Archive for Julho, 2014

O Professor…
Julho 31, 2014

Onda-professora

O professor de profissão encontrou um emprego.

O professor por vocação alcançou uma graça.

O professor de coração cumpre uma missão.

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A Porta da Casinha da Estação da Minha Aldeia
Julho 30, 2014

Porta da Estação

Esta porta coroada de telhas onduladas de memórias, com um postigo debruçado sobre a rua como se fosse um terraço, ou outra porta sua vizinha, do lado direito ou esquerdo, qualquer delas ameigada por uma janela ampla, quadrada, ou esguia, retangular, alongando-se na direção do chão, forrada com tabuinhas brancas finamente cruzadas, abriam-se e fechavam-se todos os dias com o pulsar da alegria.

Por esta porta coroada de telhas onduladas de memórias, e pelas portas e janelas vizinhas, esvoaçavam :

– os sorrisos de crianças, daqueles meninos, filhos muito desejados pelos pais já maduros, registados, curiosamente, com o mesmo nome próprio;

– os sonhos da linda menina de olhos claros, minha colega, e da outra, a morena, mais alta e forte, e mais velha, sempre tão afável e protetora;

– os suspiros dos comboios, chamando pelos trabalhadores, ou despedindo-se, já ensonados, acionando  a vida das famílias nos carris do dia-a-dia…

Por esta porta coroada de telhas onduladas de memórias, e pelas portas e janelas vizinhas ecoavam:

– a cortês serenidade de um casal, que já não podia gerar descendência, lamentando o encontro com a felicidade conjugal tardiamente;

– a palração de uma numerosa família nortenha, trocando o [v] pelo [b], familiarizando-se com o [i] do falar alentejano;

– a saudade de muitos ferroviários, que se encaminhavam para a reformada, sem conseguirem travar o tempo, dando lugar a outros…

Por esta porta coroada de telhas onduladas de memórias, e pelas portas e janelas vizinhas das antigas e distintas casinhas da estação de caminhos-de-ferro vestidas com barrinhas amarelas reina o eco da sua história, e o vazio que o tempo presente constrói com indiferença.

Histórias de Fantoches – A Margarida, 4.ª Página
Julho 29, 2014

A Margarida

A margarida regressou ofegante, transpirando, limpando delicadamente as sua pétalas com o verde recortado das sua folhas.

Escutou atentamente as outras flores, que arquitectavam uma fuga para algures…

– O Monte da Esperança seria um bom lugar para nos escondermos, não acham? – propôs a malva.

– Não creio! – retorquiu, altiva, a crista-de-galo.

– Porquê? – interrogou a hortênsia.

– Ora! Porque seríamos descobertas facilmente, e talvez colhidas com os mesmos objectivos. Hum! Os homens só pensam em si! Nem sabem que somos seus amigos, que os admiramos, que gostamos de cumprimentá-los com os nossos perfumes, delicada e magicamente.

– Acho que tens razão! – adiantou a orquídea.

– E tu, margarida, que dizes? Desde que chegaste que estás muda! – observou o gladíolo.

– Falem, falem, enquanto eu maquino aqui um plano. Nem vos estou a ouvir com atenção – respondeu a margarida pausadamente, apoiando as suas pétalas numa folha que as mais pequenas seguravam.

– Não sou supersticiosa, mas ouvi dizer que no vale que circunda o monte passeiam uns fantasmas, pela noite, e devoram: as flores-do-meio–dia, as mimosas, as flores-dos-passarinhos e as ervilhas–de-cheiro – sussurrou a boca-de-lobo.

– Não acredito nisso! – gritou o cardo. São conversas fiadas, coisas sem sentido! Fantasmas?!…Onde já se viu?!… Os duendes é que discutiram e os espezinharam, enquanto fugiam, depois de brigarem uns com os outros.

– Calma, calma, família das flores! – pediu docemente o lírio, esboçando um sorriso, e acarinhando-as com o olhar. Em silêncio, baixou as alvas pétalas em sinal de paz, e todos se aquietaram, e calaram.

Prima margarida, porque estás tão pensativa? Há pouco, levantaste uma pétala pedindo para ter a palavra, mas depois baixaste-a. Chegaste a alguma conclusão, e queres apresentar-nos alguma proposta?

– Sim, querido lírio. Obrigada! Estava a pensar num projecto muito sério e arriscado, mas parece-me o mais acertado para as nossas vidas, embora exija muita coragem e esforço.

– De que se trata? Vamos, diz! – insistiu, curiosa, a buganvília.

(continua)

A Voz da Criança e da Mulher-Menina
Julho 29, 2014

Flores do Meio-Dia

A criança e a mulher-menina têm voz, mas… por que são pequeninas, ninguém escuta o murmúrio espontâneo, simples e sorridente da sabedoria das suas palavras!

À Hora da Comida…
Julho 27, 2014

Flor-Laranja

Há pessoas que associam ao toque da campainha ou do telefone, quando o guloso almoço já fumega ou quando o aromático jantar já está servido, ao provérbio : “À hora da comida chega sempre mais um”!

Mas… há familiares e amigos tão especiais, que… são imediata e alegremente convidados a sentarem-se connosco à mesa!

Gente Boa da Minha Aldeia – O Bondoso Sr. Lénio
Julho 27, 2014

Quilha de Barco-reflexos, 2012

Todas as notícias tristes que a comunicação social transmite, e  estas são a sua prioridade, se não exclusividade, assustando o mundo ao ignorar ou relegar para um plano inferior: as grandes práticas, as inovações, as iniciativas a bem da humanidade, a criatividade bem dirigida, a divulgação positivista e saudável, levam-se ao Sr. Lénio.

O Sr. Lénio, homem muito educado, discreto, um crente nato, que encontrou o seu amor a caminho da sua vocação, é detentor de uma sentido de humor muito apurado, que escancara sorrisos às pessoas com quem se relaciona mais de perto.

E… estremece perante as injustiças, e as desgraças da vida, entregando-se sereno e silencioso à oração por todos os pobres, necessitados e aflitos.

Pessoas como o Sr. Lénio, vivendo as dores do próximo, e procurando ajudá-lo como sabe e lhe é possível, são raras, mas existem!

E… na solidão da dor, da exclusão, da injustiça, há muita gente que está acompanhada por alguém que não conhece, nem sabe da sua existência, mas que a traz consigo na bondade do seu  coração!

A Lágrima-Pérola
Julho 27, 2014

Fonte Chorosa, 2014

A lágrima que um pai de luto carregado no fundo dos seus olhos claros como a luz do dia limpou do meu rosto, não era minha, mas sua, uma pérola de dor partilhada de uma família de cujo jardim voou uma árvore com flores e frutos regada de amor, que cresceu, atravessando tempestades, e que a primavera colheu quando ainda era madrugada… e a sua folhagem dançava nos braços da felicidade!

Os Papéis Invertidos
Julho 27, 2014

Troncos Unidos, 2014

A relação homem-mulher  cresce, e amadurece florida de alegre cumplicidade, e unicidade quando não há dependência nem inversão de papéis de:  “Filho(a)” , nem  de: pai / mãe!

Quem não gosta de ser tratado como descendente, deve analisar o contributo dos seus comportamentos, e… também se assume ou não, direta ou indiretamente, o papel de ascendente – ambos tornam os emissores “heróis” de si mesmos!

Lágrimas de Despedidas Brutais e Prematuras
Julho 27, 2014

Flores de Despedida, 2014

Choro as lágrimas que são tuas: mãe, pai, irmãos, cônjuge / companheiro(a) / namorado(a), parentes, amigos, colegas, conhecidos e desconhecidos espalhados pelo mundo, pelos países, em particular o atingido pelo maior número de vítimas!

Soluço as dores gritantes e sufocadas daqueles a que foram roubados nas suas  riquezas, a alegria, a vida!

Suplico:

– Paz para quem partiu brutal e prematuramente sem se despedir!

– Alívio no sofrimento de quem chora, sofre e se revolta com a partida!

– Discernimento e arrependimento para os  responsáveis,  que  se ajoelhem, que chorem convulsivamente a sua culpa, que peçam perdão!

Um Jovem à Beira-Mar
Julho 26, 2014

Praia do Descobridor

Era um jovem sorridente e comunicativo, que já conhecia a minha aldeia!

E… também as estrelas azuis, brincando com as fofas nuvens antes de adormecerem!

E… a voz do mar, dançando com a brisa enrolados em espuma, deitando-se na fofa areia!

Era um jovem grato ao velho executivo, que o presenteara com um bilhete, porque já não o podia ouvir…

E… era a noite fria vestida de esperança de um caloroso dia, abraçando-o ao abrir-lhe a porta de uma casa onde tudo sorria!