Na Sala de Aula com a Vitória e o Vivaço – O Verbo “Encostar-se”

Contos de Criança

Na sala de aula, citava a Vitória um escritor sobre o que havia escrito acerca do verbo: “encostar-se”.

Vitória – Senhora Professora, trata-se de uma receita de um médico-escritor.

Vivaço – Se é coisa de médico, há de produzir algum efeito. O pior é…

Professora – Interrompeste a tua colega, Vivaço!

Vitória – Senhora Professora, não faz mal! Se deixasse, gostaria de ouvir o que o meu colega ia dizer.

Professora – Continua, Vivaço, mas sê breve.

Vivaço – Obrigada minha senhora e cara colega-menina. Dizia eu… Não! Queria eu dizer que o pior seria se o “encosto” fosse concretizado.
Exemplificando: Se um colega dormiu mal, pode passar pelas brasas no encosto do ombro mais próximo, mas se um espertalhão estiver com ela fisgada, quer dizer, a pensar fazer alguma, com uma colega em quem esteja interessado, o encosto pode dar-se…

Professora – Obrigada, Vivaço! Estamos esclarecidos. Podes continuar, Vitória, se faz favor?

Vitória – Posso, sim, Senhora Professora, obrigada! Receitava o famoso médico-escritor:

“Muito se usou na minha terra, o verbo “encostar-se” no sentido de deitar-se… Mas, não deitar-se à noite para dormir na cama até ao dia seguinte.
O verbo encostar-se, tinha lá em cima, no meu povo, sentido especial.”

O Vivaço levantou o dedo e, perante um sisudo aceno da cabeça da professora, adiantou, vitorioso:

Vivaço – Eu não disse, Senhora Mestra, que a receita podia ter outro sentido? Desculpe! Outro ou vários efeitos! Ele há cada medicamento! Ou serão mezinhas?

A turma ficou num corada, num contido silêncio, e a colega continuou a sua exposição.

Vitória – “Quem, durante o dia, se sentisse fatigado ou incomodado, levemente incomodado, ia-se encostar de moto próprio ou a conselho da família.”

“Deitava-se então na cama e aí ficava durante uma hora, duas horas até se sentir restaurado ou aliviado. Não ficava na cama até à noite, muito menos, até ao dia seguinte. Só se encostava o tempo necessário. Depois, toca a levantar…”

Vivaço – Posso dizer uma coisa, Senhora Professora? Tenho uma dúvida.

Professora – Só se for breve, Vivaço.

Vivaço – Ora! Então uma hora de encosto não é breve? Mas… o povo não fala na sestazinha de uns dez minutos? O pior é que pouca gente tinha relógio quando a sesta era o seu encosto por conta própria, ou receitado sem precisar de ir ao médico, nem à botica como dizia o meu bisavô, e de olhos fechados, lá se perdiam na hora do encosto, certo?

Professora – Certo é ficares caladinho até que a tua colega termine a apresentação. Continua, Vitória, se faz favor.

A menina ajeitou os óculos, olhou fixamente para o colega como se o repreendesse, e prosseguiu.

Vitória – “Mãe ou esposa, se notassem mau aspecto em filho ou marido, logo o aconselhavam a encostar-se…

– Vai-te encostar um bocadinho, pode ser que fiques melhor…

Outras vezes, era o dono da casa, o patrão, que dizia à patroa: olha, mulher, parece que me vou encostar um migalho… Sinto-me cansado ou adoentado. Pode ser que me levante com outra disposição.”

Vivaço – Grande encosto!Lá na minha casa há dois patrões: o meu pai, que é o mais mandão, e minha mãe, que… diria ser… politicamente falando, mais… democrática!
Perdão, Senhora Professora! Desculpa, Vitorinha por ter-te interrompido mais um vez, mesmo sendo por um “migalho”.

A professora e a aluna entreolharam-se e sorriram, convidando toda a turma a manifestar-se moderada, mas alegremente.

Vitória – Posso acabar, Senhora Professora? Falta pouquinho.

Professora – Faz favor, Vitória.

Vitória – Continuava o médico a passar a receita: “(…) o encostar-se , no sentido de descansar um pouco, sobre a cama, não foi privativo de Canelas. Foi geral em Trás-os-Montes e em vários pontos do País.
(…)
Depois, assinava-a deste modo:
“Por hoje, amigo leitor, acabou a nossa conversa. Vou-me encostar aí um quarto de hora para escrever sobre outro assunto.”

João de Araújo Correia (Canelas do Douro, Peso da Régua, 1/1/1899 – Peso da Régua, 3/12/1985)
Contista, novelista, colaborador de jornais e revistas, linguista, médico e professor.

A turma levantou-se a aplaudiu a apresentação, e no atropelo da saída, o encosto saltava de um lado para o outro nas divertidas bocas e nos seus expressivos gestos.

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