Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

A Minha Aldeia e o Festival das Velas
Abril 30, 2017

Chegaram as velas no oceano deslizante com muita gente a bordo e fardas de cadetes e de comandantes com botões douradod e brilhantes, com ondas nos dentes, sal calejando-lhe as mãos de saber, e sonhos de aventura pulsando no coração, unindo esta, aquela e outra, e outra… nação!

São dias de festa com estadia nos portos e pés na terra com música, com gastronomia de comer e chorar pro mais bem regada de cantantes e cristalinas uvas alentejanas, e com muita animação, em que as visitantes velas-humanas são o palco de tudo e alvo de toda a atenção, sentindo e atirando alguns olhares brilhantes de tentação…

No DIA DA DANÇA, tudo dança, e até o vento se diverte a brincar com as crianças, correndo, sem frio, ou rodando as saias rodadas-alaranjadas com bolinhas brancas pintadas, colocando graciosamente os óculos de sol no chão!…

Depois da missa dominical, ecoará o canto nacional e, por sinal, regional, património da Humanidade, as vozes da tuna da nossa universidade far-se-ão ouvir, e os concerto de desconsertar também, as músicas do Carnaval a desfilar, espectáculos sem fim, “uma coisa por demais”, um “só visto” de espantado saindo da boca enrugada de alguns casais…

E… continuarão as filas para os olhos curiosos serem marinheiros nos barcos atracados, imaginando-se neles a navegar, vencedores de corcéis nos vendavais, espelhos de venturas nos portos de abrigo, suspirando segui-los amanhã com sonhos nas velas abertas, lavrando o mar, olhando para trás, enamoradas, a acenar…

O Procópio, o Pirolito e o [H] Mudo
Abril 27, 2017

– Ó Procopiozito, posso dizer-te uma coisinha?

– Diz, Pirolitozito, mas… sê rápido, por favor, porque estou com pressa; tenho um compromisso e gosto de ser pontual!

– Sou rapidinho, sim, amiguinho Procopiozinho! Sabes porque é que a “muler” é diferente da “coler”?

– Pirolito, afinal ias dizer-me algo ou perguntar-me? Pronúncias incorretas, Pirolito; talvez nalguns contextos, excepcionalmente, sejam consideradas diferenças de falares regionais.

– Discordo, mestre Procopiozito-Amiguito!

– Já sabia, Pirolitozito-Amiguito! Tens um minuto para me esclareceres!

– É para já! Há “muler” com um [h] mudo, porque quanto mais caladinha, melhor a mulher fala, dizem as más línguas; e há “coler” com [h] surdo, porque com a correria dos tempos modernos já ninguém pega na colher a horas, nem as ouve; depois queixam-se de que têm o relógio biológico avariado, diz aqui o pensador Pirolito.

– Ah! Ah! Boa, Pirolito! Tenho de chegar a horas. Vou.

– Vai, sim, Procópio jeitosinho! Precisas de “cegar” a horas, porque estás cego de amores, ou pensas que não percebo por que vais sair tão penteadinho e perfumadinho? As minhas penas também pensam, e repensam!

– Volta-te para a gramática, Pirolito! Nos dígrafos “lh” e “ch”…

– Já sei, mestre Procópio! O [h] dá música às consoantes com as quais se acasala!

– Ah! Ah! Boa explicação, Pirolito, vinda de um papagaio falante e pensador. Atenta que os seguintes grupos de letras, os dígrafos: rr, ss, ch, lh e nh representam uma só consoante e simbolizam apenas um som.

– Cuidado com o [h] mudo, Procópio, porque ele tem voz de homem e honra na hora marcada… com… o feminino…

Histórias de Fantoches – As Aguarelas do Júlio – 3.ª Página
Abril 22, 2017

Naquele dia, depois de uma conversa com o pintor, as aguarelas antigas, que a pouco e pouco tinham sido substituídas por outras tintas, e que se sentiam tristes por estarem a assistir às pinturas do seu amigo sem serem utilizadas, saíram à rua sozinhas, mas o Júlio ficou a observá-las por um espelho especial, e ia pintando tudo o que elas faziam.

Passaram apressadamente pelo jardim, salpicando:

– uma menina que ia a comer um gelado de morango, que ficou cor de chocolate e baunilha;

– um velhote que estava sentado a olhar para uma palmeira, que, repentinamente, parecia uma árvore de Natal decorada com: bolas vermelhas e amarelas; sinos dourados; pinhas castanhas; fitas prateadas; sombrinhas de chocolate; luzinhas de todas as cores e postais ilustrados pelos netos e ali pendurados;

– uma vendedora de balões com formas de: lagartos; papagaios; macacos; corações; bonecos, que mudaram de cor e pareciam: póneis; galos; palhaços; bolas; bonés.

Assustadas com o que tinham feito, as aguarelas do Júlio entreolharam-se com sorrisos coloridos e decidiram sentar-se na falésia para se organizarem.

– Nós precisamos de pincéis! – gritou a cor-de-rosa, toda vermelha!

– Concordo! – responderam as: vermelhas; verdes; laranja; roxas: azuis; amarelas; brancas; castanhas.

– Eu vou construí-los com canas da Índia e algas, que vou pedir às gaivotas para mas trazerem nos bicos – disse a aguarela amarela.

Quando os pincéis ficaram todos prontos – um para cada uma -, as aguarelas fizeram uma roda, gritaram:

– “Em cada cor, uma flor!” e começaram o seu trabalho, que tinham de terminar três dias depois.

(continua)

As Brincadeiras da Nita e do Nito – Conversa de Vendaval, 4.ª Página
Abril 21, 2017

O intervalinho foi mais longo do que o previsto, porque o Nito avistou a traineira da família e foi dizer à avó, que logo o incumbiu de algumas tarefas.

A Nita, sempre compreensiva, esperou pelo amigo junto ao portão verde. Não voltaram para o castelo, mas poderiam ir juntos até à Rua Vasco da Gama, pelo menos.

No caminho, ela ainda insistiu sobre Os Dez Mandamentos do Bom Aluno.

Nito – Está bem, Sr.ª Professora-Amiga. Começam todos… por… “O bom aluno”, certo? Vamos no 6.º, lembro-me!

Nita – Muito bem, menino Nito! 6.º – O bom aluno…

Nito – O bom aluno é…

Nita – Não!

Nito – O bom aluno não é, Sr.ª Professora?

Nita – É bom, claro, mas reza o 6.º Mandamento que: O bom aluno diz sempre…

Nito – Não estou a perceber, Sr.ª Professorazita. Afinal, o bom aluno reza ou diz?

Nita – Ambos, Nito! Reza também tem o significado de: dizer, pronunciar, além de orar. Mas se pensássemos em rezar, o bom aluno diria sempre a…

Nito – Já sei! A verdade. 6.º – O bom aluno diz sempre a verdade! Mas… se não fosse a reza, eu diria: “Obrigado!”

Nita – Bem pensado, Nito! Completa, se faz favor: 7.º – O bom aluno é p… nos p…, nas p… e nas a…

Nito – Esse é canja! 7.º – O bom aluno é pronto nos préstimos, nas paródias e nas aulas.

Nita – Ai, Ai, Nito! É mais do que pronto, pu… nos pen…, nas pa e nas… a… O melhor era voltares-te para a reza. Cogita.

Nito – Para a reza, Sr.ª catequista? Ah! Desculpe, Sr.ª Professora-Amiga. Cogito e… arrisco: 7.º – O bom aluno é puro nos pensamentos, nas palavras e nas acções. Acertei? Só pode ser!

Nita – Certíssimo, Nito! Surpreendeste-me com a rapidez.

Nito – Ainda bem! Foi da reza! Seguinte… 8.º – O bom aluno é – ou não é?

Nita – É, sim, Nito! 8.º – O bom aluno é l… e g… para com os seus c… Continua, se faz favor.

Nito – Professorazita, que fácil! 8.º – O bom aluno é luz e graça para com os seus colegas. Isto é verdade, principalmente quando há testes e a malta ajuda-se como pode! Este mandamento está incompleto; falta o que acabei de afirmar!

Nita – Interessante, Nito! Mas… não é nada disso!

Nito – É pois! Eu só completei o mandamento com a verdade! E hoje ainda nem falei em bola; estou muito concentrado!

Nita – Mas… ainda podes marcar uns golos. Vou ajudar-te, novamente, Nito, passar-te a bola. 8.º – O bom aluno é le… e ge… para com os seus com…

Nito – Vá vou eu! 8.º O bom aluno é legal, diria o brasuca, e genial para com os seus companheiros!

Nita – Companheiros, muito bem, Nico! E se tirasses o “g” do legal, e substituísse o genial por um sinónimo de bondoso, mas mantendo o gen…?

Nito – Muito Obrigado, Sr.ª Professora-Amiga! Agora vai sair certinho como eu: 8.º O bom aluno é leal e generoso para com os seus companheiros! – e até é, porque ajuda os colegas e não conta a ninguém!

Nita – Nito, estamos a chegar ao cruzamento onde supostamente nos separamos, a menos que queiras ir mais um pouco comigo e desças aquelas escadinhas. Deste modo, terminávamos os mandamentos. Concordas?

Nito – Concordo, pois! 9.º – O bom aluno…

Nita – Menino Nito, atenção ao penúltimo mandamento, que é muito fácil: 9.º – O bom aluno não maltrata os a… nem as p…

Nito – Uf! Desta vez, vai sair tudo como reza o mandamento: 9.º – O bom aluno não maltrata os animais nem as plantas.

Nita – Muito bem! Vamos ao 10.º mandamento?

Nito – Bora! Desculpe! Vamos, Sr.ª Professora! 10.º – O bom aluno…

Nita – Aqui tens a minha ajuda: 10.º – O bom aluno não faz aos outros o que…

Nito – … não gosta que os outros lhe façam! Certo?

Nita – Quase, quase! O mandamento não reza “gosta”, mas… utiliza outro verbo que tem haver com a vontade. Queres completar?

Nito – Ah! Ah! Já disseste o verbo, Nita-Amiga! Quero, pois! 10.º – O bom aluno não faz aos outros o que não quer que os outros lhe façam.
Muito obrigada, Nita! Gostei muito deste jogo, mas… prefiro jogar à bola!
Tenho de ir! Até amanhã!

Nita – Eu também, Nito! Até amanhã! Olha!

Nito – Estou olhando…

Nita – Engraçadinho! Não achas que os mandamentos deviam estar afixados na sala de aula?

Nito – Acho! Seria um bom trabalho de grupo, ilustrado, de preferência! Vou!

Estórias de Meninos – O Riel e o Pão
Abril 21, 2017

O Riel, além da sua fama, e proveito, de careiro na venda do peixe que adquiria na gandaia da ribeira, e no que o pai e os irmãos mais velhos apanhavam nas pedras, à linha, aumentando-lhe o preço, por sua iniciativa, para fazer o seu próprio e secreto mealheiro, tentava compensar esta sua falta e outras, como servir-se sorrateira e apressadamente à mesa posta para o pequeno almoço de uma senhora rica, enquanto o Léu negociava honestamente a sua pescaria, na cozinha, visando proveitos para toda a família.

Para ilibar-se das suas culpas, o Riel, um bonito, simpático e atrevido lourinho, herdeiro do delicado narizinho e da fina pele da mãe, enchia os bolsos, remendados por uma das irmãs, e escondia sob a camisola inúmeros nacos de pão, que angariava com “choros” de coitadinho, mais por vício “da pedincha” do que por necessidade, e não próprios para a sua idade, e à noite, quando regressava a casa, depositava-os orgulhosamente sobre a mesa, perante os olhares estupefactos dos pais e dos irmãos.

E…

Com este seu contributo, o Riel careiro, adquiria internamente o estatuto de “trabalhador”, que para os demais irmãos se tornava de pudor.

Conversa de Tios Alentejanos
Abril 21, 2017

– Ó “ti´” “Zéi”, “atão” já “vocemecêia” viu a barafunda dos carros na “capitali”?!… É uma coisa por “demaji”, diz o povo que lá vai! Aquela “genti” nem “sabi” “conduziri” com trambelho! Calhando “nã” “teim” carta ou saiu na Farinha Amparo!

– Ai, tia “Zabela”, tenho tantas “dúvdas”! “Nã” há nada que “chegui” à largueza do nosso Alentejo e “ó” “respêto”, “´tá” visto.
Já “óvi” “dizeri”, que lá por essas bandas, “metem-si” uns à frente dos “otros”, à parva, que “éi” uma “pôca” vergonha, e que se uma pessoa “nã” calha a ter a vista fisgada “pra” todo o lado e a “prantar” o “péi” no travão, “mêmo” “condo” está parado, tem o caldo entornado!
“Despôji” ainda se admiram de, além das latas amolgadas, terem trecos, e irem “parari” “ó” “hospitali”! Com aquele alvoriamento, o que “éi” que se espera?!… Falta de tino, “éi” o que “éi”!

– “Teim” “rezão”, “ti´” “Zéi”! Mas “ê” cá ando com receio que com tanta “famila” a falar “beim”, pensam “êlis”, que nem sabem cantar “ó” nosso “jêto”, mas que são “senhoris” de tantos montes por estas bandas, ainda tragam “pra” cá essa moda e atropelem a nossa planície, “ó” “atão”, estatelem-se contra algum “sobrêro”, por “nã” saberem “aprovêtar” esta grandeza, que “atéi” o Sr. Torga, aquele “dôtori” que “tameim” era “escritôri”, já elogiava.

– “Nã” me diga! Mas… “olhi” que está certa, tia “Zabela”! Isso era uma “granda” carga de trabalhos!
“Beim!” Já lá “veim” a “carrêra”. Vou andando, para apanhá-la, antes que a magana me “dêxi” em terra e já “nã” vá à “fêra”! “Passi” “beim”!
E pelo sim, pelo não, “olhi” mas é “sempri” “pró” lado!

– Obrigada, “ti´” “Zéi”!
“Passi” “beim”!
E pelo sim, pelo não, “nã” “deslargui” o “sê” cajado! “Pôdi” precisar “dêli” para fazer de “sinalêro”!

A Gaivota e os Sonhos – 5.ª Página
Abril 6, 2017

Caros Visitantes,

Reencontrei a gaivota-madrugadora-pensadora numa grande azáfama!
Que canseira terá sido a concretização dos seus sonhos!
Demorou… anos!

E… até nós sonhamos com ela!…

Vamos voar com ela?

Muito obrigada pela vossa companhia!

Maria do Mar

Praia das Gaivotas, Dia d´ A Cimeira Gaivoteira Lusitana, Hora do Sol a Pique,

Querida Avó Gralha, Rainha das Avós,

A viagem foi longa, porque isto de correr mundo e respirar a poluição que vem da Terra, escondendo parte da sua beleza, mas também ocultando as cores cinzentas e pretas da tristeza da humanidade, alguma nua e magra, outra vestida de futilidade e armada de vaidade, fizeram-me arder os olhos, quebrar o vigor das asas, fazer soluçar o meu peito, despontar relinchos revoltantes no meu querido companheiro e amigo cavalo alado!

A Terra e o Homem precisam da nossa ajuda; temos de salvar o planeta, de mergulhar com as crianças nos mares turquesa, de ensiná-las a brincar, a saltar, a sorrir, de reconstruir as cidades e plantar a alegria em toda a parte.

Avó gralha, mas aqui desfruto da beleza da sua terra de eleição onde consta deixou, há muito, parte do seu coração – como não quer sentir-se cansada, se não o traz inteiro consigo?

O gaivotão azulão surpreendeu-me com a sua presença e gentileza; senti um calafrio abanando-me as penas, desde as suas raízes – estarei a ser tocada pelo amor, ou o cansaço traiu-me, confundindo-me?

Bons ares se respiram por aqui e linda paisagem, até perder de vista!

Ainda não começámos a negociação das camarinhas, nem dos caramujos e de outras riquezas, mas temos: balões, bóias, colchões, discos, pregos, baldes e forminhas para a pequenada, pão caseiro, e manteiga feita pelas mães e pelas avós com as natas do leite fervido de vacas felizes, marmelda e muita água…
E… ficará tudo tratado, inclusivamente a busca do seu desaparecido amado, de que o cavalo alado está encarregado.

O objectivo da minha missiva é pô-la a par da emergente aplicação do Tratado de Intervenção que eu, a sua amada netinha gaivota-madrugadora-pensadora, na qualidade de Presidente d´A Cimeira Gaivoteira Lusitana tem em mão – que sonho, avozinha gralha!

Se conseguirmos provar a eficácia da deslocação aérea com os cavalos alados, águias-velozes, dragões com línguas de vento e nuvens-bicicleta com mais de um lugar, a avó gralha, a sua e a minha família serão as primeiras a usufruir desta inovação, tendo como convidados as crianças, filhas dos pescadores da ilha e os sábios anciãos.

Fique atenta!

Cá a espero, se tudo correr como previsto.

Saudoso abraço, extensivo a toda a ilha!

Gaivota-madrugadora-pensadora sempre com a avó gralha no coração.

A Cimeira foi um sucesso, aplaudida por muitos banhistas, que pediram para intervir e apresentar propostas a favor da salvação da natureza e da vida na Terra, a até por crianças saudosas de outras brincadeiras, algumas com búzios na mão, que diziam ter comichão nos ouvidos e ficar surdas quando atendiam o telemóvel dos pais ou de algum irmão!…

O cavalo-alado, que se afastara para efetuar a sua busca, e saciara com a água de um afastado poço, ajudado por um grande e velho pássaro, que chorava pela sua saudosa amada, uma linda e alegre gralha, abraçou-lhe gratamente as crinas quando o amigo da gaivota-madrugadora-pensadora lhe deu boas novas ácerca daquela por quem, quase desasado chorara durante anos.

A nuvem cor-de-rosa entregara a mensagem à avó gralha, que teve de pôr os seus óculos de aros de casca de laranja para lê-la e ir limpando as lágrimas com um lenço esfarrapado pelo tempo, perfumado de beijos bicados do seu saudoso amado, e que, esperançosa, se aperaltou, pôs o seu cansado chapéu, que enfeitou com um flor presa numa fita, e sentou-se no ponto mais alto da ilha à espera de um transporte de inovação… e viu-o chegar com alegria no seu coração.

E…

A gaivota-madrugadora-pensadora e o gaivotão azulão, que passaram a andar de asas dadas e beijando-se às bicadas, preparam uma festa para o reencontro da avó gralha com o seu amado, muito nervoso, sentado no cavalo alado!…

FIM

A Menina Azul – Olhar e Ouvir na Cidade Grande
Abril 1, 2017

Ouvi, fora do bulício da cidade grande, num magnífico edifício onde há anos comprava, na cave, livros por si editados, se respira a cultura e se tem acesso a exposições e concertos, emoldurado por um lindo e aprazível jardim percorrido por uns pequenos regatos, cantando a magia dos seus escorregas, deslizando entre pedras escorregadias e brilhantes, como os engraxados sapatos de alguns homens vestidos de senhores, uma informação a um visitante de que pagaria menos no ingresso do que o seu jovem acompanhante, citando os seus anos, e percebi, aliviada, por não precisar de desculpar-me com a minha carteira pouco pesada, que… afinal, ainda não tinha idade para a tal entrada…

Vi, na cidade grande, no lindo e aprazível jardim dos regatos cantantes, uma senhora, desrespeitando a sua privacidade, debruçar-se para tirar-lhes uma fotografia, e deixar cair os óculos de sol da gola da camisola, com os quais a água brincava, e que ela, aflita, quase não os apanhava…

E…

Vi, tristemente, sem poder fazer nada, uma farta e muito morena “ama” com uma amostra de bata axadrezada, de orgulhosos joelhos rotos, muito bem sentada, falando ao telemóvel, indiferente a um bebé bem branquinho, lourinho e de olhos clarinhos, fechando-os, coçando-os, agitando-se, caladinho, mas muito aflito, sem poder, nem saber defender-se dos repentinos e intensos raios de sol tão prejudiciais para a sua saúde – cheguei a pensar nos pais, certamente tranquilos no seu trabalho, sem saberem a quem tinham confiado o seu filho…

Olhei para trás, e pensei que deveria acudir ao bebé, apesar de arriscar-me a alguma agressão; hesitei; dei dois passos em frente, voltei-me novamente e comecei a andar na sua direção, mas… havia um homem, de pé, falando com os orgulhosos joelhos rotos, fazendo sombra ao bebé…

Ouvi, um pouco mais à frente, chuva a segredar algo numas pétalas alaranjadas, depois gotas grossas a cair numas folhas grandes…

E…

Tranquilizei-me, acreditando que a criança estaria a ser dali empurrada…

Histórias de Fantoches – As Aguarelas do Júlio – 2.ª Página
Abril 1, 2017

Lembrou-se de que:

– o Natal mais feliz da sua vida tinha sido quando recebera a primeira caixinha de aguarelas com pincéis e um bloco de papel cavalinho e que, a partir daquele dia, começou a colar os seus quadros pela casa toda;

– a mãe e a tia Tina o tinham deixado, e aos primos Iago e Ida e, fazerem umas pinturas com os pés e as mãos impregnados de tinta no chão da garagem;

– o professor Desenhos e Pinturas lhe dissera que ele tinha as cores nas mãos, porque nascera artista e olhava para o mundo com as cores da sua alegria;

– a professora Fala Bem e Depressa lhe chamava o poeta da cor, porque em tudo o que dizia brilhavam as cores das aguarelas.

– pintara um dos muros da escola com as estações do ano: a primavera; o verão; o outono e o inverno e que ganhara o 1.º prémio: um cavalete – o seu 1.º cavalete!

– na sua juventude, aproveitava todos os momentos e todos os locais para reproduzir o que via e admirava, pintando: o céu, muito azul ou nublado; o mar sereno ou zangado; os campos, as árvores, as flores, os lagos dos jardins, os bancos vazios ou com idosos sentados; as casas, os recreios das escolas e os parques infantis cheios de crianças; as feirinhas e os desfiles das festas;

– os pais não gostavam que ele expusesse as suas obras nos jardins, perto da praia, no centro da cidade, enquanto ia pintando;

– a 1.ª exposição dos seus quadros num espaço fechado tinha sido na biblioteca da sua terra, rodeado de familiares, amigos, antigos colegas da escola, de conhecidos e de turistas que visitavam a pequena cidade.

O Júlio tornara-se um pintor muito famoso, mas continuou a pintar e a expor ao ar livre, porque gostava de “abraçar o mundo”, como ele dizia, e de comunicar com as pessoas.

(continua)

A Franjinha da Menina Azul
Março 21, 2017

A Menina Azul pensou a vida inteira na Dolinha, já uma senhora alta, distinta e magrinha, quando ela ainda era menina, que só sorria para ela, e mais tarde para a sua filhinha, que criaria sozinha.

Um dia, a Menina Azul perdeu o sorriso da Dolinha, que arranjou emprego na capital do distrito, a terra do “carrapau”, e levou consigo a sua sisuda menina de nome pequeno e musical.

Decorridas décadas, no funeral do José ruivo, sardento e amigo da família desde sempre, a Menina Azul, já uma senhora, reconheceu a Dolinha, despedindo-se do irmão.

Aproximou-se dela, olhou-a com a alegria a dançar no seu olhar e sorriu-lhe.

A Dolinha, igual, achava a Menina Azul, olhou para ela e numa explosão de alegria, gritou o seu nome, abraçando-a terna e demoradamente.

Depois, olhou-a sucessivamente com um sorriso extasiante e repetia:

” – Tive tantas saudades tuas! Tantas! Tantas! Tantas! Da tua franjinha, tão bonita! Das tuas bochechas redondinhas e rosadinhas, sorrindo sempre para mim, estendendo-me os bracinhos!
Pegava-te ao colo, abraçava-te, beijava-te, acariciava a tua franjinha.
Ainda tens uns farripinhos sobre a testa! Ficam-te tão bem!
Ainda és tão bonita!”

A Menina Azul agradecia-lhe, sorria e escutava a história da Dolinha, que vivia com a filha bem sucedida na vida e no matrimónio, a qual chamou para a cumprimentar, mas… elas, já não se (re)conheciam…

A Menina Azul não teve oportunidade de contar à Dolinha que os farripinhos sobre a testa tinham sido uma iniciativa sua quando lhe fora permitido decidir sobre o modelo do seu penteado.

Nas horas das despedidas, a vida, aproxima os afetos, desperta a vida, sobretudo nas terras pequenas com muitas histórias!