As Brincadeiras da Nita e do Nito – Conversa de Vendaval, 1.ª Página

A Janela da Muralha

Estava mau tempo, ” um grande vendaval” como apregoavam os preocupados pescadores cansados, desgostos e molhados na labuta de amarrar e encalhar os barcos para salvarem o seu ganha pão.

O Nito entrou no castelo, subiu as escadas, sentiu a força do vento nos cabelos, temendo que lhos arrancasse, e ficou a olhar para o mar revolto e para as embarcações, bailarinas agitadas sem acertarem o passo de dança com a ondulação da baia.

” Hoje a Nita não vem!” – pensou.

Levou a mão à cabeça e dirigiu-se para a porta, pensativo. Porém, antes de alcançá-la, teve uma surpresa: a Nita estava na sua frente, sorrindo-lhe.

Nita – Vais aonde, Nito? Se me atrasasse mais um pouco, já não te apanhava.

Nito – Pensei que não vinhas, Nita! Estás tão rosada; até parece que estiveste a apanhar sol.

Nita – Que engraçadinho, Nito! Aonde é que está o sol?

Nito – O sol? Não sei! Mas… umas bochechas cor de maçã estão mesmo aqui à minha frente. Como é que conseguiste?

Nita – Vim a correr, Nito! Até tenho calor, por isso estou vermelha.

Nito – Ah! Querias estar com o teu amiguinho! Nita, e ao que é que vamos brincar hoje?

Nita – Jogar à bola não pode ser; está muito vento.

Nito – Concordo! Hoje nem a trouxe. E com esse vestidinho…

Nita – Com este vestidinho o quê, Nito?

Nito – Nada! Nada!

Nita – Nada? Diz lá, Nito!

Nito – Eu digo, mas… depois não te queixes.

Nita – Está bem, Nito!

Nito – Nita, com esse vestidinho, o vento ainda to levantava e havias de parecer um balão. E eu ficava aqui a olhar…

Nita – Que engracadinho! Olha, Nito!

Nito – Estou olhando…

Nita – Ah! Ah! Estou vendo!…

Nito – Vendo o quê?

Nita – Vendo o oposto do que estás olhando!

Nito – Que espertinha, Nitinha!

Nita – Obrigada, Nitinho! Não queres sentar-te um pouco, ali nos degraus? Podemos conversar um bocadinho, Queres? Queres?

Nito – Pode ser, Nita, mas tem mesmo de ser só um bocadinho, se não…

Nita – Já sei, Nito. Ficamos…

Nito – Ficamos com o assento gelado.

Nita – Não te preocupes! Eu penso em tudo, Nito!

Nito – Coisas de menina! No que é que pensaste desta vez?

Nita – Olha, menino que gosta de dizer coisas, trouxe um cachecol velho para estofarmos o degrau.

Nito – Que menina tão pensadora! “Bora”?

Nita – “Bora”. Vou fazer-te perguntas.

Nito – O quê? Vais armar-te em professora, Nita? Ou será jornalista?

Nita – Qual professora? Qual jornalista, Nitito?!… É só um joguito, de verdade.

Nito – Pronto para o joguito, Nitita!

A Nita tirou o cachecol do saquinho de tecido com umas flores bordadas por ela, colocou-o sobre um dos degraus que a muralha protegia, e o Nito apressou-se a fazer-lhe uma vénia, convidando a amiga a sentar-se primeiro; ela agradeceu, sorrindo-lhe, e estendendo a mão para o lugar disponível.

Nita – Nito, já pensaste no que gostarias de ser quando fores grande?

Nito – Quero ir para o mar, navegar, navegar…

Nita – Queres ser pescador, Nito?

Nito – Não! Quero navegar em navios, parar em muitos portos…

Nita – Ó Nito, não me digas que queres ser como aqueles “moços”, como a tia Ermelinda estava a dizer, “que andam todos jeitosos com farda da marinha para terem uma namorada em cada porto, num grande desassossego”?!… Tchiii! Que horror!

A Nita franziu a testa, fez umas enjoadas caretas e levantou-se.

(continua)

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