Archive for Agosto, 2014

Gente Boa da Minha Aldeia – As Corridas pela Costa
Agosto 31, 2014

Quilha de Barco-reflexos, 2012

Noutros tempos, quando a escassez de recursos para alimentar a família era rainha, os mais pobres corriam pela costa de madrugada e ao anoitecer, palmilhando com os seus pés descalços para não molhar o melhor e único par de alparcatas, a areia grossa e escorregadia, até à localidade mais próxima da vila vizinha, sempre que ocorria um naufrágio – “barco dava à costa”, diziam -, em busca de mantimentos que pudessem aconchegar os estômagos e / ou bens que viessem a vender para comprá-los.

Perseguidos pela polícia marítima, escondiam tudo o que encontravam, enterrando perto de alguma pedra, de modo a que o mar devorador não se apoderasse, ou levavam para casa, sobre os parcos casacos rotos e / ou remendados, “agachando”  os bens nos quintais cercados de “muros” de canas, para darem o devido e ansiado lucro na hora certa.

Noutros tempos, quando tudo era valioso e recuperável, com um casaco usado, sabe-se lá por quem, e desbotado agasavalham-se muitos irmãos, com umas calças faziam-se uns calções, cuja medida desse para mais do que um “moço”, e uma saia para a “moça pequena”, com um pedaço de corda improvisavam-se muitos cintos, com um alguidar de barro falhado levava-se à mesa uma terrina com sopas de pão duro rejeitado pelos abastados da aldeia a boiar com coentros, dentes de alho e um fio de azeite, e repartiam-se os ovos que as galinhas poedeiras se dignassem presentear a família da casa, para que todos os provassem!

E… todos celebravam a hora da refeição, partilhando as aventuras venturosas que a vida lhes oferecia no dia-a-dia com alegres e gratos sorrisos.

Anúncios

Histórias de Fantoches – A Margarida, 7.ª Página
Agosto 31, 2014

A Margarida

Decorrido algum tempo, um pombo-correio entregou uma mensagem das flores que tinham ficado a viver no quintal do casal idoso – a rosa vermelha, a açucena, o girassol, a alfazema, o cravo amarelo e as mimosas – à margarida, na qual pediam para se juntarem à família, porque sentiam a sua falta e ficariam todos muito felizes.

Quando a cegonha que as transportava chegou à Quinta das Flores, as cigarras começaram a cantar e os pássaros puseram rapidamente a mesa com delícias de mel, receitas da margarida que todas as flores cozinheiras tinham preparado com alegria, e folhas com água fresca.

Um dia, um jovem casal chegou à quinta, a D. Tulipa e o Sr. Trevo, e as flores ficaram muito assustadas, receando que trouxessem consigo algum projeto que as afastasse daquele lugar maravilhoso, mas a margarida fez um sinal aos amores-perfeitos, que reconheceram nele o menino que as fora espreitando ao longo dos anos, e apressaram-se a beijá-los.

O Sr. Trevo mandou arranjar a casa grande, construiu uma casota para o Fiel, a esposa, a Felizarda e os filhotes: o Fofinho, o Folião, a Felpuda, e passou a cuidar das árvores e da horta onde cresciam: hortelã, coentros; cenouras; tomates; alfaces; chá príncipe…

A D. Tulipa dedicava-se às suas lindas flores, e colocou bancos de jardim perto das suas casas, para poder desfrutar melhor da sua companhia, enquanto pintava ou lia.

Por vezes, o Sr. Jasmim, o jardineiro, aproveitava para descansar um pouco e contar-lhe as suas histórias de encantar, que o Fiel ou algum membro da sua família ouvia de orelhas arrebitadas, e as flores escutavam a sorrir e / ou a chorar.

A esposa do Sr. Trevo também fazia compotas de: cereja; pêssego; figo; ameixa, morangos, e de outra fruta madura de todas as árvores, e ainda de frutos silvestres, principalmente de amoras.

No Natal, oferecia alguns frascos aos idosos e aos pobres da vizinhaça, e também aos amigos para os lanches das crianças e dos mais gulosos.

Os serões da margarida e das outras flores eram muito divertidos. Umas vezes, dançavam felizes sobre a relva ao som das melodias do regato, perto do qual ela ia namorar com o bem-te-quer; outras, faziam rodas e cantavam, ou então preparavam surpresas para os amigos Tulipa e Trevo: construíam espantalhos; apanhavam fruta, e punham-na num cesto à porta da casa grande; faziam chapéus com folhas de eucalipto, e deixavam-nos espalhados sobre os bancos.

FIM

As Palavras e as Essências
Agosto 30, 2014

Simbiose de Árvores, 2014

As palavras alimentam-se da seiva dos sentimentos de quem as profere, por isso, umas perfumam a vida de essências, e outras azedam-na!

As Pérolas da Felicidade
Agosto 30, 2014

Camarinhas-Pérolas, 2014

A felicidade é a riqueza de sentimentos emergindo do mar iluminado do amor, tecendo anéis das nuvens, colhendo pérolas da chuva, saciando sede de beijos, abrindo céus de sorrisos, jorrando melodias de alegria, saboreando a vida com lábios de mel!

Olha a Bola!
Agosto 27, 2014

A Praia

Olha a bola! – apregoava timidamente o franzinho, mas certificado vendedor, identificado como tal nas costas da blusa branca, transportando uma caixa de esferovite branca com umas alças azuis a tiracolo, e outra meio transparente na mão.

Quase ninguém o ouvia, nem os veraneantes mostravam entusiasmo com a sua presença, nem as crianças pediam aos adultos para saciar a sua gulodice, nem corriam para ele, lambendo-se, nem ficavam tristes por sem vê-lo afastar-se e… sentirem a água a crescer-lhes na boca…

Mas… três adolescentes acenaram ao vendedor certificado.

Ele aproximou-se, e tirou três pequenos embrulhos da sua caixa de esferovite branca onde as gordas bolas tinham dedadas de gordura, aguçando o apetite dos seus compradores!

Depois afastou-se cansado e lento.

Fiquei a olhar para a caixa meio transparente, imaginando que aquelas indefinidas sombras retangulares podiam ser uma nova versão de bolachinhas americanas, mas espalmadas pelo tempo…

E… o vendedor certificado afastava-se sem ecos do seu pregão, mas… despertando memórias de outra praia, de outros vendedores, de vigilantes cabos de mar, de concursos de esculturas da areia, de delicados e certeiros jogos de disco, entre outros, de algazarras de crianças num imenso recreio!…

A Corrida dos Calções Riscados
Agosto 27, 2014

Pegadas na Areia, 2014

Corriam pela praia uns calções riscados de dois tons de azul, e branco, com umas perninhas muito fininhas e muito branquinhas, escondendo uns pezinhos muito pequeninos e… muito ágeis!

Brilhavam, acima dos calções riscados, umas costas curtas e estreitas da cor das ondas que se espreguiçavam na areia onde o sol poisava e fugia, o brincalhão!

Iniciava-se na prática do surf  um bando de crianças de amarelo e preto, que dava umas corridinhas e parava para se atirar sobre a areia, imitando desajeitadamente os instrutores, ora dirigindo-se para a Ilha, ora para o porto.

E…

Os calções riscados de dois tons de azul, e branco, corriam! Corriam! Corriam isolados do pequeno bando, sempre à sua frente, voltando a sua pequena cabeça de cabelo preto e liso para trás, de vez em quando, certificando-se de que as calças pretas e justas das perninhas maiores do que as suas não os alcançavam!

E…

Um sereno avô permanecia de pé, e procurava com os olhos os calções riscados embrenhados no seu jogo de vencedor, felizes!

O Reino da Imaginação
Agosto 25, 2014

 

Degraus sem Trono

No reino da imaginação, todos os servos de si mesmo vestem-se de soberanos, coroam-se de falsa ambição, e escorregam sem perceber nos degraus sem trono!

A Voz do Rosto Mudo
Agosto 25, 2014

Indefinições

O rosto indefinido e mudo não é uma pessoa, mas uma janela aberta no terraço do mundo com uma cortina bordada de segredos, baloiçando na vidraça!

Os Travões do Coração
Agosto 25, 2014

Onda Arrebatadora

Os travões do coração ferem o amor, entristecem a imaginação, e amolecem a razão.

A Criança Estilhaçada
Agosto 25, 2014

Luz de Esperança, 2014

A criança que chora a solidão do lar perdido, que  rasga o peito de saudade pela família desaparecida, que mede o medo da guerra pelos gritos aflitos das mães, perde a inocência na escuridão dos escombros da vida, cresce nos bombardeios da dor,  limpa as feridas da injustiça com surdos soluços, reconhece no homem o animal mais perigoso do universo!