A Menina Azul e os Desabafos dos Motoristas

Na cidade grande, em dias consecutivos e horas diferentes, a Menina Azul deslocou-se três vezes de táxi: três veículos diferentes; três percursos diferentes; três motoristas de idade e fisionomia diferentes, mas todos tinham algo em comum, além da prestação de serviço público, do género, e de terem família e serem pais de estudantes, exceto uma jovem enfermeira estagiária, que trabalhava muito num hospital público fora da capital: desabafavam.

Os três motoristas diferentes foram pacientemente escutados pela Menina Azul que, de vez em quando balbuciava algumas palavras de gentil apreço, ficando a saber que:

– todos tinham preocupações em relação ao tempo, não fosse a tão desejada chuva pregar-lhes uma partida fora da época, por causa das férias já marcadas, umas para Maio, outras para Agosto – “infelizmente!”- outras para Setembro, todas com destinos diferentes: à beira-mar para desfrutar da praia; na aventura de um cruzeiro; no Norte onde a comida é “do melhor” e não se houve o bulício da cidade, nem se respira a poluição;

– todos far-se-iam acompanhar, além das esposas e filhos, pelos os pais e os pelos sogros – “férias em família”, de facto;

– todos desempenhavam uma atividade nova na sua vida, pelo menos havia uma década: um trabalhara para o Estado, e agora vingava-se, não votando; outro vira a promoção perdida na sequência da falência da empresa, o terceiro fora imigrante e conservava a memória de um dia estar a admirar uns relógios numa montra em cujo estabelecimento acabaria por entrar, não obstante não ter poder de compra – “sós para ver”-, seguindo um Sr. mal vestido e enlameado com duas crianças sujas com ar de quem vinha feliz da escola ou de um parque, surpreendido pela delicadeza da empregada no acolhimento do improvável cliente, comportamento que não vê no mesmo contexto no nosso país, e ficando boquiaberta com a aquisição de três relógios caríssimos…

E…

A Menina Azul, chegada aos locais pretendidos, pagava, claro, e, enquanto pegava na gorducha mochila, formulava aos três motoristas, aos óculos de um, ao cachecol de riscas, tipo indiano, de outro e às ruças do mais maduro, com um franco sorriso, os seus votos de: “Boas Férias!”

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