Aerograma N.º 31 – Lágrimas Tuas em Mim

Terra de Mar, Dia de Sol Nublado, Mês do Coração, Ano de Partida

Querido Amigo,

Conhecemo-nos no dia do meu aniversário quando te apresentaste ao serviço.
Entraste e deparaste comigo, de pé, num espaço físico amplo.
Dei-te os bons-dias.
Permanecias mudo.
Depois retorquiste, desalentado:

” – Não está ninguém!”

Sorri!
Sorri, não sei se foi para ti!
Sorri, sim, para a insubstituível magia de ser invisível!

Hoje…

Choro por ti!
Choro!
Choro!

Partiste horas depois de ter-te deixado, com duas das tuas grandes amigas, uma que te levou flocos de migas à boca, ementa hospitalar, honrando o celeiro do Alentejo deste teu Portugal que tanto amavas e que era teu, e tu dele, e que segurava a tua mão, e a outra refrescando os teus lábios com um pêssego e água, limpando-te o rosto, enquanto eu te alimentava com palavras que abriam os teus olhos e te arrancavam frases curtas e baixinhas, mas com a tua peculiar voz, que os meus ouvidos só captavam, aproximando-se…

” – Detesto bananas!” – afirmaste, recusando a oferta de uma daquelas amigas.

Choro por ti!
Choro!
Choro!

Choro por teres partido inesperadamente, destroçado pelas redes da solidão, e levado contigo a minha intensa esperança de voltares a reencontrar um amor e a vivê-lo, a seres feliz, a encheres a tua sala de música clássica, a continuares a abraçar a cultura, a exerceres a tua profissão com dedicação e brio, atualizando-te sempre e estudando casos – há tanta gente a precisar do teu saber e cuidados! – , a deleitares-te com as tuas empolgantes e inesquecíveis viagens…

Choro por ti!
Choro!
Choro!

Choro, voando nas asas do Bolero de Ravel, enquanto te escrevo, recordando o dia em que me estendeste um CD com esta delícia!

Choro por não ter voltado a visitar-te, usando, como te prometi, o colar de pedras que trouxeste da tua terra, onde a nossa língua ecoa com vogais de timbre aberto, mas usá-lo-ei no retardado momento da despedida, aguardando a dolorosa chegada da tua família…

Choro pelo pedra do nosso signo na qual mandei colocar uma argola de prata, que trazia pendurada num frio, e que os assaltantes levaram da minha casa com outros valores estimativos, mas a sua memória permanece em mim até ao fim, firme e forte!

Guardo presentes teus, como todas as pessoas que consideravas amigas, entre eles: livros, desde um sobre a mitologia, que seria muito útil para os meus estudos, referiste, a fascículos ilustrados de poetas portugueses, e destaco a Poesia Lírica de Camões, que me ofereceste num Natal com um cartãozinho com a imagem de Maria com Jesus Menino ao colo e os três Reis Magos, com o mês e o ano manuscritos e: “Para (meu nome) “do” (teu nome)”, simplesmente, ao qual te referiste baixinho, sereno e triste, naquele dia: “Não me lembro!”, e do qual transcrevo este excerto:

“O céu, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem pela areia…
Os peixes, que no mar o sono enfreia…
O nocturno silêncio repousado…

(…)

Ninguém lhe fala: o mar de longe bate,
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.”

Agradeço-te a tua amizade – Obrigada!

Estas são as minhas flores, desprendendo-se do mundo, esvoaçando contigo para o Paraíso!

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