Archive for Outubro, 2017

Lágrimas de Cinza
Outubro 23, 2017

São lágrimas de cinza as que secam os olhos da “ocidental praia Lusitana”, queimam os corações de dor, vestem de luto a nudez das montanhas, mascarram as mãos vazias e calejadas, revoltam os mares de navegantes e pescadores, chamando a chuva na noite chorosa e desabrigada…

São lágrimas de cinza as que entristecem a clara luz da madrugada, limpando-as com pétalas orvalhadas de solidariedade reconstruída com esperança repartida, plantando pão nas espigas que trazem ao peito, sussurrando no parco e frio leito uma canção que se chama: vida!

São lágrimas de cinza as que regam a terra quente e ressequida, fazendo renascer os corcéis de força vencedora, erguendo os braços na destemida fúria de quem acredita e faz anunciar uma nova primavera em que todos são guardas-florestais, guardas-rios, guardadores de gado, vigias, pedreiros, calceteiros, agricultores, poetas, médicos e enfermeiros das suas e de outras dores, crentes e descrentes, pobres, sonhadores e senhores desta Pequena-Grande-Nação!

Abraço, Portugal! – não há terramoto que te aniquile, nem tempestade sem porto que te abrigue, nem fado que te cale!

A Sombra do Sorriso
Outubro 22, 2017

Esconder o sorriso é roubar a luz ao dia, é adormecer o siso à mocidade do tempo, é olhar para a tempestade sem içar as velas, é desenhar a sombra do arco-íris com palavras sem melodia, é esquecer o sorriso que, com e para o teu sorriso sorria, em sintonia festejava a vida, erguendo a inefável e transbordante taça da alegria, lambuzando os lábios de doce maresia!

O Popular Poder da Aguardente
Outubro 22, 2017

Dizia, entre si, a sabedoria popular…

“- Viva a aguardente, que salva a gente!” – gritou o andrajoso a quem as crianças chamavam: “Valente!”

“- Diz que salva, pois!” – aplaudia a ti´Rufina! Ao mata-bicho, aquece tudo por aí abaixo, que é uma beleza! Ainda está p`ra nascer quem não faça caretas com aquela pólvora!

” – É remédio santo quando a magana da constipação engraça com uma pessoa! É só prantar-lhe um colher de mel, que a mezinha está pronta!” – retorquiu o ti´ Miquelino. Há quem diga que tira a azia “condo” as mulheres estão prenhas, e que os gaiatos até nascem com mais cabelo!

Presenciando a prosa, eis que uma dúvida se levanta…

“- Ó mãe, “atão” se a aguardente é uma coisa tão boa, porque é que o avô compra na venda do ti´ Chico em vez de ir à farmácia da Dr.ª Sãozinha, se, ainda por cima, aquilo tem álcool?” – perguntou, intrigado, o Toninho.

” – Olha, filho, na botica, que a mãe se lembre de ouvir falar, só se vendia, além do álcool normal, um mais forte, mas era para as mulheres fazerem licores em casa e levaram à mesa nos dias de festa, e não para mata-bicho nenhum. E também havia a cerveja preta, para fortalecer logo ao pequeno almoço com gema de ovo, mais para dar vigor aos moços, mas devia ser um remédio, pois claro!” – respondeu a Dália, a moça mais jeitosa da aldeia.

A Negação da Paternidade
Outubro 22, 2017

A expressão máxima da negação da paternidade não está na legitimidade, mas na crueldade da perene rejeição do coração!

Quando Eu For Grande – Sexagésimo Terceiro Desejo
Outubro 22, 2017

Quando eu for grande, quero ser a doce brisa e limpar as dores e a saudade das lágrimas dos corações tristes!

Quando eu for grande, quero ser a carícia da manhã, despertando os olhos nublados para o dourado veludo do dia!

Quando eu for grande, quero ser a mão da esperança, renascendo os sentidos dos enrugados rostos, pintando-os de luz!

Quando eu for grande, quero ser a letra miudinha do caderno de significados das palavras de cristal escondidas no delicado dedal e sob a pedra preta do predileto anel ancestral!

Quando eu for grande, quero ser o florido traço de união entre a vida social e a solidão, dando a mão à cansada desilusão de quem se perdeu no caminho e já não sente o perfume do mar, nem a intensidade da terra molhada, nem pisa o chão a escaldar!

Quando eu for grande, quero ser a menina morena da distinta etnia, que se aproxima à porta do mini-mercado e já não pergunta, na sua justa inocência, pelo marido, filho ou filha, que não está ali para ajudar a levar as compras, mas que, generosa e expedida, pede licença e pega nos sacos!

Quando eu for grande, quero ser o cantante passarinho que poisa no teu ombro, brinca com a tua mão, vai à tua frente e roda à tua volta, como alado e entontecido pião, chamando a tua atenção para a primavera que ainda sopra e pulsa discreta e rica de memórias no teu cansado coração!

Sorriso do Dia – A Magia do Dia
Outubro 22, 2017

A magia do dia é o transbordante sorriso que abraça o amor e vai ali ajudar o vizinho, que está sozinho, “coitadinho”, dar levar-lhe um miminho: um caldinho quente, um peixinho fresquinho, um pedaço de bolinho, ou perguntar-lhe serena e sem pressa como se sente, ficando com ele um “bocadinho”…

Estórias de Meninos – O Feliz Petiz
Outubro 22, 2017

Corria no brilhante alcatrão de envergonhadas gotas de chuva envernizado o feliz petiz de ralo cabelo alourado com um ténis encarnado no pé esquerdo e o direito desnudado, olhando para trás, dando repetidas e trémulas gargalhadas, veloz, sem ser apanhado pelo moreno e jovem pai, empurrando o carrinho donde o aventureiro se escapara, e perseguindo o seu menino, que algum atento e devoto hábito diria atraído pela celebração que ocorria em língua francesa lá bem do outro lado…

O feliz petiz corria, corria, corria, e saltava, ziguezagueando entre os lentos peregrinos, sem ser visto, nem agarrado, convidando, atrevido na sua liberdade, o pai que sorria, e também já corria, sem largar a sua carga com rodas, que lhe prendia as mãos e pesava nos pés, distanciando-o da sua amada, animada e divertida meta…

O “Macaquinho de Imitação”
Outubro 22, 2017

A criança que escuta, vê e repete, cresce, aprendendo por assimilação.

Mas…

O adulto despido de informação e parco de formação é um perfeito “macaquinho de imitação”, servindo-se do saber dos outros para o espetáculo da sua exibição, ficando à espera da vaidosa e indigna ovação, onda de espuma perdida na dissolução.

O Vestido Vermelho
Outubro 15, 2017

O vestido vermelho não era feio, nem bonito, nem curto, nem comprido.

O vestido vermelho era um retalho bem cortado e cintado passeando muito bem engomado.

O vestido vermelho não era atrevido, nem arrendado, nem decotado, nem plissado.

O vestido vermelho era um molde bem marcado, fazendo corar quem o olhava, pasmado!

O vestido vermelho não era um peitilho, mas uma rosa vermelha, falando pelos cotovelos!

Estórias de Meninas – O Perfume a “Leite de Colónia” e as Memórias
Outubro 15, 2017

Paira no ar o saudoso perfume a “Leite de Colónia” que aquela menina sentada ao meio lado nos bancos de escola fazia publicidade, chamando a atenção para a pele lisa e pálida do seu rosto, que se mantém, apesar dos atuais traços mais emagrecidos e sisudos.

É curioso partilhar o mesmo espaço de atividade desportiva com ela, que parece desconhecer-me, certamente esquecida dos dias em que, devido ao seu aproveitamento, temia alguma repreensão física, agarrando discretamente a minha mão e apertando-a como quem pede ajuda e proteção…

Comunicando constantemente com o saudoso perfume a “Leite de Colónia” encontra-se a sua antiga colega profissional, e visualizo no claro espelho do tempo um desfraldado toldo numa praia de ingénuos sonhos, escuto a melodia de distantes confidências, revisito vivências de primaveras que se evidenciam em si no momento presente num outono de árvores sem vida despidas de folhagem de memórias…

E…

Cogito…

Negar a vida envelhece? Ou já se envelheceu?!…