Estórias de Meninos – A Longínqua Prisão do Quico

No dia das eleições, o Quico, um homem honesto e de renome na sua profissão, recordava, antes de cumprir o seu dever cívico, que fora preso quando tinha sete anos.

Sorria e esfregava as mãos como quem acaricia uma saudosa página da história.

Contava que naquele tempo só havia dois guardas na nossa aldeia. O Quico e mais “gaiatos” da sua idade, alguns talvez já tivessem oito anos, andavam de calções e descalços, como lhes eram habitual, a apanhar amoras alegremente na enorme e única árvore existente no largo da praça, mesmo em frente à cadeia.

Ao mesmo tempo, saciavam-se, lambuzando-se, e… guardavam alguns frutos nas algibeiras.

Mas…

Naquele dia, apareceu um dos guardas, que prendeu os catorze meninos até ao final do dia, envergonhando-os com severos sermões, e assustando-os com terríveis ameaças.

Na cela, com uma janela de grades virada para a amoreira pública, alguns choravam, outros riam, temendo a “abada de porrada” que os esperaria em casa…

O Quico era o único que não temia passar lá a noite, pois tinha esperança que os guardas apanhassem algum desordeiro “com os copos”, e os retirasse da prisão, porque das duas celas existente, só uma era para os homens – a outra para mulheres -, e não iriam misturar a “gaiatagem” com gente grande.

” – Eu nunca mais me esqueci, nem apanhei mais amoras!” – repetia o Quico, sorrindo.

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