Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

Histórias de Fantoches – Conversa com Bia, 4.ª Página
Maio 1, 2019

– Gosto muito de azul, daquele do meu clube de futebol e do meu avô, que também é azul, de: calções, calças, casacos e bonés. E gosto muito de piqueniques no pinhal com um baloiço.

– Já percebeste que sou crescida, não é verdade?

– Sim, Bia! És maior do que eu, mas ainda és uma menina; uma menina grande, já se vê – vou desenhar-te muito bem!

– Obrigada, Pasquito! Ainda não te disse que eu já trabalho, pois não?

– Não sabia, Bia!

– Estou empregada numa fábrica de conservas de peixe. Tenho muitas colegas, de todas as idades, e um mestre, que é o chefe. Também há dois senhores mais velhos, que são os responsáveis pela vendas e pela distribuição, e ainda as senhoras do escritório, e o Sr. Correia que nos paga todos os meses.

– Tanta gente, Bia! Mas deve ser giro. As pessoas que trabalham com alimentos usam farda e toucas, não é?

– É verdade, Pasquito. E somos muitas vezes chamados para o trabalho pela sirena da fábrica, a qualquer da noite, quando chegam barcos carregados de peixe, que o patrão, o Sr. Moreno, compra, porque é preciso ir prepará-lo sem demora.

– E têm de ir a correr, Bia?

– A correr, não direi, Pasquito, mas quase. Temos meia hora para nos apresentarmos ao trabalho, por isso, depois de ouvir a sirena, como rapidamente, pego no uniforme e vou logo para a fábrica com as minhas colegas. Felizmente, a minha casa fica perto! Quando fico na casa da minha irmã, ela e a minha sobrinha acompanham-me.
Qual é a profissão dos teus pais?

– A minha mãe é costureira, e o meu pai bombeiro; está quase sempre no quartel onde é motorista, mas também é chamado pelo apito da sirena, a qualquer hora como tu, Bia. E os teus pais, o que fazem?

– O meu pai é carregador de peixe, mas já foi corticeiro. Fazia muitas rolhas de vários tamanho, e outras coisas. Agora usa um chapéu de lata, muito grande para transportar as caixas do peixe da lota para as camionetas.
A minha mãe é dona de casa, porque a família é muito grande e ela tem muitas coisas para fazer: arrumar tudo; cozinhar para todos; lavar muita roupa e engomar, tratar das galinhas e do jardim que temos no quintal, mas quando era mais nova e não havia água canalizada em todas as habitações a sua profissão era lavadeira – sabem o que é, Paquito?

– Já ouvi falar, em lavadeiras Bia. A minha bisavó também era lavadeira, mas sei pouco sobre esta profissão.

– Eu explico-te, Pasquito.

– Os meus irmãos mais velhos iam a casa das senhoras mais ricas da vila, que agora é uma cidade, buscar a roupa suja e levavam-na nas alcofas, à cabeça, para a minha mãe poder lavá-las no rio de água doce, que parecia uma poça grande e funda, que tinha duas pedras inclinadas para ela poder esfregar a roupa, como nos tanques, e que ficava situada perto do mar.
Ela ajoelhava-se para poder mergulhar a roupa na água, pôr sabão e ir lavando peça a peça, primeiro as brancas, depois as escuras

– Preciso de mais pormenores, Bia, para os tais desenhos coloridos.

– Posso continuar, Pasquito?

– Sou todo ouvidos, Bia! Continua, por favor. Estou curioso.

(continua)

A Cidade Grande e a Paragem do Autocarro
Maio 1, 2019

Circulavam veículos privados e de serviços públicos nos dois sentidos da estreita e movimentada via.

Uma anafada alfacinha espreitava à varanda, olhando de um lado para o outro e para o relógio, resmungando, toda rosada, enquanto voltava para o interior.

Uma carrinha de serviço domiciliário parou no meio da rua. Lá dentro, os impávidos idosos permaneciam silenciosos como se assistissem a um espectáculo de marionetas.

O motorista, um senhor baixo e forte, vestiu o colete, pegou no telemóvel e fazia desesperadas chamadas, respondendo às impacientes buzinas com gestos mudos, de sinaleiro.

Ninguém vinha em seu auxílio. Dir-se-ia que nem o carro da polícia se apercebera do incidente. Apenas os motoristas profissionais pareciam sensíveis à embaraçosa situação, parando a distâncias facilitadoras da passagem a um ou outro colega que se aproximava em sentido contrário, e também alguns dos peões colados à paragem, curiosos, seguindo a infrutífera aflição ao telemóvel.

Eis que, finalmente, uma carrinha não identificada estaciona à frente do colete amarelo, que ergueu os braços, respirando de alívio no meio do seu protesto.

Na paragem, os relógios estão inquietos, as pessoas entreolham-se e algumas perguntam o número de autocarro pretendido. Uma distinta e madura senhora tira o telemóvel da mala e oferece os seus préstimos, referindo que tem uma aplicação que permite ver o tempo de espera para cada um, gentileza que é acolhida com muito agrado.

Prendo novamente os meus olhos no colete amarelo que ajuda a simpática senhora da carrinha de socorro a tirar os idosos, um a um e a sentá-los neste veículo, alguns dos quais são alvo dos seus saudosos abraços – não consegui ouvir a voz de nenhum; apenas o motor que ia arrancar.

Os passageiros foram ocupando os autocarros, à medida que iam aparecendo, seguindo a hora prevista pela simpática senhora.

E…

O motorista da carrinha de serviço domiciliário continuava a falar ao telemóvel, agitado e desagradado com a espera daquele dia que mal tinha começado, e que já o tinha desesperado!…

O Tema Felicidade na Pequena Sala de Espera
Abril 30, 2019

Era um grande e delicado tema, a Felicidade, o que se debatia na televisão, interligando quem aguardava na pequena sala de espera.

Três senhoras, três gerações e a sintonia do que não era um pregão, mas a vida que se escondia na tristeza e nos sonhos de uma amanhã que não existia, sufocando a voz da felicidade, que a todos sorria como bagos de areia de uma longa e deserta praia, que os pés aquecia e o corpo movia.

Surgiu no écran uma escritora, que ninguém conhecia, e que apelidava de “pobres de espírito” as pessoas que se dizem felizes, sentimento que ela só sentia quando estava com os netos ou escrevia.

Veio “à baila” na pequena sala de espera os domingueiros programas de animação em que a alegria do povo vem à rua e dança, e canta, e brinca, também nas romarias e em tantos eventos, muitos carregados de história /cultura local e nacional em que, em boa companhia, se festeja a vida e se deixa desabrochar na sua subjetividade sílabas de felicidade!

E…

Também entrou na conversa a cultura da paz interior, segredo da alma, o silêncio bebendo as fontes da linguagem, e a sintonia amadurecida com a diversidade da natureza, a certeza de que a vida é hoje, aqui e agora e que há que abraçá-la, as pessoas, as oportunidades, dizer sim ao bem e ao bom, sem adiar, porque onde existe o Amor habita a Felicidade a pulsar, a cantar baixinho ou a dançar como o mar num reino em que as (des)semelhanças se entrelaçam com pétalas orvalhadas de luz, e nos lábios florescem beijos falantes, derretendo sementes de sorrisos no espaço a saltar.

Histórias de Meninas – A Menina do Totó Verde
Abril 30, 2019

A cidade grande sorria no andar descontraído da Menina do Totó Verde, desafiando a madeixa rosada caída ao lado da orelha direita, de olhos postos na ligeireza da cor neutra da saia comprida repuxada pela amostra da anca.

Nos pés de princesa, rentinhos à polida calçada, os frescos chinelos de enfiar no dedo com unhas pintadas de cores salteadas espreitavam o que se passava na estrada.

Pendia num dos ombros da blusinha de bolinhas salteadinha um cordão de algodão preso a uma singela bolsinha de pano escuro com uma garrida flor bordada.

A Menina do Totó Verde chegou à paragem do autocarro, olhou para mim e saudou-me com um doce sorriso de bom-dia sem hora marcada, brilhando na seda da pele do seu rosto miudinho, de laranjinha como poderia dizer o poeta, ou outro fruto, mas que se me afigurou de cristal, em cujo narizinho uma “anelzinho” de metal a uma narina se segurava. E o Alentejo de cheiro e sabor a maresia também lhe sorria com empatia.

Na magia daquele momento continuámos a olharmos-nos num secreto silêncio como alguém que já se conhecia e que há muito que não se via!…

Passou um autocarro; parou outro, e a misteriosa e encantadora Menina do Totó Verde perguntou-me e insistia gentilmente como quem chama por alguém: “Não entra? Não entra? Não entra?”

E…

Contrafeita com o meu: “Não, obrigada!”, a lente Menina do Totó Verde entrou sozinha, ficando a olhar para trás como quem se despede de um inesperado desconhecido, perguntando-lhe na inocência de uma criança : “Porque não vens comigo?!..”

A Jovem Clarissa
Março 29, 2019

Escutei, através das silenciosas paredes brancas uma voz clara e doce, perguntando, certamente antevendo os seus generosos préstimos a alguém idoso e/ ou necessitado,:

“- Pode subir as escadas?”

Respondi afirmativamente, agradecendo, e pisei o primeiro degrau sem saber onde pararia e quem encontraria.

No cimo do primeiro piso, o sorriso iluminado de Clarissa acolhia-me! Entreolhámo-nos como se já nos conhecêssemos, e a esbelta e elegante jovem, não obstante ter a sua beleza escondida sob o tom terra do hábito, começou a prestar-me algumas informações sobre o local que me proponha visitar, encontrando-nos alegremente nalguns pontos.

A Clarissa tem nome próprio e é uma alfacinha com profundos conhecimentos da sua causa e clareza de pensamentos expressos nos conteúdos e expressões de comunicação envoltos numa peculiar alegria, abraçando o mundo como intendi e partilhei.

Por instantes, a Clarissa visitou comigo uma das praias grandes da minha aldeia cuja história não me ocorreu narrar-lhe, se bem que se enquadrasse no âmbito da sua vida.

E…

É com esta imagem regada de doçura que a trago comigo, contagiada pela sua candura, sonhando vê-la a correr na areia vestida como a conheci, sorrindo, sentindo-se beijada por Deus na brisa marinha, criança mimada e livre, amando e sendo amada!…

A Minha Aldeia e o Tamanho Dela 
Março 29, 2019

Na minha aldeia também já assisti à diversidade de pessoas dormindo ao ar livre: na praia, sobre perigosos e estreitos muros, nos tejadilhos dos carros, nos bancos do jardim, em qualquer canto da rua, mas circunstancialmente – opção, necessidade ou falta de alojamento? -, nos dias de festa e euforia, em que atrai gente de todo o mundo.

Quanto mais a minha aldeia se enche de visitantes de diferentes culturas, e alguns enriquecem com outros proveitos, mais pequena me vejo, e a ela, que mutilada e assaltada nas essências da sua alma, mesmo com portas abertas a outros mares, mais se me assemelha um postigo do que uma ampla janela a espreitar a persistente dança das ondas com perenes raízes de jangadas e muitos barcos à vela!…

O Sem-Abrigo da Cidade Grande
Março 29, 2019

Era um homem de idade imprecisa. Tinha a cabeça escondida num gorro cinzento azulado, um casaco comprido, largo, desbotado, uma farta, mas triste barba que lhe tocava o umbigo, e o rosto descaído de olhar preso ao chão ou talvez adormecido, cogitei no primeiro dia em que o vi.

Partilhávamos a mesma parcela de um modesto, mas bem tratado jardim com árvores seculares quase tocando o céu, soltando algumas curiosas folhas para viajarem coladas nas asas de um ou outro ruidoso avião.

Sentei a minha gorducha e cansada mochila num banco, e coloquei-me ao seu lado no primeiro dia do meu encontro com o senhor sem-abrigo, que nem me via. Peguei numa maçã e pensei oferecer-lha, mas a sua perturbadora posição de estátua criou-me uma receosa barreira de perturbá-lo, e de não ser bem acolhida.

No dia seguinte, voltei ao jardim, e deparei-me com o mesmo senhor, que mudara de banco.

Pedi licença à minha descansada mochila e ela estendeu-me uma bolachas de arroz com cobertura de chocolate. Aceitei-a, mas olhei para rosada a maçã que estava por perto, respirei fundo e, quando me dispunha a presentear o senhor sem-abrigo, eis que me apercebo de que, não obstante a mesma posição de sem rosto, tinha numa mão uma colher, e sobre os joelhos uma embalagem de leite Mimosa, cortada, formando uma malga retangular e alta, donde sofregamente se alimentava…

Guardei a parca merenda, e retomei o percurso das minhas atividades, sentindo-me pequenininha, e trazendo aquela imagem de solitária exclusão no meu coração!…

A Menina Azul e os Desabafos dos Motoristas
Março 27, 2019

Na cidade grande, em dias consecutivos e horas diferentes, a Menina Azul deslocou-se três vezes de táxi: três veículos diferentes; três percursos diferentes; três motoristas de idade e fisionomia diferentes, mas todos tinham algo em comum, além da prestação de serviço público, do género, e de terem família e serem pais de estudantes, exceto uma jovem enfermeira estagiária, que trabalhava muito num hospital público fora da capital: desabafavam.

Os três motoristas diferentes foram pacientemente escutados pela Menina Azul que, de vez em quando balbuciava algumas palavras de gentil apreço, ficando a saber que:

– todos tinham preocupações em relação ao tempo, não fosse a tão desejada chuva pregar-lhes uma partida fora da época, por causa das férias já marcadas, umas para Maio, outras para Agosto – “infelizmente!”- outras para Setembro, todas com destinos diferentes: à beira-mar para desfrutar da praia; na aventura de um cruzeiro; no Norte onde a comida é “do melhor” e não se houve o bulício da cidade, nem se respira a poluição;

– todos far-se-iam acompanhar, além das esposas e filhos, pelos os pais e os pelos sogros – “férias em família”, de facto;

– todos desempenhavam uma atividade nova na sua vida, pelo menos havia uma década: um trabalhara para o Estado, e agora vingava-se, não votando; outro vira a promoção perdida na sequência da falência da empresa, o terceiro fora imigrante e conservava a memória de um dia estar a admirar uns relógios numa montra em cujo estabelecimento acabaria por entrar, não obstante não ter poder de compra – “sós para ver”-, seguindo um Sr. mal vestido e enlameado com duas crianças sujas com ar de quem vinha feliz da escola ou de um parque, surpreendido pela delicadeza da empregada no acolhimento do improvável cliente, comportamento que não vê no mesmo contexto no nosso país, e ficando boquiaberta com a aquisição de três relógios caríssimos…

E…

A Menina Azul, chegada aos locais pretendidos, pagava, claro, e, enquanto pegava na gorducha mochila, formulava aos três motoristas, aos óculos de um, ao cachecol de riscas, tipo indiano, de outro e às ruças do mais maduro, com um franco sorriso, os seus votos de: “Boas Férias!”

O Acróstico da Pagizinha
Março 27, 2019

A Pagizinha estuda com a mãe e com os seus explicandos quando se prepara para algum teste.

Mas…

Já dias, testou-se e presenteou-nos com este acróstico cuja publicação me autorizou, a qual partilho convosco.

A Menina Azul e o Vestido de Noiva da Afilhada
Março 13, 2019

Era uma amiga, pensava a Menina Azul, mas revelou-se daquelas pessoas que, sentindo-se superior, um dia ao intervalo das aulas, lhe dissera, desdenhosamente, que ela não seria professora, nunca se casaria, nem teria filhos, que tornar-se-ia uma solteirona como algumas empregadas de escritório, mas cuidaria dos seus descendentes…

A Menina Azul olhava estupefacta e muda para o sorriso trocista, brilhando no rosto da sua interlocutora, e percebeu que a pele fina e a bochecha rosada era, de facto, bastante mal-encarada e de maldade talhada. 

Num verão de agosto em que a praia apinhada de turistas parecia mais pequena e abafada, um dos jovens do interior do Alentejo que habitualmente poisava no toldo 14 P, reservado para a Menina Azul e umas amigas na época balnear, escancarou a boca risonha, e perguntou-lhe se ela não tinha nenhuma amiga para lhe apresentar.

Lembrando-se da solitária amiga, flor de estufa, que de casa só na companhia do pai saía,  nem com jovens da sua idade convivia, respondeu-lhe afirmativamente, mas… como trazê-la até si ou leva- lo até ela não sabia.

Os enormes olhos verdes do rapaz, herança de sua linda e amorosa mãe, saltaram por trás das lentes com aros estilo de professor, e, insistente, cansava a Menina Azul com curiosas perguntas, atitude que se prolongou no dia seguinte, no outro… Até que, depois de muito pensar na princesa aprisionada, lá lhe disse como é que a amiga se chamava, e  explicou onde é que ela morava…

A inesquecível cena do primeiro encontro, ele à porta, e ela ao cimo da escada, seria depois por ambos à Menina Azul narrada.

Namoraram, noivaram e, quando decidiram dar o nó, a amiga convidou a Menina Azul para madrinha, justificando, por iniciativa própria, que sempre dissera que a pessoa que lhe apresentasse o futuro marido, teria esse privilégio.

A Menina Azul pareceu-lhe que se tratava de conversa de conto de fadas, ou talvez um presente de Natal prometido a quem se porta bem, mas acabou por aceitar, pensando que teria de ir ao seu mealheiro para o vestido de noiva lhe ofertar, o qual, veio a saber seria confecionado por uma famosa modista local.

De vez em quando, a futura madrinha perguntava pelo vestido. O tecido já tinha sido comprado, era tudo o que sabia; depois, que ja fizera a primeira prova, que estava muito bonito, e um dia, que, dali a pouco, novamente o provaria. Não contendo o desejo de partilhar aquele  momento, a Menina Azul manifestou-o, mas a resposta foi negativa, pois ninguém o veria, a não  ser no bem-fadado dia…

Indignada e magoada com tão incompreensível negação, a Menina Azul guardou silêncio até ao dia do casamento.

O vestido de noiva era de uma delicada beleza com umas flores salteadas, dando-lhe nobreza, o véu original orlado  por algo fino, avolumando-o  numa espécie de forma em arco, mas… a memória que atravessou a ponte do tempo com a Menina Azul foi o perfume das frésias brancas e amarelas do ramo de noiva!…

Foram felizes no casulo que formaram com a filha – ou seria numa inacessível torre de príncipe e princesas? – até ao dia em que a doença o obrigou a despedir-se desta vida.