Archive for Agosto, 2016

A Pagizinha – O Chá de Poejos
Agosto 31, 2016

O Chá de Poejos da Pagizinha, 2016

A Pagizinha, poucos dias depois da festa que foi o encontro das afilhadas, trouxe-me este lindo e terno presente, uma pequena-grande obra criada pela sua imaginação, tecida pela suas hábeis mãozinhas, e autografada, mas esta particularidade é muito pessoal, portando não exposta neste contexto.

No cartão, a identificação do conteúdo, se bem que no ato da entrega o tivesse identificado:

” – Toma! É para ti, para fazeres um chazinho de poejos.”

O requinte da bonita e delicada pintura no saquinho e no cartão, envolve o presente num inefável abraço repassado de ternura, daqueles que costumamos dar uma à outra, sinto-o!

Muito, muito obrigada, querida afilhada do meu coração!

Ainda não consegui preparar o chazinho, se bem que cheire as suas essências, que me perfumam de doces carícias da Pagizinha.

Pergunto-me, por vezes, como é que a Pagizinha, sempre tão preocupada e zelosa com os seus quatro filhos: a Rosita, a Iara, o Sebastião e a Maria Chocolate tem tempo para se dedicar a estas tarefas artísticas, mas a minha afilhada-amiga é muito trabalhadora e organizada, por isso consegue fazer tudo isto e muito mais, mas… não vos posso contar tudo!

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Sorriso do Dia – Duas Crianças na Praia
Agosto 31, 2016

Tela Marinha, 2016

Duas crianças estreavam-se na praia com a mãe, sentada na areia triste, com roupa leves vestida, braços e pernas tapadas, por questões de saúde, e uma alça amarela envergonhada, escondida no pescoço.

Os meninos, ele, já conhecedor da leitura, do cálculo e da escrita, mas iniciado neste lazer, molhando-se a medo, mas dando um mergulho a meu pedido, correndo a trás dos cardumes com um pequeno balde amarelo cheio de sonhos; ela saltando numa euforia desmedida, repetindo: “Vou lavar”, numa linguagem mal pronunciada, levando à cara e ao cabelo conchinhas de água nas suas pequenas, mas ágeis mãozinhas, indiferente ao calção que os seus movimentos iam despindo; ambos felizes.

Os milagres acontecem e hoje, neste contexto familiar, assiti a um!

A Petrinha e o Pedrinho – O Canto “do Co que”
Agosto 31, 2016

Meninos no carrinho

– Ó Petrinha, podes explicar-me o que é o “co que”?

– Ó Pedrinho, está a falar português?

– Pois, Petrinha! Não sei, por isso pergunto-te! Há dias, ia a entrar na sala e ouvi…

– Pedrinho, desculpa, mas não me assustes! Quem proferiu tais palavras?

– Calma, Petrinha! Não foi ninguém da nossa família, descansa!

– Já imaginava, Pedrinho, mas… explica-te, por favor!

– Dizia eu, Petrinha, que ouvi na TV um importante Sr. dizer: “Do co que (ou coque) sabem”! A avó ia deixando cair o tabuleiro que trazia na mão, e eu fiquei mudo.

– Ó Pedrinho, tens a certeza que ouviste bem? E o Sr. seria português?

– Ouvi, sim, Petrinha, e foi isso que me fez pensar, mas… se ao “coq” o Sr. importante acrescentou: “sabem”, devia estar a falar na nossa língua, não te parece? Então e “coq” não é um galo no vocabulário da língua francesa?

– Vamos analisar a questão, Pedrinho. “Coq” é o que afirmaste, mas se for: “coque” significa, na mesma língua, casca de ovo, ou casco, de navio. Agora temos de traduzir a mensagem do tal Sr. importante.

– Já percebi tudo, Petrinha! “Do coq ou coque sabem” quer dizer que cantam de galo, mas ainda não sabem, porque sairam da casca do ovo, do “coque”, portanto são apenas pintos ou talvez frangos. O que é que achas?

– Ó Pedrinho, eu acho que te saíste muito bem na capoeira, mas… eu diria que: “Do coque sabem” é casco do navio da língua portuguesa a meter água, afundando-se e desonrando-a vergonhosamente, mais do que sabem!

Gente Boa da Minha Aldeia – A Vizinha Alentejana
Agosto 31, 2016

Praia Dourada de Memórias, 2016

Nesta minha terra alentejana, é mais alentejano quem a enriquece com o doce canto do seu típico falar trazido do interior com toda a pureza de sentimentos expressos nas suas palavras, a espontaneidade pintada nos seus singelos gestos, a sua autenticidade acenando nos seus múltiplos exemplos.

A “Minha Vizinha” como sempre me tratou a minha vizinha do outro lado da rua quando abria a janela ao dia e me saudava, nos mais circunstanciais encontros todos recheados de experiências do laboratório da vida onde pensa, age e obtém resultados com o seu douto saber de escolhida pelo Céu, na franca partilha de quem traz o coração na mão!

Alegrei-me ao ouvir aquela familiar voz, acarinhando-me com a: “Minha Vizinha”, sorrido-me, olhando-me e à serena beleza da praia com a transparência do seu ser refletida nos seus óculos sob os seus claros cabelos encaracolados.

” – Ai, “Minha Vizinha”, que pena não ter estado aqui ontem. Foi cá uma festa, o banho 29! Até havia concertina!
Ninguém se metia com ninguém.
Havia uma grande mesa com melão e melancia para cada um comer à vontade.
Vieram os velhotes de (…)*; deviam trazê-los cá mais vezes; fazias-lhe bem!
Havia cabeçudos.
As pessoas de cá tinham aqueles fatos de antigamente; estavam bonitas e divertiam-se muito.
Para o ano, a “Minha Vizinha” tem de vir, com as meninas, que elas vão gostar.

Concordei, e antes de me retirar, fiquei a saber os benefícios da água salgada sobre ferimentos de pernas idosas e pé de diabético, inteligentemente usada por si em mesinhas, que geraram curas, e mereceram a exigência de técnicos de saúde sobre a sua singela e sábia obtenção.

Afastei-me, trazendo comigo a sua melodiosa voz e um grande e grato sorriso no “pêto”!

* a cidade vizinha

Doces de Gente Feliz
Agosto 31, 2016

Jardim Choroso à Beira-Mar, 2014

Quem quer pronunciar palavras doces, procure-as no seu coração.

Quem quer fomentar a reconciliação, perdoe e estenda a sua mão.

Quem quer amar e ser feliz cultive os afetos sem ninguém meter o nariz!

As Estórias da Tó – O Descumprimento da Hora de Recolher
Agosto 31, 2016

Crianças, As Estórias da Tó

Naquele dia, o pai autorizara a Tó e a Nanda a irem ao baile ao Lusitano, mas… o irmão mais velho, o Léu, teria de acompanhá-las para “andar de olho nelas”, que exalavam beleza e jovialidade – como se os seus chegassem para as suas conquistas, ele que era alvo das atenções femininas e as acolhia com os seus encantos; o primogénito tinha também a responsabilidade de levar as irmãs para casa.

À hora marcada, o Léu começava a rondar as manas e a fazer-lhes sinais, tão discretos quanto possível, para se retirarem, os quais eram visualizados e acolhidos à primeira pela Nanda, quiçá pelo seu jeito para os passos certos de dança, apanhando-os entre os rodopios, a qual apontava para a irmã, sempre afastada dela – “Cada qual às suas”, dizia a Tó quando chegavam à sala, decisão que a melhor bailarina acatava com um sorriso.

Vivaça e voluntariosa, a Tó, quando avistava a cabeça do mano, dava sábios passos de dança com o seu par, ficando sempre de costas para o seu guarda-costas.

A Nanda, corada, também aproveitava as músicas, e dançava, dançava, agradecida, admirando a coragem da irmã.

E… neste joguinho / disfarce, ficavam mais tempo no baile, devidamente justificado pela Tó, porque… não vira.

A Troca de Sonhos
Agosto 31, 2016

Sulcos Transparentes, 2016

Os sonhos dos pais não são os sonhos dos filhos, nem os que estes formulam na sua imaginação correspondem, na maioria dos casos, à realidade dos progenitores, mas pais e filhos trocam sonhos na celebração do amor, nas sementes plantadas de terna fantasia na infância, no calor do verão refrescado de sal ou de doce serenidade e na noite fria, gemendo de medo entre os uivos do silêncio, crescendo no caudal da vida, em que de mãos dadas atravessam margens, abraçam-se e colhem bagos de alegria nos valados, descobrem a sinfonia dos sentidos na planície dourada e vivem a sintonia da grandeza das montanhas assustadas, abrindo as portas à eterna e renovada madrugada numa divertida desgarrada!

Estórias de Meninos – Os Cachimbos de Canas-da-Índia do Framar
Agosto 31, 2016

Mar Nosso, 2016

Manhã morna de finais de agosto!

Na praia, as gaivotas despediam-se da areia e dispersavam-se preguiçosamente, umas seguindo os raios solares, outras procurando agarrar a transparência das nuvens nas suas brincadeiras com a ligeira brisa, metamorfoseando-se.

O Framar, que encontrara uma amiga no seu percurso matinal numa das maravilhosas praias da sua terra, começou a desfolhar as deliciosas memórias de outros tempos desenhadas com coloridos retalhos de histórias das que as idosas vizinhas lhe contavam repetidamente, e daquelas em que os felizes infantes da sua aldeia piscatória contemplada pelo fluxo de turistas que vinham “a banhos”, onde também havia fábricas de cortiça e de conservas de peixe, eram protagonistas e tudo construíam pelas hábeis mãos da sua imaginação, proporcionando-lhes, por exemplo, o prazer de jogos com as fantásticas bolas feitas de bexigas de porco.

A sua interlocutora musicou a conversa com o saudoso eco dos concertos de gaitas feitas das finas canas-da-Índia.

O Framar aplaudiu, fez uma breve paragem, sorriu e recordou com saudoso entusiasmo:

– “Atão” e os cachimbos? Com a cana e na ponta a “chaminé” feita com as folhas onde a malta punha milho? Aquilo é que era! Até ficava tudo amarelo!

– Nunca vi, nem ouvi falar sobre essa criação de meninos. Mas conheci e fiz muitas colheres para as bonecas com cascas de lapa e cabos de canas-da-Índia secas, limpas e cortadas onde e o meu paizinho fazia um pequeno golpe para poder fixá-los – contou a amiga, surpreendendo-o.

E as canas-da-Índia ainda voaram nas estruturas dos papagaios-de-papel, levaram os amigos aos bancos de escola estofados de sonhos com aventuras e gemidos de reguadas, que cá fora não lhes roubaram as gargalhadas, percorreram os corredores da Casa dos Pescadores onde se viram ao espelho, e nas imagens avistaram as crianças na crehe e o parque infantil – uma inovação para a época -, ouviram choros de recém-nascidos, viram a chefe da secretaria e os seus colaboradores, as meninas da costura, as da escola, e também os meninos, em turmas separadas, e os professores, os homens idosos, do lar, muito bem vestidos, passeando-se serenamente pelo jardim de torneiras douradas e no amplo terraço, debruçados sobre a baía, e ainda poisaram em África, e voltaram…

O Medo do Desconhecido
Agosto 28, 2016

Baía de Luz, 2016

Tem-se medo do que se desconhece como quem acorda, esfrega os olhos e não vislumbra o dia que amanhece, nem se ergue, nem solta as amarras, nem se faz ao largo, sulcando destemidamente a venturosa aventura da vida que acontece!

Estórias de Meninas – As Manas e as Senhas de Saída
Agosto 28, 2016

As Asas da Maré Vasa, 2016

As quatro manas, umas já sem tranças, e outras ainda com elas, gostavam muito de ir aos bailaricos da aldeia, quer fossem nos salões das sociedades, quer fossem na distinta Esplanada, que organizava bailes temáticos com atribuição de prémios, quer fossem nos famosos mastros dos Santos Populares!

O pai, severo nas saídas, tal como na preservação das tranças das suas princesas, evitava e/ou desviava as conversas “bailarinas”, mas… astutas e persistentes, as manas aproveitavam-se dos momentos em que algum compadre ou amigo era recebido lá em casa para o presentearem: três delas com garrafinhas de vinho, que eram muito bem acolhidas, e com as quais obtinham de imediato a permissão para a saída, mas a rebelde e inteligente Tó, mais velha do que as irmãs, optava por um maço de tabaco, o que contrariava o seu progenitor, que punha reticências à autorização, facto que nunca a impediu de satisfazer o seu desejo, se bem que, sem a “senha de saída”, se arriscasse a alguma penalização posteriormente, à qual respondia com um vitorioso sorriso, senhora da sua igualdade de direitos, que defendia!