A Língua Comprida dos “Compadris”

Eram três “compadris” quase colados às minhas costas, cavaqueando num solene ambiente onde pairavam lágrimas e dores, quebrando a mudez dos lábios cerrados à sua volta, que se refletiam na indignação de certos olhares apontados às suas palavras, tecidas de desrespeitosa e apregoada coscuvilhice.

Um, mais alto e com ar de fidalgo, próprio da vastidão dos abastados montes do concelho, opinava sobre a venda de um descapotável encarnado a um dito (…)inho, homem feito, e pai, ora habitante da minha aldeia e que nem imaginava que era natural da localidade vizinha, muito menos que, além da pesca e de um naco de pão com presunto, também nutrisse paixão por veículos tão pequenos, velozes e… caros – também sabiam o preço!…

Fazia contas ao que o vendedor auferia mensalmente: a reforma, de um valor que mencionou, rendas e a liquidação mensal da máquina encarnada, de não sei quanto, nem quantos meses – muitos.

Sabia o “douto” fidalgo que o pai do (…)inho tinha muitos garrafões de água em casa, dos quais só bebia a primeira vez, pois receava que o filho lhes introduzisse algum medicamento que lhe tirasse o apetite pelo seu rico tinto, produção do seu Alentejo – e ria-se de uma forma absurda e ridícula…

O aposentado, e lavrador, também ele com um bigodinho, mas com ar modesto, acompanhava o riso do seu interlocutor e falava sobre patuscadas aqui e ali, convites que choviam, oportunidades que recusava.

O “compadri” mais idoso chorava pela partida da sua amada esposa, “tão boa pessoa” e ” grande companheira de uma vida”, contando os meses e os dias em que a saudade o roía, relatando uma ida a uma entidade bancária, num dia em que ele se encontrava de cama, e a vergonha que ela passara, porque um funcionário afirmava que “o seu nome não estava lá”, tendo voltado para casa sem os cem escudos que tanta falta lhes faziam para comprar os remédios, e mantendo segredo até ao restabelecimento do seu homem…

O “compadri” fidalgo dava palpites sobre a atitude que a senhora devia ter tomado, porque o dinheiro era seu, e contava cenas suas, de imaginário e presunçoso herói, em contextos análogos!…

E toda a gente ficou a saber que, quando o “compadri” mais idoso deixou a cama e soube a verdade, foi com a esposa ao banco, insistiu na verificação da sua situação e… levantou o “dinheirito”, que “prantou noutro sítio”!

Cenas! Cenas de língua comprida, de fora, afiada…

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