A Menina Azul e as Férias em Belém

A Menina Azul

Quando ainda era pequena, mas já sabia ler, a Menina Azul ia passar férias a Belém, a casa dos primos e padrinhos do pai, os quais ela também tratava como tal.

Na vivenda grande, onde todos também eram grandes, até a prima um pouco mais velha do que ela, lembrando-lhe o avô e alguns tios maternos, também habitavam outras pessoas: a madrinha-velha, antiga professora liceal, rigorosa como se estivesse a dar uma interminável aula científica, mas sempre gentil com a pequena Menina Azul; a Maria, uma jovem bonita, simpática, doce e paciente empregada com um surpreendente e encantador sotaque nortenho, e um cão que gostava de andar atrás das suas saias, tentando lamber-lhe as pernas, o que a punha ainda mais azul, pois não achava graça nenhuma.

A palavra Belém fazia a Menina Azul voar na imaginação. A primeira vez que saiu de casa dos familiares, olhou para a distante paisagem e perguntou logo se aquelas minúsculas casinhas eram as de Belém, de Jesus, e se podiam ir lá. A madrinha sorriu para a sua inocência, deixando-a expectante!

Mas…

A Menina Azul não conseguiu realizar o seu sonho, e ir a pé ao sítio imaginário, apesar das escorregadias meias solas das suas sandálias vermelhas desequilibrarem o seu vestidinho novo que carinhosamente a mãe lhe fizera, e entontecerem o tule do seu saiote…

Em vez da deslocação ao ansiado e suposto local sagrado, apanharam o elétrico e foram à missa ao Mosteiro dos Jerónimos onde ela viu pela primeira vez freiras “de verdade”, sem ter ficado a saber por que tinham ido para o convento, já que por desgosto, como ela ouvira umas velhinhas a sussurrar, não era, afirmou a madrinha – sobre Belém de Jesus, o chamamento e a vocação religiosa, a Menina Azul terá descoberto a verdade anos mais tarde…

E…

No deleite das suas férias longe da voz e do perfume do seu mar, na vivenda grande onde todos também eram grandes, tal como os afetos que cresciam e se fortaleciam, a Menina Azul ia olhando para a gigante tela do primo Monsenhor, vigiando os seus passos, e fechando os olhos às suas caretas para o puré de feijão, que fazia pela calada,  encostava-se à secretária a ler histórias, que levava, encontrava e partilhava!…

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