A Cidade Grande e a Paragem do Autocarro

Circulavam veículos privados e de serviços públicos nos dois sentidos da estreita e movimentada via.

Uma anafada alfacinha espreitava à varanda, olhando de um lado para o outro e para o relógio, resmungando, toda rosada, enquanto voltava para o interior.

Uma carrinha de serviço domiciliário parou no meio da rua. Lá dentro, os impávidos idosos permaneciam silenciosos como se assistissem a um espectáculo de marionetas.

O motorista, um senhor baixo e forte, vestiu o colete, pegou no telemóvel e fazia desesperadas chamadas, respondendo às impacientes buzinas com gestos mudos, de sinaleiro.

Ninguém vinha em seu auxílio. Dir-se-ia que nem o carro da polícia se apercebera do incidente. Apenas os motoristas profissionais pareciam sensíveis à embaraçosa situação, parando a distâncias facilitadoras da passagem a um ou outro colega que se aproximava em sentido contrário, e também alguns dos peões colados à paragem, curiosos, seguindo a infrutífera aflição ao telemóvel.

Eis que, finalmente, uma carrinha não identificada estaciona à frente do colete amarelo, que ergueu os braços, respirando de alívio no meio do seu protesto.

Na paragem, os relógios estão inquietos, as pessoas entreolham-se e algumas perguntam o número de autocarro pretendido. Uma distinta e madura senhora tira o telemóvel da mala e oferece os seus préstimos, referindo que tem uma aplicação que permite ver o tempo de espera para cada um, gentileza que é acolhida com muito agrado.

Prendo novamente os meus olhos no colete amarelo que ajuda a simpática senhora da carrinha de socorro a tirar os idosos, um a um e a sentá-los neste veículo, alguns dos quais são alvo dos seus saudosos abraços – não consegui ouvir a voz de nenhum; apenas o motor que ia arrancar.

Os passageiros foram ocupando os autocarros, à medida que iam aparecendo, seguindo a hora prevista pela simpática senhora.

E…

O motorista da carrinha de serviço domiciliário continuava a falar ao telemóvel, agitado e desagradado com a espera daquele dia que mal tinha começado, e que já o tinha desesperado!…

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