Azedas
O Melhor do Mundo
Lindas, deliciosas e ternas são as crianças como tive a felicidade de constatar e vivenciar ontem, mais uma vez, ao conhecer os gémeos T e T, tão semelhantes e tão diferentes, a M, que mal fala, mas que, sentindo-me à sua altura, me deu um silencioso, quente e interminável abraço e ao rever o R, irmão mais velho desta menina, sem os seus caracóis de bebé, independente na iniciativa apressada de lanchar, trincando orgulhosamente num pãozinho que foi buscar à cozinha.
Tachos
Ao Cair da Noite
09/11/07
O globo laranja entrou através da vidraça da janela sem ser convidado e a sua luz baça e brincalhona percorreu a sala, instalando-se curiosa sobre o teclado. Afaguei-a com um sorriso discreto e continuei a atirar letras, a formar palavras, a construir frases no écran espelhado, que a assustava quando emergiam feixes de flores amarelas e roxas salpicadas de papoilas.
Deixei que ela acariciasse as minhas mãos e me trouxesse até ao carro no silêncio cúmplice da noite na cidade adormecida, enfeitada de globos, vestida de árvores douradas, escondida de betão amarelo num bairro cor-de-rosa.
Olhei para trás e estava só num reino de muitos, mas que não era meu, vivendo um momento inimaginável cujo prazer ninguém podia roubar-me!
Desprendi agradecida a minha mão, pedi ao carro para falar baixinho e acenei à luz que, bocejando, deitava-se na quietude do imponente pinheiro.
Amigos da Sabedoria
Desenhos na Areia
As caricaturas enfeitadas de mentira que traças às escondidas para desrespeitosa, injusta e injustificadamente diminuíres quem te estima, te deu oportunidades e te ensinou e enalteceres-te com vagos “saberes”, que obténs de outrém, são desenhos na areia, que as marés da verdade e da justiça apagam.
O Príncipe Afonso
O Príncipe Afonso, generoso em prendas, ofereceu-me ontem um sorriso interminavelmente doce e mostrou-me os seus dentinhos “novos”, estendeu-me os braços ternos e senti o calor do seu corpinho, brindou-me com as suas palavras imperceptíveis e festejámos a nossa conversa, chamou-me com a sua mãozinha e convidou-me para estreitarmos o nosso encontro, fez-me adeus e li no seu gesto a dúvida de quem não sabe se quer partir ou ficar – poderia este dia pródigo em sorrisos ter-me presenteado com algo mais grandioso?!…
D. Pimpona – 9.ª página
A D. Pimpona ficou deitada de costas sobre a carpete de lona pintada com animais da fauna africana, com a cabeça colocada na boca de um tigre, que parecia querer devorá-la. A cada soluço que se soltava da sua boca, análogos a despropositados arrotos, expelia bagos de romã, pedras preciosas que ela escondia entre a dentadura.
O mancebo, a elegante jovem e a Sr.ª obesa e desconfiada estavam mudos e de boca aberta, alimentando a repentina e vã esperança de que, com sorte, também verem as suas bocas transformadas em guarda-jóias, mas o Pimpãozinho, de pêlo arrepiado, arremessava o tesouro da sua dona com a cauda para dentro da bacia de esmalte, que, habituada à suave leveza da água do Bailhão – conhecida pelas suas propriedades medicinais, benéficas para a saúde humana, e poder branqueador para a roupa que as lavadeiras esfregavam ajoelhadas e de seios debruçadas nos rios – com que lavava o rosto mal-encarado da Sr.ª Condessa, tentava limpar-lhe a boca e desgarrar-lhe as mãos, encolhia-se e gritava desesperada:
- Não me atires pedras, Pimpão Ratazano, que me magoas e podes partir-me, e o Sr. Sucateiro está doente, impossibilitado de colocar gatos nas feridas, que seriam cicatrizes para a macieza do meu áureo e polido corpo.
(continua)
O Sofá de Embalar
O sofá é um berço que embala seres de todas as idades e animais de estimação, um regaço aconchegante, uma espreguiçadeira irresistível, um vaivém pelo mundo dos sonhos, uma acendalha para passar pelas brasas cuja chama é apagada por um indesejável despertador: uma mão amiga, um grito imperativo, a publicidade televisiva.





