Archive for Outubro, 2008

O Avô Contador de Histórias – 2.ª Página
Outubro 2, 2008

Adorava contemplá-lo na sua azáfama apressada, ritmica e constante, embora me entristecesse assistir à desmontagem da fugaz exposição do pescado, ordenado geometricamente por espécies sobre a areia prateada.

O meu coração saltava de alegria quando, por vezes, o chamava cá do alto e ele me respondia, acenando-me sem parar, mas sobretudo quando já tinha passado a hora do almoço e eu corria ágil e leve à frente da minha mãezinha com uma “buchinha” e fruta para lhe oferecer – que delicioso abraço que ele me dava com os seus braços de gigante protector e que ternura embaladora sussurrava ao meu ouvido: “minha passarinha!”

Mas apressava-se a despedir-se, pois tinha de continuar a trabalhar e especialmente por que a ribeira, gruta magicamente colorida para os meus olhos e curiosidade de criança, apesar de não perceber, nem conhecer algumas palavras que os homens trocavam entre si, não era lugar para meninas!… – e aquelas senhoras que lá estavam a ajudar?!…

(continua)

O Avô Contador de Histórias – 1.ª Página
Outubro 1, 2008

O meu avô contador de histórias era um homem muito alto, magro, de porte distinto e sorriso terno donde sobressaiam os dentes mais certinhos que já vi – cheguei a perguntar-me, na inocência da minha tenra idade, quem lhos tinha cortado tão bem!

O meu paizinho dizia-me que o meu avô contador de histórias e o que eu não conhecera eram os dois homens mais altos da vila, e eu não conseguia compreender por que tinham casado com umas mulheres tão pequeninas!

Admirava-o, fascinada, do muro debruçado sobre a ribeira, com o chapéu enorme na cabeça e as caixas carregadas de peixe a cintilar, que os compradores iam adquirindo com um “chui!”.

(continua)