Archive for Agosto, 2007

Estórias de Meninos – O Presente de Aniversário
Agosto 4, 2007

Meninos

Era uma vez um menino baixinho, franzino e triste, que respondia às perguntas que lhe faziam com acenos de cabeça.

O menino tinha umas enormes sandálias amarelas, que não lhe serviam para nada, porque andava descalço em casa e a areia da praia não iria fazer-lhe cócegas nos pés.

Não usava boné, porque o sol não entrava na sua casa, nem no carro dos pais.

O avô tinha-lhe oferecido uma bola com as cores do seu clube, mas o menino não tinha nenhum amigo para jogar com ele, nem se encontrava com outros meninos, porque não ia para a rua, nem ao jardim.

O menino só conhecia o cheiro da comida e dos perfumes caros, porque não passeava pelo campo, nem pela praia.

Nunca tinha corrido na praia, nem chapinhado na água, nem lambido o seu sabor a sal, nem feito castelos de areia, nem rolado nela, nem ouvido o mar, nem brincado com as ondas, nem dada um orgulhoso mergulho daqueles que só molham a ponta dos cabelos, porque ninguém o levava à praia – “Temos piscina, não precisa”, afirmava o emproado pai na sua ignorância.

O menino falava com os pássaros que havia na gaiola do quintal e eles respondiam-lhe: uns com pios doloros; outros com melodias alegres, e esta sinfonia fazia-o sorrir.

Um dia uma gaivota bateu à janela do quarto do menino com as asas, e ele assustou-se com aquela ave gigante, mas ficou curioso, porque ela trazia um papel colorido no bico.

Passado algum tempo, abriu a janela, acariciou as penas da gaivota e olhou atentamente para o desenho.

– Leva-me daqui! – pediu à gaivota.

A gaivota respondeu-lhe com um agitar de asas e afastou-se.
O menino ficou mais triste e sentou-se no tapete a chorar.

Pouco depois, a gaivota voltou com um grupo de amigas, fizeram uma roda à volta do menino, pegaram no tapete com os bicos e sulcaram os céus.

O menino, agarrado ao tapete, sorria sem parar, olhava para todo o lado e repetia:
– Oh, que lindo! Que lindo!

Quando chegaram à praia dos Búzios, as gaivotas poisaram cuidadosamente o tapete, e o menino levantou-se, olhou desconfiado para a areia, bateu palmas perante a imensidão do mar e correu para a água.

Um cardume de peixes bebés veio receber o menino, que estava paralisado com o espectáculo das suas danças.

O menino olhou para trás e viu um balde de praia vermelho com formas de todas as cores e uma pá espetada na areia, sobre a qual estava um lindo boné azul com o desenho de uma gaivota.
Também havia um pequeno chapéu-de-sol com muitos barquinhos, sob a qual se encontrava uma toalha com muitas conhas, uma bola com ondas e um cestinho com comida.

Quando o menino se voltou para a direita, um pescador com barbas grandes e brancas, sorriu-lhe e disse-lhe:

– Bom dia! Não tenhas medo! Eu sou o Gabriel e estou aqui para te fazer companhia, porque não é bom que os meninos andem sozinhos.
Também te vou ensinar a entrares na água, a nadares, a fazeres construções na areia, a protegeres-te do sol.
Vamos ter um dia muito divertido, vais ver!

– Mas eu nunca brinquei com ninguém! Achas que eu sou capaz?

– Claro que sim! Mas primeiro vou passar com umas algas especiais no teu corpo, para te proteger do sol, e vais estrear o teu boné, sim?

– Está bem! E os meus pais?

– Não te preocupes, porque o meu irmão Rafael vai vigiá-los para dormirem, enquanto estiveres ausente, e não sentirem a tua falta.

O menino viveu o dia mais feliz da sua vida, porque, pela primeira vez, foi tratado como uma criança.

Viu o sol espreguiçar-se para ir dormir e dar-lhe as boas noites com aguarelas laranja, falou com as estrelas e com a lua, fez desenhos dos acontecimentos do dia na areia, apanhou conchas, ouviu as ondas e o silêncio, adormeceu na casa do pescador, magicamente escavada numa rocha, embalado pelas suas histórias de encantar.

No final do terceiro dia, o menino abraçou longamente o pescador, limpou uma lágrima, e as gaivotas levaram-no para a sua casa.

Quando chegaram, o menino beijou as gaivotas, correu para o quarto dos pais, bateu à porta e disse-lhes:

– Amanhã faço anos. Já sei o que gostaria de receber; é só um presente, um grande presente, o maior de todos: levem-me à praia, porque quero ser um menino de verdade, igual aos outros!
E podem dizer ao avô que preciso de um boné azul com uma gaivota.
Agora vou fazer um desenho.
Até logo!

Porquê?
Agosto 3, 2007

Menina ao Vento

Chamas-me e vou à janela…

Não te vejo, mas sinto o teu odor e ouço-te como um trovão e só depois um relâmpago ilumina a minha mente e ilustra a tua imagem: espumosa e borrifadora; forte e desafiadora; revoltada e entontecida.

Porque te atiras furioso contra a areia e a arrastas, impiedoso?

Porque bates nas rochas inertes, servis e contemplativas, ingrato?

Porque te espreguiças orgulhosa e desmedidamente e recomeças a luta que ninguém te pediu, provocador?

Porque assustas as famílias dos pescadores e os esbofeteias ou engoles quando, há pouco, lhes mostravas as tuas entranhas e lhes oferecias presentes cintilantes para os saciar, traidor?

Porque não te acalmas e beijas os pés das crianças, refrescas as mãos dos namorados, animas os tristes que buscam a tua força, alimentas gratuitamente quem tem fome, lavas docemente os rostos chorosos, vestes as praias de paz, acolhes quem te visita e me deixas sonhar que posso caminhar sobre as tuas águas serenas e conhecer o mundo com as carícias da tua brisa no meu corpo, com o teu sal nos meus lábios, com um bordão das tuas conchas e um colar das tuas finas e perfumadas algas, com uma pedra lascada e uma pena de gaivota para te compor hinos, meu amor?!…