A Menina Azul e o Vestido de Noiva da Afilhada

Era uma amiga, pensava a Menina Azul, mas revelou-se daquelas pessoas que, sentindo-se superior, um dia ao intervalo das aulas, lhe dissera, desdenhosamente, que ela não seria professora, nunca se casaria, nem teria filhos, que tornar-se-ia uma solteirona como algumas empregadas de escritório, mas cuidaria dos seus descendentes…

A Menina Azul olhava estupefacta e muda para o sorriso trocista, brilhando no rosto da sua interlocutora, e percebeu que a pele fina e a bochecha rosada era, de facto, bastante mal-encarada e de maldade talhada. 

Num verão de agosto em que a praia apinhada de turistas parecia mais pequena e abafada, um dos jovens do interior do Alentejo que habitualmente poisava no toldo 14 P, reservado para a Menina Azul e umas amigas na época balnear, escancarou a boca risonha, e perguntou-lhe se ela não tinha nenhuma amiga para lhe apresentar.

Lembrando-se da solitária amiga, flor de estufa, que de casa só na companhia do pai saía,  nem com jovens da sua idade convivia, respondeu-lhe afirmativamente, mas… como trazê-la até si ou leva- lo até ela não sabia.

Os enormes olhos verdes do rapaz, herança de sua linda e amorosa mãe, saltaram por trás das lentes com aros estilo de professor, e, insistente, cansava a Menina Azul com curiosas perguntas, atitude que se prolongou no dia seguinte, no outro… Até que, depois de muito pensar na princesa aprisionada, lá lhe disse como é que a amiga se chamava, e  explicou onde é que ela morava…

A inesquecível cena do primeiro encontro, ele à porta, e ela ao cimo da escada, seria depois por ambos à Menina Azul narrada.

Namoraram, noivaram e, quando decidiram dar o nó, a amiga convidou a Menina Azul para madrinha, justificando, por iniciativa própria, que sempre dissera que a pessoa que lhe apresentasse o futuro marido, teria esse privilégio.

A Menina Azul pareceu-lhe que se tratava de conversa de conto de fadas, ou talvez um presente de Natal prometido a quem se porta bem, mas acabou por aceitar, pensando que teria de ir ao seu mealheiro para o vestido de noiva lhe ofertar, o qual, veio a saber seria confecionado por uma famosa modista local.

De vez em quando, a futura madrinha perguntava pelo vestido. O tecido já tinha sido comprado, era tudo o que sabia; depois, que ja fizera a primeira prova, que estava muito bonito, e um dia, que, dali a pouco, novamente o provaria. Não contendo o desejo de partilhar aquele  momento, a Menina Azul manifestou-o, mas a resposta foi negativa, pois ninguém o veria, a não  ser no bem-fadado dia…

Indignada e magoada com tão incompreensível negação, a Menina Azul guardou silêncio até ao dia do casamento.

O vestido de noiva era de uma delicada beleza com umas flores salteadas, dando-lhe nobreza, o véu original orlado  por algo fino, avolumando-o  numa espécie de forma em arco, mas… a memória que atravessou a ponte do tempo com a Menina Azul foi o perfume das frésias brancas e amarelas do ramo de noiva!…

Foram felizes no casulo que formaram com a filha – ou seria numa inacessível torre de príncipe e princesas? – até ao dia em que a doença o obrigou a despedir-se desta vida.

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