Archive for Abril, 2012

A Menina Azul – O Giz Perfumado pelo Tempo
Abril 25, 2012

Criança - Professora by lusografias

O giz branco era algo especial, mágico, sobretudo quando a Sr.ª Professora abria uma caixa e entregava aquela espécie de caneta-lápis sem aparo, nem bico, mas leve, suave ao tato e frágil, na mão de qualquer menina da turma, que se entristecia quando se partia!

O giz branco não borrava o caderno, não partia o bico e não exalava aquele perfume a madeira, mas cheirava a fresco, e… por vezes, arranhava o quadro, ferindo os nossos ouvidos, escancarando as nossas bocas com sorrisos!

Um dia, descobri que a minha mãe tinha um giz branco na sua colorida caixa da costura, e um azul, mais longo, mais espalmado, e mais pesado, que utilizava artisticamente para traçar os modelos da roupa nos tecidos!… Fiquei fascinada!

Anos mais tarde, deixei-me encantar pelo quadro da escola nova, cor de relva, macio, e comprido como o canteiro grande do jardim da vila, sobre o qual o giz branco deslizava silencioso como uma bailarina!

Hoje, abri a minha modesta caixinha de costura, em nada semelhante à da minha mãe, rica de botões e de linhas, e… lá estava um pedacinho de giz branco, macio, perfumado de recordações sem fim, e… deliciosamente pesado como um enorme saco de brinquedos!

A Farrapeira
Abril 23, 2012

Livro- A Farrapeira by lusografias

“Era assim que chamavam à Clarita na escola da Câmara da sua aldeia, onde andava porque os pais eram obrigados a mandá-la ao colégio, mesmo contra a vontade. Na sua rudeza diziam: “Também nós não sabemos ler e ganhamos a vida”.
Felizmente eram obrigados e a Clarita não ficaria analfabeta. O pior era vesti-la! (…)”

Este livro, “uma edição da Agência Portuguesa de Revistas”, tem o preço inscrito num “ovo” nestes termos:
“Continente
1$50
Ultramar
2$00″.

A história da Clarita, como o próprio título indica, “para todos era só “a Farrapeira”, incluindo a professora idosa que “quando a chamava para a lição, ia a dizer:
– Venha cá a Fa..
Emendava depois.
– A Clara.”

Mas… um dia uma professora mais jovem ocupou o lugar da outra, e perguntou, atónita:

“- Quem é aqui a Farrapeira?
– Sou eu, senhora professora – disse a Clarita, sem poder conter as lágrimas.
(..)
– Mas como te chamas? Farrapeira é apelido?
– Não minha senhora.É pobreza! (…) É alcunha (…)”

A professora foi respondendo às outras alunas salientando-lhes os seus defeitos: “malcriada”, a uma menina que o fora para a mãe no dia anterior; a outra “a cruel”, que empurrara um menino pobre, que lhe pedira uma migalha do seu bolo…

No final da aula, falou a sós com a Clarita e “mandou-a tomar banho, lavar o cabelo, e deu-lhe um vestido da filha”.

“No dia seguinte, quando Clara apareceu no colégio, todas a olharam embasbacadas.”
(…)
Ante o espanto das alunas, a professora disse:
– Minhas filhas, como gostam de pôr aicunhas, peço-lhes que estejam à vontade.
Que alcunha acham que merece a Clara, agora?
Em coro todas respondera:
– Linda!
A professora sorriu.
– Foram justas. E assim serão todas se souberem pela visa fora ser boas e compreensivas. (…)”

A Cidade Amarela – O Garrafão Trepador
Abril 17, 2012

Garrafão Trepador by lusografias

Na cidade amarela, um garrafão trepa pelas janelas sob o olhar atento do pinheiro mágico como um balde a sair do poço, mas não
se ouve o dançar da água no zinco de plástico, nem se corre o agradável risco de se tomar um banho, ao mais leve sinal de desequilíbrio.

Lá em cima, uns braços enrugados debruçam-se, e umas mãos calejadas pelo tempo puxam pela corda lenta e meticulosamente, depois do sinal dado:

– Já podes!

E… outro garrafão poisado no passeio respira fundo, enquanto aguarda a sua vez, confiante nos gestos de mestria dos homens!

Reflexos, Ondas de Silêncio!…
Abril 16, 2012

Candeeiros by lusografias

Reflexos meus em ti são  candeeiros  brancos  no espelho da vidraça transparente  do encontro,  brilhando no  bosque florido de ternura, baloiçando no  sussurro  sorridente da  folhagem, dançando na sinfonia  colorida dos pássaros,  correndo na singela alegria de criança, sorrindo, saltando, silenciosa!