Estórias de Meninos – O Porquinho Cor-de-Rosa

 

A Tó e o Menino

O benjamim da família foi crescendo, e quando a sua mana, a mana-mãe de todos, já era esposa e se orgulhava da sua menina, criava um porquinho com muito carinho, para a engorda, e no inverno com ele fazer reservas, dar presentes aos vizinhos-amigos, familiares próximos, e ganhar algum dinheirinho, quando os vendavais assolavam e os barcos, todos os barcos pequenos, eram encalhados na pequena ribeira e pela estrada que lhe dava acesso, e as traineiras e as enviadas atravessavam as perigosas marés, levando corações despedaçados de medo consigo até portos seguros, lá para a capital do distrito.

O porquinho era instruído pelo benjamim nas suas visitas, para deitar-se quando ele acariciava o seu corpo, cada vez mais volumosos, com uma tábua macia, o chamava e ele grunhia, dançando no meio da sala do seu palacete de madeira com teto de céu, à espera de boa comida na macera, ou lhe permitia a sua entrada, com a dona-domadora, para atapetar os seus aposentos com rama seca, que ela e a sua menina iam apanhar no pinhal próximo, local onde também faziam inesquecíveis piqueniques, e a pequenina e as amigas andavam de baloiço preso aos pinheiros com cabos de barcos, instaladas num assento de macia tábua, à medida, onde, às vezes colocavam uma toalha dobrada para voos mais confortáveis, e mais altos, e mais intensas gargalhadas!…

– Porquinho cor-de-rosa, anda cá para a mãe fazer a tua cama no teu quarto de telhado de madeira, para não te constipares – chamava a menina, empoleirada numa trave da casa do seu amigo, com quem ela ia conversar sozinha, numas rápidas e amedrontadas escapadelas, para depois contar orgulhosamente ao tio que o fizera.

– Não é cor-de-rosa! É preto! Não sabes as cores? – repreendia o tio.

– Não é nada! A mãe já lhe pôs uma fita cor-de-rosa, do meu presente do Menino Jesus, no Natal, um dia, quando lhe pedi. Foi quando o batizámos – contestou a menina.

– E tu, que tens uma fita azul no teu cabelo és a Menina Azul! – desafiou o tio, que era quase da idade da sobrinha, mas bem constituído e muito brincalhão.

– Vou dizer-lhe para o pouquinho cor-de-rosa não te deixar… – adiantou a menina, calando-se, perante um sinal do tio e a presença da mãe.

O que a mana-mãe ainda não sabia, era que o benjamim tinha um segredo com a sua menina: vinha de surpresa, convidava-a, quando era possível, e montava o pouquinho cor-de-rosa, que imitava muito bem um possante cavalo, e que nunca o atirara ao chão.

Numa outra tarde de limpeza e arrumação da casa do pouquinho cor-de-rosa, contaram-lhe, e ela riu-se, mas alertou-os para o perigo, e acrescentou:

– Um dia destes, vamos ficar sem ele!

E assim sucedeu.

A menina apercebeu-se da movimentação na casa, com os avós, ele muito sério, ela de avental, alguidares…

Começou a chorar, abraçada ao tio, que também chorava.

Não comeram nada do seu amigo; só bebiam água, e quanto mais bebiam, mais choravam.

O benjamim até recusou a bexiga para fazer uma bola.

Dias depois, e durante o tempo possível, contra vontade da mãe, a menina ia pôr flores, cor-de-rosa,  que colhia sorrateiramente nos valados,  na casa solitária, com vista para o mar, e chorava… embalada pela voz das ondas que o vento trazia, e que a acariciava, e assobiava, mas não a animava, nem quando o saudoso tio vinha ao seu encontro e, escondendo a sua tristeza, a abraçava.

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