Archive for Outubro, 2009

Sementeiras Perdidas
Outubro 30, 2009

Dedo no Ar

Não abras a mão ao “homem-menino”, porque ele não percebe que está cheia.

Não lhe dites palavras, porque ele não entende o seu valor.

Não lhe ofereças flores, porque, desconhecendo-as, ele agarra-as e esmaga-as.

Não lhe mostres uma pomba, porque ele arranca-lhe as penas, em vez de acariciá-la e deixá-la voar em liberdade e paz!

Sacode o pó das sandálias, afasta-te e lança as sementes em terreno mais fértil!

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D. Pimpona – 8.ª página
Outubro 30, 2009

Coração Florido do Poeta, 2009

– Ai, ai, lindo jovem, que reconheço pela voz, acuda-me, por favor! – suplicou a D. Pimpona!

– Mas é a Sr.ª D. Condensa de Altifalante e Entrudo que está de pernas para o ar? E o que faz mergulhada nas sopas de leite do seu felino? Já sei! Foi apanhada pela criadagem quando fazia a sua máscara de beleza. O leite é de burra, com certeza! E retirou a receita dos banhos da Cleópatra, diz-me o meu dedo que adivinha! Vou ajudá-la, se é isso que me pede! – adiantou o mancebo.

O jovem encheu o peito de ar, e os botões da camisa saltaram para dentro do aquário, que o gato namorava, as mangas abriram-se como pára-quedas e os músculos incharam como balões, os cabelos presos na nuca soltaram-se e eriçaram-se como palha-de-aço. Então, inclinou-se sobre a D. Pimpona, pegou-lhe ao colo, como se fosse uma pena, e dirigiu-se para a cama, mas deu um pulo quando um saco de esferas caiu do decote da Condessa e escorreu sobre elas, deixando-a rebolar no chão.

(continua)

Jogar em Casa
Outubro 29, 2009

Sorriso

Jogar em casa, marcar golos e defender com mestria as bolas atiradas pela equipa adversária foi uma merecida vitória!

Encontros Revitalizantes
Outubro 28, 2009

Gaivotas de S. torpes, 2009.JPG

O dia de ontem foi próspero em encontros com pessoas interessantes, simpáticas, saudosas:

– uma mãe cansada, mas sorridente e imbuída de força para viver, motivada pela necessidade de preservar a sua saúde e vitalidade para poder continuar a prestar assistência ao seu filho, para não votá-lo à solidão com a sua partida antecipada, que me agradeceu ter-lhe acenado, porque não me reconhecia ao longe;

– a Sr.ª da pequena papelaria e o esposo, manifestando grande alegria, perguntando pelos filhos, seus antigos clientes de: cromos, berlindes, bolas “saltitonas”, canetas e lápis especiais, livros, relíquias que descobriam nas prateleiras apertadas e no compartimento do lado, também magicamente exíguo:

– o casal abençoado pelo amor, pela alegria e pela partilha, com o supermercado sem clientes, falando da descendência com entusiasmo e esperança – que exemplo o do Sr. que criou os filhos da esposa, viúva, e que embala a sua neta, amorosamente fascinado!;

– uma Sr.ª ainda jovem, cuja cor do cabelo contrasta com o seu rosto sorridente e sem rugas, com a leveza do seu corpo e com a sua participação nos eventos culturais, que me abriu os braços na estação de serviço, a quem retribui os beijos que me mandara pelo meu filho mais velho, “muito bom falante”, segundo ela;

– a D. B., uma flor que criou raízes há muito nesta terra, que viu crescer as suas três filhas no seu ventre, que a consolou na partida repentina do seu marido e que a alegrou enchendo-lhe o regaço de netos, que vê em mim qualidades, que considero suas.

Tudo “gente fina” como dizia o Sebastião da Gama dos seus alunos, e importante para mim, que me proporcionou alegria e bem-estar! Obrigada!

D. Pimpona – 7.ª página
Outubro 28, 2009

Coração Florido do Poeta, 2009

As duas empregadas tentaram levantar a D. Pimpona, mas, cada vez que parecia que estava a erguer-se, caia novamente, como se fosse um boneco articulado, ou talvez tivesse pedras nos bolsos do vestido, e o pior é que esta situação embaraçosa e os gemidos resmungões da Condensa desencadeavam uma incontrolável vontade de rir a ambas, que tentavam evitar, desviando o olhar uma da outra, apertando os lábios, tirando-lhes as forças.

– Sr.ª Condensa D. Pimpona, nós temos de ir buscar ajuda, senão fica ali deitada até que a brigada entre nestes aposentos, e a sua carinha vai parecer uma bolacha, toda espalmadinha. Já imaginou uma desgraça tão desgraçadinha? – retorquiu a Sr.ª obesa, tentando ajudar.

– Não pode ser, tirem-me daqui, por favor, senão, como é que depois ponho o nariz onde não sou chamada? – suplicou, engasgada, a D. Pimpona!

– Vamos tentar só mais uma vez, D. Pimpona – declarou a jovem.
Um, dois e …

– O que é que se passa aqui, que barulho é este, que ninguém pode descansar nesta Alcáçova? – perguntou o mancebo, ao entrar.

(continua)

Um Presente Chamado Música
Outubro 27, 2009

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A música é um presente que não devemos forçar os vizinhos a aceitar.

Perder a “Carrêra”
Outubro 27, 2009

A “carrêra” faz-me muita falta, mas perdi-a!

Sinto muita saudade:

– das Sr.ªs divertidas, que saboreavam a viagem como uma festa, contando e inventando peripécias;

– das esposas que falavam sobre os feitos dos maridos, uns dependentes e alguns emancipados;

– das “patroas” desgastadas pelo tempo e pela vida, referindo-se aos seus “homes” reformados, uns “inteirões” e outros, coitados, “muito acabados”;

– dos dignos e distintos idosos, de chapeú – a maioria – ou boné, aperaltados com o melhor fato – “à justa” ou “folgado”- , para irem à vila, que há muito é cidade, a contarem as moedas das parcas pensões para pagarem os bilhetes;

– das mães atrás dos filhos ainda crianças, imagem de amor e esperança;

– dos jovens sem futuro sorridente, aparentemente indiferentes ao que se passava à sua volta, mas com comportamentos sociais adequados;

– dos “estudantes” sem mochila, nem preocupação, uns de língua de fora, outros com os pés no chão;

– do motorista “bem caçado”, do descontente, do bem educado;

– do pára e arranca nos apeadeiros, deixando-me a adivinhar donde vinham e para onde iriam os passageiros;

– dos punhados de riqueza humana e cultural que colhia diariamente!

Sorrisos do Dia
Outubro 26, 2009

Sorrisos do dia são:

– as pontes que se atravessam;

– o reconhecimento dos terrenos que se trilham;

– as paisagens que se admiram;

– os passos em sintonia com as pessoas e o mundo;

– o desejo de bom dia, que deixo aqui e agora!

D. Pimpona – 6.ª página
Outubro 26, 2009

Coração Florido do Poeta, 2009

Nota Prévia

Retomo esta história, à qual não me foi possível dar continuidade na devida altura, o que lamento, e que não justificaria que a deixasse a meio, apesar do tempo decorrido.
E, para “encontrar o fio à meada”, indico a localização das páginas anteriores:
– 1.ª a 3.ª página: 24 a 26 de Março de 2007;
– 4.ª página: 28 de Março de 2007;
– 5.ª página: 01 de Abril de 2007.

D. Pimpona – 6.ª página

A D. Pimpona ficou deitada no chão empoeirado com cara esborrachada sobre as sopas de leite do Pimpãozinho, o seu gato de estimação, grande, felpudo, riscado de amarelo e branco, uma espécie de guarda que lhe oferecia garantias de descanso na imprescindível hora da sesta e no inquietante sono nocturno.

As empregadas da Alcáçova Assombrada estremeceram com medo da reacção da D. Pimpona, mas a vermelhidão do rosto da jovem revelava o seu esforço para esconder um sorriso divertido pela cena a que assistia.

– Mas o que vem a ser isto? – barafustava a D. Pimpona, enquanto se tentava levantar, tropeçando no vestido, levando a mão à testa para afastar o cabelo dos olhos, desgrenhada e frustrada.

– Não sabemos, D. Pimpona! Passam-se coisas estranhas nestes aposentos. Nós nem sabíamos que a Sr.ª Condensa fazia malha – justificou a Sr.ª obesa no seu saber experiente.

– Qual malha, qual carapuça! Malha?!! Eu faço, por ventura, uma trabalho da plebe? Não vê ali o meu bastidor, no qual, por acaso não toco desde que a tia, a baronesa Mãozinhas de Fada, que Deus a tenha, partiu para o paraíso, e o cavalete com a tela onde desenho as caricaturas das cenas que se vivem no dia-a-dia na Alcáçova, para ficarem para a história?

– Desculpe, D. Pimpona! Não queria ofender: Toda a gente da Alcáçova Assombrada e da Aldeia de Alegria sabe que a Sr.ª Condensa é uma grande “caretista” e uma “faladista” como não há outra na região. Dizem “inté” que quem a ouve falar não a leva presa – continuou a empregada.

– Deixe-se mas é de tretas e venha ajudar-me, e você também, sua coluna de cristal, e pare de chamar-me Condensa, ouviu? Até parece o mancebo que despachei há bocado – ordenou a D. Pimpona.

(continua)

O Amola-Tesouras
Outubro 25, 2009

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O amola-tesouras percorre as ruas do bairro chamando as donas de casa com a sua lânguida gaita.
Quando a modista se aproxima satisfeita e lhe entrega as tesouras que roem os tecidos em vez de cortá-los, saúda-a optimista, depois observa-as, acciona a roda de esmeril com o pé e afia-as com estalidos faiscantes.
Uma Sr.ª idosa, debruçada à janela, resmunga contra a chuva que o amolador pressagia, afirmando:
“- Bate sempre certo, já a minha avó dizia!”