheiro para pagar o quarto, que são logo dois meses, e os ganhos têm sido tão escassos! Esta tua prenda é a única esperança que tenho de poder casar-me com a Didia; o resto está tudo orientado pela mana Tó com a minha futura sogra, mas sem casa, o que posso oferecer à minha mulher?”

A Nanda, sempre compreensiva, concordou de imediato com o mano, e apressou-se a convidar-se para ir logo com ele dar o sinal à senhoria para garantir o espaço do seu lar, tendo concordando ambos que ele faria um mealheiro para comprar as alianças logo que possível!

(continua)

O Jantar na Casa da Pagizinha
Agosto 21, 2019

Era dia 12 de Julho e, de manhãzinha, já a mãe da Pagizinha enviara um sms pulsando de alegria: “Bom dia! Já tenho legumes frescos e abrótea”.

O jantar estava combinado, a hora marcada e, finalmente chegara o dia da partilha por todos tão desejada!

As horas pareciam lentas, os preparativos recheados de particularidades e expectativas: os anfitriões empenhados na carinhosa preparação do repasto apoiados pela Chefe Pagizinha, de requintado avental de xadrez, verificando os pormenores, acolhendo as amigas-convidadas e agradecendo os doces miminhos que elas lhe entregavam, anotando os pedidos, registando os graus de satisfação com primor!

Estavam os cinco à mesa, abraçando-se com luminosos sorrisos, quando a Pagizinha agradeceu, simples, mas calorosamente, a refeição, que todos bendisseram!

O evento decorreu com genuína alegria repassada de afetos, compartilhando-se memórias e perspectivas, celebrando-se harmoniosamente a festa da vida!

Histórias de Fantoches – Conversa com Bia, 6.ª Página
Agosto 21, 2019

– Bia, e se agora falássemos sobre brincadeiras? Qual é a tua preferida?

– Boa ideia, Pasquito! Quando eu era pequena, gostava muito de brincar com uma boneca de trapos que a minha irmã Rosa, a mãe da Gabriela, me tinha feito, a “Matrofona”.
Naquela altura havia muita coisa de trapos; até a chucha do Benjamin era uma bola feita de miolo de pão enrolada em pano branco e, quando ele chorava muito, molhava-se no açúcar amarelo, que era o único que existia, e punha-se na boca. Era “um remédio santo”, diziam as velhotas muito sabichonas.

– As chuchas eram todas barradas de açúcar, por isso as crianças lambiam-se e esqueciam-se que tinham fome ou dor de barriga, não achas, Bia?

– Concordo, Pasquito, mas acho que o saborzinho do pão no trapinho também devia ser bom!

– Também eu, Bia! E a tua boneca de trapos? Guardaste-a?

– Não, Pasquito! Dei-a à Gabriela, e elas são amigas. E qual era o teu brinquedo preferido?

– Era um barquinho de madeira que o meu avô demorou a fazer com um canivete, e depois pintou-o. Chama-se “Aventureiro”. Quando chovia, brincava com ele nas poças como se fosse para o mar, e punha umas folhinhas lá dentro como se fosse peixe.
O meu amigo Juvenal tinha uma bola de trapos, às cores; à tardinha jogávamos os dois.

– Que giro, Pasquito, a tua brincadeira de faz-de-conta com o barquinho! Aposto que on guardaste!

– Guardei-o, pois, Bia! Ainda o tenho! Afinal foi um presente feito pelo meu avô.

– Pasquito, eu gostava muito de andar de baloiço quando íamos fazer piqueniques para o pinhal, e os meus irmãos mais velhos atavam uma corda a dois pinheiros, e punham um assento de madeira que o meu pai fizera. Toda a gente me empurrava, e eu ria-me muito, porque sentia cócegas na barriga, e fazia todos rir comigo!

– Bia, já reparaste que: o riso e o choro são contagiosos como a gripe?

– É verdade, Pasquito! E quando uma pessoa está rouca, fala baixo e todos a imitam? Dá-me tanta vontade de rir!

– A mim também, Bia! Falar baixo devia ser um bom remédio para quando alguém está a gritar convosco, não achas?

– Nunca tinha pensado nisso, Pasquito, mas devíamos experimentar. Podemos continuar com as brincadeiras?

– Podemos, pois, Bia! Os meus amigos, os meus os primos mais velhos e eu, brincávamos à apanhada! Fazíamos cada corrida! Às vezes, alguém caía, magoava-se nos joelhos, mas íamos à bica lavá-los e atava-se um lenço de assoar, que algum tivesse, se fosse preciso, para podermos continuar!

– Grandes amigos, Pasquito! Eu estava sempre a perguntar à minha mãe quando era a feira, para andar de carrossel de olhos fechados, a sentir a barriga a tremer nas subidas e descidas, sentada num banco a imaginar que voava num jardim mágico, ou montada num cavalinho, a sonhar que ele tinha asas e íamos correr mundo.

– Grande imaginação, Bia! Eu gostava mais dos carrinhos de choque, mas apanhava muitos sustos quando batiam uns nos outros; metia medo! Nunca andaste, Bia?

– Eu? Não, Pasquito! Gostava era de ir atrás da dança das pipocas, aos saltinhos, e de ter um saquinho na mão.

– E eu, Bia, até me lambia com o cheiro das farturas.

(continua)

Estórias de Meninos – As Pétalas Chorosas
Julho 25, 2019

Eram pétalas chorosas correndo pelas escorregadias rochas com o fogo do vigor da mocidade incendendiando os pés de sonhos longínquos: marinheiros, bombeiros, idas à lua, e muitas engenhocas, culminando com crianças auscultadas aos seus colos com lágrimas e algumas ranhocas!

Eram calças rotas pela pobreza, com berlindes saltando na algibeira, mostrando os joelhos na sua ligeireza, e peixes já saltando à sua frente nas transparentes águas da ribeira!

Eram chapéus de palha e bóinas para o lado, “à maneira”, tapando cabelos cortados com sonhos ondulados, e velozes barcos de papel percorrendo o mundo com a cortiça, as conservas de peixe e a madeira!

Eram três grandes amigos abraços nas camisas aos quadrados de vários tons salpicados, dando saltos de soldados muito bem fardados, prontos para a formatura e muita instrução para mostrarem ao mundo com distinção!

Eram sorrisos simples e rasgados de brincalhões vencedores para males serem ultrapassados com realejos afinados, e passos de dança bem marcados com marionetas, voando orgulhosamente nos telhados conquistados!