A Sé de Lisboa – e quantas outras?!… – tirita ao som da trombeta da solidão desprotegida de homens e de mulheres perdidos no seio de uma sociedade discriminatória, egoísta e materialista, invisíveis para os poderosos, mas com rostos e histórias para os generosos, abrigando-os no tecto do mundo, sob o manto de Santa Maria Maior, misturados com os estilos que avoengos – seus ou anfitriões – edificaram pedra a pedra, também famintos, sofredores, vítimas, e com Santo António cujos sermões ouvidos moucos de outros, ainda mais pobres, não escutam, nem percebem.
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O Jovem Lavrador
09/11/23
Entrou um jovem no meu gabinete, depois de pedir licença, e começou a limpar os vidros das amplas janelas amarelas, advertindo-me de que não necessitaria de levantar-me, porque poderíamos estar ambos a trabalhar ao mesmo tempo.
Absorta na minha actividade, nem reparara no seu rosto, mas a sua rapidez e eficiência não me passaram despercebidas e dirigi-lhe um justo elogio.
Observadora e graciosa, uma jovem esbelta, de rosto cândido e luminoso, olhos claros e cabelo solto com muitos caracóis, que ia a sair em serviço, perguntou-lhe:
- Não quer ir para a minha casa?
- Para trabalhar? Oh! – respondeu-lhe o rapaz serena, respeitosa e indiferentemente.
- Claro, para trabalhar! – respondeu-lhe a sua interlocutora com um lindo sorriso!
- Para trabalhar, tenho a minha casa onde faço tudo sozinho: limpo, lavo, passo, trato do campo à volta; é uma vivenda, tenho muito que fazer.
- E não tem ninguém com quem partilhar as tarefas? – insistiu a jovem.
- Não, mas às vezes é melhor estar só do que mal acompanhado.
Quando deixou os vidros a brilhar, colocou-se na minha frente e, colado ao chão, narrou a sua actividade semanal de lavrador:
- Cuido da vinha, das laranjeiras, tenho umas batatas semeadas, alfaces e coisas assim! Devia ver, nem deixo crescer uma erva. Pego num tractorzinho que lá tenho e lavro tudo, mas quando comprei aquilo, havia ervas do meu tamanho.
E vende alguma coisinha? – perguntei-lhe.
- Não vendo nada, dou. As minhas laranjas são mel, nem sei onde arranjei aquilo, e as minhas vizinhas, que também têm laranjeiras, vêm apanhar das minhas, mas eu não me importo, até gosto de repartir.
- Não é frequente encontrar um jovem assim! – salientou a Teté, precioso elemento da minha equipa.
- Olhe, no caminho um colega perguntou-me como é que eu juntava dinheiro para ter tudo isto, e eu respondi-lhe que, enquanto ele andava a divertir-se todas as noites e a gastar dinheiro, eu ficava na minha sala, sentado no sofá a ver televisão. Mas eu preciso é de trabalho, esse é que não pode faltar e, quando chegar, largo este e pego noutro – prosseguiu o jovem, que não tinha tempo para barbear-se.
- E um docinho de laranja? Seria bom ter alguém que o fizesse com gosto e apreciasse essa sua actividades de lavrador – insisti.
O jovem sorriu e continuou:
- Eu sou mais do campo, eu gosto do campo, e a minha mãe, que é do Alentejo e o meu pai de Paredes de Coura, também gostam! Estiveram lá no fim-de-semana! Mas o pior são as contribuições, porque eu comprei aquilo barato – continuou o jovem, referindo o contexto e o valor da compra, a qual o mediador da imobiliária propôs duplicar, caso lha quisesse vender.
- Mas morar numa vivenda tem vantagens, porque não se incomoda, nem se é incomodado! – adiantei.
- É verdade, e não se paga condomínio, e aquilo tinha uma adega e tudo. Mas está-se sempre a gastar dinheiro, porque isto ou aquilo não está bem, arranja-se. Olhe, acabei a cozinha, ficou rústica, procurei juntar os dois estilos das zonas dos meus pais, está bonita, eu gosto!
- Mas investe e vê frutos do seu trabalho! Parabéns! – incentivei-o.
À despedida, que o jovem parecia não desejar, felicitei-o por ser grande, não me referindo à sua enorme estatura e desejei-lhe as maiores felicidades, as quais me retribuiu.
Injustiça Humana
Alguns com tanto milhão e muitos sem ganha pão!
A que se deve tanta diferenciação?!…
Ao homem que, em vez de amar e pensar, tem no coração uma máquina de calcular e olha para o mundo de barriga cheia e de papo para o ar, sem se incomodar.
Quem sabe se é por isto que passa a vida de crista levantada a bater as asas, mas sem cantar nada?!…
O Caçador sem Pontaria
A Caranguejola Mal Comportada
Uma caranguejola velha e mal-encarada não queria andar, mas foi passear, lanchou, pernoitou em hotel de cinco estrelas, sem pagar nada, mas rabugenta e zangada, não quis levantar-se de madrugada, obrigando uma amiga a andar à boleia e o dono do estabelecimento a ficar deitado sob as estrelas, amanhecendo molhado e constipado, mas hoje vai ser desmontada, coração fora, para ser tratada!
Não Ofendam as Palavras!
As palavras não se querem ofendidas, por isso elas próprias provocam engasgos a quem “vã-mente” as insulta na pronúncia e as mascara no entrudo relacional e fazem sinais a quem as ouve e caretas a quem as lê, na tentativa de preservarem a sua identidade, expressando-se como são, alegres ou tristes, mas verdadeiras e dignas.
Mulher-Mãe
Mulher, navegante louca na solidão desenfreada da tua frustração amorosa, perdida no vendaval da tua desordenada emotividade e instabilidade, pára na praia deserta do teu ser e acolhe como a fresca brisa marinha e com ondas de amor paciente e compreensivo o teu menino que cresceu, reconhecendo-lhe o direito à sua liberdade de pensamento e poder de decisão, porque os teus ressentimentos não podem ser os dele.
Deixa-o prosseguir o seu voo magoado na viagem da vida que lhe deste, mas que não te pertence – ama-o, simplesmente, sê mãe!
Passagem
Um Bem Chamado Chuva
Não olhes para a chuva com tristeza, porque ela alimenta a Terra e sacia as fontes e, na Primavera, os campos vão sorrir-te com alegria pintada de todas as cores e muitos sabores.





