Estórias de Meninas – O Verão de Outros Tempos

a-casa-da-praia-2016

Naquele tempo, não havia esta casinha, nem outras, na praia; só dois restaurantes a cheirar a sardinha, a carapau, a linguado, salmonete e a outros peixes grelhados, a caldeirada, a marisco; a barraquinha da bolachinha americana, e as dos banheiros, os senhores dos domínios da zona de banhos, devidamente delineada, que reservavam as barracas às pessoas mais abastadas, e abriam e fechavam, enrolavam e desenrolavam, objetivamente falando, os toldos para os clientes habituais e/ou os banhistas circunstanciais, zeladores do espaço, e que dispunham de serviços de primeiros socorros, muito procurados quando o peixe-aranha jogava “as garras” aos pés grandes, e pequeninos, na temível maré vazia.

Três jovens amigas, sem terem atingido ainda a maioridade, mas já trabalhadoras, duas em serviços públicos e uma modista, reservavam anualmente o 17P, um toldo às riscas cuja cor da sua preferência era o azul e branco.

O 17P, que graciosamente elas sussurravam entre si ser o toldo dos “17 parvos”, não por falta de inteligência dos seus utilizadores, mas por que todos os dias aquele era o números de jovens que alojava, rapazes e raparigas, bem dispostos, sem excessos, e todos eles se tornaram amigos do trio feminino, tendo mantido correspondência com alguns durante anos.

Já em relação às frequentadoras, suportavam pacientemente a presença de três “hóspedes” infiltradas, da terra, que nunca conquistaram a simpatia de ninguém, não obstante as suas investidas oportunistas quando os amigos alentejanos por ali poisavam com as suas mochilas, em agosto os de Évora, estudantes de ensino médio e superior, exceto o Zezinho, o mais novinho de todos nós, mas o único que tocou na mão de uma menina quase da sua idade como se ela fosse uma deusa do amor, e logo a largou, e em setembro os de Beja, trabalhadores na área de serviços, alguns de uma e outra cidade com os pais em toldos próximos, sempre interagindo gentilmente com as três simpáticas vizinhas do “condomínio” ao ar livre.

Os rapazes percorriam a praia, “dando banho” – assim se ouvia com um cantante sotaque legitimamente
alentejano -, lavavam as vistas com tantas meninas bonitas, nacionais e estrangeiras, faziam jogos entre si e com as amigas, contavam-lhes as aventuras do dia anterior, pós praia, divertiam-se desmesuradamente com o banho de 29 de agosto, eram todos muito felizes!

Reinava um clima de amizade, de alegria, de cumplicidade onde o respeito e a partilha eram mestres de uma orquestra em permamente sintonia!

Neste verão, reencontrei na nossa praia, passeando em sentido contrário, uma das amigas “fundadoras” do 17P, de cuja filha sou madrinha, curiosamente no local onde aquele se situava e, inevitavelmente, trouxemo-lo das nossas memórias e, num instante, enchemo-lo de puras risadas, revivendo aqueles anos, atualizando-nos uma à outra em relação aos ausentes, os amigos, se bem que um ou outro, menos próximos nos nossos anos verdes de alegria e de esperança, permanecessem com a mesma idade, por falta de contacto, como acontecia com aquele moçoilo mal-encarado que queria ser médico, porque: “Não é qualquer pessoa que manda num médico!”, dizia, o qual não chegou a atingir o estatuto de amigo, por ser de tão franzina mentalidade…

À mesa posta do mar da nossa juventude, vieram os aromas gastronómicos já mencionados, os jogos de praia: os concursos de esculturas na areia; o pau encebado; o citado e famoso banho, obrigatório e muito procurado, uma espécie de desfile carnavalesco, pela roupagem, entre outros; os “gasolina” a alta velocidade, os passeios ao pontal, mais procurados por namorados, estes inexistentes no 17P!…

Ainda deitámos um saudoso olhar à antiga Casa do Estudante, reportando-nos à demolição do espaço ali existente, com paredes de pedra, por jovens daquela casa, com sede em Beja, obra do Padre Fatela, e à sua reconstrução, e questionámo-nos sobre por onde andariam os então amigos e também educados na Fé, particularmente: o barbudo estudante de medicina e o amigo, que com ele escrevia na mesma carta-amiga e despedia-se da minha amiga com saudações em Cristo – um médico, o outro capelão, sabemos!

E… a que para nós sempre será a Casa do Estudante permanece resistente: à mudança da paisagem; ao vazio da praia; à algazarra adormecida das crianças e dos jovens, e intacta na sua robustez, tanto quanto as nossas memórias, permanecendo a firme guardiã da perene juventude de bons e velhos tempos, infinitamente apaixonada pelo mar, lamentando a mudança de tom da areia, que divertia os meninos molhados, rebolando-se para ficarem “croquetes”, respirando a doçura-salgada da saudade…

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