Archive for Junho, 2012

Estórias de Meninos – O Trabalho do Quico
Junho 19, 2012

Menino - Trabalho by lusografias

O Quico fez o exame da quarta classe quando tinha dez anos.

– Agora temos de arranjar-te um trabalho! – disse-lhe a mãe orgulhosamente.

O Quico concordou e no dia seguinte foi falar com os senhores mais importantes da vila, mas todos olhavam para a sua pequena estatura e faziam reparos à sua inexperiência.

O rapazinho não queria desiludir a mãe e resolveu bater à porta das senhoras ricas, oferecendo-se para fazer “mandados”, o que conseguiu e, em troca, recebia um tostão ou fruta, bem como alguma malga de sopa ou outro alimento.

Quando o Quico chegou a casa, a mãe felicitou-o e anunciou-lhe que no dia seguinte iria trabalhar numa empresa, para aprender um ofício, mas não ganharia nada, notícia que  acatou  com alegria!

De manhã, o Quico acordou mais cedo, tomou banho, a mãe cortou-lhe o cabelo e penteou-o muito bem, vestiu os calções e apresentou-se ao serviço descalço, mas ávido de saber e cheio de iniciativa, o que surpreenderia o seu patrão e os colegas, dando-lhe a garantia de aprender e de ter descontos para a “Caixa”, não obstante não ter usufruído de salário durante anos, experiência que, contudo, faria dele um profissional de renome!

A Voz do Anjo
Junho 19, 2012

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Era a voz de um anjo que embalava o coração triste da mãe e  o elevava em sonhos sorridentes no caminho do futuro com casas brancas de janelas abertas sobre o terraço florido de alegrias adormecidas, aguardando o sol nascente!

O Abracinho da Pagizinha
Junho 19, 2012

Criança com Bonecas by lusografias

A Pagizinha é uma linda menina, que encanta todos com a sua beleza, doçura e simpatia.

Quando ouve passos na escada, surpreende os seus amorosos pais com a sua quietude silenciosa, que interrompe de seguida, com um entusiástico brilho nos seus olhos de amora estampados no seu redondo rosto rosado:

– Vem aí a vizinha amiga!

A Pagizinha gosta muito da sua vizinha amiga e de brincar com ela, mas particularmente dos seus bolinhos, saídos de pequenas formas, que e enchem de alegria e de gostoso prazer!

A Pagizinha também gosta muito de trazer a sua vizinha amiga à porta, se bem que a vá retendo junto de si, enquanto lhe é permitido, e o faça com um sorriso escondido!

Mas… quando a Pagizinha vem abrir a porta com a mãe ou com o pai, e é surpreendida pela presença da sua vizinha amiga, saúda-a vivamente, sorri, dá saltos, estende os seus pequenos grandes braços e abraça-a com a força que a vida pôs no seu coraçãozinho gigante de ternura!

As Estórias da Tó – O Bordado do Bibe Branco
Junho 16, 2012

Crianças - Estórias da Menina Tó by lusografias

A Tó tinha dedo para a costura, e também um dedal, uma tesoura e várias agulhas, longas e pequenas, mas não sabia bordar e faltava-lhe: um bastidor, umas meadas de linhas de seis fios e uns desenhos de uma história infantil, para alindar o bibe branco da sua filhinha.

Hesitante, abriu o seu mealheiro e tirou algumas moedas!

Depois foi à “vila” – ao centro da povoação -, entrou na papelaria e pediu licença para ver os fascículos retangulares de capas apelativas sobre bordados – Mãos de Fada, Para Ti e outros, alguns com suplementos de minuciosas rendas.
Perguntou o preço, agradeceu e saiu.

Desceu a rua lentamente, e dirigiu-se à loja onde viu as cores das linhas e os respetivos preços. Saiu e mais uma vez não comprou nada!

Tirou a carteira do bolso do casaco, abriu-a e ficou a fazer contas mentalmente!

De cabeça e peito erguidos, adiantou o passo determinada!

Minutos depois, a Tó segurava um fascículo de bordados, uma folha de papel químico e um pequeno embrulho de linhas coloridas. Olhava-os orgulhosa com a suas compras, com o troco, perspetivando o bibe bordado, visivelmente satisfeita!

Rapidamente, pôs mãos à obra, tendo começado por copiar os desenhos da Gata Borralheira para o papel vegetal que tinha em casa, redesenhando-os cuidadosamente sobre o papel químico, que os copiava para o bibe branco!

A primeira parte estava pronta! Depois começou a bordar por observação do fascículo, partindo de um ponto simples que ia repetindo até encher os espaços, pois não tinha bastidor, nem sabia fazer matiz!

A menina ia seguindo a demorada pintura de pontos e linhas do seu bibe branco bordado, que estreou no 15 de Agosto, para ir à procissão, o qual mereceu elogios de muitos olhares curiosos, e proporcionou especial alegria à sua mãe, que a vestira de amor pelas suas mãos hábeis e persistentes!

O Sol a Sorrir
Junho 16, 2012

Sol Poente de S. Torpes, 2012

O sol é o teu sorriso dourado, pintando flores nos outros rostos, penteando cabelos de crianças ao vento, escrevendo mensagens nos corações tristes, dando passos na praia deserta com barcos, desenhando pontes sobre os rios tumultuosos, quebrando gelos nas vidraças com olhares perdidos no tempo, estendendo os braços e estreitando o mundo!

O Candeeiro Prisioneiro
Junho 16, 2012

Candeeiro prisioneiro by lusografias

O candeeiro Flecha gostava muito de viver na Rua da Alegria, de acordar e olhar para o mar, de deixar-se baloiçar com os barcos da sua baía, de namorar à janela com a vela do casal apaixonado, de falar com a vizinhança: com o cão do Sr. Fiel; com a gata da D. Assanhada; com o papagaio da menina Tagarela; com a periquita do Sr. Calado; com a aranha da D. Enrolada; com a andorinha Cantora; com a gaivota Amiga e com todos os animais que passeavam e passavam todos os dias debaixo e por cima do seu olho, e  também de ouvir as conversas dos humanos, se bem que não entendesse nada, a não ser o significado de alguns gestos e a linguagem dos sorrisos.

Na primavera, o candeeiro Flecha começou a reparar na menina hera Vermelha-Amarela, que a pouco e pouco ia ficando mais crescida e formosa, aproximando-se cada vez mais dele!

Numa noite em que o candeeiro Flecha fechara momentaneamente a pálpebra para saborear as carícias da lua, ouviu o frufru  sedoso do vestido verde da hera, e sentiu a frescura doce das suas folhas abraçando-o.

O candeeiro Flecha não resistiu aos encantos quentes e sussurrantes da hera Vermelha-Amarela, beijou-a com a ferocidade de um leão faminto, e permaneceram abraçados dia e noite, noite e dia!

A hera Vermelha-Amarela, que era muito entendida em literatura de histórias de amor com finais felizes, chamou-lhe príncipe, e disse-lhe que queria ficar com ele para sempre, ao que o candeeiro Flecha respondeu:

– Quero muito, minha princesa! Serás a Rainha Hera Vermelha-Amarela Flecha Iluminada!

No dia seguinte, o candeeiro Flecha pôs anúncios luminosos na Rua da Alegria e nas outras ruas da cidade sobre o seu enlace com a princesa Hera Iluminada!

Mas… a princesa que o candeeiro Flecha tornara rainha crescia, crescia, acariciava, acariciava, abraçava, abraçava que quase o sufocava, e… ele já pouco falava!

Um dia, a vizinha do lado, uma Sr.ª muito simpática, a D. Asseada, que gostava muito de lavar roupa, colocou um estendal ao lado do candeeiro Flecha, tirando-lhe a vista, principalmente quando o enchia de roupa!

A Rainha Hera Vermelha-Amarela Flecha Iluminada, muito criativa e atrevida, aplaudiu a ideia, sugerindo que aproveitassem a roupa estendida, nomeadamente os lençóis e fizessem uma tenda para se aconchegarem e embalarem os seus frutinhos!

O candeeiro Rei Flecha achou uma boa ideia e puseram mãos à obra, mas… deixou de ver o mar, os barcos na baía, a vela do casal apaixonado,  a lua e de falar com todos os seus amigos!

Então, o vento, que vira a luz do candeeiro Flecha embaciada de tristeza, desmanchou a tenda, sentou a rainha no trono e devolveu a liberdade ao seu amigo!

Uma Flor de Sorriso Fechado
Junho 14, 2012

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Era um rosto sereno e triste de solidão, suspirando pela sua casa!

Era um olhar distante e saudoso, procurando o bem-estar perdido!

Era um balbuciar de palavras gratas e  lentas, respondendo aos ternos sorrisos com um sorriso florido que não se abria!

A “Quarta” Equilibrista
Junho 14, 2012

Bilha de Barro by lusografias

Ao sol posto, a “ti” “Manela” levava a sua “quarta” vazia na mão quando ia buscar água à bica onde àquela hora encontrava as vizinhas e as meninas com as suas bilhinhas compradas na feira de agosto.

Dotada de poucas palavras, a “ti” “Manela” aguardava silenciosa e pacientemente pela sua vez de olhar cor de mel perdido na imensidão do mar despojado de sonhos.

Depois colocava a sua “quarta” na concavidade do chafariz amarelo ladeado de verdejante folhagem florida, abria a torneira dourada, e ia ouvindo o canto da água a cair no seu fundo, diminuindo a intensidade das suas notas musicais, à medida que ia saciando a sua sede.

Tirava uns trapos da algibeira do seu avental riscado de arco-íris, enrolava-os, formando uma coroa – vulgo sogra – , colocava-a sobre os seus brilhantes cabelos negros, acocorava-se, pegava cuidadosamente na sua “quarta”, erguia os braços e poisava-a no seu trono fofo, levantando-se segura e calmamente!

A infusa, sobranceira ao mar, desafiava as ondas, espreguiçando-se nas rochas, chamava pelos mastros das traineiras, cantava com as gaivotas, ziguezagueando no céu azul, deslizava equilibrada nos passos ritmados dos chinelos rasos da “ti” “Manela”, no ondular das suas ancas, no respirar do seu decote, elegante e bela como uma modelo fotográfica.

O Sorriso do Dia dos Príncipes e e das Princesas
Junho 12, 2012

Flores à Procura do meio-Dia, 2012

O sorriso do dia baloiçava num mar imenso bordado de sonhos de crianças despedindo-se do Jardim de Infância e do 1.º Ciclo do Ensino Básico, pintando  harmoniosa e alegremente aguarelas com “O Principezinho”, olhando o céu pelos seus olhos!

As Estórias da Tó – O Ouvido Inteligente
Junho 12, 2012

Crianças - Histórias da Menina Tó by lusografias

Quando a Tó era pequena e ainda usava as suas detestáveis trancinhas, e sonhava ser uma grande modista, ia ajudar a Sr.ª Professora Nini em pequenas tarefas domésticas adequadas à sua idade.

A Sr.ª Professora, robusta de corpo e de competência, reconhecida também pela mão pesada, vocacionada para a reguada – enraizada “pedagogia” da época” – , dava explicações às alunas mais capacitadas para efetuarem o exame da admissão.

A dinâmica, alegria e perspicácia da Tó eram bálsamo para a triste senhora, votada à solidão pelo marido, que sorria e divertia-se com a menina, e que a admirava pela facilidade de aprendizagem “a distância”.

Antes de as explicandas chegarem, a D. Nini formulava sempre o mesmo pedido à menina:

– Tó, tu tens um ouvido inteligente, mas não podes responder às perguntas que lhes faço! Elas têm de estudar, de aprender a pensar, de mostrar que sabem a matéria!

– Está bem, Sr.ª professora, mas… não posso prometer nada! Eu bem canto, mas ouço as perguntas, fica tudo mudo e… quando dou por mim, as respostas já saíram! – concordava a Tó, justificando a sua entusiasta e sábia participação.

A D. Nini afastava-se escondendo o sorriso que poucas pessoas conheciam, começava as explicações, que a Tó ia acompanhando com o ouvido, a inteligência e a memória, sempre de língua pronta e solta!