Archive for Março, 2014

Partilhar o Cônjuge
Março 29, 2014

Flores acasaladas, 2014

 

Cônjuge de médico(a) ou de escritor(a) tem de aprender pacientemente a partilhá-lo(a)!

Caminhar na Cidade
Março 28, 2014

Calçaca, Lisboa, 2014

Caminho silenciosa e só, calcando a calçada carcomida, recortada!

Retrato o rosto cansado da cidade, e recolho a multidão no coração!

Sinto o sofrimento, a dor e o desamor do outro pulsando no meu peito!

Acaricio a criança suja de tristeza, vestida de medo, faminta de sorrisos!

Estendo a mão ao indigente abandonado, envergonhado, desconfiado!

Descubro a paz, e reconheço os gritos da guerra no vaivém das fardas!

Olho o Homem, e acredito que pode renascer e reconstruir um mundo melhor!

O Silêncio da Manhã e os Chilreios da Pagizinha
Março 28, 2014

Planta à Janela

De manhã, o silêncio impõe-se, embalando as crianças e as plantas preguiçosas com segredos de veludo!

De manhã, a janela da minha vizinha não escancara a boca, e não canta! – será que a primavera ainda não acordou na sua casa?

De manhã, o jovem vizinho não  acaricia os seus instrumentos, e a música não sobe as escadas, nem dança nas paredes nuas do prédio!

De manhã, a voz da Pagiznha derrete o silêncio com sorrisos de criança sem hora nem ritmo marcados, trepando pelo ar sereno, batendo às portas com subtis melodias de inocência!

De manhã, a porta da casa da Pagizinha fecha-se,  e a sua conversa afasta-se, deixando o ar perfumado de chilreios misturados com a frescura da fonte da vida, brotando de uma flor!

Prenúncios de Primavera
Março 27, 2014

Praia Florida, 2014

O dia despontara com sorrisos de primavera, e o sol dera-lhe a mão!

As pessoas aceitavam o convite da natureza para serem acariciadas, e procuravam as melodias do mar.

As flores dançavam com a brisa perfumada de maresia.

Um cão corria do seu dono, desafiando-o a entrar na água.

Um casal caminhava pela praia com passo miudinho, e parava saboreando os seus lábios prolongadamente!

Um jovem acalorado mergulhava, e… vinha para terra apressado!

À direita das flores dançantes, um pequena família constituída por  um rapaz  tímido e os pais, sentados num banco carcomido pelo tempo, banqueteavam-se prazenteiramente com um farnel.

E… a luz do dia recortava as particularidades da costa, mostrava as linhas da terra com molhos e casas ao fundo, e convidava rostos longínquos a abeirarem-se da beleza deste grande terraço de um pequeno mundo!

A Pagizinha Animadora
Março 27, 2014

A Pagizinha

No dia do meu aniversário, liguei para a casa da Pagizinha. O pai atendeu o telefone, e passou-lho a meu pedido.

Convidei a minha amiguinha para beber chá, de que ele é uma boa apreciadora, e comer uma fatia de bolo, porque eu fazia anos.

A Pagizinha apressou-se a responder-me:

– Estou a fazer um bolo! Vou levar!

Sorri!

Mas… quando a minha amiguinha chegou, trazia a sua filha mais pequena ao colo, bem juntinha ao seu peito – segurava-a como se temesse que caísse.

Encontrou-se com as duas “meninas da vizinha …” – eu -, suas companheiras de confeção de bolinhos na minha casa, e um menino de idade pré-escolar, que não conhecia, o que não sucedia com os adultos

Parecia tímida, encostando-se à mãe, mas acabou por ambientar-se!

A pouco e pouco, a Pagizinha foi-se soltando e falando, atraindo a atenção de todos, suscitando, muitas vezes, alegres sorrisos, que acompanhava.

Continuava pegada à filha, a quem tecia elogios de bom comportamento, tendo concluído assertivamente:

– Eu sou muito boa mãe!

Todos concordámos, felicitando-a!

Contou-nos peripécias sobre a doçaria que prepara com a mãe, fazendo pausas intensificadas pelas suas emoções, salpicando-as de sorrisos!

Aproveitei para perguntar-lhe como iam as aulas de natação, tendo presente a sua preocupação inibidora relativamente ao seu começo. A Pagizinha parecia estar a assistir a um filme, que descrevia.

– Eu tinha muito medo! – afirmou, contraindo-se e tremendo toda, arrepiando-nos com os seus gestos antecedidos de silêncio! Mas, agora gosto e dou mergulhos assim… – demonstrava!

As meninas, mais velhas do que ela, sorriam, sorriam; os adultos também, fazendo-lhe perguntas, às quais ela respondia expedida, graciosa e inteligentemente, associando ideias e factos.

Só o menino permanecia silencioso e observador, admirando-a com a transparência dos seus olhos de mar!

A Pagizinha cantou os parabéns, bateu palmas, comeu bolo, bebeu chá, e… em tudo encontrava pretexto para desencadear um tema, para partilhar algo.

Mas… permaneceu atenta à sua filha, que se portava muito bem, reiterava, provavelmente herdeira da educação de tão esmerada mãe – entregou-a à avó apenas por escassos minutos…

Saiu feliz com a filha ao colo, e com um pedaço de bolo para o pai, deixando atrás de si um cintilante manto de alegria!

O Sonho de Tule – O Baloiço da Bailarina
Março 24, 2014

Um sonho de tule by lusografias

Aba, a pequena bailarina  surgiu  à porta leve e ligeira nos passos.

Entrou na sala com as suas calcinhas tom de sonho de tule, cor-de-rosa, muito justinhas e cheias de estrelas grandes e pequenas; na cabeça uma discreta fita da qual pendiam as pontas de um lacinho lateralmente!

A Aba já não trazia consigo o grande véu que a acompanhara na dança do sonho de tule!

Olhou à volta, e foi sentar-se numa máquina pronta para remar, mas… pareceu-lhe monótona ou talvez pouco bailarina!

Levantou-se, abrindo graciosamente as suas asinhas, mas… não tinha espaço para voar.

Aproximou-se de outro equipamento, apoiou os seus bracinhos, e… começou a baloiçar-se ágil e alegremente com as pernas dobradas, esticando-as, e imprimindo-lhes ritmo e rapidez no seu movimento ininterrupto.

O pai olhou para ela e sorriu!

A menina retribui-lhe o sorriso e pediu–lhe graciosamente:

– Pai, filma-me! Faz um video!

Abraça a Primavera
Março 24, 2014

Árvore Florida, 2014jpg

Abraça a primavera com harpas de alegria, beijando as manhãs bordadas de aguarelas rendilhadas de esperança!

Gente Boa da Minha Aldeia – O Lenço Preto da D. Vina
Março 24, 2014

Quilha de Barco-reflexos, 2012

Recordo-me da D. Vina desde sempre! Era vizinha da minha avó; mais tarde, viria morar para mais perto da minha casa – no Alentejo não há distâncias; é tudo: “logo ali!” – , entre a estrada de alcatrão e a avenida do mar, num amplo espaço onde podia plantar produtos na terra para depois vender.

Na minha memória permanece a sua imagem: rosto redondo e pele lisa, branca, contrastando com o seu lenço preto com as pontas presas acima da testa, e o bico de trás largo, bem marcado como se tivesse sido engomado; estatura média, anca larga, seios fartos, descaídos de tanto amamentar; passo miúdo e firme; agrado no triste trato!

Via-a quase sempre vestida de andorinha, chorando despedidas dos filhos, que partiram deste mundo muito cedo, mesmo o que já era um homem feito, de poucas falas, um pedreiro de mãos hábeis, bom filho e bom pai, o seu conforto, o seu amigo!

Via-a jogar a mão às algibeiras do avental preto, tirando as notas para pagar os bens necessários, e a saúde pública quando o valor das vinhetas era simbólico – dizia-se, em sussurros, que no meio da sua pobreza amealhava dinheiro no banco!

Via-a responder silenciosa, e em retirada ao seu impulsivo, agressivo e carrancudo marido!

Via-a argumentar calma e inteligentemente os seus direitos, e defender os seus pontos de vista!

Via-a sorrir com os seus dentes pequeninos tão poucas vezes quantas ela ter-se-á sentado para desfrutar de um momento de lazer!

Via-a tirar o lenço branco para alimentá-lo das suas lágrimas!

Perdia-a de vista nem sei durante quanto tempo!

Um dia…

Reencontrámo-nos!

O meu sorriso perdeu-se na imensidão dos seus olhos tristes!

Via-a lúcida e saudável entregue a uma instituição!

Via-a cautelosa a citar as condições de que dispunha para regressar ao seu lar!

Via-a vestida de luto pela vida que lhe fora roubada!

Via-a mergulhada na sua muda e estática revolta, entregando-se à morte!

Via-a desejosa de substituir o lenço preto por outro mais claro, talvez cinzento, para aliviar a sua dor!

A Pressa
Março 24, 2014

Gaivota no Candeeiro, 2014

 

A pressa é um tropeção, que entontece a mente, que estremece o coração, que entorpece qualquer relação, e… que culmina num grande trambolhão!

A Poesia
Março 22, 2014

Flores, 2014

A poesia é uma melodia a soltar-se dos olhos do coração de quem abraça o mundo!