Archive for Setembro, 2016

O Murmúrio das Águas
Setembro 30, 2016

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O murmúrio das águas é o rosto da luz branca, lavando as sombras dos rostos com sal, doçura de flores marinhas!

As Estórias do Esu – O Barco de Fibra
Setembro 30, 2016

Menino do Mar

” – Andei com o seu pai ao mar, no barco dele, durante muito tempo! Era um bom mestre, um bom homem! Quem não conhecia o Esu e quem não gostava dele?” – referia o antigo pescador com saudosa alegria”

E o companheiro de banco de jardim reafirmava, fazia suas as palavras que dançavam na folhagem das árvores, falava sobre o armazém, os bons bocados passados com ele, o peixe que repartia!…

” – O meu filho, que você conhece, ficou a cuidar no barco de fibra, que nunca mais se vendia, até que um dia apareceu por cá um homem do Algarve que queria comprar barcos, mas era para ficar com os papéis, as licenças para a pesca; levou-o quase dado.”

A interlocutora confirmava, entristecida pela dissolução do sonho do pai e mais ainda pela eterna saudade que a acompanhava.

E… como quem conta um conto de encantar, o Sr. Asal continuava:

” – A sua mãe acabou por dar o motor ao meu filho, ou pagou-lhe qualquer coisinha, já não me lembro! Foi mal empregado o destino daquele barco tão bom para o seu pai andar por aqui a apanhar um peixinho, se ele tivesse ficado por cá mais uns anitos.
Agora é o meu filho que não consegue vender o dele; um barco bom e por bom preço, mas ninguém lhe pega; o mar está seco; já não se pesca por aqui.” – lamentava o Sr. Asal

” – Bons tempos que passei com o Esu e outras pessoas! Grande amigo!” – salientava, saudoso, o outro Sr., que já perdera nas palavras o doce e alegre sabor do pão de milho que a mãe lhe dava e aos irmãos quando diziam que tinham fome.

” – Tenho pena de não a ver, muita pena, mas… os meus olhos…! – lamentava o Sr. Asal apoiado à sua bengala de invisual com uma distinta postura, lembrando-me Luís Borges.

” – Também eu tenho, Sr. Asal!” – expressou a filha do Esu, sensibilizada!

” – Não tem mais pena do que eu! Tinha-a conhecido logo, com certeza!” – , insistiu-se, despedindo-te com um: “Até qualquer dia! Olhe, também conheço a família toda da sua mãe, e é bem grande! Passe bem!”

“- Muito Obrigada! Tive muito gosto neste bocadinho! Obrigada! Passo por aqui um dia destes!” – despediu-se a filha do Esu, sentindo-se abraçada pelo pai nas sílabas que haviam saído do coração daqueles bons homens da sua aldeia de incontestáveis e grandes riquezas: o mar e as pessoas!

A Amargura do Avarento
Setembro 30, 2016

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O avarento é uma máquina de calcular sempre pronta para somar e multiplicar, mas faltam-lhe as teclas de dividir para as operações de partilha do coração e a de subtrair para acertar as contas com a tabuada da razão!

Sorriso do Dia – Encontro Colorido e Adocicado
Setembro 30, 2016

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O lenço encarnado ao pescoço enrolado olhou para o lado e perguntou ao laço amarelado no cabelo pendurado:

– O que fazes aqui, tão mal encarado? Já foste ao médico para seres tratado?

– E tu, encarnado, sem riso nenhum, todo envergonhado?

– Quietos, meninos! – disseram o pai rosado e a mãe de rosto torrado.

– Põe a língua para dentro, encarnado mal-educado! – disse o laço amarelado todo agitado.

– Para de olhar para mim! Dá-me um rebuçado, tens tantos na algibeira! Vá lá, laço amarelado, mas dá-me um alaranjado, para eu ficar calado! – pediu o lenço encarnado meio desatado.

E…

O lenço encarnado e o laço amarelado chuparam os rebuçados, como bons amigos, sem nenhum ficar irritado nem lambuzado.

Gente Boa da Minha Aldeia – O Milho-Pão e Fofo Colchão
Setembro 30, 2016

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Pairava na melodia das palavras o aroma do pão de milho da infância amassado pela mãe na voz cálida de um dos senhores, saboreando o entardecer da vida num banco do jardim saudoso da música dos seus repuxos.

” – Quando dizíamos à minha mãe que tínhamos fome, ela ia buscar pão de milho e dava-nos; o pão de trigo era para a refeição!” – confidenciava o senhor mais forte aos seus atentos companheiros, com um sorriso sob o bigode desgastado pelos anos, coroado com o brilho de imagens sorrindo sob as redondas e grossas lentes.

” – Naquele tempo, era assim!” – respondia o senhor invisual, o mais novo, com o seu distinto chapéu salpicado de saudades do tempo em que era pescador. “E as mulheres iam para o campo, tiravam os vestidos das maçarocas, de graça; até faziam um favor aos lavradores e traziam o recheio para os colchões, que ainda punham a secar, e vendiam o que sobrava! Vinham carregadas, coitadas!” – continuava.

” – É verdade! – confirmava o senhor de lábios gulosos do pão de milho da sua saudosa mãe. “Já havia colchões de lã, mas isso era coisa para os ricos.”

O terceiro senhor, denotava uma silenciosa e profunda tristeza, limitando-se a concordar, quase sempre com a cabeça, mas ainda disse que na sua terra, a cidade vizinha, também era assim, sorrindo, contudo, também ele com ar malandreco, ao mesmo tempo que levava a mão à cabeça, quando o pescador disse, sorrindo:

” – Mas… aquilo fazia muito barulho! Uma pessoa nem podia mexer-se!”

E…

Atraída pela sua animação, eis que se aproxima uma senhora das suas idades com nome de flor, mulher rija, de peito erguido, voz forte e clara, perguntando-lhes por que se riam, mas o homem da faina, que já não enxergava o seu mar e que lamentara não poder ver o rosto da filha do seu saudoso mestre, que por ali passara e os cumprimentara, saltou da onda da conversa neste tom:

“- Olha a flor cantadeira!”

” – Cantadeira, sim, senhor, mas na minha terra!” – respondeu-lhe, expedita.

E…

O terceto, que se tornara num florido quarteto continuou numa animada cavaqueira com a serenidade de quem não tem pressa e dispõe da vida inteira para ser acariciado pelo sol de outono, brilhante e amigo, aquecendo-os, despertando-lhes douradas memórias, arrancando-lhes sorrisos.

Abraçar o Desconhecido
Setembro 30, 2016

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Ninguém compreende o que desconhece, nem ouve o grito do que perece, nem tece carícias ao dia que amanhece se o sol do seu coração não acolhe a vida que acontece, nem aquece o mundo com o sorriso de esperança e com o perdão que emudece e enaltece!

A Apologia do “Eu”
Setembro 29, 2016

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A apologia do “Eu” é um pião rodopiando, rodopiando, entontecido, até cair no chão prisioneiro das grades da confusão.

Histórias de Fantoches – A Liliana, 5.ª Página
Setembro 26, 2016

A Liliana

REGRAS A APLICAR, ANTES DE NA PISCINA ENTRAR

1.º Tomar banho no balneário com gel de banho e chinelos;

2.º Usar o equipamento: calções ou fato de banho; touca e óculos;

3.º Molhar-se novamente no chuveiro do recinto da piscina;

4.º Não vá à piscina se:

– estiver constipado ou adoentado;

– tiver borbulhas, outra irritação na pele, ou feridas: no na boca; nos lábios; nos joelhos, etc.

5.º Depois de sair da piscina, deve tomar um banho completo para retirar o excesso do cloro.

A Enfermeira Liliana também elaborou folhetos, com a ajuda dos “meus meninos”, como ela diz, sobre: a higiene, a alimentação e todos os assuntos relacionados com a prevenção e cuidados de saúde humana.

O marido da Enfermeira Liliana, o Vasco, é Técnico de Saúde Ambiental, e fazem trabalhos conjuntamente sobre a preservação da natureza e bem dos seres vivos.

Andam muito contentes, porque ele está a participar numa investigação científica de recolha de mosquitos, utilizando uma lanterna e uma rede parecida com uma ventoinha, a fim de serem prevenidas doenças para a humanidade.

A Liliana e o Vasco têm duas filhas gémeos: a Sofia e a Sara, iguaizinhas, e muito amigas.

Os pais só as distinguem, porque a Sofia tem as bonecas com ligaduras e pensos, põe palhinhas dos sumos na boca da família para saber se alguém tem febre, anda atrás dos avós, para lhes medir a tensão com uma fita do cabelo, que aperta com uma mola, e que está presa a uma máquina de calcular inutilizada; a Sara anda sempre a recolher pingos de água para análise, a limpar tudo e a fazer observações pela casa com bolachas em forma de cone.

Ao serão, divertem-se muito, porque o pai é um grande músico e todas o querem acompanhar, nem que seja a cantar!

ADIVINHA:

– Uma história que a Enfermeira Liliana contava aos seus meninos e convida alguém de quem gostes a imaginar outra.

– O que a Enfermeira Liliana escreveu sobre a higiene – pessoal e dos espaços – e a alimentação.

Faz jogos sobre estes temas com a tua família e amigos e verás como é divertido!

Beijinhos da Maria

FIM

A Cegueira da Ambição
Setembro 26, 2016

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A ambição é uma escalada perigosa quando a meta fica acima do nosso horizonte, e se resvala passo a passo na espumosa cegueira da supremacia, rompendo os mal-cosidos bolsos com falsas pedras, ficando só e de mãos vazias!

Gente Boa da Minha Aldeia – O Menino Mal e Bem-Humorado
Setembro 26, 2016

Barco Branco 8, 2012

Era um menino num carrinho de supermercado muito bem sentado, pedia um comboio, insistente e mal-humorado.

Era uma senhora que o vir, há dias, a pedir balões na farmácia e a afirmar que já era grande para utilizar a balança de adultos, comprovando-o, lembrando o petiz deste episódio, realidade que o deixou desconcertado.

Era o comboio a desaparecer da linha bucal do menino, aparentemente resignado.

E…

Quando a senhora pagou, e despediu-se do menino muito calado, ainda o ouviu gritar, muito educado, simpático e mais animado:

” – Bom dia, senhora bonita!”

Era uma “senhora bonita” aos olhos do interessante e grande infante que, certamente terei pensado e dito: “bonita” em vez de: obrigado!”