Empréstimos do Coração
Maio 30, 2017

Não dites palavras de amor a quem não as sabe dizer, porque não cabem no seu coração, não vá alguém desconhecido apaixonar-se por ti refletida(o) noutro ser, e um dia sofrer, ao descobrir que não são de veludo os versos do seu poema de amor, nem de mel os seus lábios docemente salgados, nem tecido de brocado o silêncio de papel que, ilusoriamente, tem a seu lado!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Desejo
Abril 3, 2017

Quando eu for grande, quero ser um macaquinho-sorriso com uma malinha de vendedor ambulante ao pescoço, daquelas onde há de tudo um pouco, como se fosse uma antiga barraquinhas da feira, e encantar a pequenada sem precisar de comprar nada!

Quando eu for grande, quero ser um macaquinho-ilusionista com uma malinha de vendedor ambulante ao pescoço, fazer dum berlinde uma bola de futebol pintada com aguarelas da cor do teu clube, transformar um carrinho num avião e um cromo numa caderneta com uma fantástica coleção!

Quando eu for grande, quero ser um macaquinho-brincalhão com uma malinha de vendedor ambulante ao pescoço, prender um balão à tua mão, oferecer-te um carrinho com um lindo bebé chorão, e uma fita para o cabelo com uma flor com pétalas de coração!

Quando eu for grande, quero ser um macaquinho-sabichão com uma mala de vendedor ambulante ao pescoço, dar aulas de educação física através de câmaras de video vigilância, para animar as salas de espera e afugentar qualquer ladrão!

Quando eu for grande, quero ser um macaquinho-saltitão com uma malinha de vendedor ambulante ao pescoço, dar abraços a quem chora, fazer festas a quem tem frio, levantar quem está caído no chão, distribuir água e pão, dar cambalhotas de alegria e fazer macaquices para que a tristeza fuja e toda a gente se ria!

A Menina Azul – O Sono Interrompido
Outubro 19, 2016

A Menina Azul

Ainda dormia a serena madrugada quando a Menina Azul, ensonada, perguntava à sua sorridente bonequinha, sempre a mostrar os seus dois dentinhos, com a alegria na rosada bochecha estampada:

– Lili, porque é que ninguém me deixa dormir, e todos me acordam desde bebé, sem eu estar a fazer nada, nem a incomodar ninguém?!… Achas que sou uma menina igual às outras?!…

E… a Lili, muito caladinha, sorria, sorria!

– Tu não me respondes, Lili, mas eu sei que posso confiar em ti! E quando eu for grande, e já souber escrever frases, porque eu já conheço as letras e desenho palavras muito bem, e números, mas depois vou escrever estas coisas todas contigo sentadinha bem pertinho de mim, com letra miudinha para caber tudo na minha pedra; depois podemos apagar tudo e ninguém fica a saber dos nossos segredos.
Agora vou abaixar a luz do candeeiro para não gastar muito petróleo e não acordar ninguém, porque, mesmo caladinha, esta cor douradinha espalha-se pela casa, e ainda pode abrir as pestanas a alguém.

Achas que o paizinho já foi para o mar? Deve estar tanto frio! Se eu fosse muito, muito pequenina, podia ir com ele escondida no bolso da sua grossa camisa, e aquecer o seu coração de alegria!

Fecha também os teus olhinhos e vamos sonhar acordadas, sim?

As Pedras do Caminho e a Areia do Sapatinho
Novembro 28, 2015

Pedras no Caminho, 2015

Não atires ao inocente e indefeso as pedras que encontras e cultivas no caminho, nem os bagos de areia que tiras do teu sapatinho, porque podes tropeçar na tua cobardia e cair um grande, inesquecível e irreversível trambolhão, mesmo que o alvo da tua cilada te estenda generosa e amorosamente a mão!

A Terceira Carta para a Pagizinha
Outubro 13, 2015

Um Olhar de Soslaio para o Bosque, 2015

Terra das Árvores Gigantes, 09 de Outubro de 2015

Querida Pagizinha,

Continuo percorrendo esta cidade contigo no pensamento, lamentando que não estejas ao meu lado para partilharmos as descobertas, para vermos tudo com os olhos uma da outra, para ouvir-te expandir as tuas sensações, as tuas cogitações e as tuas deduções fantásticas, como te é habitual, enriquecidas com o teu sorriso, mas… poderás imaginar que estás aqui comigo quando ouvires ler o que te vou descrevendo…

Antes de falar-te sobre as impressionantes bicicletas, vou contar-te como são as casas, também elas adaptadas ao clima, muito diferente das nossas como podes imaginar: o exterior forrado de tijolos pequenos, parecidos com os das lareiras, mais escuros do que os nossos, todos juntinhos dão-nos a ideia de uns “kispos” agasalhando os seus habitantes; as janelas são muito amplas e estão quase todas vestidas de cortinados brancos transparentes, não têm persianas exteriores, e, à exceção de alguns edifícios modernos, a maioria das habitações possuem poucos andares, e têm muitas árvores-vizinhas.

Curiosamente, alguns passeios mais antigos, nomeadamente junto ao bosque, são do mesmo material das casas, mas um pouco mais escuro, talvez por estar gasto, mas entre eles também nascem umas ervinhas, sobretudo nesta época do ano – aos pés das árvores que ficam junto aos passeios, as quais parecem ser as paredes de folhagem do bosque, também crescem pequenas vegetações, que certamente a tua mãe identificaria e veria particularidades que desconheço, mas fiquei com a ideia de ter visto uns hortigões gigantes!

Estás a pensar que me encontro num mundo mágico de gigantes?!… Não é bem assim, porque é tudo real, mas até os naturais deste país são, por norma, pessoas muito altas e, claro, geram crianças também maiores do que tu, que até és alta; a maioria é loura e o sexo feminino, de todas as idades, tem uma predileção por tranças!

Pagizinha, já reparaste que andamos a olhar à volta?!…

E as bicicletas?!…

Já te disse que são o principal meio de transporte, o que, como sabes, é muito saudável para a saúde e para o ambiente!

Circulam por todo o lado, por isso temos de ser prudentes, mas há vias próprias e semáforos com o símbolo da bicicleta.
Também existe algo que te impressionaria: parques de estacionamento para bicicletas em todo o lado, principalmente junto aos estabelecimentos públicos, supermercados, por exemplo, ao longo dos respetivos edifícios, e em pontos centrais, mas estes são enormes, cobertos e estruturados para guardar centenas e centenas de bicicletas; chegam a ter mais do que um piso – estás de olhos e boca aberta?!… É verdade! Um dia verás, acredito!

Toda a gente anda de bicicleta: homens, mulheres e crianças de todas as idades! É impressionante ver a agilidade dos mais idosos e dos mais pequenos, estes normalmente na sua bicicleta ao lado do pai ou da mãe, e até do avô ou avó, acompanhando o seu ritmo, chegando a fazer corridas entre si!…

Há bicicletas equipadas das mais diversas maneiras: cestinhos de rede ou caixas de plástico, médias, tipo transporte de fruta, normalmente à frente, suportes para malas lateralmente ao assento, cadeiras de bebé, atrás e/ou à frente do condutor, estas muitas vezes com grandes palas transparentes, protetoras da chuva, se bem que ninguém pareça preocupar-se muito quando ela chega e molha a sério, porque continuam a pedalar descontraídos como se não a sentissem, talvez por que estão habituados e também por que ela é passageira.

Pagizinha, giro, giro é o acessório de madeira, por vezes com mais uma roda de apoio, tipo caixote grande, em forma de triângulo, colocado na parte frontal da bicicleta, com bancos no interior onde as crianças vão sentadas, algumas com capacete, e onda há espaço para as suas mochilas e/ou outros sacos – raramente se vê o uso do capacete, que só me apercebi nalgumas crianças, excecionalmente.

Gostaste do que te contei?!… Espero que sim!

Abracinhoooo muitooo apertadinhooo, daqueles que só tu sabes dar, e que é muito nosso!

Tua Vizinha-Amiga-Madrinha do Coração