Archive for Maio, 2018

“- Olha! A Mulher das Farturas!”
Maio 15, 2018

“- Olha a mulher das farturas!” – gritou com alegria a senhora de meia idade um cuja cabeça já despontavam flocos de neve, espreitando para as calças de ganga.

“- Sou eu, pois!” – retorquiu a serena senhora sentada na sala, enquanto aguardava s sua chamada para a demorada consulta.

“- Conheço-a há muitos anos! E tem três netos! Em cada “fêra” aparecia uma delas grávida! ” – prosseguia a admiradora da senhora das farturas.

“- É verdade! E já passaram dezasseis anos! Os (…) já têm dezasseis anos . – respondeu expedita a babada avó! 

“- Nunca compro farturas a mais ninguém! Tem tudo tão limpinho! E as batinhas todas branquinhas! Uma semana antes da “fêra”, era cá uma limpeza, que até parecia que iam estragar os alumínios todos! Um asseio digno de ser visto! “- descrevia a interlocutora.

“- Obrigada! Sempre ensinei a todos os meus como se fazia tudo! Quando um dia me for embora, só quero que continuem esta obra e, acima de tudo, que tratem bem toda a gente! Já temos tudo montado para a feira da primavera na terra onde trabalhei pela primeira vez. Aquela gente recebeu-me tão bem, mas tão bem, que os trago a todos no meu coração, e isto serviu-me de lição para a vida toda, e dos meus! – acrescentou a senhora das farturas eufórica, elogiando, sem saber a minha aldeia.

A Minha Aldeia e os Artistas Expostos
Maio 15, 2018

A arte do pincel, das tintas e da harmonia e/ou contraste das cores iluminam as enormes paredes brancas.

Numa ala, oferece-nos importantes retratos com os expressivos olhares, brilhantes ou baços, incisivos ou dispersos, navegando nos sulcos talhados pelo rosto do tempo, narrando experiências com mãos deformaras, umas presas ao passado, outras caídas no espaço perdido, abandonadas no eco do silêncio,  algumas floridas de esperança com perfumes de fruta madura emoldurando a história, lábios ricamente diferenciados: pintados de sorrisos, entrelaçados de heras pensadoras,  com pêndulos de nostalgia!

Dois rostos apenas,  duas vozes do coração de Portugal, uma  famosa nas vibações vocais, outra nas matizes da poesia, não se me revelaram no traço das cores na sua plenitude: faltava-lhes a profundidade da alma em que o artista não mergulhou ou… não conseguiu abraçar!

Na outra, os nossos olhos alongam-se na vastidão da paisagem alentejana a perder de vista, ao ritmo da sintonia de um filho com o pulsar do coração das casas brancas, térreas, orladas de azul, as temperaturas muito altas com gente sentada às portas ao anoitecer, as abaixo de zero cobertas de capotes, partilhando: a beleza da ceifa, a riqueza dos rebanhos, das perfeitas varas pretas, saciando-se de blotas; a dança da primavera e o respeito pela trovoadas, as veredas,  alguns discretos olhares e subtis carícias ao mar, lá ao longe, cuja brisa refresca os tons dourados do celeiro, com as garridas flores dos chorões e as guardiãs da costa quase indefinidas, para quem tem a felicidade de ter os olhos cheios da sua inequívoca beleza!…

Que dancem os pincéis no arco-íris dos painéis, fazendo-nos voar nas asas pintadas da criação de carroceis!  

O Trambolhão da Mentira
Maio 12, 2018

A mentira enleia-se nas suas malhas e tropeça em si própria, caindo estrondosamente no chão, sem que ninguém se compadeça e lhe estenda a mão!

A Tinta e a História
Maio 12, 2018

A tinta faz história, e a cruel desumanidade envergonha-a sem piedade do papel mata-borrão!

Olhares sem Memória
Maio 12, 2018

Nos rostos do tempo esquecido há traços de memória com sorrisos, de alegria e comoção, reflexos do já vivido e aprendido, mas não reconhecido pela descriminação da mentalidade de quem ainda não tem maturidade para ver e perceber que o sulcos enrugados, as pernas trôpegas e as mãos deformadas, mas tantas vezes exemplarmente gentis e generosas, já desfrutaram da vigorosa frescura da mocidade, lutaram e contribuíram para a construção da sociedade, foram flores viçosas com a sua idade!

A Dança das Palavras
Maio 12, 2018

A dança das palavras é o despertar de bocejos pintados de beijos nos lábios de romã, ecoando hinos de amor, espreguiçando-se na sinfonia luminosa das ondas numa interminável manhã!

A Sombrinha
Maio 12, 2018

A sombrinha é a protetora projeção da tua sombra entre a multidão, quer queiras, quer não, mostrando a tua dimensão num retrato molhado mergulhado nas poças, refletindo-te do chão!

Sorriso do Dia – A Persistência Maternal
Maio 12, 2018

A Mãe ama, alimenta o Amor, faz tudo por Amor, sorri por Amor, e chora na silenciosa sintonia da dor!

A Mãe diz sim ao Amor, prova o Amor ensinando e aprendendo a dizer não, e também erra por Amor!

A Mãe não desiste do Amor, persiste na travessia das tempestades, limpa a chuva queimando o rosto, aquece as mãos trémulas de frio, desvenda o despontar da primavera, regando o contínuo crescimento das árvores floridas do seu jardim com beijos repassados de sorrisos, celebrando a alegria da vida numa inefável dança de magia!

E…

A Mãe deixa pegadas de Amor no caminho, inicialmente afundadas na praia do seu coração pela crescentes bochechas babadas de sorrisos e palradas que traz ao colo… depois acompanhadas por outras, de pequenos e desequilibrados pezinhos, ainda descalços, tornando-se maiores do que os seus, caminhando a seu lado, e um dia, concretizando o sonho do milagre da vida, seguindo à sua frente!…

Então…

A Mãe do Amor sorri, olhando para a o amplo horizonte e para o alto, contemplando a feliz liberdade do pássaro que ensinou a voar e a cantar!…

Olhos Tristes
Maio 6, 2018

Olhos tristes no eco do silêncio são dor, suplicando-nos amor!

Gente Boa da Minha Aldeia – Cumplicidades de Outros Tempos
Maio 6, 2018

Na quinta debruçada sobre o mar onde habitara uma nobre dama lusitana a quem lhe fora confiada a honra de construir um templo para um santo cujo corpo dera à costa, e onde já ecoavam as pueris risadas de um futuro poeta, os empregados conviviam como uma família amiga.

O jardineiro, de verdes anos perfumados de bons ares campestres, sempre que avistava o espesso e colorido xadrez da camisa do jovem pescador coroado com uma boina preta, colhia fruta fresca, lavava-a e corria a entregar-lha, para que se entretivesse, mas sem expor a sua presença, enquanto subtilmente ia chamar a colega que cuidava dos meninos, já perspetivando como ela usufruria do encontro amoroso sob um pretexto laboral, normalmente apalpando a roupa estendida, ou trazendo alguma peça suja ou não que colocaria sobre o tanque…

E…

Esta cumplicidade permanece sólida nas memórias que o tempo rega de saudosos sorrisos quando os colegas-família-amiga se reencontram!…