Aerograma N.º 26 – O Teu Grande Amigo

espraiar-de-ondas-2014

Querido Tio,

Conheci o teu amigo, aquele teu grande amigo, e primo!

Na verdade, não sei se posso dizer-te que o conheci; vi-o, isso sim! Perguntei quem era aquela pessoa, sem ter admitido que também ele fosse da família naquela hora em que todos nos despedíamos com saudade da idosa, e por isso ainda mais amada, prima.

Estava rigorosamente vestido de preto; talvez por isso tivesse achado uma pessoa mais velha, e por instantes me questionasse quem era quando o avistei perto da mãe, desconhecendo o grau de parentesco entre eles, claro! – certamente ainda moçoilo para ser o seu próprio pai, não achas? Quanto te ririas se estivéssemos a conversar presencialmente!

Mas…
Quando ouvi o seu nome, fiquei estupefacta! Não muda! Até perguntei insistentemente quem ele era como se não tivesse ouvido bem!

“Não pode ser!”, disse repetidamente para mim!

Tio, como é que podias ter um tão grande amigo, que, aparentemente, nada tinha a ver contigo?!…

Os amigos são parecidos, têm algo em comum, sabemos, mas, claro que não é fisicamente; penso que lhe faltavam, talvez por que os tivesses imaginado, por serem comuns, os traços de família, da nobreza!

Insatisfeita com a minha descoberta, ainda deixei soltar a minha surpresa, adiantando a uma das tuas sobrinhas louritas, a mais elegante e que usa óculos:

” – O tio era muito mais bonito! Muito mais bonito!”

” – O quê? O tio?!… Se era! Muito mais bonito!! – confirmou-mo ela, peremptoriamente, como quem decreta uma sentença.

Nada a fazer, meu/nosso querido tio! As tuas sobrinhas deixaram-se render aos teus encantos, nos quais sobressaem os seus sentimentos por ti, já que nem somos “mocinhas” de privilegiar as aparências! Ganhaste, o que não admira, pois és o eleito dos nossos corações.

Mas…

E… eu que, em segredo, fiquei a pensar em tudo o que me confidenciaste, no monte, lembro-me bem, que um dias desejarias dizer ao teu grande, cogitando para mim, se deveria ser ou não tua mensageira, sem que de tal me tivesses incumbido, mas, confesso, perspetivando fazer jus aos teus sentimentos, às tuas mágoas, ao que não ficou resolvido!…

Voltei para casa a pensar em ti: na amizade, na lealdade, na dor de te sentires traído, duplamente, na solidão que um irmão de coração pode plantar no coração do outro, mas confiante no teu perdão!

Saudades tuas, querido tio, todos os dias, envolvendo-te em carinho e muita paz!

P.S.: Impossível escrever-te aerogramas sem voar nas memórias dos que trocávamos quando combatias na guerra, no Ultramar – até à caça ao javali me levavas!

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