Archive for Outubro, 2013

A Mudez da Silenciosa Solidão
Outubro 30, 2013

Flor Lilás, 2013

A mudez ecoa silenciosa na clausura dos resignados e de revoltados nas curvas da estrada da vida, apagando lentamente as memórias na solidão das paredes brancas manchadas de gemidos e de saudades da vida vivida, da vida esquecia, e da vida sonhada, como uma vela na escuridão, vertendo dolorosos pingos perdidos na sua transparência com a sua respiração.

O Sonho de Tule – “Vou Levar à Margarida!”
Outubro 30, 2013

Um sonho de tule by lusografias

A pequena bailarina dos olhos de mel sorria apressada, enquanto a mãe a ajudava a mudar de roupa, depois da aula.

A sua coleguinha, o sonho de tule branco sorria, e disse-me o seu nome, concordando comigo quando opinei que também ela era bonita, e que dançava muito bem!

A bailarina dos olhos cor de mel olhou para o seu saco, tirou dois “bem-te-quer” amarelos, já um pouco murchos, que certamente apanhara no caminho,  e começou a correr pelo amplo e comprido corredor com os olhos a brilhar de felicidade, dizendo:

– Vou levar à Margarida! Vou levar à Margarida!

Desapareceu à minha frente, dirigindo-se à sala onde as bailarinas do sonho de tule já de corpo moldado e passos bem marcados ouviam as instruções da professora!

Os Segredos de Procriar
Outubro 30, 2013

O Templo da Vida, 2013

Na raça humana, procriar é muito mais do que gerar um ser.

É pegar numa criança, e amá-la!

É brincar com ela, e ensiná-la!

É saber dizer-lhe sim, e não!

É mostrar-lhe caminhos, e apresentar-lhe o mundo

É criar laços com ela, e respeitá-la como ser único com asas!

Estórias de Meninas – O Vestido de Chita da Menina dos Olhos de Luz
Outubro 30, 2013

Tia Deolinda

A Menina dos Olhos de Luz , que era uma princesa, e que guardava o dinheiro das gorjetas no seu mealheiro, um dia perguntou à mãe se podia comprar um tecido para a irmã, a Menina Tó, muito dada a artes manuais e a discursos inteligentes e persuasivos, fazer-lhe um vestido.

A mãe ainda resmungou,  mas concordou.

No dia seguinte, a Menina chegou a casa da irmã com um linda chita florida.

Decorridos poucos dias, foi pela primeira vez passear o seu lindo vestido com folhos junto aos braços cavados. Todos a elogiavam! Os rapazes assobiavam com dois níveis, cobiçando-a!

De vez em quando, a Menina olhava para os vidros das janelas, mirando-se ao espelho, e sorria!

Nm dia de verão, daqueles em que o sol abre os braços dourados antes das estrelas adormecerem, levantou-se muito cedo, tal como as irmãs, e o irmão mais novo.

Despacharam-se rapidamente, e foram à praia, que, àquela hora, era só sua, e dos banheiros e ajudantes, que montavam os toldos, e estendiam os das barracas.

A Menina e as irmãs escolheram um toldo, entraram, e tiraram a roupa.
O vestidinho de chita ficou muito direitinho na areia branca e fina.

E… foram a correr tomar banho, encolhendo-se com a água fria, rindo, brincando, divertindo-se, felizes!

Quando regressaram ao toldo, os olhos da Menina encheram-se de lágrimas: o seu vestido de chita florido com folhos junto às mangas cavadas tinha desaparecido!

Ficaram todos mudos, paralisados!

Percorreram a praia, mas não o encontraram como previam!  Ainda se algum cão andasse por lá, e lhe tivesse pegado, certamente já o teria largado.

O irmão foi a casa buscar outra roupa. Esperaram por ele.

Depois, regressaram a casa silenciosos e tristes.

Como é que a Menina dos Olhos de Luz ia juntar dinheiro para comprar outra chita?

E… o vestido nunca pareceu!

Hoje, a Menina que é uma mulher feliz com mais de cinquenta anos de bodas, o colo cheio com quatro filhos, cinco netos e uma bisneta, ainda recorda com saudade o seu vestido de chita florida com folhos!

A Minha Aldeia – O Teatro
Outubro 27, 2013

Barco com trevo

Na minha aldeia há um grupo de teatro, que desce à rua por cá, e faz-se ao largo pelo mundo nas cristas da criatividade bem encenada!

Ontem, oferecia mais um momento de prazer de pasmar à população, mas desta vez para ensinar e encantar a criançada com: A Magia das Águas!

E… quanto ela estava atenta!

E… de boca aberta!

E… quanto batia palmas!

E… cantava!

E… quanto sorria! Sorria!

Ah! E… os barcos a navegar nas pequenas ondas das janela das marionetas?!…

Era de… irregular os olhos de surpresa e de curiosidade para ver o que se iria passar!

Ah! E… os pescadores, um de barrete, e o outro de boné, a falarem à moda da nossa terra com muitos “is”, os alentejanos, sobre a faina, os homens, o poder do mar e do seu rei, que tinha um longos cabelos verdinhos!

Era de… se sentir em casa e deixar-se arrastar pelo sulcar das suas vozes bem entoadas e expressivas!

Ah! E… aquela menina com um braço de ondas, que os queria ajudar?!…

Era de… desejar entrar pelo mar dentro para a reencontrar!

Enfim! Uma história de encantar!

E… tão bem cantada e musicada, que nem uma criança estava assustada ou a chorar!

Pelo contrário!

Uma menina  muito pequenina e magrinha, que tinha uma coroa de papel, daquelas de princesa,  no seu cabelo dourado, e um menino do seu tamanho, com óculos de sol cor de limão, muito compenetrado,  surgiram, no adiantar da peça, divertindo-se no “palco” de chão, acompanhando o ritmo musical com as suas danças como se estivessem sozinhos, mas… muito bem ensaiados e sintonizados!

Mas, quando as personagem desciam do barco, as crianças felizes afastavam-se a correr, na direção da plateia, dos pais certamente!

E… quando o elenco agradeceu os calorosos aplausos ao público,  a menina com coroa de princesa, e o menino com óculos de sol cor de limão aproximaram-se, ficaram de frente para os artistas, e curvaram-lhes graciosa, repetida e reconhecidamente  as suas cabecinhas!

O Canto do Amor
Outubro 26, 2013

Sede de (A)mar, 2013

Tenho sede de ti! – canta continuamente o amor à sua essência.

Os Meus Pés Descalços
Outubro 26, 2013

 

Praia, Caminhos 2013

Os meus pés descalços conhecem a aspereza e o calor das pedras da praia despida de areia!

Saltitam em busca das poças para me refrescar entre e o brilho polido dos limos escorregadios!

Os meus pés descalços não conhecem o colo que não deixa que a água fria os molhe ou o bago de areia os melindre.

Caminham sozinhos e nus nas calçadas escaldantes do amor, e frias  da dor, descansando na areai solta à beira da estrada.

Os meus pés descalços percorrem as pedras da barragem com rapidez de quem presta uma prova e alcança a meta!

Sentem as carícias do mar nos dedos das ondas, e renascem com o sal das marés nas manhãs de inverno e nas tardes de agosto!

Os meus pés descalços não contam histórias de amantes com dedos de pianistas e beijos de fogo!

Escrevem estórias com danças de bico de pé,  e deixam pegadas na praia junto das rochas onde ninguém vê, mas o mundo lê!

Os meus pés descalços não são de princesa, mas andam, e tropeçam, e correm, e saltam, e voam como águias com olhos e coração de criança!

A Tosse do Pão Fresco
Outubro 25, 2013

O Terraço da Rocha, 2013

O pão fresco engasga-se, e tosse dentro do saco, com o cheiro a naftalina, que fumega pelas frestas da porta da casa desabitada!

E… eu, solidária e enjoada, sinto-me a flutuar nos velhos castelos com roupas ancestrais perfumadas de anti-traça!

A Minha Aldeia – A Herança Enlutada dos Candeeiros
Outubro 25, 2013

O Candeeiro Bico de Pato, 2013

O candeeiro globo dourado esteve à espera que plantassem três  árvores na sua pequena rua para lhe fazerem companhia!

Esperou um, dois, três, quatro, cinco anos!

Esperou uma década!

Esperou mais um meia dúzia de anos!

Mas, o candeeiro gostava muito de habitar na sua rua pequenina!

Gostava de falar com as flores dos canteiros do prédio!

Gostava de piscar os olhos a todas as senhoras e meninas quando vinham à janela!

Gostava de seguir as crianças com os seus olhos dourados sem pestanejar nas noites de verão quando elas brincavam e corriam no passeio!

Gostava de iluminar o quintal da frente, e de recordar o Sr. dos olhos azuis com o seu boné, a estender e a apanhar serena e cuidadosamente a roupa!

Gostava da animação dos jogos de futebol no campo, logo ali ao lado, e de cumprimentar os projetores.

Gostava de ouvir o mar a rebolar-se na areia, e a tossir com a sua voz rouca!

Gostava de ver o farol, e das histórias dos barcos e dos pescadores que trazia nos seus reflexos!

Mas… o candeeiro dourado de memórias e de sonhos foi expulso da sua casa sem ver as árvores na sua rua! – nem quero imaginar o seu trágico destino!

E… no seu lugar, uma pessoa que não gostava da minha aldeia deixou escrito que ela passaria a ter candeeiros cruzes na avenida moribunda, e candeeiros bico de pato nas ruas, e ficaram todas enviuvadas de tristeza!

E… o cinzento candeeiro bico de pato que fica por baixo da minha janela tem uma luz branca, que fere os olhos, encadeando-os!

E… quando a noite cai, e ele está aceso, sou obrigada a baixar a pala para o sol, enquanto desço a rampa dentro do carro para guardá-lo na garagem!

As Hortênsias Saudosas
Outubro 25, 2013

Hortenses, 2013

As hortênsias da D. Bibi Floreira andam muito tristes desde que a sua amiga-jardineira partiu para a sua casa de bonecas!

Nos primeiros dias, divertiam-se com o sol brincalhão, e mandavam a Margarida, a cadela do vizinho que está sempre a ladrar, calar-se, mesmo quando ela não lhes obedecia! Às vezes, até discutiam, porque a bichinha dizia que tinha direito a fazer barulho, pois  já vivia ali há mais tempo do que elas!

Mas, as pétalas das hortênsias eram muito sensíveis! E na estufa onde viviam não ouviam animais!

Quando começou a descer a temperatura e a chover,  as hortênsias azuis e brancas encolhiam-se com as gotas, que lhes batiam nos olhos, e chamavam pela sua saudosa amiga-jardineira!

Numa noite,  choraram!

As cristas de galo até pensaram que a chuva tinha voltado, mas não a sentiam, o que acharam estranho!

Foi então que ouviram as lamúrias das hortênsias, que só se calaram quando as vizinhas do canteiro da frente  lhes recordaram que a D. Bibi Floreira lhes pedira para se portarem bem na sua ausência, e para crescerem para a receberem na primavera!

As hortênsias agradecerem  às cristas de galo, e pediram às estrelas para lhe limparem as lágrimas saudosas!