Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

Estorias de Meninos – Um Abraço ao Linho!
Junho 24, 2017

Este ano tem-se manifestado profícuo em despedidas e, com elas, em lágrimas, encolhendo cada vez mais os tecidos oculares!…

Primeiro, o Linho tão inteligente quanta a imensidade de caracóis que enchiam a sua farta cabeleira, soltando-se nas suas respostas rápidas e corretas, encontrando soluções para tudo, emprestando ideias, chegando a desorientar a professora como se a sua perspicácia a desafiasse!

Grande amigo, escondendo a sua sensibilidade sob o seu imenso e lindo sorriso, e gracejos, chegou a sentir-se mal num evento de colegas da sua e de outras turmas, em que se apresentou distinta e elegantemente vestido, “de senhor”, chamando as atenções pela substituição do axadrezado das suas camisas do dia-a-dia, em que não comeu, e chorou, não conseguindo controlar a sua emoção!

Viajava muito, descobrindo o mundo com a sua amada esposa, aquela que, quando viu pela primeira vez, percebeu que “era ela”! E… foi, de facto, fruto de destemida conquista, união que me encheu de alegria, daquelas que palpitam no nosso coração como se estivéssemos em sintonia com os laços que os une, e em que se aposta!

Abracei a Leo, minha colega de ginásio de longa data, depois da dolorosa partida do Linho, num recinto em que decorria um festival relacionado com o mar, que ela, acompanhada pela mãe, percorria chorosa e saudosa, mas prestando uma homenagem ao amado marido, porque, como repetia: “Ele adorava isto! Faz aqui falta! Estou aqui por ele!”

O meu amigo Linho partiu cedo, e triste, revoltado, até, com as injustiças profissionais que lhe foram infligidas, mas… certamente os seus olhos do coração emocionaram-se com as dores e as lágrimas da sua família e amigos, e sorriram, sentindo-se infinitamente abraçado!

A Menina Azul e o Trauma do Tempo
Junho 24, 2017

Na festa, a Menina Azul foi confrontada pela versão atual da saia azul escura e da blusa branca, ora com outras cores e dimensões, extensivas ao cabelo embranquecido, que a perseguira: trocista, sarcástica e cruelmente desde a sua infância quando a esperava à esquina para assolar o cão, que se atirava a ela como se fosse um leão a tentar devorar um cordeiro.

Desta vez, era-lhe dirigido o foco de um telemóvel para ser produzida uma fotografia.

A Menina Azul pôs a mão à frente do rosto e pediu à figura agigantada pelo tempo que não o fizesse…

Mas…

O tempo também a fortalecera, por isso, aproximou-se e dirigiu-se-lhe, pedindo para apagar a foto, fitando-a, concluindo, assertiva:

” – Eu já não sou aquela menina!”

A interlocutora pareceu estremecer, talvez por que se sentiu arrancada do mito do seu pedestal, que lhe dera protagonismo ao longo dos anos, apesar de a Menina Azul ter estado sempre a seu lado e continuar solidária, sobretudo perante a despedida mais difícil que uma mãe pode experimentar, e continuar a chorar a sua dor, que assimilou como sua, pois nutria um sentimento particular pelo seu especial menino…

O mais belo foi, sem dúvida, a partilha de outras fotos da sua família, nomeadamente dos netos como se aliciasse a Menina Azul e preservassem a relação que mantiveram ao longo dos anos, não obstante a terrível memória da estimuladora da fera…

Estórias de Meninas – A Ginasta do País das Maravilhas
Junho 24, 2017

Na enorme turma de adultos, mais feminina do que masculina, pois só um homem representava o género, todos tinham os olhos postos na pequena ginasta do país das maravilhas, neta de uma discreta e simpática atleta.

Quando olhei para a menina, ainda desconhecendo o seu parentesco com uma das presentes, imediatamente surgiu na minha mente a imagem de um menino moreno que conhecera, também ele com olhos negros, pestanudos e com um sorriso que não acaba, deixando-nos presos ao seu encanto.

Segui os seus primeiros passos, ainda tímidos, mas sobressaindo na sua precisão, rapidez e mobilidade. interagindo com o grupo de gente grande que perto do seu alegre e surpreendente desempenho parecia mais pequena, se bem que a envolvesse com ternos sorrisos, que a menina retribuía graciosa, simpática, doce!

Rapidamente a associei-a à avó, levada pelas minhas memórias. Soube o seu nome. Soube também que era aluna do professor num turma da sua idade. Soube ainda a sua idade, que se aproximava de meia dezena de anos.

A ginasta do país das maravilhas, de cabelinho ondulado preso, mas saltitão, de calcinhas rosa, cingidas, e blusinha a condizer, punha-se de biquinhos de pé, e sorria; saltava, e sorria; ia atrás, mas sempre à frente de todos, e sorria; ia abaixo, e sorria; ia acima, e sorria, ia ao lado, e sorria, e… corria, corria, corria, e sorria, sorria, sorria!…

Mas…

A sua voz ninguém ouvia, porque a todas as respostas a pequena-grande-ginasta do país das maravilhas sorria, sorria, sorria!…

Decorridos poucos dias, encontrei a menina-maravilha a sair de casa, aqui perto, com a avó e um menino do seu tamanho, mas com menos de metade da sua idade, robusto e com traços do rosto iguais ao seu, que ela, fora do contexto de competição em que naturalmente sobressaía, me apresentou como seu irmão e em cujo queixo tocava com a sua delicada mãozinha, acocorando-se, para que ele erguesse a cabeça e ficasse de frente para mim, o que só conseguiu, depois de eu ter-lhe feito sombra com o meu corpo, pois o sol brilhava intensamente, e encandeava.

Recetiva, a ginasta do país das maravilhas confirmou-me que tinha gostado muito da nossa companhia, acrescentando, a sorrir:

” – Amanhã vou outra vez!”

Depois, dando zelosa e ternamente a mão ao irmão, contou-me que tinha batido com a cabeça no trabalho do pai, apontando para um “galinho amarelinho”, destacando-se na testa.

Não voltei a encontrá-la, mas soube pela avó que ela cumprira o que me dissera, comparecendo à aula, contudo tinha caído e o seu “galaró” parecera ter aumentado de volume, ela verteu lágrimas, mas retomara a sua atividade desportiva, surpreendendo os adultos, corajosa e hábil, sorrindo, acredito!

A Pagizinha-Rainha
Junho 23, 2017

Vinha um dia a Pagizinha distinta e sisudazinha, o que não é habitual, como uma apreensiva rainha!

Passou por mim nas escadas matizada de lilases, toda ela muito direitinha, olhos baços, sem sorrisos nos lábios, nem melodias de silabas na sua linda boquinha, nem asinhas de afetos abertas, dando um daqueles intermináveis abracinhos à sua amiga-madrinha!

“Que distante a minha Pagizinha!” – cogitei, pasmadinha!

Fiquei muda de admiração, também por encontrá-la ali sozinha, dirigindo-se ao seu palacete, sem ter nenhuma chavezinha para abrir a portinha, pois, apesar de rainha, a Pagizinha é muito novinha!

Olhei para trás e lá seguia ela, pensativa, de olhos postos no chão, “certamente cuidando dos seus governos”, admiti, mas estranhando a forma como ignorava o seu amigo elevador, pondo os seus pezinhos de um degrau para o outro, destemida!

À noite, inquieta com o bem-estar da Pagizinha-Rainha, consultei o sábio do reino, e fiquei a saber que o final da tarde trouxera alguma turbulência e que, provavelmente, ela manifestava efeitos de alguma ventania que não lhe soprara favoravelmente!…

Mas…

Decorridos dois dias, quando atravessava o jardim e curiosamente ia revendo a vivência atrás citada, ouvi uma doce e alegre voz a chamar por mim!

Olhei para a frente e, de braços abertos, a Pagizinha voava na imensa vivacidade do seu coração, esboçando sorrisos de encantar, semeando alegria na dança dos seus longos cabelos, que culminaram naquele abraço que só ela sabe dar e receber! – estava de volta a minha LINDA-GRANDE-MENINA!

A Menina Azul e o Segredo de um Senhor
Junho 9, 2017

A Menina Azul sabia um segredo de um senhor, que o havia deixado cair da boca como se fosse uma grande cereja com um grande caroço, que o estivesse a engasgar, mas por que fora num momento de aflição, cogitava para si, ele nunca mais se lembraria, nem ela falara, nem falaria sobre tal.

Mas…

Sempre que observava o tal senhor, que via ir envelhecendo, ficava cada vez com mais pena de não ter uma varinha mágica ou até de pedir um milagre, se ainda fosse a tempo, por causa da sua saúde e da idade, para que ele pudesse fazer o que mais gostava e melhor sabia, e que de maior felicidade o enchia!

Quando o tal senhor não sorria, ou não punha humor no que sabiamente dizia, a Menina Azul olhava para ele e com a voz do seu coração dirigia-lhe palavras de doce silêncio, desejando que magicamente fizessem eco, repassando-o de paz:

– Não fique triste! Não são de mármore as suas palavras, não vê o mundo do avesso, e ensina tanto e faz tão bem com o seu ar de menino travesso!

Histórias de Fantoches – As Aguarelas do Júlio, 6.ª Página
Junho 9, 2017

Mas ainda faltavam os homens, por isso, pintaram-nos:

– os tristes de cinzento;

– os alegres de encarnado;

– os pais de azul marinho;

– as crianças de verde e vermelho;

– os irmãos de amarelo dourado;

– os amigos de lilás;

– os educadores e professores de azul turquesa;

– os vizinhos de cor de laranja;

– os idosos de verde e branco;

– os polícias de azul-escuro;

– os médicos de verde claro;

– os enfermeiros de amarelo claro;

– os cozinheiros de castanho;

– os chefes dos pais de preto e branco;

– os artistas de arco-íris.

Antes de voltarem para a caixa do Júlio, as aguarelas esconderam-se atrás das nuvens brancas e sorriram, porque a Terra estava mais bonita, e os homens, as mulheres, as crianças e os velhos mais felizes e, em cada cor, havia uma flor com um sorriso!

Quando chegaram a casa, as aguarelas puderam ver tudo o que tinham feito naqueles três dias reproduzido nas telas que estavam expostas por todo o lado.

Ficaram surpreendidas e começaram a bater palmas, a dar muitos pulinhos e gargalhadinhas de contentamento, mas os pincéis tiveram de tapar os ouvidos do Júlio, que tinha adormecido no sofá da sala, porque estava muito cansado.

[E tu, se fosses uma aguarela ou um pincel, ou uma aguarela com pincéis nos pés e nas mãos, o que gostarias de pintar / fazer?!…]

Terra do Mar dos Caracóis e das Meninas de Franjinha, Dia da Alegria, Mês da Fantasia, Ano do Sem Fim

Beijinhos da Maria do Mar

FIM

Estórias de Meninas – O Sonho Perdido no Tempo
Junho 8, 2017

Eram duas meninas, que se haviam conhecido na cidade do rio azul, se bem que frequentassem estabelecimentos de ensino distintos, vizinhos, por sinal, mas fora uma amiga comum que as apresentara.

Decorreram os anos e não mais se encontraram, até que a revolução, ingrata para uma delas, fez-lhes o favor de voltar a juntá-las, então como colegas.

Cúmplices no desempenho profissional, criativas na divertida descoberta da informática, companheiras de diversões e de viagens recheadas de muitos sorrisos e sucessivas gargalhadas, começaram a trilhar os caminhos da amizade.

Passaram por dissabores, despediram-se de familiares, de colegas e de amigos, trabalharam intensamente na inovação, resolveram muita situação e a todos estenderam a mão, aderiram a greves e também as rejeitaram, deram horas e horas ao Estado, inventaram quadros com recortes de calendários e outros, cujas molduras pagaram, pediam, graciosamente, contributos às colegas para as taxas da televisão quando narravam, aos intervalos e à saída, excertos da animação, que a menina dos olhos transparentes gostava de ver ao pormenor…

Rodeadas de um grupo de gente nova como elas, de diversos estrados profissionais, sorriam para o futuro de todos, pintando imaginariamente os cabelos brancos das senhoras, encaminhando os perfeitos quarentões para o ginásio, antevendo o crescimento de crianças desconhecidas…

Nos momentos de excesso de cansaço laboral, pairava um divertido desejo partilhado com sabor a promessa, que merecia o apoio e os aplausos dos demais:

“- Quando mudarmos de instalações, só levamos: uma esferográfica, uma carimbo e uma almofada!”

Mas…

O sonho não se cumpriu!

A mudança aconteceu, finalmente!

Os construtores dos serviços, tal como os avoengos, já não fazem parte da história!

Mas…

A obra existe!

E…

A menina-senhora dos olhos transparentes está distante, e… doente, sem sonhos, infelizmente…

Histórias de Fantoches – As Aguarelas do Júlio, 5.ª Página
Junho 1, 2017

No terceiro dia, as aguarelas do Júlio já se sentiam cansadas, mas continuaram a pincelar e a colorir o mundo:

– preparam os transportes públicos para receberem todos os passageiros, principalmente: os velhinhos, as crianças e os deficientes, e pintaram-nos: de ondas do mar turquesa e azul-escuro; de palhaços risonhos e narizes rubros; de pirilampos mágicos; de pinguins-mestres-escola; de piões a brincar com balões; de fadas com gatinhas muito sisudas; de príncipes e princesas encantadas; de jardins com escorregas e baloiços; de macacos a fazer os trabalhos da escola e de meninos e meninas a jogar à bola;

– limparam os filtros de todas as chaminés das fábricas e mudaram a as suas cores de cinzento para vermelho;

– ampliaram e criaram espaços verdes nos pátios das escolas e dos hospitais com: bancos e sacos para o lixo ao lado; zonas de passeios e de corridas; máquinas para fazer exercício físico; barraquinhas com doces e sumos sem açúcar; bibliotecas itinerantes.

– instalaram os sem abrigo em casas feitas de alvenaria, com telhados encarniçados, janelas decoradas com: heras; flores azuis e amarelas; canteiros com ervas aromáticas; árvores de fruta, bebés;

– pintaram as casas dos velhinhos de branquinho com barrinhas azuis ou amarelas, janelas verdes, varandas enfeitadas com vasos e plantas variadas.

(continua)

A Menina Azul à Beira-Mar
Maio 30, 2017

Lá estava a Menina Azul num banco à beira-mar muito bem sentada, com a sua amiga muito descansada, depois de uma boa caminhada e de, lá longe, a velha voz do mar a ter chamado, e ela, imóvel, respondido-lhe:

“- Cheira-me à minha infância! Cheira-me à minha infância! Cheira-me à minha infância e à minha juventude! Este é o meu mar, o mar que ouvi, o mar que respirei, o mar que senti desde o dia em que nasci!” – proferira, saudosa e emocionada, inspirando prolongadamente, fechando os olhos!…

” – Eu adoro! Adoro!” – dizia a amiga-coração-de-África, encantada há muito com este pedaço de mar alentejano que a acolhera e à família, adotando-os como filhos queridos!

” – Esta é a cor do meu mar, um mar forte, um mar profundo, um mar-homem!” – continuava a Menina Azul, antes de voltar a dar corda aos atacadores dos ténis, e a amiga, os quais as trariam até à praia.

Praia de luz na transparência turquesa das suas águas, brincando com as ondas que arremessava aos pés das amigas, visitantes habituais, deleitando-as com as suas carícias, embalando uma jovem nadadora e dois homens, dispersos, fora de pé, e ela, no fulgor dos seus verdes anos, brilhando para além das bóias com a sua touca, quiçá coroa de sereia-rainha!…

A Menina Azul e a amiga percorreram a praia, e voltaram para trás, desprendendo-se, a custo, das delícias marinhas!

Mas…

Ainda usufruíam da sua beleza, no banco, de pernas estendidas e pés-croquetes, os de princesa na quietude e os outros, movimentando-se como se estivessem a coser à máquina, dando ao pedal, para a areia secar e ser mais fácil limpar, ambas fazendo pontos de pospontar na graça que ainda estavam a desfrutar, sorrindo para o dia em que uma ia caindo, por falta das costas completas do moderno banco, e… por que, mais uma vez, a outra, descontraída, calçava uma meia no avesso, desafiando a crença popular se seria sinal de presente, além do que um passarinho deixara cair, nessa tarde, sobre a sua blusa, perto do ombro…!

Uma Menina Linda – A Realização de um Sonho
Maio 30, 2017

A Menina Linda continua uma linda pessoa, sorridente, solidária, vencedora!

Traz consigo o prazer de um regaço, acolhendo os saudosos anos que passam, desabrochando a criatividade florida das suas puras e generosas mãos, tecendo com coloridos e subtis arco-íris: bonecas a sorrir, que apetece abraçar, presépios de renascer almas, que apetece ficar a contemplar, roupinha para bebés com malhas de ternura, que apetece acariciar, tudo confeccionado com um carinho especial, daqueles de quem conhece o destinatário, a esperança, a alegria que lhe vai proporcionar!

A Menina Linda continua uma linda pessoa, sorridente, solitária, vencedora!

Traz consigo a grandeza do amor e do perdão, no bom trato com quem um dia lhe roubou o coração e com quem ocupou o seu lugar, dissolvendo o seu sonho de menina-mulher, votando-a à solidão que o seu generoso e grandioso coração de mãe enriqueceu com a graça do seu menino-homem, afetivo, inteligente e lutador como ela, como se em si tivesse sido gerado, traçando projetos e alcançando metas de capa e batina pendurados com os dolorosos bolsos vazios de poupanças onde os parcos recursos não chegavam, mas ora conquistados, e à beira de o maior sonho da sua vida ser concretizado.

A Menina Linda continua uma linda pessoa, sorridente, solitária, vencedora!

Traz consigo a esperança de honrar a memória dos pais com a sua habitação, e de deixar de andar a horas, sentindo já a saudade da comadre e dos amigos nos habituais percursos do autocarro onde abraça e é abraçada por todos com o seu carinho e a sua animação, mas permanecerá ativa nos seus programas pessoais, manuais e nos sociais, da nossa aldeia onde todos a respeitam e reconhecem, e brilhará sempre na sua história aquela a quem o seu compadre Esu a intitulava, como à sua muito amada filhinha: Pérolas da Ribeira de Cima!