A Rica Diversidade da Cidade Grande

Na cidade grande há casas de todas as cores e tamanhos, paredes brancas, outras pálidas, muitas garridas: lilases, amarelas bem tingidas; azuis de crianças já crescidas, alaranjadas torradas, avermelhadas atrevidas, esticando os lábios para os azulejos contadores de estórias, beijando as coradas tradições, namoriscando as inovações com antigos pregões, fados e alegres canções.

Abrem-se e fecham-se portas com saídas apressadas, e entradas cansadas, e espreitam às janelas: crianças maravilhosamente pasmados; pálpebras pesadas de saudade da juventude perdida, e poucos olhares admirando a beleza da vida nas esquinas e nas copas das árvores escondidas.

Debruçam-se verdes pálidos nas modernas varandas, tentando fugir da poluição, e brilham vasos floridos, espreitando entre o ferro forjado muito bem talhado e de arte antiga admiravelmente bordado. 

Nas ruas douradas de turistas apinhadas, oferecem-se ementas com vénias de empregados bem-educados,  e há bocas abertas para os pastéis de nata pálidos ou mais tostados, chamando a atenção dos gulosos paladares para com espirros, tosse ou simplesmente o deleite da canela sobre a nata polvilhada.

Há homens-estátuas aqui e ali espalhados, dos quais se sobressaem: um perfeito Santo António com o Menino ao seu colo muito bem aconchegado, e um autêntico pirata dourado com ar muito determinado, de costas para o rio voltado, donde certamente terá desembarcado, e noivas de neve e longo toucado, uma triste e a outra com rosto envergonhado, talvez esperando um noivo atrasado ou algum cavaleiro pouco nobre que a tenha abandonado.

Rodopiam alegre, mas isoladamente três jovens de olhar fixo no telemóvel, uma com poses ousadas, sorrisos grandes e desassossegadas madeixas do longo cabelo despenteado, outra com passinhos de bailarina é a personagem da tela paisagística, enquanto uma delas diverte-se, mais ao centro, fazendo vénias a el-rei montado no seu cavalo, em vez de deitar um respeitoso olhinho ao jovial e vigilante corpo de segurança muito bem fardado, disperso aqui, ali, acolá, quase ao seu lado, de rigor bem preparado e equipado.

Desfrutam do diversificado cenário, incluindo os desalentados óculos de sol nas mãos dos vendedores pendurados,  as faustas ementas sentadas do outro lado onde ninguém parece engasgado.

Isolado da multidão, encostado a um canto, um volumoso livro poisado numa original secretária de pernas esguias escondidas numas calças coçadas, em posição de “cabanita”, lê discretamente em voz alta, seguindo as frases com um dedo, sobre as quais se aproximam os cabelos compridos mal cuidados.

Ao fundo da praça há música africana ao vivo, cheia de cor, de ritmo e calor enriquecida com uma  voz feminina que apetece seguir, animando as ancas e os tímidos passos de quem passa, e até as Tágides na sua oculta dança sacodem as águas com brisa e graça.

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: