A Menina Azul – O Jovem Professor e o Tempo

A Menina Azul

O jovem professor era, claramente, mais novo do que ela, que ainda se sentia discreta e orgulhosamente mais velha por já ser mãe, e que, como quase todas as mães desejava ver um dia os seus meninos uns homens.

O jovem professor era muito alto, muito mais alto do que ela, lembrando-lhe o avô e os tios.

O jovem professor era moreno, de cabelos pretos lisos penteados para trás, e tinha uns enormes olhos de mel, pela forma como comunicavam e se estendiam sobre a turma.

O jovem professor era um sábio da maçuda Cultura Clássica, que fazia soar curiosa e melodiosamente com a sua serena, pausada e esclarecedora voz.

O jovem professor era uma referência contrastante entre a juventude e o clássico.

O jovem professor era quem ela tivera na sua frente quando prestou a prova oral, procurando instalar-se confortavelmente na dura cadeira, esforçando-se por não escorregar nos preceitos e nos saberes do cadeirão.
E fê-lo de forma tão viva e intensa como quem seguia o seu guia, que o jovem professor de olhos de mel lhe perguntou se já tinha visitado a Grécia.

O jovem professor era quem a aprovaria, e quem acabaria por deixar a cidade universitária e ser um docente conimbricence.

O jovem professor era quem a Menina Azul lembraria, no âmbito do seu precioso saber e dos seus ensinamentos, quando visitou Roma, imaginando o tempo que demoraria o deleite de cada aula prática dada por ele naquele contexto.

O jovem professor era o autor de livros que ela leria, e quem encontraria e acompanharia nas publicações literárias, destacando-se por distintas traduções na sua área.

O jovem professor era quem a surpreenderia numa foto publicada recentemente num jornal pelos seus cabelos e barbas brancas, como se os anos não deixassem marcas, e continuaria a alegrá-la pelo seu sucesso.

O jovem professor era, afinal, mais novo do que ela cerca de uma década, os olhos de mel pareciam ter perdido algum do seu brilho; talvez estivessem mais baços, não por ver televisão, sabia, que ele também se distingue por ser disciplinado e metódico, e não tinha tempo a perder, mas certamente por tanto ler, tanto escrever, tanto traduzir, tanto aprender e tanto ensinar, cogitou, desejando que as lágrimas não os tivessem inundado.

E… curiosamente…

O jovem professor era um atleta de manutenção da saúde e do bem-estar que no tempo dos cabelos e das barbas brancas não podia ir ao ginásio, e falava da saudade e de ter reduzido a sua atividade, que substituía diariamente por um percurso de caminhada até ao fundo da rua, a bem do seu coração, perdendo, dizia, cerca de oitenta calorias, nada comparáveis às oitocentos naquele âmbito…

Mas…

O que o jovem professor, sábio de Cultura Clássica, de olhos de mel e de cabelos e barbas brancas não sabe é que esta sua aluna o tem acompanhado à distância e regozijado com o seu sucesso, e que também saiu do ginásio, contudo o litoral alentejano é amplo, o fim da rua à beira-mar é imensurável, e… na sua aldeia, basta atravessar a rua para poder praticar exercício físico com um jovem professor, que podia ser o seu descendente do meio, e que fala orgulhosamente da sua filha…

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