As Estórias de Meninas – A Tó e o Desafinado Delgadinho

Crianças, As Estórias da Tó

Deleitava-se a Tó, quando ainda era criança, a aprender “as coisas da escola”, enquanto fazia pequenas tarefas domésticas na casa da senhora professora robusta em saber e na fisionomia, e rigorosa e ríspida como ditava a “psicologia” da época, que dava explicações a alunos para serem aprovados nos exames de admissão ao liceu a cujo silêncio às perguntas mais difíceis ela respondia acertadamente da cozinha, comportamento que merecia orgulhosos elogios da afamada mestra.

Sensível às capacidades da menina, a professora organizou-se com ela para gerir o seu tempo, de modo a que pudesse frequentar as aulas do ensino primário, privilégio para os mais abastados, no edifício da Câmara, apesar de ter de sair mais cedo para pôr a comida na mesa, que já deixava pronta, antes da chegada da senhora professora e do seu desafinado e delgadinho esposo.

Quando a senhora professora se deslocava à capital do distrito com os alunos para prestarem as provas, a Tó ficava sob a vigilância das boas senhoras da mercearia do lado, o que deu início a laços profundos de amizade até que elas se despedissem da vida.

Tendo pouco para fazer e, sabendo que o delgadinho músico aproveitava para aquecer-se noutros lençóis na ausência da esposa, a Tó pedia autorização às senhoras para ir ficar a casa dos pais.

Uma vez, a única vez, em que o músico não tocou fora de casa naquele contexto, quando a menina regressou no dia seguinte, maltratou-a verbalmente e ela, na sua frontal inocência, referiu o conhecimento e o consentimento delegados, na sequência de habitualmente ele pernoitar na casa da amante, confronto com a verdade, que o levou a gerar intrigas com a esposa, no seu regresso, certamente omitindo este facto, se bem que ela e toda a população da aldeia o soubesse!

A senhora professora-amiga chamou a Tó e repreendeu-a asperamente, desvalorizando o papel das senhoras da mercearia, suas amigas.

Sentindo-se injustiçada, a magoada menina relatou a verdade dos factos e despediu-se de imediato com pena de deixar a senhora e, principalmente, com uma grande tristeza, que a prejudicaria por toda a sua vida: ficar impedida de ir à escola, à qual voltaria, persistente, anos mais tarde, quando já era esposa e mãe, no ensino de adultos!

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