A Petrinha e o Pedrinho – O Canto das Caretas

– Ó Petrinha, sabes porque é que a senhora do coro faz tantas caretas quando abre a boca?

– Ora, Pedrinho! A senhora dá expressão facial ao canto, simplesmente!

– Achas, Petrinha?!… Oh! “Calhando” não se ajusta com o órgão, ou não gosta do organista!

– Ah! Ah! Pedrinho, não me parece!

– Não te parece, Petrinha, porque não a ouves, nem vês tantas vezes como eu! Quando me apercebo, já me torço todinho como ela, que faz força, e… coitadinha! Vê-se mesmo que está a sofrer, e muito! Cá para mim, puxa demais pelas cordas vocais, e depois é o que se vê! Não se aguenta! Dá-me pena! E a Clarinha, que costuma ficar ao meu lado, não se queixa, mas as mãos dela até gemem quando ela aperta a barriga! Eu é que, porque sou discreto, não digo nada, mas… até me apetecia sair dali com ela! Somos amigos!

– Ó Pedrinho, não exageres, mas… talvez até tenhas razão!

– Tenho, pois, Petrinha! E quando ela engole as sílabas?!… Aquilo é muito perigoso! Há pessoas que morrem com engasgos! Porque é que ela não aprende a tocar um instrumento de cordas, e dá sossego às suas cordas vocais, com vogais, com consoantes, com agudos, com graves e comoutros mais? E…

– E… o quê, Pedrinho?

– E… há momentos de… de… Ai!

– Momentos de dor, Pedrinho? Então? Que cara é essa? Disseste: Ai!

– Ai! Ai! Petrinha, momentos de silêncio, mas… falta-me uma palavra… mais… profunda. Ou será uma nota para este (des)arranjo coral?

– Eu ajudo-te, Pedrinho! Momentos de interiorização?

– Isso mesmo, Petrinha! Obrigado! O melhor era haver só música para ninguém se distrair, nem pecar; só interiorizar. Até há quem se sinta elevar com as notas musicais, sem coro!

– Há, pois! Mas… não podemos mudar o sistema, Pedrinho!

– É pena, Petrinha! Nós até temos boas ideias, e voz!… O pior é que ninguém nos dá licença para falar, sem fazer caretas, nem provocar dores, nem nos quer ouvir. Acho mal!

– Pedrinho, e o que pretendes fazer?

– Vou… cogitar, Pedrinha! Mas… talvez mude de hora da cerimónia ou… até de local! Logo se vê! Não vou lá para sofrer! Cantar e ouvir, ou até acompanhar, serve para nos alegrar! Não achas, Petrinha?

– Acho, pois, Pedrinho! Tenho aqui um CD de uma orquestra sinfónica. Queres ouvir?

– Agradeço-te, Petrinha, mas… nada de coros, porque… ainda apanho alguma alergia, e… posso até ficar rouco, ou pior, afonicozinho “dum todo” como diz a “ti´” Vicência! Já pensaste?

– Nem quero pensar, Pedrinho!

– Fazes bem, Petrinha! Se não… ainda te dou música com canto, caretas, e… tudo!

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