Archive for the ‘Era Uma Vez’ Category

Estórias de Meninas – A Noiva de Sonho, 3.ª Página
Julho 10, 2019

Os noivos, a Didi e o Léu, tinham ainda uma tarefa para desenvolver, “uma grande preocupação”, confidenciou ele à mana Tó: procurar, e sobretudo, encontrar casa, pois, “casamento apartamento”, “cada qual às suas” apregoavam os mais velhos, indicando, subtilmente a porta para a saída.

Na ribeira, o Léu indagou junto de outros pescadores da sua idade se sabiam de “alguma coisa”. Curiosamente, um tinha visto um quartinho na vila, e havia mais vagos.

À noite, hora do namoro na casa da noiva, rigorosamente vigiado, para evitar os perigosos contactos físicos, e riscos de “desavergonhices”, o Léu desfazia-se em sorrisos, comunicando à Didi que sabia de um quartinho, convidando-o para irem ver no dia seguinte, acompanhados, claro está!

A casa de barrinhas azuis, de um só piso, possuía “uma casinha de entrada” – salinha -, três quartos, uma cozinha e uma pequena instalação sanitária.

Os noivos gostaram muito do quarto, e dos espaços comuns, mas… teriam de fazer contas, para pagar os dois meses exigidos pela senhoria, sem saberem ainda como e onde iriam buscar o dinheiro…

(continua)

Estórias de Meninas – A Noiva de Sonho, 2.ª Página
Julho 2, 2019

A determinada Tó falou com a futura sogra do irmão, propondo-lhe que fossem comprar o tecido para o vestido da noiva, que ela própria confecionaria; o véu a as luvas seria a Didi a pedir à madrinha para lhe emprestar estes seus pertences usados no seu casamento.

A D. Nita mostrou-se muito feliz com a possibilidade de casar a filha mais velha, mas também preocupada relativamente ao copo de água, para o qual a organizadora do evento já tinha uma brilhante ideia, a única viável dados os parcos recursos económicos.

A Tó já falara com a D. Idalinda, a dona da mercearia onde costumava fazer os avios, e pedira-lhe autorização para comprar todos os ingredientes necessários para a confecção da doçaria, e algumas bebidas da sua taberna, fiado, e ir pagando com a mãe da noiva, todas as semanas, o que aquela bondosa senhora autorizou, alegando que ela era uma cliente de confiança, portanto podia contar consigo para a ajudar na festa de casamento do irmão Léu.

Quem andava muito nervosa, era a noiva, sonhando com: os preparativos, a festa, os convidados, o casamento em si, corando quando pensava no beijoqueiro do namorado, que na altura, mesmo sem anel, ela considerava, e muito bem, o seu noivo.

A Didi deitava-se, adormecia e acordava com dúvidas e treme-tremes entrelaçadas de sorrisos curiosos com laços de sonhos de uma vida que ela não conhecia, mas com a certeza de que tudo iria correr bem, pois estava em boas mãos, dizendo para si vezes sem conta: “vamos ser muito felizes.”

O Léu, sempre com a sua noiva de sonho “no sentido”, esquecido do cansaço, antes e/ou depois de ir ao mar, corria para as Pedras de Sal, para as Pedras Negras, para as Amarelas, e todos os recantos da costa onde poderia apanhar: sal, peixe e erva da salema para vender, e poder comprar os sapatos e a roupa para encantar a sua amada no dia especial- a camisa já a mana lhe trouxera do Sr. Granés!

(continua)

Estórias de Meninos – A Longínqua Prisão do Quico
Junho 9, 2019

No dia das eleições, o Quico, um homem honesto e de renome na sua profissão, recordava, antes de cumprir o seu dever cívico, que fora preso quando tinha sete anos.

Sorria e esfregava as mãos como quem acaricia uma saudosa página da história.

Contava que naquele tempo só havia dois guardas na nossa aldeia. O Quico e mais “gaiatos” da sua idade, alguns talvez já tivessem oito anos, andavam de calções e descalços, como lhes eram habitual, a apanhar amoras alegremente na enorme e única árvore existente no largo da praça, mesmo em frente à cadeia.

Ao mesmo tempo, saciavam-se, lambuzando-se, e… guardavam alguns frutos nas algibeiras.

Mas…

Naquele dia, apareceu um dos guardas, que prendeu os catorze meninos até ao final do dia, envergonhando-os com severos sermões, e assustando-os com terríveis ameaças.

Na cela, com uma janela de grades virada para a amoreira pública, alguns choravam, outros riam, temendo a “abada de porrada” que os esperaria em casa…

O Quico era o único que não temia passar lá a noite, pois tinha esperança que os guardas apanhassem algum desordeiro “com os copos”, e os retirasse da prisão, porque das duas celas existente, só uma era para os homens – a outra para mulheres -, e não iriam misturar a “gaiatagem” com gente grande.

” – Eu nunca mais me esqueci, nem apanhei mais amoras!” – repetia o Quico, sorrindo.

Uma Filha da Pagizinha
Maio 26, 2019

Olá!

Eu sou a Neuza, uma das filhas da Pagizinha! Tenho “dois aninhos”, ouvia-a dizer, e já sei levantar os dedinhos para toda a gente ver e saber.

A minha mãe deixou-me ficar uns dias em casa da madrinha dela, porque, além de ter de cuidar dos meus irmãos e de manter as suas boas notas, também precisava de estudar viola e ir aos ensaios para os concertos.

Fiquei sentadinha no sofá da sala, onde passei a maior parte do tempo a brincar, e à noite deitava-me. Quando acordava com o barulho do vento a bater à janela, olhava para a televisão, à espera que os desenhos animados viessem brincar comigo, mas… percebi que eles também dormiam, e muito.

Nestes dias, a madrinha deu-me miminhos, mas senti a falta: do choro da minha mana Rosita, das explicações que a minha avó dá aqueles meninos todos, com muitos números e letras que ainda não percebo, do cheirinho da comida do meu avô, e das histórias que a minha mãe lê todas as noites em voz alta antes de adormecermos.

Eu sei que não poderia ter ido ouvir a minha mãe tocar, nem cantar no coro, porque ainda sou muito pequenina, e aborrecia-me, mas… gostava tanto de ter visto, se ela ia toda “arranjadinha” como o meu avô gosta, diz ela!

E…

Estou tão contente desde que ouvi dizer que ela tocou muito bem, e que estava muito concentradinha nas cordas!

Já tenho saudades da minha mãe, dos meus manos, dos meus avós e da nossa casinha!

Histórias de Fantoches – Conversa com Bia, 4.ª Página
Maio 1, 2019

– Gosto muito de azul, daquele do meu clube de futebol e do meu avô, que também é azul, de: calções, calças, casacos e bonés. E gosto muito de piqueniques no pinhal com um baloiço.

– Já percebeste que sou crescida, não é verdade?

– Sim, Bia! És maior do que eu, mas ainda és uma menina; uma menina grande, já se vê – vou desenhar-te muito bem!

– Obrigada, Pasquito! Ainda não te disse que eu já trabalho, pois não?

– Não sabia, Bia!

– Estou empregada numa fábrica de conservas de peixe. Tenho muitas colegas, de todas as idades, e um mestre, que é o chefe. Também há dois senhores mais velhos, que são os responsáveis pela vendas e pela distribuição, e ainda as senhoras do escritório, e o Sr. Correia que nos paga todos os meses.

– Tanta gente, Bia! Mas deve ser giro. As pessoas que trabalham com alimentos usam farda e toucas, não é?

– É verdade, Pasquito. E somos muitas vezes chamados para o trabalho pela sirena da fábrica, a qualquer da noite, quando chegam barcos carregados de peixe, que o patrão, o Sr. Moreno, compra, porque é preciso ir prepará-lo sem demora.

– E têm de ir a correr, Bia?

– A correr, não direi, Pasquito, mas quase. Temos meia hora para nos apresentarmos ao trabalho, por isso, depois de ouvir a sirena, como rapidamente, pego no uniforme e vou logo para a fábrica com as minhas colegas. Felizmente, a minha casa fica perto! Quando fico na casa da minha irmã, ela e a minha sobrinha acompanham-me.
Qual é a profissão dos teus pais?

– A minha mãe é costureira, e o meu pai bombeiro; está quase sempre no quartel onde é motorista, mas também é chamado pelo apito da sirena, a qualquer hora como tu, Bia. E os teus pais, o que fazem?

– O meu pai é carregador de peixe, mas já foi corticeiro. Fazia muitas rolhas de vários tamanho, e outras coisas. Agora usa um chapéu de lata, muito grande para transportar as caixas do peixe da lota para as camionetas.
A minha mãe é dona de casa, porque a família é muito grande e ela tem muitas coisas para fazer: arrumar tudo; cozinhar para todos; lavar muita roupa e engomar, tratar das galinhas e do jardim que temos no quintal, mas quando era mais nova e não havia água canalizada em todas as habitações a sua profissão era lavadeira – sabem o que é, Paquito?

– Já ouvi falar, em lavadeiras Bia. A minha bisavó também era lavadeira, mas sei pouco sobre esta profissão.

– Eu explico-te, Pasquito.

– Os meus irmãos mais velhos iam a casa das senhoras mais ricas da vila, que agora é uma cidade, buscar a roupa suja e levavam-na nas alcofas, à cabeça, para a minha mãe poder lavá-las no rio de água doce, que parecia uma poça grande e funda, que tinha duas pedras inclinadas para ela poder esfregar a roupa, como nos tanques, e que ficava situada perto do mar.
Ela ajoelhava-se para poder mergulhar a roupa na água, pôr sabão e ir lavando peça a peça, primeiro as brancas, depois as escuras

– Preciso de mais pormenores, Bia, para os tais desenhos coloridos.

– Posso continuar, Pasquito?

– Sou todo ouvidos, Bia! Continua, por favor. Estou curioso.

(continua)

A Cidade Grande e a Paragem do Autocarro
Maio 1, 2019

Circulavam veículos privados e de serviços públicos nos dois sentidos da estreita e movimentada via.

Uma anafada alfacinha espreitava à varanda, olhando de um lado para o outro e para o relógio, resmungando, toda rosada, enquanto voltava para o interior.

Uma carrinha de serviço domiciliário parou no meio da rua. Lá dentro, os impávidos idosos permaneciam silenciosos como se assistissem a um espectáculo de marionetas.

O motorista, um senhor baixo e forte, vestiu o colete, pegou no telemóvel e fazia desesperadas chamadas, respondendo às impacientes buzinas com gestos mudos, de sinaleiro.

Ninguém vinha em seu auxílio. Dir-se-ia que nem o carro da polícia se apercebera do incidente. Apenas os motoristas profissionais pareciam sensíveis à embaraçosa situação, parando a distâncias facilitadoras da passagem a um ou outro colega que se aproximava em sentido contrário, e também alguns dos peões colados à paragem, curiosos, seguindo a infrutífera aflição ao telemóvel.

Eis que, finalmente, uma carrinha não identificada estaciona à frente do colete amarelo, que ergueu os braços, respirando de alívio no meio do seu protesto.

Na paragem, os relógios estão inquietos, as pessoas entreolham-se e algumas perguntam o número de autocarro pretendido. Uma distinta e madura senhora tira o telemóvel da mala e oferece os seus préstimos, referindo que tem uma aplicação que permite ver o tempo de espera para cada um, gentileza que é acolhida com muito agrado.

Prendo novamente os meus olhos no colete amarelo que ajuda a simpática senhora da carrinha de socorro a tirar os idosos, um a um e a sentá-los neste veículo, alguns dos quais são alvo dos seus saudosos abraços – não consegui ouvir a voz de nenhum; apenas o motor que ia arrancar.

Os passageiros foram ocupando os autocarros, à medida que iam aparecendo, seguindo a hora prevista pela simpática senhora.

E…

O motorista da carrinha de serviço domiciliário continuava a falar ao telemóvel, agitado e desagradado com a espera daquele dia que mal tinha começado, e que já o tinha desesperado!…

O Tema Felicidade na Pequena Sala de Espera
Abril 30, 2019

Era um grande e delicado tema, a Felicidade, o que se debatia na televisão, interligando quem aguardava na pequena sala de espera.

Três senhoras, três gerações e a sintonia do que não era um pregão, mas a vida que se escondia na tristeza e nos sonhos de uma amanhã que não existia, sufocando a voz da felicidade, que a todos sorria como bagos de areia de uma longa e deserta praia, que os pés aquecia e o corpo movia.

Surgiu no écran uma escritora, que ninguém conhecia, e que apelidava de “pobres de espírito” as pessoas que se dizem felizes, sentimento que ela só sentia quando estava com os netos ou escrevia.

Veio “à baila” na pequena sala de espera os domingueiros programas de animação em que a alegria do povo vem à rua e dança, e canta, e brinca, também nas romarias e em tantos eventos, muitos carregados de história /cultura local e nacional em que, em boa companhia, se festeja a vida e se deixa desabrochar na sua subjetividade sílabas de felicidade!

E…

Também entrou na conversa a cultura da paz interior, segredo da alma, o silêncio bebendo as fontes da linguagem, e a sintonia amadurecida com a diversidade da natureza, a certeza de que a vida é hoje, aqui e agora e que há que abraçá-la, as pessoas, as oportunidades, dizer sim ao bem e ao bom, sem adiar, porque onde existe o Amor habita a Felicidade a pulsar, a cantar baixinho ou a dançar como o mar num reino em que as (des)semelhanças se entrelaçam com pétalas orvalhadas de luz, e nos lábios florescem beijos falantes, derretendo sementes de sorrisos no espaço a saltar.

Histórias de Meninas – A Menina do Totó Verde
Abril 30, 2019

A cidade grande sorria no andar descontraído da Menina do Totó Verde, desafiando a madeixa rosada caída ao lado da orelha direita, de olhos postos na ligeireza da cor neutra da saia comprida repuxada pela amostra da anca.

Nos pés de princesa, rentinhos à polida calçada, os frescos chinelos de enfiar no dedo com unhas pintadas de cores salteadas espreitavam o que se passava na estrada.

Pendia num dos ombros da blusinha de bolinhas salteadinha um cordão de algodão preso a uma singela bolsinha de pano escuro com uma garrida flor bordada.

A Menina do Totó Verde chegou à paragem do autocarro, olhou para mim e saudou-me com um doce sorriso de bom-dia sem hora marcada, brilhando na seda da pele do seu rosto miudinho, de laranjinha como poderia dizer o poeta, ou outro fruto, mas que se me afigurou de cristal, em cujo narizinho uma “anelzinho” de metal a uma narina se segurava. E o Alentejo de cheiro e sabor a maresia também lhe sorria com empatia.

Na magia daquele momento continuámos a olharmos-nos num secreto silêncio como alguém que já se conhecia e que há muito que não se via!…

Passou um autocarro; parou outro, e a misteriosa e encantadora Menina do Totó Verde perguntou-me e insistia gentilmente como quem chama por alguém: “Não entra? Não entra? Não entra?”

E…

Contrafeita com o meu: “Não, obrigada!”, a lente Menina do Totó Verde entrou sozinha, ficando a olhar para trás como quem se despede de um inesperado desconhecido, perguntando-lhe na inocência de uma criança : “Porque não vens comigo?!..”

A Jovem Clarissa
Março 29, 2019

Escutei, através das silenciosas paredes brancas uma voz clara e doce, perguntando, certamente antevendo os seus generosos préstimos a alguém idoso e/ ou necessitado,:

“- Pode subir as escadas?”

Respondi afirmativamente, agradecendo, e pisei o primeiro degrau sem saber onde pararia e quem encontraria.

No cimo do primeiro piso, o sorriso iluminado de Clarissa acolhia-me! Entreolhámo-nos como se já nos conhecêssemos, e a esbelta e elegante jovem, não obstante ter a sua beleza escondida sob o tom terra do hábito, começou a prestar-me algumas informações sobre o local que me proponha visitar, encontrando-nos alegremente nalguns pontos.

A Clarissa tem nome próprio e é uma alfacinha com profundos conhecimentos da sua causa e clareza de pensamentos expressos nos conteúdos e expressões de comunicação envoltos numa peculiar alegria, abraçando o mundo como intendi e partilhei.

Por instantes, a Clarissa visitou comigo uma das praias grandes da minha aldeia cuja história não me ocorreu narrar-lhe, se bem que se enquadrasse no âmbito da sua vida.

E…

É com esta imagem regada de doçura que a trago comigo, contagiada pela sua candura, sonhando vê-la a correr na areia vestida como a conheci, sorrindo, sentindo-se beijada por Deus na brisa marinha, criança mimada e livre, amando e sendo amada!…

A Minha Aldeia e o Tamanho Dela 
Março 29, 2019

Na minha aldeia também já assisti à diversidade de pessoas dormindo ao ar livre: na praia, sobre perigosos e estreitos muros, nos tejadilhos dos carros, nos bancos do jardim, em qualquer canto da rua, mas circunstancialmente – opção, necessidade ou falta de alojamento? -, nos dias de festa e euforia, em que atrai gente de todo o mundo.

Quanto mais a minha aldeia se enche de visitantes de diferentes culturas, e alguns enriquecem com outros proveitos, mais pequena me vejo, e a ela, que mutilada e assaltada nas essências da sua alma, mesmo com portas abertas a outros mares, mais se me assemelha um postigo do que uma ampla janela a espreitar a persistente dança das ondas com perenes raízes de jangadas e muitos barcos à vela!…