A Petrinha e o Pedrinho – As Asas Brancas

– Ó Petrinha, sabes qual é a diferença entre uma bata branca muito lavadinha e meio amarrotadinha, toda compostinha num único botão atrás, daqueles que conseguimos fazer entrar na respetiva casinha sem qualquer ajudinha, entrando firme e apressada num hospital com uma mochilinha muito bem montadinha às costas, deixando vislumbrar o xadrezinho de uma colorida camisinha, e outra bata da mesma cor, daquelas lavadas com OMO, o detergente que a avó continua a dizer que “lava mais branco”, bem engomadinha, toda aberta, esvoaçando com um seco: “Bom Dia!” em resposta a uma gentil saudação, orgulhosa e distante como se fosse a capa de um super homem muito modernaço, daqueles muito “à frentex”?!…

– Ah! Ah! Pedrinho, que discurso! Parece que estás a ensaiar-te para um exame final de Português!

– Achas, Petrinha? Mas trata-se de uma simples descrição. E… os exames não têm provas orais, com muita pena minha, que tenho tudo na ponta de língua e sofro de lentidão na minha mão. Então? Já adivinhaste?

– Hummm! Acho que sim, Pedrinho! A primeira bata vive sozinha, é prática, preocupa-se mais com o ser do que com o parecer. É gente fina, que sabe viver!

– “Gente fina”, Petrinha?!… Que a prima da lavandaria, sempre preocupada com os primores da roupa engomadinha, não te ouça! Mas… e a outra, a bata voadora?

– Bem, Pedrinho! A outra bata é muito bem tratada, certamente por uma empregada, educada. Concordas?

– Petrinha, pois eu diria que: a primeira bata é de pés assentes no chão; aposto que até sorria para qualquer doente e talvez lhe apertasse a mão, mesmo naquela confusão!

– Muito bem, Pedrinho! E a bata voadora?

– A bata voadora, Petrinha, era ambiciosa e abria as asas pelo correr, pronta para outros voos, por isso não via os demais, mas se o vento a despisse, talvez pedisse ajuda no meio dos seus ais!

– Ah! Ah! Boa Pedrinho! É uma bata que eu não gostaria de ter como amiga.

– Nem eu! Gira, gira, Petrinha, era a farda branca de calça e casaco com cara feminina, olho grande, pintadinho e cabelinho matizado penteado para cima, calhando para afugentar os vírus, atenciosa e eficiente, tratando de uma doente com precisão, mas falando um alto, prestando-lhe muita instrução. Porquê? Porquê? Adivinha!

– Ora, Pedrinho! A farda gira, feminina, falava alto, porque a doente talvez fosse um surdazinha!

– Não era nada, Petrinha! A farda é que estava toda contentinha com o estado da sua doentinha!

– Boa, Pedrinho! Estive bem?

– Estiveste morninha, Petrinha!

– Só, Pedrinho?!…

– Sim, Petrinha! Eu é que estive quentinho, porque observei tudo de pertinho e… até me arrepio, só de pensar que posso ficar doentinho! Vou portar-me bem, podes crer! Queres fazer uma caminhada? Mas… no regresso, doces? Nada! Senão ainda levanto voo com aquela bata engomada e não me dou bem com as alturas…

– Nem eu, Pedrinho, pois fico enjoada! Bora!

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