A Petrinha e o Pedrinho – Opções e Acordos

Abril 22, 2017 - Leave a Response

– Pedrinho, estás tão pensativo! O que é que se passa?

– Estou cogitando, Petrinha!

– Cogitando sobre o quê? Queres partilhar, Pedrinho?

– Petrinha, ouvi o avô a pensar em voz alta, acerca da votação em França por parte dos luso-franceses.

– E então, Pedrinho? Estava irritado?

– Olha, Petrinha, o avô estava no… “Mete-me espécie”; foi o que ele disse, depois de um discurso com culinária e tudo.

– Conta, conta, Pedrinho!

– O avô dizia: “Olha-me para estes! Então não sabem que a candidata querer acabar com os emigrantes?!… E ainda querem votar nela?!… Venham para casa sem serem despejados!
Os lusodescendentes não admira! Esta malta nova sabe lá o que é o sabor de: um bom naco de pão alentejano, de uma broa de milho, de uns bons enchidos, de uma bela caldeirada, de um ensopado, de uma sardinha assada, a melhor da Europa, de um bom vinho das nossas castas?!…
E os pais?!… Já se esqueceram?
Isto… mete-me espécie!”

– Pedrinho, que narrativa! Conseguiste ouvir tudo, aposto!

– Acho que ouvi, sim, Petrinha! Mas… o mais giro foi a avó, que apareceu e disse-lhe:
” – Ó homem, não te rales com essas coisas! A vida não está para isso! Tomara que a nossa geringonça se aguente!”

– Boa, Pedrinho! A avó pondo sempre água na fervura.

– “Água na fervura”?!… Não percebo, Petrinha! Nem me cheirava a bacalhau cozido para a avó fazer uma açorda com a sua água a ferver. É caso para dizer: “Isto… mete-me espécie!”

– Ah! Ah! Ah! Pedrinho, “Pôr água na fervura” é um provérbio que quer dizer acalmar os ânimos; foi o que a avó fez!

– Ah! Não sabia, mas já aprendi, professora Petrinha! E se fôssemos ver o que se passa lá na cozinha, porque… já tenho a barriga a dar horas?

– Vamos, Pedrinho, antes que nos chamem para pôr a mesa! E… ao almoço, não abuses dos molhos [môlhos]!

– Descansa, Petrinha, que não abuso dos molhos [môlhos], mas vi dois molhos [mólhos] de coentros na bancada; só espero que um seja para a sopa de abóbora, e o outro para pôr nas saladas, uma de polvo, de preferência para entrada!

– Muito bem, Petrinho! Mas… cuidado com a linha!

– Linha do metro ou do elétrico? Ou ambas? Sou cuidadoso, Petrinha! Quando às outras: na linha do comportamento, às vezes ponho o pé fora; é só um, digo eu, e a linha da elegância, só cumpro à letra se, quer dizer, quando vier no Diário da República! Cá o Petrinho é um cidadão.

– Grande Pedrinho! Até podias ir para a televisão, porque certamente pronunciarias clara e corretamente, em bom Português: acordos [acôrdos] e não [acórdos].

– Obrigado, Petrinha! Manteria fechado “o” do plural de acordo, sim! Mas… o princípio da minha comunicação aos destinatários seria: “acordo-os!”

A Minha e a Tua Biblioteca

Abril 22, 2017 - Leave a Response

A cultura dos afetos alimenta-se na brandura das paredes brancas da biblioteca do coração!

Histórias de Fantoches – As Aguarelas do Júlio – 3.ª Página

Abril 22, 2017 - Leave a Response

Naquele dia, depois de uma conversa com o pintor, as aguarelas antigas, que a pouco e pouco tinham sido substituídas por outras tintas, e que se sentiam tristes por estarem a assistir às pinturas do seu amigo sem serem utilizadas, saíram à rua sozinhas, mas o Júlio ficou a observá-las por um espelho especial, e ia pintando tudo o que elas faziam.

Passaram apressadamente pelo jardim, salpicando:

– uma menina que ia a comer um gelado de morango, que ficou cor de chocolate e baunilha;

– um velhote que estava sentado a olhar para uma palmeira, que, repentinamente, parecia uma árvore de Natal decorada com: bolas vermelhas e amarelas; sinos dourados; pinhas castanhas; fitas prateadas; sombrinhas de chocolate; luzinhas de todas as cores e postais ilustrados pelos netos e ali pendurados;

– uma vendedora de balões com formas de: lagartos; papagaios; macacos; corações; bonecos, que mudaram de cor e pareciam: póneis; galos; palhaços; bolas; bonés.

Assustadas com o que tinham feito, as aguarelas do Júlio entreolharam-se com sorrisos coloridos e decidiram sentar-se na falésia para se organizarem.

– Nós precisamos de pincéis! – gritou a cor-de-rosa, toda vermelha!

– Concordo! – responderam as: vermelhas; verdes; laranja; roxas: azuis; amarelas; brancas; castanhas.

– Eu vou construí-los com canas da Índia e algas, que vou pedir às gaivotas para mas trazerem nos bicos – disse a aguarela amarela.

Quando os pincéis ficaram todos prontos – um para cada uma -, as aguarelas fizeram uma roda, gritaram:

– “Em cada cor, uma flor!” e começaram o seu trabalho, que tinham de terminar três dias depois.

(continua)

A Família

Abril 22, 2017 - Leave a Response

A verdadeira família é quem ama na alegria da partilha, quem educa para o crescimento sem julgar, quem cria com integridade e prepara para voar, quem abraça a sorrir e a chorar, quem acolhe os sonhos e incentiva os objetivos, quem beija no sucesso e no sofrimento, quem compreende e discorda assertivamente, quem respeita as diferenças e estende sempre a mão, quem perdoa com a luz do coração, quem celebra a festa da vida na diversidade, unindo-se na adversidade, e quem salvaguarda a harmonia do dia-a-dia da tirania, traidora armadilha geradora de instabilidade!

A “Danação”

Abril 21, 2017 - Leave a Response

A “danação” é a reação a uma tribulação cuja resolução não está ao alcance de uma só mão!

As Brincadeiras da Nita e do Nito – Conversa de Vendaval, 4.ª Página

Abril 21, 2017 - Leave a Response

O intervalinho foi mais longo do que o previsto, porque o Nito avistou a traineira da família e foi dizer à avó, que logo o incumbiu de algumas tarefas.

A Nita, sempre compreensiva, esperou pelo amigo junto ao portão verde. Não voltaram para o castelo, mas poderiam ir juntos até à Rua Vasco da Gama, pelo menos.

No caminho, ela ainda insistiu sobre Os Dez Mandamentos do Bom Aluno.

Nito – Está bem, Sr.ª Professora-Amiga. Começam todos… por… “O bom aluno”, certo? Vamos no 6.º, lembro-me!

Nita – Muito bem, menino Nito! 6.º – O bom aluno…

Nito – O bom aluno é…

Nita – Não!

Nito – O bom aluno não é, Sr.ª Professora?

Nita – É bom, claro, mas reza o 6.º Mandamento que: O bom aluno diz sempre…

Nito – Não estou a perceber, Sr.ª Professorazita. Afinal, o bom aluno reza ou diz?

Nita – Ambos, Nito! Reza também tem o significado de: dizer, pronunciar, além de orar. Mas se pensássemos em rezar, o bom aluno diria sempre a…

Nito – Já sei! A verdade. 6.º – O bom aluno diz sempre a verdade! Mas… se não fosse a reza, eu diria: “Obrigado!”

Nita – Bem pensado, Nito! Completa, se faz favor: 7.º – O bom aluno é p… nos p…, nas p… e nas a…

Nito – Esse é canja! 7.º – O bom aluno é pronto nos préstimos, nas paródias e nas aulas.

Nita – Ai, Ai, Nito! É mais do que pronto, pu… nos pen…, nas pa e nas… a… O melhor era voltares-te para a reza. Cogita.

Nito – Para a reza, Sr.ª catequista? Ah! Desculpe, Sr.ª Professora-Amiga. Cogito e… arrisco: 7.º – O bom aluno é puro nos pensamentos, nas palavras e nas acções. Acertei? Só pode ser!

Nita – Certíssimo, Nito! Surpreendeste-me com a rapidez.

Nito – Ainda bem! Foi da reza! Seguinte… 8.º – O bom aluno é – ou não é?

Nita – É, sim, Nito! 8.º – O bom aluno é l… e g… para com os seus c… Continua, se faz favor.

Nito – Professorazita, que fácil! 8.º – O bom aluno é luz e graça para com os seus colegas. Isto é verdade, principalmente quando há testes e a malta ajuda-se como pode! Este mandamento está incompleto; falta o que acabei de afirmar!

Nita – Interessante, Nito! Mas… não é nada disso!

Nito – É pois! Eu só completei o mandamento com a verdade! E hoje ainda nem falei em bola; estou muito concentrado!

Nita – Mas… ainda podes marcar uns golos. Vou ajudar-te, novamente, Nito, passar-te a bola. 8.º – O bom aluno é le… e ge… para com os seus com…

Nito – Vá vou eu! 8.º O bom aluno é legal, diria o brasuca, e genial para com os seus companheiros!

Nita – Companheiros, muito bem, Nico! E se tirasses o “g” do legal, e substituísse o genial por um sinónimo de bondoso, mas mantendo o gen…?

Nito – Muito Obrigado, Sr.ª Professora-Amiga! Agora vai sair certinho como eu: 8.º O bom aluno é leal e generoso para com os seus companheiros! – e até é, porque ajuda os colegas e não conta a ninguém!

Nita – Nito, estamos a chegar ao cruzamento onde supostamente nos separamos, a menos que queiras ir mais um pouco comigo e desças aquelas escadinhas. Deste modo, terminávamos os mandamentos. Concordas?

Nito – Concordo, pois! 9.º – O bom aluno…

Nita – Menino Nito, atenção ao penúltimo mandamento, que é muito fácil: 9.º – O bom aluno não maltrata os a… nem as p…

Nito – Uf! Desta vez, vai sair tudo como reza o mandamento: 9.º – O bom aluno não maltrata os animais nem as plantas.

Nita – Muito bem! Vamos ao 10.º mandamento?

Nito – Bora! Desculpe! Vamos, Sr.ª Professora! 10.º – O bom aluno…

Nita – Aqui tens a minha ajuda: 10.º – O bom aluno não faz aos outros o que…

Nito – … não gosta que os outros lhe façam! Certo?

Nita – Quase, quase! O mandamento não reza “gosta”, mas… utiliza outro verbo que tem haver com a vontade. Queres completar?

Nito – Ah! Ah! Já disseste o verbo, Nita-Amiga! Quero, pois! 10.º – O bom aluno não faz aos outros o que não quer que os outros lhe façam.
Muito obrigada, Nita! Gostei muito deste jogo, mas… prefiro jogar à bola!
Tenho de ir! Até amanhã!

Nita – Eu também, Nito! Até amanhã! Olha!

Nito – Estou olhando…

Nita – Engraçadinho! Não achas que os mandamentos deviam estar afixados na sala de aula?

Nito – Acho! Seria um bom trabalho de grupo, ilustrado, de preferência! Vou!

A Cana

Abril 21, 2017 - Leave a Response

Querem ver algumas canas a boiar?

E…

Outras a bailar logo ali, debruçadas para a baía, a namorar o mar?

E…

Encontrei outras, no caminho para aqui!…

Cana-cajado, mão dada da idade!

Cana-caniçada, proteção de pobres!

Cana-cesto, arte de mãos calejadas!

Cana da Índia, multifacetada!

Cana-de-acúcar, mel vegetal!

Cana-do-Brejo, chá medicinal!

Cana-gaita, música de sopro!

Cana-jangada, barcaça artesanal!

Cana-ponteiro, quadro e pancada!

Tanta cana para apanhar, transformar, e… outras haverá!

Estórias de Meninos – O Riel e o Pão

Abril 21, 2017 - Leave a Response

O Riel, além da sua fama, e proveito, de careiro na venda do peixe que adquiria na gandaia da ribeira, e no que o pai e os irmãos mais velhos apanhavam nas pedras, à linha, aumentando-lhe o preço, por sua iniciativa, para fazer o seu próprio e secreto mealheiro, tentava compensar esta sua falta e outras, como servir-se sorrateira e apressadamente à mesa posta para o pequeno almoço de uma senhora rica, enquanto o Léu negociava honestamente a sua pescaria, na cozinha, visando proveitos para toda a família.

Para ilibar-se das suas culpas, o Riel, um bonito, simpático e atrevido lourinho, herdeiro do delicado narizinho e da fina pele da mãe, enchia os bolsos, remendados por uma das irmãs, e escondia sob a camisola inúmeros nacos de pão, que angariava com “choros” de coitadinho, mais por vício “da pedincha” do que por necessidade, e não próprios para a sua idade, e à noite, quando regressava a casa, depositava-os orgulhosamente sobre a mesa, perante os olhares estupefactos dos pais e dos irmãos.

E…

Com este seu contributo, o Riel careiro, adquiria internamente o estatuto de “trabalhador”, que para os demais irmãos se tornava de pudor.

As Curvas do Coração

Abril 21, 2017 - Leave a Response

Há perigosas curvas nas estradas de terra batida e alcatroada, e também as há nos trilhos do coração, guiando-nos fora de mão, aos ziguezagues da razão, com folgas no travão, embatendo-nos nos dolorosos rochedos da desilusão, desenhando sombras orvalhadas de sonhos perdidos no chão…

Mas…

Levantamo-nos corajosa e rapidamente!

E…

Mudamos confiante e sabiamente de direção!

Conversa de Tios Alentejanos

Abril 21, 2017 - Leave a Response

– Ó “ti´” “Zéi”, “atão” já “vocemecêia” viu a barafunda dos carros na “capitali”?!… É uma coisa por “demaji”, diz o povo que lá vai! Aquela “genti” nem “sabi” “conduziri” com trambelho! Calhando “nã” “teim” carta ou saiu na Farinha Amparo!

– Ai, tia “Zabela”, tenho tantas “dúvdas”! “Nã” há nada que “chegui” à largueza do nosso Alentejo e “ó” “respêto”, “´tá” visto.
Já “óvi” “dizeri”, que lá por essas bandas, “metem-si” uns à frente dos “otros”, à parva, que “éi” uma “pôca” vergonha, e que se uma pessoa “nã” calha a ter a vista fisgada “pra” todo o lado e a “prantar” o “péi” no travão, “mêmo” “condo” está parado, tem o caldo entornado!
“Despôji” ainda se admiram de, além das latas amolgadas, terem trecos, e irem “parari” “ó” “hospitali”! Com aquele alvoriamento, o que “éi” que se espera?!… Falta de tino, “éi” o que “éi”!

– “Teim” “rezão”, “ti´” “Zéi”! Mas “ê” cá ando com receio que com tanta “famila” a falar “beim”, pensam “êlis”, que nem sabem cantar “ó” nosso “jêto”, mas que são “senhoris” de tantos montes por estas bandas, ainda tragam “pra” cá essa moda e atropelem a nossa planície, “ó” “atão”, estatelem-se contra algum “sobrêro”, por “nã” saberem “aprovêtar” esta grandeza, que “atéi” o Sr. Torga, aquele “dôtori” que “tameim” era “escritôri”, já elogiava.

– “Nã” me diga! Mas… “olhi” que está certa, tia “Zabela”! Isso era uma “granda” carga de trabalhos!
“Beim!” Já lá “veim” a “carrêra”. Vou andando, para apanhá-la, antes que a magana me “dêxi” em terra e já “nã” vá à “fêra”! “Passi” “beim”!
E pelo sim, pelo não, “olhi” mas é “sempri” “pró” lado!

– Obrigada, “ti´” “Zéi”!
“Passi” “beim”!
E pelo sim, pelo não, “nã” “deslargui” o “sê” cajado! “Pôdi” precisar “dêli” para fazer de “sinalêro”!