Archive for Junho, 2010

A Chegada do Circo à Cidade Amarela
Junho 27, 2010

A Cidade Amarela está mais alegre e colorida: chegou o circo – amarelo e branco!

As crianças olham para o toldo às riscas amarelas e brancas e esboçam sorrisos de arco-íris, pintando sonhos de esperança de assistirem ao espectáculo, antevendo a festa dos palhaços, as habilidades dos malabaristas e as brincadeiras dos animais;.

Os pais fazem contas ao tempo e à vida, para poderem embarcar com os seus filhos nesta aventura.

Os avós suspiram de saudade e disponibilizam-se para acompanhar os netos.

E os curiosos empolgam-se com a novidade.

Pela manhã, a Cidade Amarela ainda dorme e no circo de riscas amarelas e brancas os artistas, os homens e mulheres, e os animais também, obedientes à harmonia da vida, que dispõe de um tempo para tudo.

Bons-Dias Perfumados
Junho 25, 2010

Há mãos invisíveis que colocam rosas na jarra da secretária e as vão substituindo, surpreendente, discreta e silenciosamente.

Respondo a estes bons-dias perfumados com um um sorriso verbalizado, que alguém recolhe, porque no dia seguinte já não o encontro: “Muito Obrigada pelas flores!”

Estas gentis e generosas mãos, que colhem as rosas do jardim e mas oferecem só podem ser as que, honrada, solitária e dignamente se ocupam do espaço físico ao cair da noite – bem-hajam!

A Menina Azul – Os Saltos na Linha
Junho 25, 2010

De mão dada com a mãe, a menina magricela saltava na sua leveza de uma trave de madeira – grossa, lisa, macia e esverdeada – para a outra, como se subisse uma escada de degraus gigantes para as suas perninhas, e se os espaço entre elas, repleto de pedras negras, fosse um precipício ao qual tinha de escapar-se.

Cada salto bem sucedido era um incentivo para vencer a confiança, que não manifestava antes de arremessar-se no ar, uma alegria, uma festa que a mãe lhe oferecia, que a menina aplaudia, e que a incentivava e a preparava para a vida.

A linha era muito comprida para aquelas pernas tão pequeninas, uma ponte enorme que as levava até a um ponto de referência onde a mãe e a filha caminhavam pelo campo até chegarem a uma pequena e verdejante ribeira, que de moinhos só tinha o nome, rica de gente simples, sorridente e acolhedora.

A menina e a mãe percorriam a linha do poente para o nascente sentindo as carícias matinais do Sol nos seus rostos, como se fossem descobrir o mundo, e, nesta divertida e encorajadora brincadeira, um dia a menina disse que era capaz de saltar sozinha de uma trave para a outra: parou, avaliou a distância, deu um tempo a si própria e pisou a “ponte” seguinte sem ajuda.

A partir desta pequena/grande vitória, a mãe só lhe dava a mão quando tinham pressa, porque a menina precisava de alguns minutos para respirar fundo e preparara-se para saltar e alcançar as metas sucessivamente, o que conseguia, sem que os seus joelhinhos trémulos tivessem tocado alguma vez nas pedras negras.

Esta experiência foi um trampolim portátil para a menina-mulher enfrentar o medo, aprender a ultrapassar os obstáculos e a vencer ao longo da sua vida – Obrigada, mãezaça, por esta simples, mas preciosissíma lição de vida!

A Indignação de uma Jovem
Junho 22, 2010

A “carrêra” faz outro percurso. Tornaram-se tristes as viagens. Falta-lhes a alegre e comunicativa sabedoria dos idosos, mas ontem, uma jovem quebrou o silêncio e começou a tecer elogios ao seu novo trabalho, que só tinha um aspecto de que ela não gostava: deitavam comida fora todos os dias!

Pensei tratar-se de um restaurante, que não aproveitasse os restos de comida das travessas, mas enganei-me.

A jovem, de rosto contraído, referia-se dolorosamente ao facto:

– Todos os dias deitam sopas fora! Sopas muito boas e grossas! E o arrozinho? Tanto arrozinho e tão bom! E com tanta gente a passar fome no mundo e por aqui! Fazem muita sopa, para as crianças mais pequenas, para as outras e para os adultos, sempre a panela cheia, mesmo sabendo que sobra sempre!
E eu vou sempre sugerindo que não encham tanto a panela e pergunto todos os dias se é mesmo para deitar fora, e respondem-me sempre que sim!… Custa-me tanto fazer isto, mas não sou eu quem manda!…

Ligações
Junho 22, 2010

Parque de Santo André, 2010

Assistir à criação de uma obra de arte é como acompanhar o crescimento de uma criança no ventre materno.

O Carrinho
Junho 22, 2010

– Cheguei ao parque, estava sozinho! Olhei à volta, nem um amiguinho! Fiz o regresso devagarinho. Entrei na garagem, fiquei fechadinho. Senti um arrepiozinho, nem vi um vizinho! Faltou-me o calor de um acenozinho! Suspirei e falei baixinho: Que solitário carrinho! Se eu fosse um burrinho, davam-me carinho.

O Novo Caminho
Junho 21, 2010

Não te inquietes com a descida, porque à tua frente tens um novo caminho.

Manhã de Primavera na Cidade Amarela
Junho 21, 2010

Na Primavera, pela manhã, esvoaçam finos flocos de algodão, que se desprenderam das árvores. Cansados dos sopros agressivos dos humanos e do ladrar dos cães, afastam-se e deitam-se como chuviscos na aconchegante relva, sob a copa redonda, espreitando os raios dourados que beijam a árvore, e adormecem.

Afasto-me para não os acordar e atravesso a silenciosa Cidade Amarela onde a vida começa a despertar:

– um avô segurando uma pequena mochila na mão e o netinho na outra;

– um jovem casal sussurando entre si;

– dois ou três vultos à porta do supermercado;

– um cheirinho a pão fresco saindo de uma padaria;

– dois desportistas, um casal de meia idade, outrora residente numa cidade vizinha, junto à praia, desfrutando a delícia de mais um dos seus habituais passeios matinais, partilhando a vida;

– pessoas dirigindo-se para os Correios, ainda encerrados;

– uma avó a acenar à neta da sua janela;

– o sub-gerente de um banco com uma vassoura numa mão e uma pá na outra à espera que uma cliente se afastasse da caixa multibanco, para poder apanhar os papéis acumulados no recipiente e os atirados para o chão durante o fim-de-semana, com a ajuda do gerente…

– o sino da igreja a tocar as nove badaladas.

O Bando – 4.ª Página
Junho 19, 2010

O Calaças pegou na andorinha para fazer uma exibição, mas travou contra o poço, saiu do “bote”, olhou para o céu, admirando a dança do capacete e dos ténis do ET, que, bamboleando-se, vinham na sua direcção, atraídos pelas suas guedelhas… E zás! Viu-se aconchegado num tapete de fofa e húmida esperança, sorrindo para as estrelas que cumprimentava de olhos fechados.

O Malaico ajudou-o a levantar-se, enquanto o Elexas, todo penteadinho, ria a bom rir, apontado para o cabelo do exímio condutor.

– Tchi! Vocês não percebem nadinha disto! – criticava o Olhos de Água, dirigindo-se à andorinha, para levantá-la.

– Tu é que és o mecânico, vê lá se isto “funcemina” – adiantou o Múmia, aproximando-se.

– Vocês sabem muito, sabem, mas isso é só conversa – respondeu o Olhos de Água.

– Vamos mas é comer qualquer coisita, porque isto já chega por hoje – propôs o Banca.

– Eu posso pôr um som para a malta ouvir, querem? – perguntou o Artista.

– “Bora” lá, “ca ´nha mãei” tem uns bons petiscos “p´rà” gente!

(continua)

Ouvir o Silêncio
Junho 19, 2010

Na quietude da aurora, o silêncio, e a respiração contida, de bico de pé, para não o acordar.