Saudades e Sorte

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– Saudades! – suspiravam: a enferrujada trempe, o roto chapéu-de-chuva e a queimada pá!

– Cansaço! Cansaço! – repetiam em uníssono!

– Ainda estou nova e viçosa, mas em breve levam-se daqui para fora – bradava a inchada abóbora.

– Coitada de ti, pobre abóbora! – lamentou o chapéu-de-chuva.

– Não me lamentes, chapéu enlutado! Vou servir de sopa com coentros picados, um creme alaranjado, que deixa os pequenos deliciados. Enquanto tu… – respondeu a abóbora.

– Eu, cara senhora-abóbora, que menina já não és! Sabes lá as histórias que eu ouvi o avô contar, quantas pessoas corriam para mim para as abrigar, como me abriam e sacudiam quando o sol vinha espreitar, para me espreguiçar, aquecer e secar?!… – recordou orgulhosamente o chapéu-de-chuva.

– Tens história, sim, chapéu preto, mas… e eu, a velha pá, primeiro recolhendo o lixo da casa, depois juntando as brasas da lareira, para aquecer a família inteira? E quando estava fria, e as cinzas também, já as crianças podiam pegar em mim, levar-me para o quintal e comigo na terra brincar?!… Pertencia como tu a esta família – arranhava a queimada pá.

– Trempe sou, e cafeteiras e tachos se instalaram em mim, para fazer o café, aquecer o leite, ferver o caldo da sopa, ir cozinhando a carne e até aquecendo a água, ou fervendo, para a patroa depenar a criação, que serviria de refeição. Também fui muito útil, e ouvi muitas histórias, de vidas e do dia-a-dia – declarou a enferrujada trempe.

– Tens razão! Também nós, a pá e eu, somos desta casa e estimados ainda, por isso nos conservam neste canto, em vez de nos terem deitado fora, e… estamos rijos, não somos como os humanos, cheio de maleitas, queixando-se, e muitos dos quais já nos despedimos – confirmou o chapéu-de-chuva, limpando uma lagriminha.

– Fiquemos aqui juntinhos, até que me levem daqui! Ai que saudades vossas vou ter, mas… tenho esperança de cristalizada acabar e muito tempo permanecer nalguns frascos, e em doce, com amêndoa, antes do Natal chegar, onde brilharei nos fofos sonhos com canela e açúcar polvilhados!- concluiu a realista abóbora.

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